Duas Vozes, Duas Histórias: Refletindo Sobre a Exclusão no Cotidiano dos Professores de Educação Física

Por: Kátia Regina Xavier da Silva.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Acho que pensar é algo muito embaraçoso, sobretudo quando reflito sobre minhas experiências pessoais e delas procuro tirar a significação que parece lhes estar genuinamente inerente (Rogers, 1972, p.150).

Este ensaio tem como objetivo refletir sobre algumas experiências de exclusão vividas pelas autoras, professoras de Educação Física na Educação Básica que também atuam na formação de professores em Nível Superior.

O que se segue em forma de narrativa é uma análise dos papéis que desempenhamos como professores e formadores de futuros professores de Educação Física, à luz de uma reflexão teórica, para explicitar como chegamos a ser o que somos e fazer o que fazemos e, talvez, questionar o nosso próprio discurso, ainda marcado por estereótipos, desconfortos e representações que fazem nossa profissão, professor de Educação Física, ainda ser motivo de piadas, contradições e perpetuações de modos de agir, falar e atuar no magistério.

Desafiadas por nossas histórias de vida, também marcadas por exclusões de diferentes tipos, estamos hoje numa posição muito confortável; podemos ser ouvidas por vocês, professores ou futuros professores de Educação Física que, de uma forma ou de outra, vivenciam ou vivenciaram situações semelhantes e que, na contramão da história, buscam reconhecimento e aceitação de seus trabalhos, de suas posturas e experiências.

Em outras palavras, buscamos desenvolver uma narrativa que é "... carregada de autocompreensão onde cada um busca compreender o em si-mesmo e o ser-com-os-outros a partir dos diferentes contextos" (Martinazzo, 2000, p.9-10) de vida e de experiências.

No ritmo frenético das amebas saltitantes

A princípio, tal reflexão é bem satisfatória, porque parece descobrir um sentido e um certo fio condutor dentro de uma multidão de fatos disparatados. Entretanto, muitas vezes, sinto-me, a seguir, desanimado, ao perceber quanto tais reflexões, que tão grande valor têm para mim, se afiguram ridículas à maior parte das pessoas (Rogers, 1972, p.150).

No primeiro dia de aula como professora de Psicologia da Educação apresentei-me aos alunos: "sou licenciada em Educação Física".

Entre as expressões de espanto, desconfiança, risos contidos e murmúrios, uma cômica - se não fosse trágica - colocação: "Professora de Educação Física? Sempre ouvi dizer que os estudantes de Educação Física são amebas saltitantes!". Depois de me refazer do susto e da revolta, tentei - e ainda tento - compreender o por que daquela engraçada, porém excludente e preconceituosa denominação.

Depois de dois anos atuando na formação de professores em Nível Superior e quase dez como professora da Educação Básica, este é apenas um, dos inúmeros rótulos atribuídos aos profissionais desta área, sem contar as experiências de exclusão vividas por mim e tantos outros colegas de profissão.

Na Educação Básica, infelizmente, o quadro não é muito diferente. Perdida entre as disciplinas ditas "nobres", a Educação Física tem seus dias de glória nas festas cívicas, nas olimpíadas estudantis ou nas festas juninas. O professor, convocado a usar sua voz de comando para organizar a tropa, aproveita para usufruir os breves momentos de reconhecimento público. Mas e no conselho de classe? É de se esperar que o professor de Educação Física tenha muito a contribuir, afinal, ele trabalha numa perspectiva do homem integral.

Também não é assim, tão simples.

Justificativas: "todos os alunos gostam da aula de Educação Física"; "a Educação Física não reprova e eles (os alunos) não precisam estudar"; "não há o que se avaliar, não há um programa a cumprir, há isso, não há aquilo...", enfim, tudo é brincadeira, tudo é mais fácil.

Desabafos à parte, vamos ao que interessa. O que, historicamente, contribuiu para a imagem que temos hoje? O que estamos fazendo para modificá-la? O que ainda devemos fazer? Existem dúzias de respostas para cada uma destas perguntas.

Não é novidade, por exemplo, que somos herdeiros de um pensar dicotômico que ainda perdura em nosso sistema educacional, nas mais diferentes áreas do conhecimento - inclusive, em alguns casos, na própria Educação Física - que separa a mente do corpo, o pensar do fazer e, o trabalho intelectual do trabalho braçal. É como se, lembrando Freire (1999) somente as cabeças fossem matriculadas na escola, no início do ano letivo. À Educação Física, cabe cuidar do resto.

Esta é uma questão preocupante que não se encerra nesta breve reflexão. Mas, diga-se de passagem, a aprendizagem não ocorre só do pescoço para cima. As aprendizagens mais significativas são aquelas que envolvem, como disse Rogers (1972) toda a pessoa do aprendiz em nível visceral. E isto, certamente, nós profissionais da Educação Física temos recursos de sobra para concretizar.
Outra questão, igualmente preocupante, é o que representa a reprovação na disciplina Educação Física? O que nos torna piores ou melhores, pelo fato de não termos um programa fixo a seguir, como nas demais disciplinas?

Tenho ouvido relatos de colegas de profissão que acreditam que para se igualar às disciplinas "nobres", devem lançar mão de provas escritas, questionários para decorar, aulas expositivas e todo o arsenal de métodos e técnicas já bastante conhecido por nós. Por quê? Para quê? Desde quando saber de cor onde é a nascente do rio Amazonas dá mais status do que ser capaz de sentir o prazer e a liberdade de brincar de amarelinha ou jogar uma partida de futebol? Estes últimos também não requerem o pensar, o planejar, o avaliar, o tomar decisões?

Rubem Alves (1995) diz que "saber é sentir o sabor. Mas sabor é aquilo que se encontra às portas do corpo, prestes a ser engolido" (p.73). E quem sente o sabor de uma boa aula de Educação Física - com todos os riscos e interpretações que esta palavra pode trazer - certamente sabe muito mais do que aquele que simplesmente decora uma lição para a prova. Nosso desafio é como criar situações de aprendizagem que favoreçam a expressão do pensar, do sentir e do fazer, sem que o sabor das aulas se torne amargo, tanto para o professor como para os alunos. E para este desafio não há modelos. Cada um cria seu caminho.


Seu caminho, cada um o terá que descobrir por si (...) caminhando, saberá. Andando, o indivíduo configura o seu caminhar. Cria formas, dentro de si e em redor de si. E assim como na arte o artista se procura nas formas da imagem criada, cada indivíduo se procura nas formas do seu fazer, nas formas do seu viver. Chegará a seu destino. Encontrando, saberá o que buscou (Ostrower, 2002, p.76).
Saltitantes sim, amebas não. E é justamente a alegria deste saltitar que causa tanto incômodo.

Excluído, discriminado. até quando?

Tenho a impressão de que, se tento encontrar o significado da minha experiência, isso me leva, quase sempre, a direções consideradas absurdas (Rogers, 1972, p.150).

Tenho, então, a difícil missão de (in)concluir este texto. Minha experiência não possui um e sim vários significados que, só tomam algum sentido quando são refletidos por diferentes pessoas numa infinidade de contextos. Como professora de Educação Física e de Didática nos últimos dois anos, ainda me sinto incomodada com os "Ufas!" de alívio dos meus alunos do Curso de Licenciatura em Educação Física quando lhes apresento minha primeira formação.

Afinal, nesse primeiro momento, encontram em mim uma identificação que talvez não encontraram e nem encontrarão nas demais disciplinas. Sentem-se discriminados na Licenciatura e os motivos são vários: roupas, formas de falar, mitos preconceituosos, entre outros. Revelam-me estas situações com a franqueza de uma criança que não sabe ainda o que fazer para mudar.

As discussões que travamos se referem a como lidar com determinados tipos de estereótipos; que tipo de postura profissional adotar; quem é esse futuro professor e qual o significado que sua disciplina possui, dentro de um sentido pessoal e no âmbito da instituição Escola. Entre as poucas respostas que conseguimos juntos encontrar estão: uma formação mais aprofundada na área de humanas; a construção de uma identidade pessoal e profissional com a disciplina escolar; a ampliação do discurso para além do sentido estético e recreativo e uma participação mais ativa nas decisões e discussões travadas na e pela Universidade e posteriormente, na ação profissional, exercida na Escola.

Os rumos para romper com os mecanismos de exclusão nesta área, ainda não estão bem definidos; um primeiro passo já foi dado com a criação do Conselho Regional de Educação Física, mas muitos outros precisam ser dados. Só através do diálogo coletivo e com a exposição pública de nossas idéias poderemos combater a discriminação que tanto nos assombra, amedronta e cala, muitas vezes.

Termino esse texto com mais uma reflexão expressa nas palavras de Bozzetto (2000),

muito ainda há para pensar, para conhecer e para fazer em interação com tantos outros que transitam diuturnamente pelos mesmos caminhos. Uns andam ao lado, outros à frente, alguns atrás, outros ainda não encontraram o caminho. No entanto, todos vão movidos por buscas incessantes e instigantes e o importante é que andem juntos ao caminhar movidos pela curiosidade, pela dúvida e pela incerteza. No trajeto encontrarão verde relva, flores perfumadas, árvores frondosas, galhos secos, pedras e espinhos, mas encontrarão, também, fontes borbulhantes, sementes germinando, plantas desabrochando e frutos suculentos ao alcance das mãos. Por isso é importante aprender a preparar o terreno, semear, plantar e regar para colher o fruto e poder saboreá-lo com prazer (p.183).

As autoras, Kátia Regina Xavier da Silva é professora da FE da UFRJ, professora de Educação Física da Rede Municipal de Belford Roxo, pesquisadora do Laboratório de Pesquisas, Estudos e Apoio à Participação e à Diversidade em Educação (LaPEADE) da FE/UFRJ, especialista em Orientação Educacional (UCAM). licenciada em Educação Física e Pedagogia (UFRJ) e Simone da Silva Salgado, é professora da FE/UFRJ, professora de Educação Física da Rede Municipal do Rio de Janeiro, Pesquisadora do Laboratório de Pesquisas, Estudos e Apoio à Participação e à Diversidade em Educação (LaPEADE) da FE/UFRJ, mestranda em Educação (UERJ), especialista em Avaliação Educacional e Altas Habilidades (UERJ). Licenciada em Educação Física e Graduanda em Ciências Sociais (UFRJ)

Referências

  •  Alves, Rubens. Estórias de quem gosta de ensinar: o fim dos vestibulares. São Paulo: Ars poetica, 1995.
  • Bozzeto, Ingride M. História de vida: formação e profissão. In: MARTINAZZO, Celso J. (Org.) História de vida de professores: formação, experiências e práticas. Injuí: UNIJUÍ, 2000.
  • Freire, J. B. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da educação física. São Paulo: Scipione, 1999.
  • Martinazzo, Celso J. Introdução. In: MARTINAZZO, Celso J. (Org.) História de vida de professores: formação, experiências e práticas. Injuí: UNIJUÍ, 2000.
  • Ostrower, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
  • Rogers, Carl R. Liberdade para aprender. Belo Horizonte, MG: Interlivros de Minas Gerais, 1972.

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