Dicotomia teoria e prática, variáveis intervenientes e práxis pedagógica

Por: Walmer Monteiro Chaves.

IV EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 O objetivo desse trabalho é suscitar a reflexão acerca da pesquisa / produção de conhecimento e sua adequabilidade à prática escolar, tendo como o centro do processo educativo o aluno.


 O planejamento na Educação Física escolar deve atender aos objetivos, conteúdos, metodologias / estratégias, processos avaliativos e enfim a todas as variáveis que fazem parte de um projeto pedagógico.


 Algumas teorias, no entanto, afastam-se da prática, por não atentar para questões que interferem no processo ensino-aprendizagem do aluno. Essas questões podem fazer parte do contexto escolar e da sociedade de uma forma geral.


 O aluno deve ser encarado como um ser que possui sua história e realidade, que interage com o meio e que tem seus interesses e necessidades.


 Planejar e/ou pesquisar, numa perspectiva escolar, são atos que devem estar voltados para a formação do aluno, levando-se em conta variáveis que interferem no processo educativo. A teoria não deve afastar-se delas, mas sim aproximar-se cada vez mais para encontrar maior ressonância na prática, situando-se como um instrumento enriquecedor do trabalho do educador.

 Planejamento na educação física escolar


 Quando pensamos em planejamento logo nos reportamos à elaboração de objetivos, conteúdos, métodos e estratégias de ensino, processo de avaliação e enfim à todas as situações que possam contribuir efetivamente para o processo ensino-aprendizagem.
Sendo assim, nos vem à mente questionamentos do tipo: "o que fazer", "por que fazer", "para que fazer", "como fazer" e "para quem fazer".


 Existem algumas variáveis que fazem parte da realidade do aluno ("para quem fazer"), interferem na aprendizagem e por vezes estão afastadas da produção de conhecimento (pesquisas) e até do planejamento escolar.


 O conhecimento dessas variáveis através de sondagem e diagnose, durante todo o processo educativo, é de suma importância para um trabalho mais fecundo e integrado ao aluno., Afastar-se, pois, dessas questões significa dicotomizar teoria e prática em detrimento da formação integral do aluno.

Dicotomia entre teoria e prática ou práxis pedagógica


 Dentro de um contexto pedagógico é importante que teoria e prática caminhem juntas no sentido de um enriquecimento do trabalho. "Se a pesquisa é a razão do ensino, vale o reverso: o ensino é a razão da pesquisa". (Demo, 1990, p. 52)


 A teoria surge pois de indagações e busca de respostas para questões advindas da prática. "A pesquisa, então, não se realiza numa estratosfera situada acima da esfera de atividades comuns e correntes do ser humano, sofrendo assim as injunções típicas dessas atividades". (Lüdke, 1986, p. 2)


 Porém, notamos que por vezes ocorre um distanciamento entre teoria e prática, onde a aula aparece como a instância em que se explicita esse confronto. Segundo Ferreira (1992), as formulações teóricas sucumbem ao confronto com a prática em função do pesquisador se encontrar distanciado da realidade.


 Não se trata aqui, pois, de querer ressaltar uma importância maior à prática ou à teoria, uma vez que elas fazem parte da construção científica. Para Demo (1990), "não se pode realizar prática criativa sem retorno constante à teoria, bem como não se pode fecundar a teoria sem confronto com a prática". (p. 27)


 Também não é proposta desse trabalho relegar o campo teórico como um todo, nem descartá-lo como inutilizável, mas sim, sempre que possível, o profissional deve procurar adequar a pesquisa dentro do seu cotidiano escolar. Demo destaca, no plano prático, a "capacidade de recriar teoria" e de "unir saber e mudar".


 Surge, pois, a possibilidade do professor avaliar e transformar situações teóricas adversas à prática para o seu cotidiano. Trata-se de uma postura não-passiva do profissional em relação ao distanciamento teoria / prática, que em contrapartida, através de soluções criativas, pode transformar, recriar e unir os saberes.


 Segundo Bruhns (1986), [...] "é a interpretação da experiência, e não a própria experiência, que constitui a ciência. A experiência vivida tem que ser interpretada, refletida. Não pode haver ciência sem que haja consciência". (p. 15)


 Variáveis intervenientes no processo educativo


 Assim como os profissionais devem ter uma visão crítica em relação às teorias que lhes são apresentadas, os responsáveis pela produção de conhecimentos devem estar atentos às interferências / variáveis as quais estão sujeitos os alunos ("para quem fazer"), visando a práxis pedagógica.


 Essas variáveis podem se apresentar dentro do contexto escolar, numa perspectiva pessoal / individual do aluno ou em relação à comunidade local e sociedade em geral.


 No contexto escolar podemos destacar: falta de espaço físico, de recursos materiais, de condições de trabalho; pela extensiva jornada de trabalho o professor acaba tendo dificuldades em se atualizar, fazer produções científicas e consumir as publicações (até por questões salariais); realidades diferentes entre escola pública e privada; desvalorização da Educação Física; excesso de alunos na turma; diversificação de faixa etária nas turmas; alunos portadores de necessidades especiais, dentre outras.
O trabalho com alunos dos cursos noturnos também fica um pouco à margem das pesquisas e deveria ter uma atenção maior em função de sua especificidade.


 Num contexto mais geral deve-se atentar para as seguintes situações: desemprego dos pais; alunos / trabalhadores; realidade política, social, histórica e cultural da comunidade / sociedade; influência da mídia na cultura corporal; agressividade e violência; ética (valores e atitudes morais / sociais) e cidadania, etc.


 Algumas variáveis mais específicas também interferem na aprendizagem do aluno, a saber: questões familiares; religião; utilização excessiva de jogos eletrônicos e computadores / sedentarismo infantil; participação em clubes / escolinhas esportivas; características das faixas etárias e sexo; questões afetivas / emocionais / sociais; motivação para a prática de determinadas atividades físicas, dentre outras.


 Os interesses e necessidades dos alunos não devem ser desprezados. Faria Júnior (1987) define interesse como sendo algo que o aluno já domina ou conhece e necessidade como algo a ser oferecido, experimentado, oportunizado. Ampliar, pois, as oportunidades pedagógicas é de suma importância na formação do aluno.


 Dentro de uma concepção crítico-superadora se desejamos uma formação integral do aluno, visando uma transformação da sociedade, faz-se mister a aproximação cada vez maior entre teoria e prática. Para isso fatores de interferência no processo ensino-aprendizagem, como os citados nessa parte do trabalho, dentre outros, devem permear a prática de pesquisa e de planejamento escolar.


 Considerações finais


 Superar a dicotomia existente entre teoria e prática é importante no sentido de uma maior qualidade na práxis educativa.
Destacar o aluno ("para quem fazer") como centro do processo educativo, bem como estar atento às várias possibilidades de interferências nesse trajeto, podem auxiliar como um referencial para a superação.
Ressaltar a importância da teoria sobre a prática e vice-versa, só contribui para o empobrecimento do processo ensino-aprendizagem e conseqüentemente da formação do aluno.


 A atualização constante dos profissionais de Educação Física também é prioritária, para que haja cada vez mais trocas de experiências nos diversos campos de conhecimentos da área.


 A mudança de uma postura passiva do professor à espera de soluções externas à sua problemática cotidiana, para uma postura crítica de fazer, criar / "recriar", "unir o saber e mudar", também se torna relevante, dentro de uma concepção crítico-superadora.
O professor / pesquisador deve estar ligado ao campo de trabalho (seja atuando na prática ou como coordenador / orientador de atividades), sempre atento à realidade, interesses, necessidades e possíveis interferências no processo ensino-aprendizagem do aluno.


 Para Demo (1990) o professor / pesquisador não deve se isolar no espaço de produção científica, formando inclusive uma casta, que passa a ver no ensino algo secundário e menor.


 Esteves (1980) considera que "o conhecimento do pesquisador não pode ser objetivo e desinteressado, imparcial e distante do fenômeno estudado". (apud Farinatti, 1992, p. 34)


 Portanto, não deve-se relegar teorias, mas aproveitar o que for possível e recriar para uma práxis pedagógica de qualidade. Por outro lado também não deve-se encarar um trabalho articulado (teoria / prática) como pronto e acabado (manual) para a execução, mas sim procurar sempre atualizá-lo e transformá-lo.


 Finalizando, Godoy (1993) comenta que,
[...] "precisa-se estabelecer um processo dialético na ação educacional e sempre ter em mente a necessidade do equilíbrio e da (con)vivência entre as coisas, entre as contradições.
É preciso sensibilidade para dosar as coisas; é tudo, ou melhor, talvez seja tudo uma questão de posologia". (p. 24)


Obs. O autor é professor da Rede Pública (Itaboraí e são Gonçalo) e Privada (Niterói)


 Referências bibliográficas


Brunhs, Heloísa T. (org.). Conversando sobre o corpo. Campinas: Papirus, 1986.
Coletivo de autores. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.
DEMO, Pedro. Pesquisa: princípio científico e educativo. São Paulo: Cortez, 1990.
Faria Júnior., Alfredo G. Didática de educação física - formulação de objetivos. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.
Farinatti, Paulo T. V. Pesquisa em Educação Física no Brasil: por um compromisso com a evolução. In: Faria Júnior, Alfredo G., Farinatti, Paulo T. (org.). Pesquisa e produção de conhecimento em educação física - SBDEF - Sociedade Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Física. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1992. 150 p., p. 34-68.
Ferreira, Marcos S.I. Congresso Internacional de Educação Física de Países de Língua Portuguesa: uma visão retrospectiva. In: FARIA Júnior, Alfredo G., Farinatti, Paulo T. (org.). Pesquisa e produção de conhecimento em educação física - SBDEF - Sociedade Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Física. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1992. 150 p., p. 137-140.
Godoy, João F. R. Educação física não escolar. In: Picollo, Vilma L. N. (org.). 2 ed. Educação física escolar: ser... ou não ter? Campinas: Editora da UNICAMP, 1993. 136 p., p. 29-47.
Ludke, Menga. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU - Editora Pedagógica Universitária Ltda., 1986.

 

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