Do Circo Para os Semáforos das Grandes Cidades: Um Estudo Sobre os Malabaristas de Rua e as Relações com o Lazer

Por: José Guilherme Pereira Bergamasco.

58 Reunião Anual da SBPC

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INTRODUÇÃO:

Estudos relacionando a Educação Física com o lazer e com o malabarismo são escassos na produção científica atual. Esta pesquisa analisa as condições sociais e individuais de um grupo de artistas circenses que desenvolve o jogo de malabares nas principais avenidas de São Paulo e Campinas / SP. Por meio de uma pesquisa descritiva que combinou a pesquisa bibliográfica, documental e exploratória, detectaram-se os aspectos sócio-econômicos e culturais dos malabaristas de rua, atividade que envolve a arte e o lazer. Partiu-se de uma análise histórica das atividades circenses, no sentido de demonstrar o quanto a atividade malabarista é antiga e veio percorrendo toda a história do circo no mundo e no Brasil: o que nos permite visualizar que o malabarismo esteve sempre presente nos espetáculos circenses, em picadeiro e sob lonas. O malabarismo também pode ser visto como atividade em um processo educacional, pois é caracterizado como parte da cultura corporal, já que, além de divertir, pode colaborar com a coordenação física e com a capacidade de persistir para aprender. O malabares enquanto uma atividade lúdica relacionam a educação através da pedagogia, e podem trazer também em seu contexto o Lazer.

METODOLOGIA:

A coleta de dados foi realizada através de um instrumento de investigação, o questionário semi-estruturado. Este questionário foi readequado a partir de um outro, sobre as condições sócio-econômicas de populações rurais e de periferia urbana já devidamente testado e protocolado. No questionário semi-estruturado foram abordadas as: Variáveis sócio-demográficas como idade, sexo, lugar de residência, nível de escolaridade, estado civil, composição familiar e condições de acesso à saúde; Variáveis econômicas como renda, ocupação / emprego, condições de habitação e condições de transporte. Outras variáveis como nível de capacitação e treinamento, formas e contatos com as atividades circenses, vinculadas ou não a entidades que desenvolvem programas sociais ligados a essas atividades, licença ou não para realização desta atividade nos semáforos.

Os dados descritos foram obtidos através do contato direto do pesquisador com dez (10) malabaristas de semáforos da cidade de São Paulo e Campinas. Os questionários foram aplicados no período de agosto a outubro de 2005. Para cada entrevistado foi solicitada a assinatura de um termo de consentimento. O mesmo foi assinado em duas vias sendo que uma delas foi entregue ao entrevistado e outro permanece em poder do pesquisador. De posse do material coletado elaborou-se uma planilha de codificação através do programa "Excel". Com base nessa planilha, construíram-se gráficos e tabelas com vistas à análise dos dados.


RESULTADOS:

Os resultados mostraram tratar-se de pessoas jovens, com escolaridade média a superior, que moram com amigos e não com a família.

Recebe renda diariamente, perfazendo mais que um salário mínimo mensal, mas há aqueles que conseguem mais de cinco salários mínimos mensais apenas com a atividade de malabarismo. Consideram que a atividade apresenta risco para a saúde e nenhum deles tem plano de saúde. A maior parte aprendeu a praticar malabares com amigos e hoje freqüenta entidades sociais que oferecem treinamentos de artes circenses. Reconhecem que o jogo de malabares é uma atividade que proporciona prazer e divertimento no campo da cultura corporal e das artes. A maioria tem horário determinado para treinar. Assim, o lazer para os malabaristas de semáforo, aqui considerados, foge da definição funcionalista de Dumazedier (1976) em que o lazer não faz mais que cumprir funções opostas ao tempo de trabalho. Aqui, o lazer se confunde com o trabalho. E assim, pode-se perceber que essa forma de lazer estaria muito mais próxima da definição de Mascarenhas, (2004) que considera o lazer como um processo transformador.

Ressalta-se a preocupação desses malabaristas com relação aos meninos de rua e à falta de apoio governamental, tanto para essas crianças como para se pensar em regularizar o trabalho que desenvolvem. Há uma dedicação e um sério compromisso destes malabaristas em proporcionar sempre o melhor para a sociedade naquilo que consideram ser arte, lazer e cultura.


 CONCLUSÕES:

Ao término desta pesquisa a pergunta que se coloca é: Quem são, que características têm e quais os fatos que levam pessoas aos semáforos das avenidas das grandes cidades para entreter os motoristas durante a parada no sinal vermelho? São principalmente, jovens que buscam liberdade, autonomia e prazer na atividade malabarista, que é considerada uma ocupação rentável. Para tanto, revestem-se de um objetivo profissional com capacitação, treinamento constante, preocupação com o físico e com o fazer e apresentar-se cada vez melhor. Os praticantes de malabares, fazem questão de deixar bem claro que não se trata de pedir esmola, é uma troca de arte, prazer, lazer, e cultura. Foi possível perceber que esses "profissionais" disputam a rua com outra categoria, que são os meninos de rua, que pedem esmolas nos semáforos. Há por parte destes "profissionais" um processo inicial de organização e reivindicação em busca do reconhecimento profissional pela atividade. A rua é considerada um espaço de todos e, em função disto, há abusos nesses locais. Não há sequer alguma legislação que regulamente o espaço, motivo pelo qual nenhum dos entrevistados tem qualquer tipo de licença para mostrar sua arte na rua. Torna-se importante reafirmar que o principal interesse dos malabaristas entrevistados é, essencialmente, a prática do malabarismo; essa atividade em última instância acaba por auferir a esses malabaristas uma boa renda.

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