Educação Física de F a Q

Por: Renato Sarti dos Santos.

X EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Este trabalho visa discutir a ausência de estímulos diversos nas aulas de Educação Física no Ensino Formal, no âmbito do 1º e 2º Ciclos do Ensino Fundamental. Porém, não basta somente detectar um fato e investigá-lo, sem a conseqüente sugestão de propostas para minorar o que se considera deficiente.

Esta análise se subdivide em três momentos distintos. Inicialmente são expostas as características de uma concepção prática denominada recreacionismo, e que é bastante utilizada no cotidiano docente. Após esta constatação da situação-problema, utilizamos nossa experiência no magistério do município de Cabo Frio, pertencente à Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro, para comprovar que a bola está intimamente associada a atividades como queimado e futebol. Além disso, a esfera em questão, impera como o objeto maior do desejo dos alunos. Por fim, colocamos em foco os jogos populares e propomos a retomada deste componente da cultura corporal como uma maneira de aumentar a possibilidade de vivências oferecidas ao corpo discente.

Temos a intenção de aprofundar este estudo para que elaboremos, de forma mais embasada, uma alternativa para que a mesmice freqüente em nossa área se transforme em um leque de meios e processos metodológicos mais diversificados.

A concepção recreacionista

Esta vertente da educação física é apresentada por Suraya Darido, em Educação Física na escola - Implicações para a prática pedagógica, e situa professor como um profissional de apoio no contexto pedagógico, permitindo ao aluno que determine a atividade que fará durante a aula. Os alunos têm liberdade para escolher atividades de sua preferência cabendo ao professor apenas cuidar de aspectos burocráticos, como fornecer material, controlar o tempo da aula, e em alguns momentos arbitrar a pelada. O professor não apresenta aspetos diretivos na sua aula.

A partir das críticas ao modelo esportivizante, predominante nas décadas de 60 e 70, surge esta tendência no ensino da Educação Física, na qual o professor tende a demonstrar passividade e apatia, contrastando com o estilo militar e autoritário característico de uma pratica que privilegia o esporte como conteúdo onipresente.

A tendência recreacionista não possui nenhum arcabouço teórico, ou seja, não existem teóricos ou estudiosos que tenham estudado ou refletido sobre os aspectos que levam a uma atuação que não privilegia a intencionalidade. A autora também afirma que esta ausência de material conceitual não diminui sua predominância no dia-a-dia da escola e reputa as causas desta alternativa a interpretações equivocadas do papel do educador físico no contexto escolar e uma formação deficiente do professor.

Por analogia, podemos comparar um regente de turma, cuja atuação se reduz a atitudes recreacionista, a um maestro que teria como principal função conduzir sua orquestra com as obras de sua escolha, mas permite que os músicos se auto-organizem e desenvolvam o repertório da apresentação. Dessa forma o maestro, que seria o regente do espetáculo se transforma em mais um espectador, não se diferenciando em quase nada do público que prestigia a atuação dos músicos. É o que acontece com o professor que torna sua prática docente um espaço superficial que poderia star sendo organizado por qualquer indivíduo sem conhecimentos e formação em Educação física que estivesse passando pela esquina da escola.

A inexistência de pressupostos teóricos que corroboram e fundamentam a vertente recreacionista comprova que esse professor não tem a intenção de justificar sua prática cotidiana, a não ser através de subterfúgios. A postura acionada como recurso de argumentação é se ancorar, de forma equivocada, no discurso que defende a promoção do lazer na escola, porém sem a vinculação dos aspectos pedagógicos. Seu trabalho cotidiano se resume a atividades isoladas e sem conexão entre si, voltadas para o lazer, sem que visem nenhuma autonomia do aluno. Se a Educação Física assume este papel catártico através do lazer, perde a função como disciplina no panorama do ensino formal. O professor recreacionista parece argumentar em um terreno instável, a beira de um abismo ou em solo arenoso, ao constituir uma prática superficial no contexto pedagógico.

Tio, cadê a bola ?

Iniciamos nosso magistério no mês de março, deste ano de 2006, e desde o princípio da prática docente no município de Cabo Frio, localizado na Região dos Lagos do Estado do Rio de Janeiro. Nossos alunos, pertencentes aos dois ciclos iniciais do Ensino Fundamental, nos supriram com algumas expressões de sentidos semelhantes. Tio, vamos pro campo, Vim de chuteira, Vai ter recreação ?, Ah, dá queimado,tio!, Vamos jogar bola, né? são as mais recorrentes. Estas atitudes discentes suscitaram um desejo de mudança em relação à expectativa da comunidade escolar em relação à Educação. Física. Buscamos, dando vazão a este inconformismo, provocar uma guinada, favorecendo uma maior transparência nos objetivos e posicionamento da disciplina como componente curricular dos ciclos do Ensino Fundamental, no quais atuamos. Temos atribuições inerentes que transcendem o simples ato de recrear e fazer brincadeiras com bola.

Constatamos, através de um diagnóstico com os alunos, funcionários e professores das escolas em que exercemos nossa docência, que as práticas anteriores de Educação Física eram influenciadas pela concepção militarista, com comandos. Também detectamos posturas caracterizadas pelo higienismo, em que verificamos alunos de quatro anos de idade solicitando atividades de flexibilidade e ginástica.

Mas o fato mais marcante na análise precursora do universo dos alunos com os quais iniciávamos o exercício do magistério, foi a confirmação de que as aulas de Educação Física do ano anterior se restringiam a de atividades livres em que as crianças adquiriam seu objeto máximo de desejo. Em seguida, os meninos praticavam o futebol e as meninas podiam jogar sua queimada.

A partir deste quadro observamos a necessidade de se investir intensivamente na consciência da comunidade escolar, que abrange professores, alunos, funcionários, pais. Nossa intenção primordial era mostrá-los que a Educação Física não se restringe a atividades com bola.

Durante o segundo mês do ano letivo tivemos esta oportunidade. Durante a reunião pedagógica tivemos um espaço para esclarecer algumas premissas equivocadas do corpo docente em relação à Educação Física escolar. Foram feitas críticas ao modelo anterior, pautado na recreação, buscando, dessa forma, uma posição relevante no cenário escolar, que facilitasse nossa participação e para que atingíssemos nossos objetivos pedagógicos. Foi sugerido aos demais professores que analisassem e questionassem a prática implementadas pelos educadores físicos inseridos no contexto escolar. Esta postura crítica iria facilitar a obtenção do fundamento teórico e se realmente haveria uma prática intencional voltada para o aspecto pedagógico. Conseqüentemente, seria possível verificar se o professor de Educação física estaria compromissado com a educação, ou desenvolvendo o esporte pelo esporte,

Em nossa análise, conceder uma bola para os alunos e permitir que eles batam sua bolinha, sem uma intervenção pedagógica, desvaloriza a intencionalidade do professor, que deve ser fundamental no cotidiano docente. Zenaide Galvão, que observou a prática diária de uma professora, afirma que um professor bem-sucedido, simplesmente se auto-classifica nesta categoria por não assumir posturas recreacionistas em suas aulas. Em seu discurso, o docente em questão, justifica sua prática através da expressão "não dá a bola e sai", (GALVÃO, 2002, p. 70)conceituando aqueles que seguem tal modelo como os profissionais mal-sucedidos. Consideramos que para sermos bem-sucedidos não basta somente dar a bola e ficar, como explicitaremos com mais detalhes na parte seguinte deste estudo.

Pobreza anunciada

Esperamos que, nesta fase do texto, o leitor já tenha identificado quais palavras as letras "F" e "Q" introduzem, conforme foi sugerido no título desta reflexão. Caso nosso desejo não tenha se concretizado, vamos auxilia-lo. Futebol e queimada ou queimado são as duas atividades em questão e em nossa análise servem para simbolizar uma carência de estímulos e vivências para os alunos dos dois ciclos iniciais do ensino Fundamental.

Ainda constatamos um ranço de concepções da Educação Física predominantes em décadas anteriores que estimulam a separação por gêneros. Meninos jogam futebol e as meninas se isolam, ou conseguem um espaço para jogar queimado. Esta postura é totalmente contrária ao que prega o Parâmetro Curricular Nacional de Educação Física , em seu quadro de objetivos gerais:

"conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sócio-cultural brasileiro, bem como aspetos sócio-culturais de outros povos e nações, posicionando contra qualquer discriminação baseadas em diferenças culturais, de classe sociais, de crença, etnias e de outras características individuais e sociais. (PCN de Educação Física, 1996, p. 12)

Em outro trecho do PCN, mais especificamente a que diz respeito aos objetivos gerais da Educação física no 1º ciclo, ocorre a recomendação de que o aluno deve "Participar de diferentes atividades corporais", e "conhecer, valorizar, apreciar e desfrutar de algumas das diferentes manifestações da cultura corporal" (PCN, 1996, p. 63,). O que corrobora nossa visão de que nossas aulas não podem estar restritas a dois jogos, se constituindo em um ambiente pobre de motivação. A palavra que defendemos para suprir esta mesmice de atividades é diversidade, que pode ser conotada como múltiplas vivências, conduta docente sugerida pelos PCNs.

Acreditamos que a ânsia discente por atividades restritas, como futebol e queimado e sua procura incessante basicamente por estes dois jogos reflete um reforço midiático e do próprio professor que aceita candidamente esta situação. Ao reproduzir sempre as mesmas atividades durante todo o ano de letivo, a prática docente da educação Física se torna limitada, mas os alunos se sentem contemplados em seus desejos imediatos e superficiais.

Para finalizar esta fase de identificação do problema propomos uma singela, mas incisiva subdivisão de níveis de pobreza de estímulos. Podemos notar duas formas de posturas básicas no ambiente de miserabilidade de componentes da cultura corporal utilizado pelos docentes. A conduta paupérrima, que é representada por uma linha aberta e sem regência firme, caracterizada, de forma sarcástica, pelo professor que lê jornal enquanto a bola rola, atuando de forma descompromissada. E a argumentação da prática desportiva que se justificaria por si só, na qual o professor utilizaria o esporte como fim em si mesmo, consistindo em uma performance pobre, porque restringiria sua participação, apesar de ativa, a um pequeno manancial dentro da abrangente área da educação Física.

A retomada dos jogos populares

Nossa sugestão para suplantar o quadro carente de estímulos diversos constatado no cotidiano escolar do município onde atuamos é uma revalorização dos jogos populares. Estes foram relegados a quase inexistência, com a massificação do esporte e sua superestimação no âmbito escolar e universitário, o que ocasionou sua predominância perante outras escolhas. Alguns autores, como Kunz e Hildebrandt, defendem esta atitude valorativa do esporte, que de forma indireta tornou ainda mais escassa a presença dos jogos tradicionais brasileiros no ensino formal. A aula de Educação Física reproduz na escola o que acontece no cotidiano extra-escolar, produzindo uma lacuna que não permite o reconhecimento de jogos populares.

Outra causa do recrudescimento dos movimentos dos jogos populares é o afastamento dos pais em relação aos filhos, devido ao ritmo frenético de trabalho dos dias atuais. Os familiares não possuem mais tempo de lazer para transmitir o conteúdo histórico de suas vivências para seus filhos, netos e sobrinhos. Dessa forma, cada vez mais as atividades infantis ficam restritas a atividades sedentárias vinculadas, a jogos e aparelhos eletrônicos, que se tornaram freqüentes a partir da década de 80.

Alexandre Mello afirma que na década de 30, através da industrialização emergente no Brasil houve uma concentração da população brasileira na região sudeste o que favoreceu a formação de um amplo conjunto de jogos populares das mais diversas regiões do país. Assim foi favorecida uma multiplicação de atividades que inclusive deu origem a mais jogos, que se constituíam no resultado da interpenetração de jogos precursores, ou de jogos parecidos que possuíam nomes diferentes, mas que, a partir de uma análise lidavam com o mesmo conteúdo.

"Contudo, o fenômeno urbano-industrial gerou também problemas graves que passaram a ameaçar a permanência de grande número de jogos populares junto às crianças. (MELLO, 1996, p. 74). Os terrenos baldios se extinguiram, as famílias se mudaram das casas com quintal para apartamentos cada vez menos espaçosos, e tiveram que aumentar a carga de horário de trabalho.

Os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, perpetuam o consumismo de brinquedos industrializados que tomaram o lugar de brincadeiras e jogos muito populares até 20 anos atrás, como a amarelinha e o pular corda. A tevê tem a capacidade de produzir jogos efêmeros e modas que se cristalizam e tornam-se referências. Pode-se exemplificar esta afirmação de forma respectiva, com as danças como o calipso, que na verdade é uma adaptação do carimbó maranhense e do futebol de alto nível divulgado pela mídia com sucesso há muitas décadas.

Conclusão

Através da análise do contexto da escolas onde atuamos, no município de cabo Frio, identificamos um panorama, que abrange conjunturas de escolas de outras redes municipais. Consideramos que este cotidiano restrito, que vai do futebol ao queimado e escasseia os estímulos dos alunos pode se atribuído a uma herança negativa acumulada por décadas, através de uma postura recreacionista, que denigre o potencial múltiplo da Educação Física no ensino formal.

O professor, em determinadas circunstâncias, de forma inconsciente reproduz do que é ditado pela mídia, privilegiando o esporte e, reforça o processo de marginalização os jogos populares. Para modificar este panorama é necessário que se conscientize deste processo de reprodução. Para assumir uma postura de revalorização dos jogos populares é preciso que o professor entenda a importância histórica deste conteúdo e sua função educativa. Este esclarecimento docente pode ser um esforço eficaz para que a Educação Física encontre um espaço próprio. Conseguindo se integrar de forma real à escola, atendendo à necessidade pedagógica deste espaço formal, através de uma prática reflexiva, que não favorece as mídias com uma docência ingênua. Só conseguiremos conscientizar se estivermos conscientes do contexto em que vivemos e atuamos.

Obs. Os autores, professores Renato Sarti dos Santos (sartigil@ibest.com.br) e Marcelo Dominguez Rodrigues Moreira (caminero5@yahoo.com.br) são da Prefeitura Municipal de Cabo Frio.

Referências bibliográficas

  • Brasil. Ministério da Educação e Desporto. Secretaria de Ensino Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1996 (Área: Educação Física; |Ciclos: 1 e 2 versão preliminar)
  • Darido, Suraya Cristina Educação Física na escola - Implicações para a prática pedagógica Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005
  • ¬¬¬__________ Educação Física na escola - Questões e reflexões. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003
  • Galvão, Z. Educação física: a prática do bom professor. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie Revista Mackenzie de Educação física e esporte Ano I Número (I) p. 65-72, 2002
  • Ghiraldelli, P. Educação física progressista: A pedagogia crítico-social dos conteúdos e a educação física brasileira. Rio Claro: Edições Loyola 6ª ed. , 1997
  • Kunz, E. Educação Física: Ensino e mudanças 2ª ed. Ijuí: Unijuí, 1991
  • Mello, Alexandre Moraes de Psicomotricidade, educação física e jogos infantis São Paulo: Ibrasa, 1989
  • Saviani, D. Escola e Democracia São Paulo Cortez: Autores Associados, 1988

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