Educação Física e masculinidade: uma posível história no colégio Pedro II.

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II EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 No Brasil, vários já são os núcleos de pesquisa que estudam as relações entre a Educação e a categoria gênero. Particularmente com relação à Educação Física, apesar de não termos notícias de cursos de pós-graduação que tenham o gênero como linha de pesquisa, também são relevantes as iniciativas isoladas dos/as pesquisadores/as que têm discutido o tema.


 Durante minha recente trajetória enquanto estudioso das relações entre a Educação, a Educação Física e a categoria gênero, percebi que a maior parcela dos trabalhos sobre a questão tem centrado suas discussões sobre o conjunto de opressões, controles e limitações que as mulheres têm sofrido historicamente em nossa sociedade. Todavia, longe de negar a importância e a pertinência destes trabalhos, parece que não temos procurado analisar as relações entre a Educação, a Educação Física e a formação daqueles que têm sido apontados como os opressores e controladores do grupo feminino, ou seja, os homens.


 Caso tal raciocínio não seja precipitado ou mesmo injusto, poderíamos estar melhor denominados/as como ‘estudiosos/as das mulheres’ do que ‘estudiosos/as do gênero’, já que a categoria gênero refere-se à "construções culturais - a criação inteiramente social de idéias sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres"(SCOTT, 1995, p.75). Ou ainda, segundo Ann Oakley (1972), o gênero enfatiza os processos sociais, culturais e psicológicos que constróem e/ou reproduzem a feminilidade e a masculinidade.
Assim, podemos inferir que existe uma lacuna na História da Educação Brasileira, e também da Educação Física, no que diz respeito às relações entre a escola e a formação dos meninos em homens.


 Segundo Guacira Lopes Louro (1995), uma compreensão mais ampla do gênero exige que pensemos não somente que os sujeitos se fazem homem e mulher num processo continuado, dinâmico. O gênero é mais do que uma identidade aprendida, é uma categoria imersa nas instituições sociais, o que implica admitir que a justiça, a escola, a igreja e outras são ‘generificadas’, ou seja, expressam as relações sociais de gênero.


 Louro (1986) alerta para o fato de que observar a posição histórica que a escola brasileira assumiu no processo de generificação é tarefa absolutamente fácil. A resposta seria que a escola ajudou a consagrar os tradicionais papéis femininos. Como salienta a autora, parece ser necessário ir além desta resposta imediata, ir além da aparência.


 Neste sentido, acrescentamos que, além de investigar as possíveis resistências que permearam os processos de opressão, controle e limitação sofridos pelas mulheres junto às instituições educacionais brasileiras, os estudos que possuem o gênero como categoria de análise deveriam também verificar como se deu a relação entre a escola e a formação dos meninos em homens.
A presente intenção de pesquisa pretende realizar um estudo de caso no Colégio Pedro II durante a segunda metade do século XIX e início do século XX com o objetivo de investigar e interpretar as possíveis relações entre a Educação, a Educação Física e a construção dos papéis masculinos a serem desempenhados na nova sociedade brasileira republicana.


 A justificativa do estudo reside na possibilidade de melhor compreender os códigos e os sentidos que nortearam as relações entre a Educação, a Educação Física e a formação do novo homem brasileiro republicano. Além disso, estaremos colaborando para o preenchimento de uma lacuna da historiografia da Educação e da Educação Física no Brasil: o estudo de suas relações com a construção do homem brasileiro.


 Educação Física e Masculinidade: Apontamentos Iniciais.
Como afirmamos anteriormente, a relação entre Educação Física e masculinidade não tem sido objeto de nossos/as autores/as .
Internacionalmente, as análises entre a Educação Física, o esporte e a construção social dos papéis masculinos têm merecido mais atenção e adquirido maior visibilidade no meio acadêmico.


 Para iniciar uma discussão semelhante frente à realidade brasileira, estaremos utilizando os apontamentos realizados por Pierre Bourdieu (1983), Eric Dunning (In: ELIAS, DUNNING, 1995) e James Mangan (1995;1996), ambos referindo-se às relações entre a Educação Física, o esporte e a masculinidade no contexto inglês.


 Pelo estudo de Dunning (op. cit.), podemos notar a natureza patriarcal do esporte moderno e a construção histórica de uma hegemonia masculina estabelecida ao seu redor. Fundamentalmente, o autor analisa o papel que o esporte [principalmente o futebol, o rugby e as lutas] desempenhou para a produção e reprodução de uma identidade masculina baseada na violência e no controle do poder.


 Na mesma direção, porém com mais refinamento, Mangan, em seus estudos (ibid), investigou as estratégias utilizadas pelo governo da Inglaterra no século XIX no sentido de formar o homem inglês através da criação cultural da imagem e do mito do guerreiro que se auto sacrifica. A fabricação da masculinidade na Inglaterra do século XIX é o foco dos estudos de Mangan. Neste sentido, ganharam papéis relevantes a arte, a literatura e, principalmente, a educação escolar. Assim, o esporte toma o lugar do jogo desinteressado e é utilizado nas ‘grandes escolas públicas’ como uma metáfora para a guerra, desenvolvendo a virilidade, a força, o espírito agressivo e competitivo necessários para o guerreiro.


 Também Bourdieu (op. cit.), ao analisar o surgimento e delimitação do campo esportivo na Europa, afirma que parece ser indiscutível que a passagem do jogo ao esporte propriamente dito tenha se dado nas grandes escolas ‘reservadas às elites’ da sociedade burguesa, nas public schools inglesas, onde os filhos das famílias da aristocracia ou da grande burguesia retomaram alguns jogos populares, isto é, vulgares, impondo-lhes uma mudança de significado e de função. Para Bourdieu (ibid), a partir da constituição de um campo das práticas esportivas, o esporte inglês é concebido como uma escola de coragem e de virilidade, capaz de ‘formar o caráter’ e inculcar a vontade de vencer, que é a marca dos verdadeiros chefes e futuros líderes.


 Portanto, pelas análises de Mangan, Dunning e Bourdieu podemos perceber as relações entre a Educação Física, o esporte e a construção/reprodução dos papéis sociais a serem exercidos pelos ingleses na passagem do século XIX para o XX.
Interessa-nos agora estudar como se deu esta relação junto à sociedade brasileira.


Colégio Pedro II: Um Estudo de Caso.


 As origens do Colégio Pedro II estão na fundação, em 8 de Junho de 1739, do Colégio dos Órfãos de São Pedro, exercida pelo frei franciscano D. Frei de Antônio Guadalupe.


 Somente em 1837, através de um Decreto Imperial assinado pelo Ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos, em homenagem ao Imperador no dia de seu aniversário [2 de dezembro], foi criado o Colégio Pedro II, cujo objetivo era fornecer instrução secundária a alunos internos e externos. Seu ensino foi composto por 7 séries, e propunha ministrar "uma educação de tipo aristocrática, destinada antes à preparação de uma elite do que à educação do povo" (SODRÉ, 1976, p.43).
Desde então, o estabelecimento tornou-se padrão de referência nacional na área da educação, passando por seus quadros docente e discente expoentes da intelectualidade brasileira.


 Originalmente, o CPII foi concebido como uma instituição educacional exclusiva para os meninos e rapazes. Somente em 1926, as meninas e moças começaram a ter acesso aos seus bancos escolares (BERENGUER, 1995).
 Essa instituição parece ser um local privilegiado para investigações que tenham como objeto as relações entre a educação formal e a categoria gênero, particularmente no que diz respeito à construção da masculinidade do homem brasileiro.


 Apesar da importância do Colégio Pedro II no cenário educacional brasileiro, poucas foram as pesquisas na área da História da         Educação Física que tematizaram especificamente esta instituição. Somente pelos estudos de Agnaldo Quintela Coelho (1995) e   Marcelo Berenguer (op. cit.) conseguimos obter algumas informações sobre a implantação e desenvolvimento da Educação Física no Colégio Pedro II.


 Segundo os autores citados, a Educação Física no Colégio Pedro II, sob a denominação de exercícios ginásticos, remonta ao ano de 1841 quando da nomeação do primeiro professor da disciplina Guilherme Augusto de Taube, cuja formação é desconhecida, e que tinha a proposta de realizar um trabalho de ordem corretiva. Porém, somente em 1855 os exercícios ginásticos foram oficializados na instituição, através do Decreto Federal 1556 de 17 de fevereiro que dispunha sobre a Regulamentação da Instrução Primária e Secundária no Município da Corte e que trazia um novo Regulamento para o Colégio Pedro II prevendo aulas de dança e exercícios ginásticos em seu currículo.


 Em seus estudos, Coelho (op. cit.) e Berenguer (op. cit.) vão apresentando, a partir de 1860, mais informações sobre o desenvolvimento da Educação Física no Colégio Pedro II. Particularmente, interessa-nos focalizar o ano de 1889, quando a partir da Proclamação da República, o Colégio Pedro II teve seu nome modificado. Passou a denominar-se Instituto Nacional de Instrução Secundária, com a intenção declarada de romper com todos os vínculos imperialistas.


 Já em 1890, pelo Decreto de 8 de novembro, surge a Reforma Benjamin Constant, que altera novamente o nome da instituição para Ginásio Nacional e apresenta forte influência positivista. Esta reforma previa a disciplina de ginástica, evoluções militares e esgrima no Ginásio Nacional, bem como seus respectivos professores.


 A Proclamação da República traz consigo um novo projeto para a sociedade brasileira e, portanto, um novo projeto de homem. Neste sentido, ganha relevância a educação, cuja orientação volta-se para a filosofia positivista.
 Nossa hipótese é a de que a Educação Física no Colégio Pedro II [na época Ginásio Nacional], a partir da Proclamação da República, começa a ganhar notoriedade e responsabilidade no sentido de colaborar para a formação do novo homem brasileiro republicano. E, neste sentido, é possível que não somente a ginástica tenha sido utilizada como meio, mas também o esporte.


 Segundo Inezil Pena Marinho (1956), um dos primeiros atos do governo após a Proclamação da República foi a criação do Ministério da Instrução Pública. Em um dos primeiros relatórios do Ministério, o Inspetor Geral da Instrução Pública, Ramiz Galvão, faz referência à situação da Educação Física até então, preocupando-se em incentivá-la: "Em relação à Educação Física há um verdadeiro mundo novo a abrir-se nas escolas. Quase em todas elas está esquecido ou comprometido esse ramo da educação [...] é raro o prédio escolar dotado de um pátio ou jardim anexo que se preste ao recreio ou aos jogos infantis [...] toda esta parte do programa escolar carece de execução satisfatória " (p.166) .


 Em 1892 é criado um novo Regulamento para o Ginásio Nacional onde fica caracterizada a importância que ganha a Educação Física, já que seu desenvolvimento passava a ser de responsabilidade do diretor e do vice-diretor da instituição: "O diretor e o vice-diretor do Ginásio procurarão desenvolver em seus alunos o gosto pelos exercícios de tiro ao alvo, de besta, tiro de flechas, exercícios ginásticos livres, saltos, jogos de volante, etc [...] Mediante consentimento do diretor, poderão os lentes e professores do Ginásio incumbir-se desses passeios e do ensino dos jogos escolares que convém divulgar. São permitidos como jogos escolares: a barra, a amarela, o futebol, a peteca, o jogo de bola, o ‘cricket’, o ‘lawn tennis’, o croché, corridas, saltos e outros, que a juízo do diretor, concorram para desenvolver a força e a destreza dos alunos, sem por em risco sua saúde" (In: ibid, p.45).
 Nossa hipótese parte de reflexões que tentam estabelecer comparações entre a atuação da Educação Física nas escolas brasileiras e inglesas no século XIX. Será que o esporte foi utilizado nas escolas brasileiras de maneira semelhante às escolas públicas inglesas do século XIX?


 Neste sentido, recorremos a Bourdieu (op. cit.), que fazendo referência à delimitação do campo esportivo e às transformações ocorridas no contexto sócio-educacional da Inglaterra, afirma que, mais do que a questão específica do esporte nas escolas inglesas, "o que está em jogo [...] é uma definição da educação burguesa oposta à definição pequeno-burguesa e professoral: é a ‘energia’, a ‘coragem’, a ‘vontade’, virtude de ‘líderes’ e talvez sobretudo a ‘iniciativa’ (privada), o ‘espírito de empresa’, contra o saber, a erudição, a docilidade ‘escolar’, simbolizada pelo grande liceu-caserna e suas disciplinas" (p.141).


Poderíamos refletir de maneira semelhante sobre o panorama brasileiro a partir da Proclamação da República?


 O ‘grande liceu-caserna’ a que se refere Bourdieu poderia ser representado no Brasil pelo Colégio Pedro II?
 Como a nova Educação Física do Ginásio Nacional atuou para a formação do novo homem brasileiro republicano?
 A filosofia positivista teve influência sobre a utilização da Educação Física para este objetivo?

 Assim como na Inglaterra, o esporte foi um dos conteúdos privilegiados para desenvolver a ‘energia’, a ‘coragem’, a ‘vontade’, virtude de ‘líderes’ e a ‘iniciativa’ no novo homem brasileiro republicano?
Essas são as principais questões que orientarão nossa pesquisa.

Referências Bibliográficas

Berenguer, Marcelo Torné. O Colégio Pedro II e seus lembradores - anos 20. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UGF, 1995.
Bourdieu, Pierre. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.
Coelho, Agnaldo Quintela. História Oral: lembranças e reconstrução da Educação Física no Colégio Pedro II - 1930 a 1937. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: UGF, 1995.
Dunning, Eric. El deporte como coto masculino: notas sobre las fuentes sociales de identidad masculina y su transformaciones. In: Elias, Norbert, DUNNING, Eric. Deporte Y Ocio en el proceso de la civilizacion. México: Fondo de Cultura Económica, 1995.
Faria Júnior, Alfredo Gomes de. A mulher idosa e as atividades físicas sob o enfoque multicultural. In: Romero, Elaine (ed.). Mulheres em movimento. Vitória: Edufes, 1997.
Louro, Guacira Lopes. Prendas e antiprendas: educando a mulher gaúcha. Educação e Realidade, Porto Alegre, v.11, n.2, p.25-56, jul./dez., 1986.
Louro, Guacira Lopes. Gênero, História e Educação: Construção e desconstrução. Educação e realidade. v.20, n.2, julho/dezembro, 1995.
Marinho, Inezil Penna. História Geral da Educação Física. São Paulo: Brasil, 1956.
Mangan, James. ‘Muscular, Militaristic and Manly’: The British Middle-Class Hero as Moral Messenger. London: Frank Cass Journals, 1996.
Magan, James. Duty and Death: English Masculinity and Militarism in The Age of the New Imperialism. London: Frank Cass Journals, 1997.
Oakley, Ann. Sex, gender and society. London: Temple Smith, 1972.
Scott, Joan. Gênero: Uma categoria útil da análise histórica. Educação e realidade, v.20, n.2, julho/dezembro, 1995.
Sodré, Nelson W. Síntese de História da Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
Souza, Eustáquia S. de. Meninos, à marcha! Meninas, à sombra! - A história do ensino da Educação Física em Belo Horizonte (1887-1994). Tese de Doutorado. Campinas: Unicamp, 1995.

 

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