Educação Física Escolar e Legitimidade: com a Palavra os Alunos

Por: Claudiomir do Nascimento Faria.

XI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Podemos perceber que o termo cultura sempre estará presente nos debates quando o assunto se tratar da escola, que assume entre outras funções a de transmissora de cultura. De outro ponto de vista, podemos também perceber que o avanço científico e tecnológico, que percebemos avançar rapidamente e que pode nos auxiliar (mas também alienar) para realizarmos mudanças em prol do campo educacional, está a quilômetros à frente das possibilidades concretas da educação pública brasileira. Além de ser mal utilizado pelos educadores, não permite-nos acompanhar este rápido desenvolvimento e uma série de mudanças, ficando cada vez mais difícil alcançar a prática interdisciplinar cuja realização e compreensão dependem da contribuição de conhecimentos oriundos de diferentes ciências.

Pensar em educação hoje é um grande desafio que nos obriga a pensar todas as mudanças ocorridas ao longo dos anos. A relação escola / cultura está na pauta do dia, pois nos obriga a refletir sobre os necessários diálogos entre os diversos grupos sociais. Segundo Carmem Teresa Gabriel apud Candau (2000), não basta mais lutar apenas contra as desigualdades sociais, mas é preciso também buscar estratégias nas quais as diferenças culturais possam coexistir de forma democrática.

Temos que começar a refletir e dialogar quando tratamos da perspectiva cultural nos debates do campo educativo, principalmente sobre a não neutralidade dos conteúdos escolares transmitidos. Com isso a Educação Física, uma das disciplinas do currículo escolar, co-responsável por grande parte da reflexão sobre tais valores, não vem sendo tratada como deveria. Ou melhor, não é legitimada como deveria.

Sob a ótica escolar, a Educação Física não é um componente importante no currículo, ao contrario das outras disciplinas, consideradas sérias, como a matemática e a língua portuguesa que, como prova de tal assertiva, invariavelmente estão presentes em provas de concursos e vestibulares. Tal lógica, em que se repousa a estrutura educacional, exclui outras possibilidades de aprendizagem e de altruísmo com relação às culturas marginais. As manifestações cinestésicas não têm legitimidade a partir de si próprias, precisam de outras justificativas para compor o currículo, tais como a promoção da saúde ou do esporte de alto rendimento.

Por outro lado, pode-se notar que os professores não aplicam conteúdos que mostrem aos alunos objetivos claros para a Educação Física enquanto disciplina escolar. Além disso, é notável a utilização restrita de conteúdos de ensino, concentrando-se quase exclusivamente nos esportes mais tradicionais, como o futebol, o vôlei, o basquete e o handebol. Constatação que determina uma larga fenda entre o que é produzido academicamente para a Educação Física Escolar e o que ocorre no cotidiano escolar.

Apesar de escola e cultura estarem ligadas entre si, dividindo a crise epistemológica que marca nossa geração (Silva, 2002), a reflexão atual sobre essa relação nos faz pensar e criar novas possibilidades de diálogos entre os diversos grupos sociais, étnicos e culturais, buscando novas estratégias para que as diferenças culturais possam coexistir de forma democrática. A cultura passa então a ser percebida como prática social, e o currículo, ao invés de transmitir a cultura de forma anacronicamente problemática, traduz essa cultura através de diferentes expressões presentes na sociedade. Desse modo, ressaltamos que o currículo pode e deve ser modificado e efetivado na prática pedagógica, fazendo com que professores e alunos reflitam altruisticamente sobre as diferentes práticas culturais e mudem, assim, os rumos da educação.

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, do tipo survey. Para a publicação do presente artigo, foram coletados dados em duas turmas de primeiro ano do Ensino Médio do CIEP Glória Roussin, contabilizando um total de 70 informantes. A proposta da pesquisa é expandir essa coleta para um número expressivo de escolas. Entretanto, as informações hora coletadas já nos permitem tecer considerações interessantes com relação ao parecer dos alunos sobre a Educação Física vivenciada por eles.

Optamos, para esse primeiro momento, pela seleção de alunos / informantes que invariavelmente foram transferidos de outras escolas, aqueles que não cursaram o segundo segmento do Ensino Fundamental na escola alvo da pesquisa. Tal estratégia possibilitou agregar dados referentes a outras escolas do município e também possibilitaram parâmetros comparativos aos alunos.

Quanto ao questionário aplicado, trata-se de uma replicação de parte daquele utilizado por Lovisolo (1996). Desse modo, ao final da investigação, teremos condições de comparar o quadro referente à capital do estado do Rio de Janeiro - apresentado por Lovisolo - com o da região Sul-fluminense.

Antes da aplicação do questionário foram explicados os objetivos do estudo, sensibilizando os alunos a responderem seriamente as questões. Após essa conversa, foram entregues as fichas e os alunos só começaram a responder o questionário quando todos já estavam com tais fichas em mãos e com as dúvidas sanadas.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Para a apresentação do presente artigo, selecionamos seis questões do questionário aplicado aos alunos. Foram elas: o que menos gostam na escola; o que mais gostam na escola; quais são as disciplinas que mais gostam, que menos gostam e as que consideram mais importantes; se consideram a Educação Física uma disciplina importante ou sem importância; quais atividades de Educação Física aprenderam e/ou praticam; e se consideram que a Educação Física deve ser uma disciplina optativa ou obrigatória.
1- O Que Menos Gostam na Escola
MENOS GOSTAM QUANT %
Sujeira 52 25,74%
Bagunça 36 17,82%
Falta de manutenção 30 14,85%
Falta de materiais 18 8,91%
Horário 20 9,90%
Professor 10 4,95%
Ensino 6 2,97%
Funcionário 13 6,43%
Matéria 8 3,96%
Falta de professor 8 3,96%
Outros 1 0,49%
TOTAL 202
100%

Na primeira questão, os alunos relatam que sujeira é o item que menos gostam na escola, 25,74% dos alunos não gostam da escola suja. E, como estão cientes de que essa questão está diretamente ligada a eles, uma vez que a escola dispõe de funcionários para a manutenção da limpeza, acreditam que precisa ser realizado um trabalho de conscientização.

Em segundo lugar, foi constatado que, apesar de estarem em uma fase em que se consideram bastante agitados, 17,82% não gostam da bagunça e procuram escolas mais disciplinadas, onde existam regras para ser cumpridas. Nesse sentido, paradoxalmente, boa parte dos alunos optou pelo CIEP Glória Roussin para terminar o Ensino Médio por ser notório, na região, que essa instituição estipula regras mais rígidas em seu cotidiano.

Já na avaliação da manutenção, que apresenta um bom número de apontamentos (14,85%), acreditam que os alunos também devam se conscientizar da necessidade de zelar pela escola. Percebe-se que uma minoria dos alunos se preocupa com a falta de professores (3,96%) e com o ensino (2,97%), esses alunos são conscientes de que há de se recuperar qualidade do ensino e percebem que seus colegas preocupam-se mais com o tempo ócio, sem aulas.
2- O Que Mais Gostam na Escola
MAIS GOSTAM QUANT %
Recreio 12 17,14%
Ensino 10 14,28%
Professor 10 14,28%
Organização 04 5,71%
Hora vaga 08 11,42%
Colegas 08 11,42%
Uniforme 01 1,42%
Nada 03 4,28%
Horário 02 2,85%
Escola 02 2,85%
Outros 10 14,28%
TOTAL 70
100%

O recreio ainda é o momento mais esperado pelos alunos, liderando a pesquisa no item do que mais gostam na escola (17,14%), deixando o ensino em segundo lugar (14,28%) e os professores em terceiro (14,28%). Esses dados entram em divergência quando comparado com a tabela anterior, na qual apenas 6,93% dizem estarem preocupados com o ensino e os professores.
Junto com o recreio, verificamos que as aulas vagas também despontam na apreciação discente. O que denota que os alunos estão dando mais crédito ao ócio do que à aprendizagem.
3- As Disciplinas que Mais Gostam, as que Menos Gostam e as que Consideram Mais Importantes

DISCIPLINA MAIS GOSTA MENOS GOSTA MAIS IMPORTANTE

Educação Física 44 22% 14 7% 18 9%
Matemática 31 15,5% 33 16,5% 56 28%
Português 19 9,5% 39 19,5% 48 24%
Ciências 18 9% 15 7,5% 19 9,5%
Língua Estrangeira 13 6,5% 25 12,5% 10 5%
Geografia 14 7% 17 8,5% 10 5%
História 13 6,5% 09 4,5% 06 3%
Química 16 8% 19 9,5% 13 6,5%
Física 14 7% 14 7% 14 7%
Artes 18 9% 13 6,5% 06 3%
Outras 0 0% 02 0% 0 0%
TOTAL 200
100,%
200
100% 200
100%

Neste item do questionário começamos a perceber como é vista a Educação Física na escola. 22% dos alunos a consideram como a disciplina que mais gostam, porém apenas 9% a consideraram a disciplina mais importante. Outro dado interessante é que os alunos, apesar de não gostarem de Português (19,5%), elegeram essa disciplina como uma das mais importantes da escola, com 24,% dos votos. A primeira colocada em importância foi a Matemática (28%).
4- Importância Creditada Especificamente à Educação Física
Sem importância 07 10%
Importante 55 78,57%
Branco 08 11,42%
TOTAL 70
100%

Quando argüidos sobre a importância específica da Educação Física na escola, os alunos se contrapuseram ao gráfico anterior, 78,57% a creditam importância. Fica sugerido que a importância dada à Educação Física é diferenciada. Assim, faz sentido supor que os alunos a interpretem enquanto uma atividade desvinculada dos componentes que tradicionalmente se fazem presentes nos currículos escolares, as disciplinas incorporadas ao eixo curricular.
5- Atividades de Educação Física que Aprenderam e/ou Praticam
Futebol 46 25,55%
Vôlei 41 22,78%
Queimado 34 18,89%
Handebol 33 18,33%
Basquete 23 12,78%
Outros 03 1,67%
TOTAL 180
100,00%


De acordo com os dados que indicam o que vem sendo transmitido aos alunos nas aulas, percebemos que os quatro esportes tradicionalmente trabalhados pela perspectiva técnico-esportiva ainda são a expressão máxima do currículo da Educação Física. Salvo a presença de um jogo popular - o queimado -, mas que também é considerado uma forma de preparação para o handebol, esses esportes representam 98,33% dos conteúdos tratados nessa escola. Os informantes classificaram em primeiro lugar o futebol, seguido do voleibol, queimado, handebol e basquete.
6- Com Relação à Obrigatoriedade da Educação Física
Optativa 33 47,14%
Obrigatória 21 30%
Sem resposta 16 22,86%
TOTAL 70
100,00%

Na última pergunta do questionário, tratada para o presente texto, dentre os alunos entrevistados, 47,14% consideram que a Educação Física deveria ser optativa. Consideram, em crítica à própria legislação (Brasil, 1996), que essa disciplina não deveria ser um componente curricular obrigatório. Apenas 30% dos alunos dão legitimidade à Educação Física e concordam com sua obrigatoriedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma vez que o escopo da pesquisa foi a análise das relações que a Educação Física trava no cotidiano escolar, sob o foco particular dos discentes da educação básica, explicitamos, ao final dos relatos quantificados, que os alunos conseguem vislumbrar os avanços e retrocessos de uma área educacional muito mais rápido do que poderíamos imaginar. Conseguem perceber quando determinada área vai bem ou não. O fato de não considerarem a obrigatoriedade da Educação Física mostra que essa disciplina não se legitima na escola a partir de valores educacionais considerados relevantes.

Constatamos que a maioria dos alunos sabe o que estão fazendo na escola, do que precisam e como ela deveria ser. Para tal, é bem verdade, seguem a lógica que credita a essa instituição o papel de transmissão de cultura através de uma seleção (curricular) dos conteúdos universais considerados mais relevantes. A partir dessa constatação, podemos inferir duas considerações: 1) é notória a tentativa de renovação do campo acadêmico e profissional da Educação Física nos últimos 25 anos, mas o anacronismo escolar desacelera esse processo. De tal modo que os alunos a consideram a disciplina que mais gostam e, influenciados pelas tradições, normas e ritos escolares, não a consideram importante; 2) os elementos que sempre legitimaram a Educação Física na escola, tais como a promoção da saúde ou do esporte de alto rendimento, permanecem hasteados mas não parecem mais seduzir nossos alunos para além de uma proposta de atividade complementar. Sob essa ótica, tais conteúdos e propósitos não estariam entre aqueles considerados legítimos pelos alunos. Provavelmente, para eles, tais conteúdos seriam vistos como opções recreacionistas. Mas não seria essa a realidade a eles ofertada?

Acreditamos que, mesmo sem conhecer teorias pedagógicas ou aquelas específicas da Educação Física, nossos informantes mostraram-se críticos o suficiente para discernirem quais disciplinas lhes oferecem os conteúdos que lhes agregarão informações culturais úteis para suas vidas. Desse modo, ou a Educação Física presente no cotidiano desses jovens passa a se estruturar de modo a desenvolver reflexões sobre os conteúdos da cultura corporal, agregando conhecimentos úteis para a emancipação dos seus alunos, ou, conquanto as determinações legais não o indiquem, continuaremos representando o papel de uma atividade complementar aos currículos escolares. E, confirmando essa última opção, talvez os alunos estejam certos em não considerá-la obrigatória.

Obs. Os acadêmicos Claudiomir do Nascimento Faria (claudiomir.faria@ubm.br) e Iuri Andrei de Castro (iuri.andrei@hotmail.com) e o profesor Ms. Alvaro Rego Millen Neto (amillen@gmail.com) são do Centro Universitário de Barra Mansa

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  •  Brasil, Congresso Nacional. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, n° 9.394/96. Brasília: Diário Oficial, 20 de dezembro de 1996.
  • Candau, Vera Maria (org.). Reinventar a escola. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
  • Darido, Suraya Cristina. A Educação Física na Escola e o processo de formação dos não praticantes de atividade física. In: Revista Brasileira de Educação Física e Esportes. São Paulo. Vol. 18, n.01, p.61-80, jan./mar. 2004.
  • ________ Educação física na escola: questões e reflexões. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 1999.
  • Lovisolo, Hugo. Educação Física: a arte da mediação. Rio de Janeiro: Editora Sprint, 1995.
  • Silva, Tomaz Tadeu. Documentos de identidade. 2ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2002.

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