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 Reordenamento do capitalismo e as metmorfoses no mundo do trabalho

O atual modelo do capitalismo é o neoliberalismo. Esse sistema começou a ganhar terreno quando o Estado de Bem Estar Social caiu numa recessão. A causa segundo os defensores do neoliberalismo foram os direitos conquistados pelo trabalhador no período da social democracia. As soluções apresentadas pelos liberais foi a criação de um Estado forte no controle e que economizasse nos gastos sociais e intervenções econômicas, rompesse com o poder dos sindicatos, incentivasse os agentes econômicos, promovesse a criação de um exército de reserva aumentando a exclusão e submetendo-se à lógica de livre mercado.

A resposta para crise foi uma ofensiva contra a classe trabalhadora, visando uma reestruturação da forma de produção. Segundo Frigotto (1996, p.77), com o esgotamento do modelo fordista seria necessário ao capital uma mudança na base técnica do processo produtivo a fim de acelerar o aumento da incorporação de capital morto e a diminuição do capital vivo. Assim, com a chegada do modelo toyotista ao Ocidente, o Estado de Bem Estar Social sofre o seu mais duro golpe. Esse reordenamento neoliberal e a implementação de novas tecnologias na produção, desencadeou um processo que exigia a substituição do paradigma fordista para o modelo toyotista. Por isso torna-se necessário que os trabalhadores adquirissem "novas competências" alterando segundo Kuenzer (1999, p.09), os processos de formação humana.

Antunes (1999), indica que vive-se atualmente num grande desemprego estrutural. A causa é a ampliação do setor de serviços, fato que ele comprova pela crescente expansão do trabalho parcial, temporário, precário, subcontratado e terceirizado. Estas atividades possuem como características a precariedade de empregos e salários, desregulamentação das condições de trabalho, regressão dos direitos sociais e ausência de proteção sindical, onde a atual tendência dos mercados de trabalho é reduzir o número de trabalhadores centrais e empregar aqueles que entram facilmente e são demitidos sem custos. Surge a exigência de um novo tipo de homem de acordo com o novo tipo de trabalho e produção. Suarez (1995), afirma que os novos paradigmas produtivos exigem um sujeito alinhado a toda essa ética de livre mercado e consumo, um indivíduo orgânico ao capital, ou seja, um verdadeiro homem neoliberal.

Educação física escolar: da ginástica à neoesportivização

Segundo Bracht (1992, p.35-36), os elementos da cultura corporal predominantes no Brasil foram a ginástica e o esporte. De acordo com esse autor a tematização de determinado elemento está relacionado com as necessidades do projeto educacional hegemônico de cada época e com sua importância no plano da cultura e da política. A tematização da ginástica teve relação com o papel higienista/militarista atribuído a Educação Física no projeto educacional do início do século. Foi nesse contexto de adaptação social e baseada numa matriz biológica e positivista que surge a Educação Física no Brasil.

Essa educação do corpo através da ginástica aos poucos vai sendo incorporada por um novo elemento da cultura corporal: o esporte. 

Esse conteúdo torna-se dominante no final dos anos 60 quando a Educação Física englobou no seu discurso à formação de atletas.

Para Rigo (1995, p.88), esse discurso significou uma reaproximação da Educação Física com o pensamento dominante. Esse conteúdo absorveu os princípios da "Teoria do Capital Humano" utilizando valores como rendimento, competitividade, esforço individual e meritocracia, tornando dessa forma a Educação Física mais uma vez um instrumento de preparação e adaptação ao mundo produtivo.

Nasce desta forma a concepção tecnicista/esportivizante, que ganha respaldo do governo militar e torna-se um sustentáculo do projeto de formação humana da época. Este fato ocorre pela capacidade que teve de "camuflar" a realidade e manter a "paz social". É também pela capacidade de enraizar valores importantes para a formação do trabalhador o que agradava e ia ao encontro dos interesses dos detentores do capital.

Com o fim da ditadura militar a presença da Educação Física na escola começou a ser questionada. O debate crítico dos anos 80 na área não propiciou a elaboração de uma Pedagogia Crítica onde, inclusive, quase foi retirada do sistema de ensino na época de elaboração da atual LDB. Bracht comenta que não só os pedagogos críticos não há incluíram em seus projetos como também os formuladores da educação liberal burguesa, ficando a Educação Física "órfã" de pai e mãe. (Bracht: In Caparróz, 2001, p.67-68).

Segundo Vago (1999, p.38), existem grupos que têm como objetivo sintonizar a educação aos interesses do mercado, onde o currículo deve estar estruturado para obedecer as suas exigências, incluindo e retirando disciplinas de acordo com seus interesses. A preparação dos alunos para a inserção no mundo do trabalho são os seus objetivos e os princípios que regem o mercado devem orientar as práticas escolares. É a "pedagogia da eficiência", a "qualidade total" da educação escolar. Nesse novo modelo imposto pelo neoliberalismo a Educação Física parece, no momento, não ter uma função no novo projeto educacional hegemônico.

Para analisar essa questão é interessante uma leitura na LDB (Brasil, 1996, p.08). No seu artigo 26 parágrafo 3º ela estabelece que "A educação física, integrada à proposta pedagogica da escola, é componente curricular da educação básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos." Entretanto, no seu artigo 27, inciso IV, a LDB(1996, p.09), traça como diretriz a "a promoção do desporto educacional e a apoio às práticas das atividades não-formais". Para Vago (1999, p.40), essa LDB, propiciou diferentes maneiras de realizar o ensino da Educação Física. Suas diversas interpretações têm reduzido a disciplina ao mínimo indispensável para configurar a obediência à lei. Isso comprova porque ela está sendo deslocada para as atividades não-formais, o que irá desconfigurar a Educação Física no espaço escolar e condená-la ao desaparecimento.

Estudos demonstram um crescimento das atividades não-formais como áreas de atuação profissional: Bara Filho, 2001; Lovisolo, 1995 e Silva, 2002. Lovisolo indica que esse interesse profissional decorre da pouca valorização social, dos baixos salários e das precárias condições que são oferecidos aos professores que se dedicam ao magistério na rede pública de ensino. Afirma que essas mudanças são devidas a um maior reconhecimento social e econômico que o professor irá receber da sociedade. Considera-se as idéias apresentadas por Lovisolo equivocadas, principalmente por limitar a análise somente na esfera cultural, desconsiderando totalmente os fatores estruturais da sociedade capitalista.

Como se vive numa sociedade capitalista e esse sistema é marcado por contradições percebe-se um movimento de setores conservadores e pró-capitalistas que, inconformados com o enfraquecimento da Educação Física escolar e a conseqüente perda de prestígio, buscam novamente mostrar a sua utilidade nesse projeto de formação humana. Nesse contexto e com essa intenção de organicidade a esse modelo capitalista é que surge a tese da neoesportivização da Educação Física. Trata-se de teorias que, apesar de negarem, estão pautadas em matrizes científicas positivistas, e estão sob a luz do paradigma da Aptidão Física. Possuem como intuito afirmarem as "novas competências" exigidas pela hegemonia capitalista, utilizando para isso o velho discurso de que a escola pública é o "celeiro dos futuros campeões".

Como já foi anotado (SILVA E LANDIM, 2001), o principal referencial dessa teoria e o estudo realizado por Greco e Benda (1998), a "Iniciação Esportiva Universal", onde apresentam-se como "...uma nova filosofia, para a compreensão de atividade física, educação física e iniciação esportiva, na escola, escolinha e clube.". (GRECO E BENDA, 1998, p.15). Havia chamado atenção para o discurso liberal e simplista dos autores. Eles tentam limitar a crise da Educação Física ao choque entre as correntes tecnicista e críticos-sociais (que, aliás, conceituam erroneamente). Consideraram em seu estudo as linhas críticos-sociais sinônimos das perspectivas humanistas. Apontam-se como solução entre o "conhecimento prático" e o "conhecimento teórico", esquecendo os problemas epistemológicos, herança histórica e as atuais discussões e propostas sobre sua área do conhecimento e seu papel escolar e social, apresentado-se como o "Fim da História" da Educação Física ou como sua "Terceira Via".

Percebe-se em sua obra que se apresentam como progressistas, pois incorporam elementos que criticam o tecnicismo. Observa-se a apropriação dos seguintes termos: "cultura corporal", "conscientização político- social e elaboração de pensamento crítico, desde que o aluno esteja apto para isso", "utilização do lúdico", "reivindicação de aulas mais abertas", "maior cooperação", "construção e ação conjunta nos momentos de decisão" e "adaptação do esporte para a realidade espacial e material da escola". (SILVA E LANDIM, 2001, p. 05)

Acredita-se que esse processo de neoesportivização visa a formação de um novo tipo de homem. Apoiando-se em Antunes (1999) e Kuenzer (1999), observa-se que o paradigma produtivo toyotista exigem competências como: polivalência, criatividade, flexibilidade e trabalho em equipe. Evidencia-se que essas exigências são assimiladas pelo Esporte de Rendimento, onde os atletas são cobrados a adquirir valores citados acima. Feitas essas considerações deve-se saber qual deverá ser o caminho para uma prática pedagógica não mais vinculada aos interesses das forças produtivas que busquem uma sociedade mais justa e humana.
Como ficam as possibilidades contra hegemônicas da educação física escolar?

Entende-se que existem possibilidades contra hegemônicas. Para isso aconteça há que se parar de aceitar a redução a perspectivas como a da neoesportivização, senão a Educação Física continuará a ser confundida com o esporte. Se isso ocorrer novamente a disciplina irá se afastar dos outros componentes, limitando a prática pedagógica aos conhecimentos da aprendizagem motora e cognitiva e ao processo de treinamento desportivo além, de mais uma vez domesticar o corpo e a mente para o trabalho e a sua lógica de mercado e consumo.

O que preocupa é a incorporação de valores "críticos" por parte dessas perspectivas. Entende-se que elas podem ser assimiladas ingenuamente pelos professores das redes de ensino. Estes podem assumir essa prática achando, que estão praticando uma pedagogia contra hegemônica e crítica. Caparróz (In: Caparróz, 2001, p.205) mostra que os professores conhecem superficialmente as teorias críticas da Educação Física escolar tendo dificuldades para fundamentar sua prática, o que pode facilitar a absorção da neoesportivização, mascarando a realidade e mantendo no professorado a idéia de que estão efetivando uma prática transformadora mas que continuam orgânicas ao sistema capitalista.

Entende-se que a obra de Assis Oliveira (2001, p.196), é um dos estudos que mais deu contribuiu a uma possibilidade contra hegemônica de Educação Física. Percebe-se que valores citados são incorporados: solidariedade, coletivo, autonomia, cooperação, distribuição, confiança, descontração e perseverança. Os professores devem estar atentos para como se utilizar esses valores em aulas. Devem ser usados para estabelecer os conflitos mostrar as contradições do sistema capitalista e não ser o elemento central das aulas.

Acredita-se necessária a adoção de princípios como os citados por Gramsci (1991, p.18), " Uma filosofia da práxis só pode apresentar-se, inicialmente numa atitude polêmica e crítica, como superação da maneira de pensar precedente e do pensamento concreto existente (ou mundo cultural existente)". Todo movimento cultural que pretenda substituir o senso comum e as velhas concepções de mundo devem: 1) não cansar de repetir os próprios argumentos, variando somente a sua forma, pois a repetição é o meio mais eficaz para agir sobre a mentalidade popular; 2) trabalhar na formação de homens de novo tipo que surjam das massas e que permaneçam em contato com elas, tornando-se um verdadeiro pensador coletivo. (1991, p.27). Somente utilizando as categorias da dialética, usando as críticas e as contradições da cultura produzida pelo homem é que se irá transformar a sociedade capitalista.

Deve-se utilizar as manifestações da cultura corporal nas aulas com esse objetivo de atingir a mentalidade popular e formar o sujeito histórico coletivo capaz de romper com as amarras do capitalismo.

Para tal objetivo é indispensável muita persistência e atualização nos estudos. Também é inevitável salientar que se deve ter essa postura porque os intelectuais orgânicos ao capital vislumbram cada vez mais teses e metodologias com o objetivo de mascarar a realidade e reproduzir à lógica de mercado. É só assumindo posições de professores que desejem legitimar a Educação Física como um verdadeiro componente curricular é que se irá chegar à prática pedagógica que tanto se sonha e se deseja construir.

Obs. Os autores, professores Marcelo Moraes e Silva e Renata Aparecida Alves Landim são licenciados pela UFJF, o primeiro cursando especialização em Pedagogia Escolar no IBPEX, UFPR

Referências bibliográficas

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  • Bara Filho, Maurício. et alii. A formação do profissional de Educação Física: um estudo com acadêmicos da Faculdade e Educação Física e Desportos da Universidade Federal de Juiz de Fora. XII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte. (no prelo 2001).
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  • Lovisolo, Hugo. Educação Física: A arte da mediação. Rio de Janeiro, Sprint Editora, 1995.
  • Rigo, Luiz C. A educação física fora de forma. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Santa Maria, vol. 16, n.2, p. 82-93, 1995.
  • Silva, Marcelo Moraes. O imaginário social dos acadêmicos de Educação Física da Universidade Federal de Juiz de Fora. Revista de Educação Física da Universidade Estadual de Maringá. (no prelo 2002).
  • Silva, Marcelo Moraes e LANDIM, Renata Aparecida Alves. Metodologia da Iniciação Esportiva Universal: uma análise crítica. XII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte. (no prelo 2001).
  • Suárez, Daniel. O principio educativo da nova direita neoliberalismo, ética e escola pública. In: GENTILI, P. (org.). Pedagogia da exclusão: crítica ao neoliberalismo em educação. Rio de Janeiro, Vozes, 1995.
  • Vago, Tarcísio Mauro. Início e fim do século XX: Maneiras de fazer educação física na escola. Caderno Cedes, n. 48, p.30-51, 1999.

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