Deus no céu e o negro na terra: a visão de Gilberto Freyre sobre o futebol brasileiro

Por: Ivan Macedo Gomes.

CAOS - Revista de Eletrônica de Ciências Sociais - v.1 - n.2 - 2000

Send to Kindle


INTRODUÇÃO

Em artigo escrito recentemente Pablo Alabarces (1998) diz que as ciências sociais latino-americanas só se preocuparam em produzir discursos explicativos e interpretativos a respeito do esporte avalizados pela comunidade científica no último terço deste século, embora o esporte moderno já houvesse se tornado um fato com visibilidade social desde o final do século passado.

No Brasil, mais especificamente em relação ao futebol, as ciências sociais começaram a enfocar o tema no final da década de 70. Mas foi só a partir da década de 90 que um número maior de produções em torno da temática começou a ser veiculado, conforme mostra Lopes (1998 a).

Parece estranho tratar da obra de Gilberto Freyre em relação ao futebol depois das argumentações anteriores, mas tentar-se-á demonstrar a relevância desta discussão. Os textos que Gilberto Freyre escreveu sobre futebol não foram muitos, sendo escritos em jornais da cidade de Recife na década de 30, ou então no conhecido prefácio à obra de Mário Filho, "O negro no futebol brasileiro". Mas ao se tentar estabelecer uma ponte com sua obra mais importante Casa-grande e senzala, emergem abordagens intelectuais sugestivas e que permitem uma maior compreensão do seu pensamento.

Desta forma, as abordagens de Freyre sobre o futebol não deixam de se caracterizar dentro de um olhar sociológico. Um olhar voltado para o cotidiano brasileiro, uma sociologia no estilo freyreano.

O texto abordará num primeiro momento a tese de Freyre sobre o futebol brasileiro de uma forma contextualizada. Neste momento, algumas temáticas se destacam, como por exemplo a brasilidade expressa no futebol local determinada pela miscigenação e também a exaltação do negro como ícone do futebol brasileiro.

Após o esboço da tese freyreana serão efetuadas algumas críticas em relação a ela. Os aspectos que serão mais salientados, são: o baixo poder explicativo das abordagens de Gilberto Freyre e determinadas contradições do autor no que se refere à temática raça e cultura. Por último, será realizada uma breve consideração final em torno do tema futebol e da relação deste com o pensamento de Gilberto Freyre.

O PENSAMENTO DE GILBERTO FREYRE SOBRE O FUTEBOL BRASILEIRO

Algumas características encontradas em Casa-Grande & Senzala, livro que consagrou Gilberto Freyre e que foi editado em 1933, aproximam-se das suas abordagens sobre o futebol. Entre estas características, pode-se citar a questão da democracia racial e da miscigenação, e ainda, sua leitura branda da escravatura (uma leitura adocicada da situação social do negro na sociedade brasileira).

Um fato que chama atenção de imediato em seus textos sobre o futebol brasileiro é a exaltação do negro. Gilberto Freyre entende que o estilo brasileiro de jogar futebol deve-se à influência negra. Esta opinião pode ser encontrada em um artigo intitulado "foot-ball mulato" (1938), que relaciona a boa apresentação da seleção brasileira na copa de 1938 ao fato de a equipe ter a presença de vários jogadores afro-brasileiros.

Dentro desta argumentação, diz que esta influência negra contribuiu para um estilo "dançante" do jogo brasileiro em contraste com o estilo rígido do europeu. Ou, como Gilberto Freyre gostava de apontar estas diferenças, um estilo dionisíaco (brasileiro, de influências afro) e um estilo apolíneo (europeu). Gilberto Freyre enfatiza este aspecto do futebol como dança ao dizer que:

"Ao lado desse estudo sugeri também um outro em torno da maneira brasileira mais característica de jogar o futebol. O jogo brasileiro de futebol é como se fosse uma dança. Isto pela influência, certamente, dos brasileiros de sangue africano, ou que são marcadamente africanos em sua cultura: eles são os que tendem a reduzir tudo a dança - trabalho ou jogo -, tendência esta que parece se faz cada vez mais geral no Brasil, em vez de ficar somente característica de um grupo étnico ou regional." (Freyre; 1980: 58)

Um ponto positivo que deve ser abordado em relação ao pensamento de Gilberto Freyre sobre o futebol refere-se ao racismo. O período em que o autor escreveu Casa-grande e senzala, e mesmo alguns artigos sobre o futebol brasileiro, é marcado como uma época em que as camadas governantes propunham medidas ligadas à eugenia, ou seja, ao melhoramento da raça (leia-se melhoramento da raça dentro dos padrões europeus - branco e forte). Esta argumentação pode ser encontrada em intelectuais do início do século, como Olavo Bilac, que enxergava no futebol uma forma de benefício para a pátria, visto que no seu entendimento este esporte serviria como "higiene social’ destinada a ‘limpar a raça’ mestiça do Brasil" (DaMatta; 1994).

Este período foi marcado também pela proibição de jogadores negros no futebol brasileiro (o Vasco da Gama do Rio de Janeiro foi a primeira equipe a utilizar jogadores negros no futebol brasileiro em 1923) [2]. Coutinho mostra que em Pernambuco a situação não era diferente:

"Nos decênios dos 1920 e 30 ainda encontraremos muitos intelectuais brasileiros em posição de defesa intransigente do amadorismo elitista e racista no futebol. O ano de 1920 se caracteriza por uma verdadeira guerra contra o profissionalismo em Pernambuco. Barbosa Lima Sobrinho, então jovem prócer e atleta do Clube Náutico, faz a defesa de suas idéias em entrevista para o Diário de Pernambuco (8-III-1920), em torno ao seu projeto para disciplinar a prática do futebol pelos clubes do Recife. É um longo projeto, contendo seis artigos. O artigo primeiro, por sua vez desdobrado em seis itens, enunciados de a a g, contém o seguinte, como requisitos visando dificultar a vinda de jogadores com a suspeita de profissionalização para o futebol de Pernambuco: ‘c) matrícula numa escola de nível superior ou médio deste Estado; d) um título científico reconhecido no país, e) uma qualquer função pública, f) a qualidade de filho-família, estando o pai residindo neste Estado em qualquer um dos casos supra’ " (Coutinho; 1992: 24).

Embora os textos de Freyre tenham sido escritos dez a quinze anos depois, ainda existia um traço muito forte do racismo na sociedade e no futebol brasileiro. Este racismo pode também ser identificado na década de 50 após a realização da Copa do mundo de futebol realizada no Brasil (1950). A derrota brasileira na final contra os uruguaios foi creditada aos jogadores negros e mestiços da defesa brasileira. Segundo Lopes (1998 b), estas acusações eram baseadas em teorias raciais evolucionistas divulgadas por intelectuais brasileiros de diferentes formações profissionais. Tais teorias advogavam que a mestiçagem comprometia a formação da raça, por isto a necessidade de enbranquecimento da população brasileira a partir de políticas públicas. Uma das categorias profissionais que mais contribuiram para este tipo de argumentação foi a médica, a qual recorria "a explicações sobre o clima quente e a mistura de raças no Brasil para desaconselhar sua prática [o futebol ] generalizada" (Lopes; 1998 a).

Os textos de Freyre enaltecendo o futebol mulato de uma certa forma apresentavam-se como uma crítica ao contexto da época. Coutinho (1992) lembra também que Gilberto Freyre criticou em alguns artigos os dirigentes (e a seleção de futebol apresentava um certo grau de dependência em relação ao governo federal) responsáveis pelas convocações da seleção brasileira para jogos no exterior. Pode-se ressaltar ainda que a conquista dos campeonatos mundiais de 1958 (realizado na Suécia) e 1962 (realizado no Chile) contribuiram para desmistificar as elaborações racistas em torno do "futebol mestiço" do Brasil (Lopes; 1998 b). Vale lembrar que estas equipes brasileiras contavam com vários jogadores negros e mestiços como Dijalma Santos, Didi, Garrincha e Pelé.

Uma situação parecida com a dos jogadores mestiços brasileiros nas copas de 1958 e 1962 voltou a se repetir no campeonato mundial de 1998 realizado na França, só que agora com jogadores franceses. Políticos franceses de extrema direita, os quais ocupavam cargos de poder no país, não reconheciam a equipe francesa como legítima representante do país. Tal argumentação baseava-se no fato de que vários jogadores desta equipe eram descendentes de outros povos (como Argélia e outras ex-colônias francesas) ou então naturalizados. Esta argumentação perdeu força (se é que ela conseguiu algum tipo de apoio ) em virtude da conquista (pela primeira vez) do campeonato mundial pela seleção da França.

Um outro ponto que merece ser analisado é a abordagem que o autor faz da ascensão social do negro através do futebol. No prefácio à obra de Mário Filho "O negro no futebol brasileiro" diz que:

"Sublimando tanto do que é mais primitivo, mais jovem, mais elementar, em nossa cultura, era natural que o futebol, no Brasil, ao engrandecer-se em instituição nacional, engrandecesse também o negro, o descendente de negro, o mulato, o cafuso, o mestiço. E entre os meios mais recentes - isto é, dos últimos vinte ou trinta anos - de ascenção social do negro ou do mulato ou do cafuso no Brasil, nenhum excede, em importância, ao futebol." (Freyre; 1947)

Uma outra passagem é apresentada por Coutinho quando diz que "para Gilberto Freyre, serve o futebol - um híbrido tropical, tecnologia européia misturada com forças psíquicas ameríndias e africanas - para desviar da marginalidade muitos brasileiros de status socialmente menos privilegiado"(Coutinho; 1992: 27). Segundo Cardoso:

"O pensamento de Gilberto Freyre é docemente conservador; ele concede ao povo ou ao escravo, mas não está interessado em explicar se as coisas vão mudar ou não vão mudar, por que vão mudar, até que ponto a estrutura patriarcal, ao invés de ter o lado positivo ressaltado, tinha também lados que obstaculizavam as mudanças e perpetuavam uma ordem injusta." (Cardoso; 1993: 27)

Da mesma forma que o autor faz uma leitura branda da escravatura em Casa-grande e senzala, as suas abordagens sobre o negro no futebol brasileiro somente eram tratadas dentro de um ponto-de-vista positivo. Ou seja, o autor reduz a análise da ascensão social do negro através do futebol à questão da democracia racial. Cardoso, ao analisar Casa-grande e senzala, diz que a abordagem de Gilberto Freyre "sobre a inexistência do preconceito, de que tudo se assimila em nossa cultura, não resiste à crítica mais objetiva" (Cardoso; 1993: 25). Isto pode ser evidenciado nas repercussões da derrota brasileira na final da Copa do mundo de 1950, já enfatizadas neste texto anteriormente, nas quais o fracasso da equipe foi creditado aos jogadores negros ou mestiços da defesa brasileira.

A abordagem mais evidente de Gilberto Freyre sobre o futebol, e que também merece ser analisada, é a que se refere à supervalorização do negro no futebol brasileiro. Dentro desta questão uma outra surge como derivada, qual seja, a pouca "atenção" dada pelo autor às influências indígenas. Luciana Picchio, comentadora italiana citada por Fonseca (1996), explica esta preferência do autor pelo negro como consequência de suas premissas regionalistas de valorização do elemento negro, considerado como base da civilização nacional em contraposição "ao indianismo veleidoso da antropofagia paulista" (Fonseca, 1996: 231).

De fato, só foi encontrada uma única abordagem a este respeito quando o autor fala de Domingos da Guia: "Quanto à aparente impassibilidade de Domingos da Guia, também pode ser dança. De outro tipo. Não negra, mas indígena. Talvez indicando (...) ‘sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas, de qualquer modo, dança’" (Coutinho, 1992: 28). O autor associava Domingos da Guia (embora Domingos da Guia fosse um jogador negro) a uma visão apolínea (como observado no prefácio que escreve para o livro "O negro no futebol brasileiro"), não o relacionando com a dança dionisíaca do negro brasileiro no futebol.

O futebol brasileiro é visto por Gilberto Freyre dentro de uma ótica de elogio à raça e à cultura negra, como se a beleza do futebol brasileiro fosse restrita a esta raça e cultura em particular. Lopes (1994), ao se referir aos textos de Freyre sobre o futebol, também ressalta a questão dos negros e mestiços como os "principais artesãos" do estilo brasileiro. Coutinho, baseando-se na abordagem de Gilberto Freyre, também apresenta estes aspectos enaltecedores da raça negra, como por exemplo: "O jogador afro-brasileiro de futebol é como essa criança. Faz um novo futebol, epifânico, órfico". Ou ainda, ao dizer que "é o que fazem no futebol brasileiro os Leônidas que assim procedendo, procedem sob o impulso da herança africana de cultura, que tende a fazer os jogos danças e até bailados (...)". Este mesmo autor diz que:

"Vimos Gilberto Freyre revelar em sua Sociologia como e porque o jogador brasileiro de futebol - ou melhor, o afro-brasileiro - consegue a proeza de redimensionar o jogo (...) Gilberto Freyre esclarece: sem dúvida, foi o africano que deu ao brasileiro a habilidade e o prazer corporal de um futebol que o europeu, não podendo e não sabendo imitar, tanto admirou (...)." (Coutinho; 1992: 31)

Nota-se, assim, que a abordagem de Gilberto Freyre em alguns momentos ressalta a brasilidade, ou seja, as questões culturais. Mas em outros momentos nesta mesma abordagem o autor enfatiza aspectos raciais como determinantes da cultura futebolística no país.

CRÍTICAS À ABORDAGEM DE FREYRE

Em um texto de Edilberto Coutinho sobre Freyre, encontramos uma citação do autor de Casa-Grande & Senzala, na qual este diz que o futebol brasileiro é "dionisíaco a seu jeito, o grande jeito mulato. Inimigo do formalismo apolíneo e amigo das variações; deliciando-se em manhas moleironas, mineiras, com doçuras baianas a que se sucedem surpresas cariocas de agilidade. A arte do songamonga" (Coutinho; 1992: 26). Esta posição de certa forma ensaística de Gilberto Freyre está sujeita a determinadas críticas, como por exemplo, o problema da supergeneralização, ou seja, explicações demasiado generalizantes sobre determinados fenômenos (problema este também identificado em Casa-Grande & Senzala).

Em relação a este problema apontado no parágrafo anterior, pode-se levantar alguns pontos referentes ao futebol brasileiro. Por exemplo, o autor supergeneraliza ao exaltar a qualidade técnica do negro brasileiro e ao restringir o estilo brasileiro em função das influências culturais e raciais africanas. Esta análise do autor é pouco consistente. Nota-se que a descendência não é um fator determinante e também que o contexto socio-cultural em que os indivíduos se inserem é mais complexo que simples adjetivos reducionistas (apolíneo ou dionisíaco).

Mesmo apresentando um lado crítico no contexto da época, as abordagens de Freyre em relação ao futebol brasileiro merecem algumas críticas, como por exemplo: 1) alguns conceitos com formulação um tanto confusa, e 2) a questão da supervalorização do negro no futebol brasileiro.

Em relação à confusão conceitual, pode-se citar como exemplo um trecho do prefácio que Gilberto Freyre escreveu para o livro de Mário Filho, "O negro no futebol brasileiro":

"Isto quando essas energias ou êsses impulsos, em vez de assim se sublimarem ou de se satisfazerem com os esportes ou os quase-esportes rurais dos dias de festa, ou dos dias comuns, dominantes no Brasil patriarcal - as cavalhadas, as corridas atrás de bois, as caçadas, as pessoas, as noites inteiras de samba ou de dança extenuante, as largas caminhadas pelos sertões, a caça aos índios ou aos negros fugidos, a fuga dos negros aos feitores ou à melancolia da rotina agrária dos engenhos e fazendas - não se degradaram moral ou socialmente em proezas como as do cangaço ou nos rabos-de-arraia da capoeiragem, célebres na história da sociedade brasileira. Espécies de esportes inteiramente irracionais." (Freyre; 1947)

O que Freyre chama de esportes ou quase-esportes seriam melhor enquadrados como brincadeiras populares ou então práticas corporais de um determinado período. Talvez estas práticas corporais possam ser enquadradas no que Sevcenko (1994) chama de "práticas lúdicas arcaicas" ao se referir às práticas populares ou aristocráticas anteriores ao século XIX na Inglaterra. Os exemplos de Freyre não apresentam nenhuma ligação com o conceito de esporte moderno[3]. Merece atenção também nesta citação a forma com que Freyre trata da capoeira, prática cultural brasileira de origem afro. Ele apresenta a capoeiragem como uma degradação moral, logo a capoeira que tanto serviu aos negros como uma forma de afirmação de identidade e de defesa. Esta talvez seja uma das características de Gilberto Freyre, sua contradição.

Esta contradição pode ser melhor exemplificada quando ele apresenta a capoeira como um perigo à moralidade dominante em contraste com os benefícios do futebol brasileiro para esta mesma moralidade. Segundo ele, o futebol

"tornou-se o meio de expressão, moral e socialmente aprovado pela nossa gente [...] de energias psíquicas e de impulsos irracionais que sem o desenvolvimento do futebol - ou de algum equivalente de futebol - na verdadeira instituição nacional que é hoje, entre nós, teriam provavelmente assumido formas de expressão violentamente contrárias à moralidade dominante em nosso meio [...] A capoeiragem [...]teria provavelmente voltado a enfrentar a polícia das cidades sob a forma de conflitos mais sérios que os antigos entre valentes dos morros e guarda-civis das avenidas, agora asfaltadas." (Freyre; 1947).

Ao mesmo tempo em que enfatiza a capoeira como um problema para a moralidade da época, Gilberto Freyre também coloca esta prática corporal como um fator positivo da mestiçagem nacional. Ao comentar o estilo de Domingos da Guia (jogador de futebol da época) no mesmo artigo, diz que:

"Mas vá alguém estudar o fundo de Domingos ou a literatura de Machado que encontrará decerto nas raízes de cada um , dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem [grifo nosso] pernambucana ou malandragem carioca. Com êsses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é." (Freyre; 1947).

Portanto, pode-se observar como Freyre analisa esta questão de uma forma contraditória. Ao mesmo tempo que a capoeira (leia-se raça negra) é evocada como um símbolo da brasilidade, ela é também criticada como uma amoralidade.

Um outro ponto que merece ser analisado é o da vinculação entre o estilo dionisíaco com a raça negra e o do estilo apolíneo com a raça branca. Vincula-se ao dionisíaco a ginga, consequentemente uma maior habilidade no futebol. Nota-se que a cultura/raça indígena é deixada à margem desta discussão, como apresentado anteriormente quando esboçamos o pensamento de Freyre. Esta mesma análise pode ser transferida para a Argentina. Visto que este país apresenta uma miscigenação entre apolíneos (europeus) e ameríndios[4], seguindo a análise de Freyre poder-se-ia chegar à conclusão de que os argentinos possuiriam um estilo de jogo sem a dança dionisíaca do negro brasileiro, em virtude da pouca relavância do índio na abordagem de Freyre. Pois bem, então o que dizer de Diego Maradona ou Ariel Ortega (este ainda em atividade no futebol), jogadores extremamente habilidosos e que exprimem esta "dança dionisíaca" evocada por Freyre? Portanto, estas abordagens de Freyre apresentam um poder explicativo não tão consistente.

Talvez, se levássemos em conta a miscigenação como um fator determinante desta cultura menos apegada às questões racionais como a apolínea (branco europeu), pudéssemos incluir a Argentina nesta análise da cultura dionisíaca. Mas como já enfatizado, o índio não é destacado na abordagem freyreana, somente o negro.

É interessante observar que na Argentina escritores como Borocotó, que escreviam no semanário "El gráfico" na década de 20, portanto anteriormente a Gilberto Freyre, já apresentavam abordagens muito parecidas com as do autor brasileiro. Nas abordagens do "El gráfico", nas quais se destaca Borocotó, conforme mostra Archetti (1998), a miscigenação também é vista como um fator positivo, sendo apresentada como responsável pela espontaneidade e qualidade técnica do futebol argentino. Deve-se ter bem claro que esta miscigenação evocada fundamenta-se na predominância dos imigrantes latinos. Nota-se que o argumento é muito parecido com o de Freyre, apresentando uma pequena diferença: o negro.

Devido a forma de miscigenação ocorrida na Argentina, não aparece a figura do negro. O interessante é notar que a argumentação de Freyre em relação à espontaneidade e às qualidades técnicas do jogador brasileiro são praticamente as mesmas que Borocotó enfatizava no jogador argentino. A diferença ocorre porque Freyre vinculava o estilo brasileiro em função da raça/cultura negra. Daí porque discordamos da ênfase exagerada de Freyre em relação ao jogador negro.

Até mesmo as oposições entre dionisíacos e apolíneos podem ser identificadas no contexto argentino ao qual estamos nos referindo. Segundo Archetti (1998), o futebol britânico era visto como disciplinado, metódico e baseado na coletividade, na força e no poder físico, portanto um estilo maquínico. Já o futebol argentino miscigenado, "graças à influência latina", apresentava-se como individualista, com menor disciplina, com maior inquietude e baseava-se no esforço pessoal, agilidade e virtuosismo. Archetti (1998) ainda salienta que este imaginário persiste na Argentina. Observa-se então como o apolíneo se equipara com o maquínico, assim como o dionisíaco equipara-se com o "criollo" (como era/é chamado este jogador mestiço na Argentina).

Gilberto Freyre restringia claramente a beleza do futebol brasileiro à influência africana. Cardoso entende que Gilberto Freyre apresenta alguns preconceitos, "por exemplo, com relação aos índios, que nunca foram de seu maior agrado. Mas com relação à cultura africana e aos negros, Gilberto até os idealizava" (Cardoso; 1993: 24).

Lopes (1994), comentando as idéias de Mário Filho, tem uma argumentação interessante neste sentido, pois não restringe o estilo brasileiro à questão da cor. Mário Filho sugere que este estilo preconizado por jogadores negros e mestiços e vindo das "peladas de futebol" (ou seja, o jogo dos terrenos baldios, das praias ou da rua) não fica restrito à raça, sendo também incorporado por jogadores brancos. Lopes (1994) também enfatiza que o sucesso de um maior número de jogadores negros no Brasil na década de 30 e 40 deve-se também à baixa recepção destes profissionais em outros centros (países) do futebol. Segundo Lopes (1994), "[...] enquanto numerosos jogadores brancos de São Paulo [principalmente de origem italiana] expatriaram-se na Europa e por lá ficaram, os maiores jogadores negros [...] após tentarem a carreira no Uruguai, na Argentina e na Europa, voltaram para o Brasil [...]". Desta forma, ficaram restritos à fama nacional e considerados os "grandes jogadores do Brasil".

Mas a maior contradição apresentada por Freyre na sua abordagem sobre o futebol em relação à sua obra de maior repercussão (Casa-grande e senzala), está na questão raça e cultura. Freyre argumenta em Casa-grande e senzala que sua grande contribuição consistia na ruptura teórica com a questão racial, ou seja, não era a raça o determinante da formação da sociedade brasileira, mas sim a cultura. A contradição em relação à sua abordagem sobre o futebol está no fato de que Freyre apresenta uma "confusão" conceitual nesta análise. Dá-se a impressão de que o autor não atenta à sua distinção (raça e cultura). Torna-se evidente nas questões apontadas neste texto que Freyre privilegia a questão da raça em detrimento da cultura em determinados momentos. Desta forma, esta questão (raça em detrimento da cultura) pode ser encarada como a maior contradição teórica apresentada por Freyre em seus escritos sobre o futebol. Pois como enfocado, o autor privilegia a questão racial em alguns momentos, e em outros, privilegia a questão cultural.

Freyre utiliza o seguinte argumento no prefácio de Casa-Grande & Senzala:

"Foi o estudo de Antropologia sob a orientação do Professor Boas que primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo valor - separados dos traços de raça os efeitos do ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de herança cultural e de meio. Neste critério de diferenciação fundamental entre raça e cultura assenta todo o plano deste ensaio. Também no da diferenciação entre hereditariedade de raça e hereditariedade de família (...) Muito do que se supõe, nos estudos ainda tão flutuantes de eugenia e de cacogenia, resultado de traços ou taras hereditárias preponderando sobre outras influências, deve-se antes associar à persistência, através de gerações, de condições econômicas e sociais, favoráveis ou desfavoráveis ao desenvolvimento humano." (Freyre; 1933: 48)

Portanto, Gilberto Freyre procura enfatizar outras variáveis determinantes para a construção da cultura de um povo. Sendo assim, ele critica os estudos que dão ênfase à questão racial como fator determinante de um determinado contexto social. A sua abordagem sobre o futebol não apresenta este rigor teórico. Da mesma forma que Gilberto Freyre remete às questões culturais do futebol brasileiro, ele também enfatiza a questão racial. Tal questão pode ser observada quando Gilberto Freyre refere-se ao estilo de Domingos da Guia, ou como ele próprio diz, às "influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação". Isto fica ainda mais evidente quando o autor diz que o estilo brasileiro deve-se à "influência africana: dos brasileiros de sangue africano, ou que são marcadamente africanos em sua cultura" (Coutinho; 1982). Portanto, Gilberto Freyre também remete às questões biológicas para enfatizar a influência da raça africana no futebol brasileiro. Como visto, sua abordagem ressalta em alguns momentos às questões culturais e em outros momentos prioriza os aspectos raciais em relação ao contexto cultural.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A discussão levantada em torno das abordagens de Gilberto Freyre sobre o futebol mostrou-se instigante na medida em que tematizou um dos fenômenos com maior visibilidade na sociedade brasileira e que encontra-se pouco analisado. O futebol no Brasil pode ser analisado de diversos ângulos, pois apresenta uma "notável multivocalidade - uma vocação complexa que permite entendê-lo e vivê-lo simultaneamente de muitos pontos de vista", como salienta DaMatta (1994).

Talvez esteja aí um dos pontos de discordância que foram apresentados no texto em relação à obra de Freyre. O autor de Casa-grande e senzala restringiu muito a análise do futebol brasileiro à figura do negro. É claro que não se está tomando o termo de DaMatta ao pé da letra, pois isto implicaria em dizer que a abordagem de Freyre é mais uma dentro de tantas possíveis. Não há uma discordância na pluralidade de interpretações, mas sim que a tese freyreana foi muito reducionista em relação à complexidade do futebol brasileiro.

Ao mesmo tempo que sua tese foi reducionista, ela apresentava uma análise de determinados aspectos super generalizadora. O jogador negro apresenta-se nos textos de Freyre como a única possibilidade de um requinte técnico frente ao "apolíneo" jogador europeu. Ou seja, reduzia-se o fenômeno futebol ao negro e generalizava-se a pouca habilidade do jogador branco. Dentro desta visão mais complexa de abordagem do futebol a qual estas considerações finais se propõem, pode-se lembrar a análise de Sevcenko (1994) em que acrescenta as cidades (metrópoles) como um fator explicativo deste fenômeno esportivo. Este autor também mostra que alguns elementos internos ao futebol permitiram sua expansão em contextos distintos. Tais elementos são a presença de um elã coletivo e a não exigência de um tipo físico ideal para a prática deste esporte.

Uma abordagem mais complexa do estilo brasileiro no futebol poderia levar em conta alguns aspectos. Primeiramente, contextualizar o período da análise. No caso da entrada do negro no futebol brasileiro entender que esta prática esportiva apresentava-se como lazer das classes populares em uma sociedade estratificada. Além disso, o futebol apresentava algumas facilidades para a realização de sua prática (como apresentado por Sevcenko (1994) ) que não excluíam as pessoas pelo seu biotipo ou pelo local de execução da prática. Um outro fator foi a expansão da popularidade do futebol através da mídia que "desde 1910, o Jornal do Brasil do Rio podia eventualmente dedicar uma página a um grande jogo de futebol [...]" (Lopes; 1994: 68).

Um outro aspecto é o de que o amadorismo restringiu a atuação da prática do futebol pelas populações das classes baixas em locais muitas vezes improvisados, visto que nos clubes este esporte era praticado somente pelas elites. Esta restrição pode ter instigado a criatividade tão difundida do futebol brasileiro. Todos estes aspectos (sociedade estratificada, facilidades da prática futebolística, mídia, amadorismo) aliados também a influências culturais diversificadas no país podem ter contribuído para o estilo brasileiro de jogar futebol. Talvez esteja aí a relação sociológica do grande número de jogadores negros ou mestiços que apresentavam uma grande habilidade (estilo brasileiro), visto que nesta sociedade estratificada, os negros e mestiços encontram-se (em grande porcentagem) nos estratos sociais mais baixos. Pode-se apontar então para uma multicausalidade de fenômenos na construção deste estilo. E mais, tal estilo, em virtude das transformações destes e de outros fenômenos que atingem a sociedade brasileira, pode sofrer alterações, ou sejas, estes fenômenos podem ter algum tipo de reflexo na construção deste estilo.

Esta maior complexidade das abordagens em torno do futebol podem propiciar um avanço em relação ao senso comum encontrado nos textos que se dedicam a analisar a temática. Um senso comum muito vinculado nas análises referentes ao estilo brasileiro de jogar futebol. Lopes (1994) também critica estas abordagens que apontam o estilo brasileiro como sendo algo natural. Desta maneira, este texto tentou contribuir para a ampliação dos estudos deste fenômeno social ao analisar criticamente o pensamento de Gilberto Freyre em torno da temática.

Como enfatizado anteriormente, o texto tentou abordar alguns pontos da análise de Gilberto Freyre sobre o futebol brasileiro. Foi observado um fator positivo, que era a maneira com que Freyre tratou a questão do racismo no futebol, como também foram apresentadas críticas à sua abordagem. Por último, talvez fosse importante lembrar que Gilberto Freyre foi um dos primeiros autores nas ciências sociais a valorizar o futebol enquanto objeto de análise. Este interesse de Freyre pelo futebol não é estranho, visto ser ele um autor que tratou enfaticamente a questão cotidiana. E como abordado neste texto, o futebol é uma prática intimamente ligada ao cotidiano brasileiro. Esta relação entre a temática e a obra de Freyre foi o que despertou o interesse na elaboração do presente artigo, desta forma, tentou-se abordar esta prática cotidiana de uma forma que extrapolasse os limites do senso comum.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ALABARCES, Pablo. (1998). "De qué hablamos cuando hablamos de deporte?". Revista Nueva Sociedad (154): 74-86.
  • ARCHETTI, Eduardo P. (1998). "El potrero y el pibe: territorio y pertenencia en el imaginario del fútbol argentino". Revista Nueva Sociedad (154): 101-119.
  • BRACHT, Valter. (1998). Sociologia crítica do esporte: uma introdução. Vitória: Editora da UFES.
  • CARDOSO, Fernando Henrique. (1993). "Livros que inventaram o Brasil". Novos Estudos Cebrap (37).
  • COUTINHO, Edilberto. (1982). "O futebol na prosa: no jeito sambístico de ’enganar’, a linha melódica do craque brasileiro". O Globo. Rio de Janeiro, 01/mai./1982.
  • __________________. (1992). "Gilberto Freyre e o futebol: a sociologia na marca do pênalti". In: QUINTAS, Fátima (org.). O cotidiano em Gilberto Freyre. Recife: Massangana.
  • DAMATTA, Roberto. (1994). "Antropologia do óbvio". Revista da USP - Dossiê Futebol(22): 10-17.
  • FONSECA, Edson Nery da. (1996). "Gilberto Freyre e o movimento regionalista". In: FREYRE, Gilberto. Manifesto regionalista. 7ª ed. Recife: Fundaj/ Massangana.
  • FREYRE, Gilberto. (1933). Casa-Grande & Senzala. 27ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1989.
  • _______________. (1938). "Foot-ball mulato". Diário de Pernambuco. Recife, 17/jun./1938.
  • _______________. (1947). "O negro no futebol brasileiro - Prefácio". In: FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • _______________. (1980). "Futebol brasileiro e dança". In: FREYRE, Gilberto. Seleta. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio.
  • LOPES, José Sergio Leite. (1994). "A vitória do futebol que incorporou a pelada". Revista da USP - Dossiê Futebol (22): 64-83.
  • _______________________. (1998 a). "Futebol ’mestiço’: história de sucessos e contradições". Revista Ciência Hoje -SBPC 24 (139): 18-26.
  • _______________________. (1998 b). "Fútbol y clases populares en Brasil: color, clase e identidad através del deporte". Revista Nueva Sociedad (154): 124-146.
  • SEVCENKO, Nicolau. (1994). "Futebol, metrópoles e desatinos". Revista da USP - Dossiê Futebol (22): 30-37.

NOTAS

  1. Este texto foi apresentado como trabalho final da disciplina "Tópicos especiais: pensamento social e político no Brasil", ministrada pelo professor Luciano Oliveira no segundo semestre letivo de 1998 no curso de Mestrado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco.
  2. Em relação à entrada dos jogadores negros e mestiços no futebol brasileiro confira José Sergio Leite Lopes (1994) em seu artigo intitulado "A vitória do futebol que incorporou a pelada".
  3. Para um maior aprofundamento em torno do conceito de esporte moderno ver Bracht (1998). Tanto Bracht (1998) quanto Sevcenko (1994) criticam as abordagens que superficializam as relações entre as práticas corporais tradicionais (estas ligadas às questões ritualísticas) e o esporte moderno (fortemente influenciado pela questão profana).
  4. Archetti (1998) apresenta esta miscigenação entre europeus e índios na Argentina em artigo referente ao imaginário do futebol deste país.

Tags: ,

Comentários


:-)





© 1996-2019 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.