Educação Física Escolar e Esporte: Uma Relação Não Espetacular

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2010

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Eles estão jogando o jogo deles. Eles estão jogando de não jogar um jogo.
Se eu lhes mostrar tal qual eles estão, quebrarei as regras do seu jogo e
receberei a sua punição. O que eu devo pois é... jogar o jogo deles, ou seja,
o jogo de não ver o jogo que eles jogam! (Ronald Laing - "Laços").

Após o término dos Jogos Olímpicos na China pudemos testemunhar um movimento plural de avaliações e diagnósticos no que tange ao desempenho da delegação brasileira. A multiplicidade na oferta destas análises está diretamente correlacionada à diversidade de interlocutores e seus respectivos interesses. Neste contexto, entre uma infinidade de denúncias e anúncios sobre o desempenho esportivo brasileiro, encontramos uma narrativa recorrente, ou seja, para que o Brasil se constitua numa potência olímpica énecessário condicionar estrategicamente as aulas de Educação Física nesteprojeto. 

Esta mensagem perpassa e seduz muitos representantes da esfera
governamental/ministerial, do jornalismo, da classe política, entre os atletas
olímpicos e não olímpicos e, sobretudo, no senso comum. Estas
representações acima mencionadas não expressam nenhum pensamento
inovador ou de vanguarda. A tentativa de vinculação da educação escolar e de
atrelamento da Educação Física aos interesses da instituição esportiva, foi
exaustivamente registrada pela historiografia brasileira. A partir das análises
sociológicas foi possível identificar uma relação muito estreita entre
autoritarismo e populismo fomentando políticas de massificação das práticas
esportivas.

O Esporte é um fenômeno globalizado e estruturado sob diferentes
configurações sociais. Como manifestação sociocultural incontestável está
inserido na dinâmica da vida cotidiana com toda sua multidimensionalidade. Os aspectos econômicos, políticos, sociológicos, antropológicos, ecológicos,
técnicos, filosóficos, biológicos, históricos, psicológicos, estéticos e éticos se
impõem como desafios para todos aqueles que se ocupam direta e
indiretamente dele. O fenômeno esportivo é um grande empreendimento da
sociedade globalizada, ajustado ao espectro mais amplo da sociedade
tecnológica, do mundo capitalista e, inexoravelmente, da sociedade do
espetáculo.

A pretensão de certos atores sociais em preconizar uma possível
subordinação do sistema educativo formal (escolas, professores, alunos, aulas
e práticas educativas) aos ditames do sistema esportivo, resulta numa
incompreensão tanto da natureza do fenômeno Esporte como da
especificidade da instituição escolar. Também não descartamos que a
insistência com estes apelos sociais comportam interesses econômicos e
ideológicos que não necessariamente coincidem com os interesses públicos
mais legítimos e democráticos.

A linguagem socializada remetida ao grande público se consubstancia
de forma linear e apressada, tendo a pretensão de convencer a população dos
presumíveis "benefícios" do Esporte como uma demanda de interesse geral e
indiscutível para qualquer cidadão. Como elucidação desta realidade,
encontramos assertivas como - "Esporte é saúde"; "Esporte é integração
social"; "Esporte é inclusão social etc.". Diante deste ideário comumente
compartilhado no fluxo da vida ordinária, lançamos como contraponto
impertinente que nem sempre o Esporte é saúde! Nem sempre o Esporte é
integração e inclusão social. O jogar para louvar as divindades gregas na
antiguidade implica um fenômeno certamente diferenciado do "esportear" para
os patrocinadores no cenário moderno ou pós-moderno. O que está em jogo no "Jogo Grego" é distinto do que está em jogo no Esporte dos "tempos
modernos". Os Jogos Olímpicos não são para todos! Na dinâmica do Esporte
como espetáculo, seus "tempos e lugares" já são previamente marcados, dito
de outra forma, para cada corpo um lócus diferente na "grande festa global".

Mesmo identificando a patente obviedade destes fatos, o discurso
oportunista de diferentes atores sociais incide sobre estas questões de forma a
desconsiderar as diferenças institucionais para engendrar interesses políticos e
econômicos corporativos e privados. Como exemplo, temos o investimento na
tentativa de uma "aproximação" institucional do clube e da escola para prover o Esporte brasileiro com "talentos esportivos" provenientes do sistema escolar.
Alunos e atletas implicam papéis sociais diferenciados. Os técnicos e os
professores desempenham funções e práticas sociais que não se confundem.
No treinamento esportivo o que se almeja é a maximização do movimento do
corpo humano. A racionalização, a mensuração, a especialização e a máxima
produtividade, tal como o slogan "No Limits", são imperativos deste processo.

Na escola e na Educação Física Escolar as finalidades e os processos
sociais são outros. No nosso entendimento, a escolarização e a Educação
Física Escolar são dimensões prioritárias e de reivindicação autônoma para o
Ministério da Educação e não para sobreposição de demandas oriundas do
Ministério do Esporte. Fracasso ou sucesso esportivo, antes, durante e após os
Jogos Olímpicos não se coadunam linearmente com fracasso ou sucesso
escolar de ontem, hoje e amanhã.

Na perspectiva da Educação Física Escolar, a cultura corporal e o
movimentar-se humano são temas para estudo. O que se almeja é a
compreensão ampla deste fenômeno, otimizando e recriando as possibilidades
de movimento do corpo humano. A partir do conhecimento sistematizado e
crítico, estabelecermos as diferenças entre o Esporte da escola e o Esporte na
escola e, somando-se neste contexto, as relações de interfaces entre estes
mesmos. O Esporte da escola é transversal, ou seja, passível de ser abordado
por diferentes áreas do saber, podendo ser problematizado. O Esporte como
tema para escolarização não pode descartar a especificidade da instituição
escolar e, desta forma, desconsiderar as demandas concretas de seus
protagonistas, ou seja, professores, alunos, pais, pedagogos etc.

Desta forma, nunca é redundante o debate e o resgate sobre os
significados dos saberes escolares no âmbito da escolarização básica. A
escola como construção histórica que é, necessita empreender uma reflexão
filosófica sobre os seus propósitos constantemente, de forma a favorecer sua
atualização política e pedagógica. O fracasso escolar é também proveniente de
uma escola que não pensa autonomamente sobre suas próprias possibilidades
e limitações. É não ser capaz de identificar o que lhe falta ou que lhe compete.
Sendo assim, são imprescindíveis questões como:

De onde são provenientes os saberes escolares? Quem realiza a
seleção dos conteúdos a serem desenvolvidos na sala de aula? Que instâncias
autorizam e legitimam o que se ensina ou o que se aprende na escolarização?
Quem responde pelo o que não se ensina e o que não se aprende? Como é
feita a construção e disponibilização do conhecimento escolar?

Essas indagações continuarão perpassando o debate educacional, uma
vez que a produção da histórica da escola e de seus "conteúdos" expressam
um campo de disputas ou, em outras palavras, as ênfases e as omissões do
currículo escolar são todas elas "interessadas". O que se persegue e se acirra
em termos de embates educacionais, são lutas por projetos, sempre parciais e
incompletos, na perspectiva e na pretensão da hegemonia ou universalização
de modelos de sociedade, de cultura e de seres humanos. Todos os discursos
historicamente produzidos para e por meio da educação, seja esta escolar ou
não, partiram de uma premissa irrefutável, ou seja, que saberes implicam a
configuração de poderes.

Assim sendo, mesmo considerando que toda forma de elaboração de
conhecimento (científico, religioso, artístico, filosófico, sapiente etc..) esteja
constituída de uma dimensão pública e coletiva, sua socialização não se
reveste de uma partilha pautada pela cooperação justa e equânime, dito de
outra forma, mulheres e homens, negros e brancos, pobres e ricos, crianças e
adultos, escola pública e particular, se apropriam de forma desigual do saber
escolar e não escolar, o que por sua vez, confere poderes e lugares desiguais
e assimétricos no plano da convivência social. Isto diz respeito igualmente em
relação à cultura corporal de movimento e, sem dúvidas, em relação ao
Esporte. Saber ou não saber, o que saber, como saber, saber e não poder,
poder e não saber, saber e poder, saber e viver, são questões que repercutem
concretamente na vida e na dignidade das pessoas.

Partindo da premissa que a escolarização não é um processo social
neutro sobre o qual se projetam expectativas e demandas sociais prementes,
também precisamos reconhecer que modismos e oportunismos são
direcionados para os saberes e fazeres escolares. Como evidência destes
movimentos "interessados" temos os discursos do Esporte na escola. Deste
modo, uma questão se impõe, ou seja: Como o Esporte deve ser abordado na
perspectiva dos saberes escolares? Qual seria a contribuição do componente
curricular Educação Física no processo de tematização do fenômeno esportivo
nos diferentes níveis do Ensino Básico? Como configurá-lo como tema
transversal? De que maneira podemos otimizar a participação dos diferentes
componentes curriculares ou áreas do conhecimento humano tendo o Esporte
como tema integrativo do projeto escolar?

Na perspectiva dos possíveis anúncios de uma exploração pertinente do
tema Esporte no contexto escolar, entendemos que poderíamos caminhar em
algumas direções. Exemplificando melhor, podemos na escola propor o estudo
do Esporte e a partir desta proposição, demonstrar que os seres humanos são
estruturados para moverem-se. Que seres humanos são dotados de
capacidades e habilidades corporais e de movimento para adaptação,
interação e transformação de si e do meio em que vivem.

Podemos também sensibilizar e esclarecer que o Esporte implica
linguagem, códigos, significados e intencionalidades construídas socialmente.
Podemos proporcionar discussões juntamente com os educandos, de forma a
demonstrar que os saberes e poderes corporais e de movimento no contexto
esportivo são socializados de forma muito desigual entres os membros de uma mesma sociedade, conforme sua classe social, poder econômico, gênero,
grupo étnico etc. Ainda nesta direção, na cultura escolar podemos refletir sobre
as relações do fenômeno esportivo com as questões relativas à saúde,
qualidade de vida, trabalho, consumo, meio ambiente, lazer, diversidade
cultural, sexualidade e outras. Oferecer alguma possibilidade de aproximação
com certas manifestações esportivas, explorando-as de forma lúdica. Analisar
a dimensão estética do movimentar-se humano e as configurações das
imagens na perspectiva da manipulação ideológica ou mesmo no âmbito das
relações de consumo. Podemos na escola também investir no desenvolvimento
da compreensão do esporte como profissão e trabalho.

Talvez neste sentido, caiba a assertiva de que compete à escola a
sistematização de saberes socialmente relevantes num dado momento
histórico, sobretudo, a elaboração de uma linguagem crítica em relação a estes
mesmos saberes. Assim sendo, a escola pode oferecer as perguntas que não
são comumente efetuadas e disponibilizadas nos diferentes canais de
comunicação social.

Com uma pequena elucidação, poderíamos refletir com nossos alunos
quem ganha e quem perde com os jogos olímpicos? Por que não aceitamos
crianças precocemente no mundo do trabalho, mas toleramos e aplaudimos o
trabalho infantil em centros de excelência esportiva com jornadas de 40 horas?
O que significa a expressão "especialização esportiva precoce"? Uma forma
moderna de trabalho infantil? Poderíamos denominar esta situação como
dominação etária, ou seja, o mundo adulto impondo novas formas de
exploração dos corpos infantis e juvenis?! Como explicar as motivações e os
condicionantes psicológicos, sociais e políticos, que justificam as formas
distintas de violência no cenário esportivo? Como compreender os
investimentos públicos no Esporte e suas relações com outras demandas
públicas como segurança, transporte, saúde e educação? Em que medida os
resultados esportivos indicam efetivamente o nível de desenvolvimento
humano de uma nação. Em Beijing 2008 a delegação esportiva brasileira ficou
à frente de países com índices de desenvolvimento humano, saúde e
educação muito superiores ao nosso. Que relação é essa? As modalidades
que trouxeram medalhas ao Brasil depois destes últimos jogos olímpicos, a
grande maioria não tem sua presença registrada nas quadras, pátios, salas e
nos livros escolares! Que relação é essa com as aulas e professores e
professoras de Educação Física ao tentar sinalizar que a potência olímpica do
futuro depende o sistema escolar?

Ainda nesta direção, podemos produzir debates impertinentes na escola
de forma a questionarmos, por que atletas paraolímpicos oferecem resultados
esportivos mais promissores e, no entanto, os investimentos públicos não são
proporcionais aos seus resultados. Porque neste país clubes tem direito de
recursos provenientes de loterias para saldar dívidas e as pessoas comuns e
outras instituições sociais não dispõem dos mesmos benefícios. O que justifica
a subutilização de equipamentos esportivos milionários provenientes dos
recursos públicos, em uma cidade que o livre trânsito dos cidadãos é impedido
por grupos organizados? Ginásios, estádios e velódromos sofisticados numa
mesma cidade com escolas, bibliotecas e hospitais indigentes?

Também podemos discutir em que medida as cenas esportivas nos
excitam? Por que nos orgulhamos, sonhamos, choramos, identificamos e
gritamos diante de imagens "espetaculares"? Por que o herói, o sacrifício, a
superação, o surpreendente e o inesperado no Esporte nos captura? Por que
pessoas com a dor e o desconforto na competição, dizem reiteradamente que a busca em superar a si mesma lhes confere sentido para viver? Talvez seja por todas essas questões e, muitas outras que não formulamos que o Esporte deva ser um projeto escolar. Este fenômeno nos afeta e faz parte do nosso
cotidiano. O Esporte é demasiadamente humano e, por sua vez, também
comporta o "desumano". A impressão que se tem é a de que não é exatamente esta a perspectiva que muitos "defensores" do Esporte na escola estejam reivindicando. Atenção, educadores! Querem jogar um jogo na escola, que pode bem não ser o jogo da escola! O jogo de "não jogar um jogo". O nosso jogo aqui é de mostrar que a relação entre Esporte, Educação Física e a
Escolarização não é tão espetacular! Assim, "jogar um pouco menos com a
escola" para podermos jogar um pouco mais e melhor na educação!

LEITURAS SUGERIDAS.

BRACHT, V.; ALMEIDA, F. Q. A política de esporte escolar no Brasil: a pseudo
valorização da educação física. Revista Brasileira de Ciências do Esporte.
Campinas, v.24, n.3, p.87-101, maio 2003.

CAPARROZ, F. E.; BRACHT, V. O tempo e o lugar de uma didática da
Educação Física. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. Campinas,
V.28, n.2, p.21-37, jan.2007.

FREIRE, P. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos.
São Paulo: Editora UNESP, 2000.

KUNZ, E. Transformação didático-pedagógica do esporte. Ijuí:UNIJUI,
2000.

MELO, V. A. Esporte é saúde: desde quando? Revista Brasileira de Ciências
do Esporte. Campinas, v.22, n.2, p. 55-67, jan. 2001.
SACRISTÁN, J. G. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre:
ARTMED, 2000.

VAGO, T. M. "O esporte na escola" e o "esporte da escola": da negação radical
para uma relação de tensão permanente: um diálogo com Valter Bracht.
Revista Movimento, Escola Superior de EF da UFRGS, ano III, n.5, dez.1996.

NOTA: Este artigo foi publicado em:
Seminário "AS CONQUISTAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA", organizado pela
Comissão de Educação da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.
São Paulo, 26, 27 e 28 de agosto de 2008, páginas 131-140.

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