Docente E/ou Profissional: a Identidade do Professor de Educação Física em Questão

Por: Patrick Penedo Amaral.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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1.0 Introdução

O presente trabalho tem por objetivo analisar o conceito de Docência e o conceito de Profissional, verificando como ambos estruturam a identidade do professor de Educação Física no espaço escolar a partir do discurso construído por docentes que atuam na licenciatura do curso de Educação Física do UniFOA.

Neste sentido temos como problema de estudo os conceitos de Docência e Profissional e como ambos são interpretados na licenciatura em questão. Por outro lado, a questão conceitual se coloca sob a perspectiva ontológica, assim os conceitos que pretendemos analisar expressam características atitudinais do professor de Educação Física que atua no espaço escolar. Primamos direcionar a leitura deste artigo sob a forma de reflexão filosófica acerca do que ocorre na esfera educacional onde os conceitos de Docência e Profissional têm sua inserção.

Neste sentido, o problema que pretendemos investigar reside na análise dos valores que fundamentam a identidade do docente de Educação Física, sobretudo por sabermos que os cursos de formação em Educação Física possuem na memória de sua matriz curricular a intercessão dos discursos dos campos do esporte, do desporto, das ciências biomédicas e da pedagogia. Sem o gerenciamento interdisciplinar, os discursos provenientes dessas áreas podem se tornar dogmáticos, impedindo a clara noção dos valores que devem nortear a formação necessária a uma licenciatura.

2.0 A docência em questão

Há, pois, necessidade de o conceito de Docente ser refletido de forma que possamos estabelecer as funções inerentes daquele que atua no espaço escolar sob o pressuposto pedagógico da relação professor-aluno. Segundo Contreras, (1990) as funções constituintes da docência são:

obrigação moral - tendo como componentes a preocupação com o bem estar dos alunos e com a ética, perpassando as relações de afetividade e motividade;

compromisso com a comunidade - estabelecendo, inicialmente, com os professores e, a seguir, com a sociedade como um todo intervenção nos problemas sociais e políticos, e compreendendo a escola como um local de preparação para a vida futura, como agente regulador da sociedade (liberdade, igualdade, justiça);

competência profissional - transcende o domínio de habilidades e técnicas e emerge a partir da interação entre a obrigação moral e o compromisso com a comunidade.

A partir das funções enunciadas a ação docente é estruturada. Assim, vemos que o conceito de Docente se dá na inter-relação destas funções.

Contudo, nossa reflexão sinaliza para a possível contingência na aplicação do conceito de Docência e o conceito de Profissional por parte dos professores que atuam na licenciatura que ora investigamos. Compreendemos que a docência emerge a partir da demanda imposta pela educação, diretamente vinculada às necessidades da sociedade contemporânea.

Partindo deste pressuposto, o professor de educação física deve compor uma ação educativa, como indica Libâneo (2004), preocupada "nos seus objetivos, conteúdos e os métodos de educação, os quais estão relacionados com o contexto econômico, social e o momento da história humana, pois caracterizam o modo de pensar, agir e os interesses sociais do grupo". Proporcionando ao aluno, "o desenvolvimento de competências do pensar".(Libâneo, 2004).

Compreender a Educação Física enquanto um agir pedagógico, contribui com o aprimoramento de seu caráter educacional, proporcionando um estágio de superação de identidades tradicionais, que reduziram-na a uma atividade.

3.0 O profissional em questão

Quando levantamos a discussão acerca do conceito de Profissional, procuramos refletir como o professor de E.F. constrói sua identidade profissional no percurso de sua carreira, construção esta que deve considerar o conhecimento pedagógico, para que sua prática no espaço escolar não seja alienada de sua identidade essencial. Assim é necessário que o professor de E.F "adquira conhecimentos científicos pedagógicos e as competências necessárias para enfrentar adequadamente a carreira docente."(Carreiro da Costa, 1994).

Nesta perspectiva a identidade do professor de E.F. é composta de características atitudinais imprescindíveis na concretização de objetivos educacionais. Mas o desenvolvimento do processo identitário profissional, não se completa ao término de uma graduação, e por isso torna-se necessário ao longo desta, ser cultivado o aprender a aprender. Esta característica, quando desenvolvida na graduação, torna o professor de E.F. comprometido com o campo pedagógico. Neste contexto, o professor consubstanciará requisitos indispensáveis à esfera educacional, advindos de sua formação, permitindo externar sua competência profissional, sem confundi-la com o simples uso correto de particularidades técnicas específicas da Educação física.

4.0 Influência do discurso docente do CEF - Unifoa na formação de professores de educação física

O Curso de Educação Física (CEF) do Centro Universitário de Volta Redonda (UniFoa), fundado em 9 de março 1971, e reconhecido em 18 de junho de 1974 pelo decreto nº 74186 do Ministério da Educação e Cultura, reconhecido como o mais antigo entre universidades privadas e o segundo mais antigo no Estado, tem passado por reformulações legais, procurando se adaptar às exigências dos tempos.

Atualmente o CEF-UniFoa ainda é uma licenciatura (plena) tem a carga horária de 3.200 horas com duração de oito períodos.

Ao problematizarmos as influências oriundas do discurso docente do CEF-UniFoa na formação de professores de Educação Física, pretendemos refletir que o referido discurso deve conter conceitos bem delimitados referentes à estrutura curricular pretendida por uma licenciatura. Por outro lado, a hipótese de que os discursos proferidos pelo corpo docente não confluem no sentido real de uma licenciatura, poderia ocasionar a fragmentação dos conceitos constituintes do ser docente.

Se os discursos transmitidos pelo corpo docente do CEF-UniFoa, se fundamentam em valores ex-pedagógicos à formação de professores, podemos perder o foco de formação e os objetivos da licenciatura. Procurando investigar essa hipótese, utilizamos a pesquisa por levantamento, aplicando-se por instrumento, um questionário a professores que representam o universo dos docentes que atuam no CEF UniFOA inseridos nos três departamentos do referido curso, a saber: Departamento de Fundamentos Biodinâmicos e Funcionais; Departamento de Fundamentos Sócio-Antropológicos e Pedagógicos e, por fim, o Departamento de Fundamentos Esportivos e Culturais. Optamos por apresentar o resultado sob a forma de comentário crítico em relação às variáveis investigadas. Foram sete questões propostas aos docentes, a primeira versou sobre a importância do conhecimento pedagógico na graduação em E.F. do UniFOA.

Nesta questão, dos 15 entrevistados, 9 professores afirmaram em suas respostas que o conhecimento pedagógico é de suma importância para a formação do discente, devido ao fato de estarem atuando em uma licenciatura. As demais respostas não foram tão objetivas, mas consideraram o conhecimento pedagógico de suma importância, o que nos leva a crer que não há desconsideração desse conhecimento por parte do corpo docente. Quanto às características que o licenciado deve possuir em seu perfil egresso, destacou-se de forma incidente a abertura a novos conhecimentos e a ética, a seguir o domínio do conhecimento técnico e pedagógico e a necessidade de estar habilitado para intervir no contexto social. Somente dois professores destacaram a criticidade como característica.

Contudo, entendemos que as características anteriores só são possíveis a partir da criticidade e esta se encontra subjacente às outras características mencionadas. A seguir perguntou-se se o docente do CEF se preocupava em relacionar a disciplina na qual atua com as abordagens pedagógicas que orientam a E.F., 100% dos entrevistados afirmaram que proporcionam a referida relação. Em paralelo a essa questão, perguntou-se se os docentes conheciam o projeto pedagógico do CEF do UniFOA e, 100% afirmaram conhecê-lo.

Contudo, a questão posterior procurou investigar qual a contribuição do docente na construção do PPP do CEF UniFOA, dos 15 entrevistados, 1 entrevistado é professor recém contratado e não participou. Contudo, 6 afirmaram que fizeram parte da referida construção, 4 afirmaram que não contribuíram, 2 responderam de forma não clara, afirmando que o projeto se deu de forma interdisciplinar, em contraste a 1 das respostas que caracteriza o PPP como disciplinar. 1 dos entrevistados teceu pormenores sobre como o projeto foi construído, afirmando que uma equipe composta por chefes de departamento, após muita discussão, elaborou a proposta final e que esta muda a cada ano de acordo com as necessidades.

Discutindo provisoriamente esses resultados, vemos que os docentes entrevistados têm consciência da necessidade de se focar o conhecimento pedagógico como elemento essencial à formação dos discentes, devido ao fato de estarem em uma licenciatura. Mas, em relação à contribuição do docente no PPP, não houve apresentação de conceito objetivo que pudesse referendar os aspectos pedagógicos que os docentes disseram ter em preocupação, pois a pergunta foi "Qual a sua contribuição para a construção do PPP" e esta se reduziu à caracterização de aspectos administrativos, como por exemplo, adequação de carga horária. O entrevistado que assim respondeu, nos apresentou outro dado relevante, pois destaca que o docente participou "da equipe que elaborou as atribuições do profissional de EF". Acreditamos que esta resposta desconsiderou que tais atribuições estão presentes nas diretrizes curriculares.

A partir da avaliação sobre questões pedagógicas, as duas últimas questões focaram a questão da relação entre os conceitos de Profissional e Docente. Nosso objetivo foi verificar se os docentes percebem algum tipo de diferença entre os referidos conceitos. Neste sentido, perguntou-se se haveria separação entre ser Docente e ser Profissional, 7 entrevistados afirmaram que há diferenças, 6 entrevistados afirmaram o contrário, enquanto 1 afirmou não compreender a questão proposta e 1 não postula qualquer tipo de diferença entre ambos os conceitos. Perguntou-se, por último, se os entrevistados caracterizam a formação da licenciatura como preparação de docentes e se esta se diferencia do bacharelado, que prepararia profissionais. 10 entrevistados responderam que não há diferença, visto que ser docente e ser profissional são interdependentes. Contudo, 4 entrevistados apresentaram que há diferenças e 1 não soube responder. Analisando-se as respostas, destacamos que a maioria dos docentes do CEF - UniFOA revelam idéias que caminham ao encontro das propostas do curso, porém um pequeno grupo de docentes conservam em seus discursos fatores destoantes da real necessidade de uma licenciatura. Um dos investigados forneceu a seguinte resposta, referente a separação entre ser docente e profissional, "um profissional não tem responsabilidades de ensinar e educar, enquanto o docente sim. Onde podemos verificar uma notável confusão ao se referir aos questionamentos pedagógicos feitos por nós, indicando por parte do professor certo desconhecimento acerca da demanda imposta por uma licenciatura. Em continuidade, sendo questionados a respeito de a licenciatura preparar docentes e bacharelado preparar profissionais, temos a seguinte resposta, "depende da pessoa, pois pode-se ser um bom profissional, e não ter didática para levar o conhecimento ao discente." Tal narrativa, foge ao perguntado, além de conter o uso equivocado do termo didática, por tratá-lo como um simples conjunto de técnicas práticas que facilitam a aprendizagem. A idéia de formações distintas em bacharelados e licenciaturas, é tratado por um dos professores como "simples adjetivações", sendo considerado por eles a necessidade de se preocupar com a ação profissional e não o tipo de investigação que se desenvolveu.

Concluindo nossa reflexão e análise, a hipótese de que os discursos difusos provenientes dos docentes poderia desfocar os objetivos do CEF do UniFOA é plausível, pois as respostas coletadas apresentam a falta de clareza que os conceitos ora investigados deveriam possuir tanto sob a perspectiva da consciência individual, como também como equipe que se orienta pela clareza de tais conceitos no intuito de referendar a prática pedagógica do CEF UniFOA. E, procurando apresentar a importância da discussão que implementamos ao longo deste trabalho, gostaríamos de alertar que a falta de clareza conceitual pode conduzir os discentes a uma concepção distorcida do que realmente é um professor de E.F, mesmo que este esteja cursando uma licenciatura.

Obs. Os autores, Patrick Penedo Amaral (ppa.efisica@bol.com.br) é aluno da UNIFOA e Ms Adilson Pereira (adphyl@uol.com.br) leciona na UNIFOA.

5.0 Referências bibliográficas

  • Brandão, Carlos Rodrigues. O que é Educação. São Paulo: Brasiliense, 1981.
  • Contreras Domingo, José. Enseñanza, curriculum y professorado ___ Introducción crítica a la Didáctica. Madrid, Akal, 1990.
  • Libâneo, José Carlos. Adeus Professor, Adeus Professora? : novas exigências educacionais e profissão docente. São Paulo: Cortez, 2004.
  • Pimenta, Selma Garrido e Anastasiou, Lea G. C. Docência no ensino superior. São Paulo: 2002.

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