Educação Física escolar e Capoeira: Dá para trabalhar junto?

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V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 Em se tratando de um relato de experiência apresentarei os procedimentos adotados por mim no decorrer de três momentos do trabalho: o primeiro que chamarei aqui de etapa do planejamento e negociação junto aos alunos; o segundo que se trata da etapa da execução do projeto (aulas expositivas, aulas práticas, leitura e debates de textos, palestras etc.) e, por último, a etapa da conclusão e avaliação do trabalho.


 No texto procurarei ser fiel a fatos, considerados por mim como positivos e negativos, que ocorreram durante a realização desse trabalho os quais, acredito, poderão dar, a dimensão mais precisa das dificuldades que, também, surgiram e que tiveram de ser encaminhadas.


 De que escola estou falando?


 A Escola Bosque fica situada no bairro da Gávea, como já mencionado, e atende a uma comunidade de classe média de bairros como: Leblon, Ipanema, Lagoa, Gávea, Copacabana, São Conrado, Barra etc.


 Seus(uas) alunos(as) têm aulas de Educação Física desde a Educação Infantil até o terceiro ano do Ensino Médio, sendo que no Ensino Fundamental I e II o horário é composto de duas aulas de cinqüenta minutos por semana.


 Talvez seja importante lembrar que muitos(as) alunos(as) oriundos(as) de outras escolas chegavam à escola com experiências diferentes das nossas, inclusive no que se refere ao número de aulas de Educação Física que eles(as) tinham, por semana, em suas antigas escolas.


 As aulas de Educação Física são ministradas sem divisão de sexos em dois espaços principais da escola: um ginásio poliesportivo coberto e uma quadra menor, também poliesportiva, sem cobertura.


 A educação física e o ano letivo de 1997 na Escola Bosque


 Pois bem, como tradicionalmente ocorre em nossa escolas, no início do ano letivo devemos apresentar às coordenações os nossos planejamentos, ou melhor, o planejamento do ano inteiro. Sempre achei uma pretensão muito grande de nossas partes conseguirmos durante uma semana (tempo destinado pelas escolas, ou muitas vezes nem isso, para os períodos de "reciclagem" e de planejamento realizados antes do início das aulas, no começo do ano letivo) construir o trabalho para um ano todo. Fazendo uma comparação com o mundo do samba, poderíamos pegar o exemplo da organização das Escolas de Samba, ou melhor, essas escolas passam o ano inteiro planejando e trabalhando para o que vai acontecer em um dia, enquanto nossas escolas passam, às vezes, um dia preparando o que vai ocorrer durante um ano.


 Deixando as comparações de lado, volto a relatar o desenvolvimento do planejamento da Educação Física no ano de 1997 na Escola Bosque e acrescento que, especificamente para a sétima série (as outras séries trabalharam com outros temas), o primeiro semestre teve como conteúdo Os Jogos e as Brincadeiras Populares e ao segundo semestre ficou reservado o trabalho com a unidade Capoeira.


 Um dos cuidados que procurei ter na elaboração do planejamento foi o de fazer constar nele um espaço reservado às "necessidades" que eu teria para o desenvolvimento do trabalho com Capoeira. Dentre elas poderia destacar: um equipamento de som (toca fita e caixa de som) disponível para trabalhar com músicas de Capoeira durante as aulas; extensão elétrica para ligar o aparelho de som; tomada elétrica no ginásio e/ou na quadra descoberta; instrumentos musicais (berimbau, atabaque e pandeiro) e a disponibilização de alguma verba para o pagamento de palestras que viriam a ser dadas por mestres capoeiristas convidados.


 As solicitações dessas "necessidades" por si só não geraram o seu atendimento, tornando o trabalho um tanto quanto prejudicado em alguns momentos. Entretanto, tratarei dessas e outras dificuldades mais a frente quando estarei falando da etapa de execução do projeto.


 Relatei até aqui a maneira como se deu o planejamento junto a instituição, acredito, então, que seja interessante abordar a partir de agora como se deu esse processo junto aos(às) alunos(as).


 A etapa do planejamento e negociação junto aos alunos


 Sempre adotei como prática logo no início do ano apresentar aos(às) alunos(as) o planejamento com seus desdobramentos: objetivos, metas possíveis de serem alcançadas, formas para alcançá-las, atividades possíveis de serem realizadas durante o período de trabalho e, por último, como será feita a avaliação.


 Contudo já venho usando, com relativo êxito, a estratégia de estimular os(as) alunos(as) a sugerirem novos elementos ao planejamento (sem fugir do tema central), elementos esses, que sejam do interesse deles(as) mas que por desconhecimento, ou desvalorização da minha parte, não os tenha previsto no planejamento. Logo após um período inicial de sugestões (parecido com o que costumamos classificar de tempestade de idéias), as discutimos e votamos para selecionar as que realmente são do interesse da maioria da turma.


 Essas sugestões são divididas por mim em duas categorias: a primeira está no campo das atividades práticas, ou melhor, os(as) alunos(as) sugerem práticas corporais antes não previstas no meu planejamento e que eles(as) acreditam que contribuirão para ampliar seus conhecimentos naquele tema, ou pura e simplesmente porque gostariam de praticar durante as aulas alguns movimentos que eles(as) já dominam. A segunda, se situa no campo do que eu chamo de reflexão teórica, ou melhor, além dos temas e textos propostos por mim para debatermos os(as) alunos(as) podem e devem sugerir outros que venham contribuir para o enriquecimento das discussões acerca do assunto estudado.


 O planejamento da Capoeira em 1997 na Escola Bosque acabou ficando assim (todos os elementos grifados e sublinhados são sugestões dos alunos e alunas):


 Conteúdos a serem trabalhados:


 Histórico da Capoeira: Regional e de Angola
Movimentos da Capoeira: ginga, aú, golpes básicos (benção, meia-lua de frente, meia-lua de compasso, queixada, rasteira, negativa, rolê, cocorinha, esquivas, martelo, martelo com salto)


 Atividades de destreza: saltar, rolar, equilibrar, fazer estrela etc.
Utilização dos instrumentos e variedade de toques (aulas com convidados)


 Roda
 Maculelê
 Temas para reflexão teórica:
 A Capoeira e os Quilombos: símbolos de resistência
 A Capoeira como elemento da cultura corporal do brasileiro
 Capoeira: jogo, dança, luta ou esporte?
 A evolução da Capoeira: os brancos e a mulher
 Capoeira e Jiu-Jitsu: discriminações semelhantes ou não?


 Objetivos:


 Tomar contato com um tema da cultura corporal brasileira, sua história e sua prática;
Pesquisar sobre as diferenças entre a capoeira de Angola e Regional;


 Vivenciar, através de dramatizações, a realidade do negro afro-brasileiro, que criou essa forma de defesa;
Experimentar o jogo da capoeira com seus golpes, atividades de destreza e o toque dos instrumentos.


 Etapa da execução do projeto


 Essa etapa se constituiu, na verdade, das aulas das turmas de sétima série no segundo semestre do ano letivo de 1997. Durante esse período os(as) alunos(as) tiveram oportunidade de vivenciar as atividades programadas no planejamento, de lerem e discutirem textos e de participarem de palestras feitas por dois mestres convidados por mim para falarem sobre a Capoeira a partir de sua visões, ou melhor, um mestre ligado à Capoeira de Angola e outro à Capoeira Regional.


 Algumas das aulas desse semestre, também foram usadas para a prática de jogos como: futebol, queimado, pique-bandeira etc, resultado do processo de negociação entre mim e os(as) alunos(as), atendendo a uma demanda tradicional de jovens nessa faixa etária, e, também, com o intuito de não tornar maçante o trabalho com o tema da Capoeira.


 Gostaria de apresentar, nesse momento, algumas dificuldades que ocorreram durante esse período e que, de certa forma, dão a dimensão da particularidade dessa opção de trabalhar com um tema que foge aos tradicionalmente desenvolvidos nas aulas de Educação Física em nossas escolas. Coisas como:


 O equipamento de som durante mito tempo não ficou disponibilizado na quadra para ser usado o que gerou, por diversas vezes, o atraso do início das aulas, até que o material chegasse;


 Os(as) alunos(as) se sentiam envergonhados ao fazerem os movimentos da Capoeira pois o ginásio coberto ficava na entrada escola, tornando as aulas visíveis a todos que entrassem na escola, sem nenhuma privacidade. Seria melhor se tivéssemos uma sala onde pudéssemos fazer as primeiras aulas da unidade, possibilitando, assim, uma maior ambientação dos(as)alunos(as) à atividade;
As palestras e vivências dadas pelos dois mestres de Capoeira foram gratuitas, ou melhor, a escola não disponibilizou recursos financeiros, apesar de estar ciente da necessidade desde o início do ano, para que eu pudesse pagar pelos serviços prestados pelos dois convidados. O acerto foi feito na base da "camaradagem";


 Os instrumentos pedidos no início do ano (berimbau, pandeiro e atabaque) não foram comprados pela escola apesar de serem materiais que poderiam fazer parte do acervo da escola para outros trabalhos e eventos. Conseguimos vivenciar alguns toques da Capoeira em virtude da aulas dadas pelos mestres convidados que levaram seus próprios instrumentos e, também, porque eu e alguns(as) alunos(as) levávamos para as aulas pandeiros, berimbaus e alguns instrumentos que faziam o papel do atabaque.


 Entretanto, acredito que uma das maiores dificuldades que encontrei no trabalho com Capoeira foi a resistência inicial de vários(as) alunos(as) e a resistência permanente de alguns(as) poucos(as), mesmo eu tendo adotado, permanentemente, uma postura de negociação e flexibilização junto a eles(as).


 Credito isso, principalmente, ao fato de estar a Educação Física e seus conteúdos intimamente vinculada a uma cultura esportivizada nas escolas e, em especial no segundo segmento do Ensino Fundamental e no Ensino Médio.


 Etapa da conclusão e avaliação do trabalho


 Essa etapa teve como objetivo fazer com que os(as) alunos(as) das duas turmas de sétima série pudessem apresentar para a escola em um evento cultural interno, o resultado, ou melhor, o que havíamos produzido de conhecimento acerca do tema Capoeira durante o segundo semestre de 1997.


 A forma proposta por mim e aceita pelas duas turmas foi a de que eles(as) apresentassem o que aprenderam através de uma dramatização.


 Cada turma discutiu internamente de que maneira iria abordar o tema e transformá-lo em uma pequena peça teatral com seus roteiros, textos, personagens, diálogos, cenários etc.


 Uma das sétimas séries resolveu abordar a evolução da Capoeira no Rio de Janeiro fazendo um breve histórico dramatizado iniciando-se no final do século XIX (sua criação, sua importância para a população negra da época etc.); passando pelo seu "embranquecimento", ou melhor, pelo movimento da regionalização e da adaptação da Capoeira para atrair e abrir passagem para a prática de pessoas de setores da sociedade não oriundos dos (as) escravos(as) (década de 30 do século passado) e, por último, a popularização da Capoeira no final do século XX, com o aumento da prática entre as mulheres e os diversos movimentos, inclusive, no sentido de transformá-la em "esporte nacional".


 A outra turma preferiu tratar da Capoeira no seu berço, ou melhor, resolveu retratar o seu surgimento a partir do cotidiano sofrido dos(as) negros(as) como forma de resistência nas fazendas de engenho e, especialmente, nas senzalas e quilombos.


 As duas turmas contavam com a minha assessoria na procura de textos para embasarem os diálogos e, também, do professor de Teatro da escola que nos ajudava na montagem geral das esquetes.


 Ao final desse processo de construção a turma que tratou do cotidiano das senzalas levou o trabalho até o final fazendo uma apresentação bastante interessante no dia previsto pela escola para esse fim, entretanto, a outra turma, apesar de estar com quase todo o trabalho concluído, por desavenças entre alguns alunos(as), não conseguiu apresentar sua produção final.


 Conclusão


 Provavelmente para alguém não muito familiarizado com esse ambiente de trabalho que envolve adolescentes e a disciplina Educação Física não houve no relato anterior a apresentação de uma grande proposta, elaborada e desenvolvida dentro de padrões mais tradicionais em nossa área, contudo, não se trata aqui de apresentar somente os êxitos de uma receita bem feita, ao contrário, procurei apresentar os avanços possíveis, os recuos necessários e as negociações imprescindíveis para que possamos trabalhar no sentido de romper com uma cultura enraizada nessa disciplina: a cultura do handebol, do basquetebol, do futebol e do voleibol.


 Não que eu tenha algo contra os esportes na escola. Entendo-os como produções do Homem e como tal devem ser socializados no ambiente escolar com nossos(as) alunos(as).


 Entretanto acredito que, em primeiro lugar, seria de uma estreiteza muito grande acharmos que o universo esportivo produzido historicamente durante nossa existência se resume a esses quatro elementos.


 Em segundo lugar, a Capoeira, seus movimentos, suas músicas, enfim, sua história (ou talvez, suas histórias) é parte da construção de nossa cultura e deve ser valorizada por nós educadores.


 Por último, entendo como um desafio importante para nós, professores(as) de Educação Física, a criação de espaços em nossos locais de trabalho para que possamos romper com uma lógica instituída há anos de que somos meros "ensinadores" de esportes.


 Não penso que seja fácil isso mas acho que é extremamente necessário tanto para nós como para nossos(as) alunos(as) que, muitas vezes, não terão na escola qualquer outro espaço institucionalizado para vivenciar, debater e refletir sobre temas dessa natureza.


 Obs.
 O autor, Prof. Ms. Luiz Otavio Neves Mattos, é Mestre em Educação Brasileira PUC-RJ, professor da rede pública estadual do RJ e da Escola Bosque

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