Educação Física Noturna: Uma Experiência de Inclusão e Adesão

Por: André de Brito Oliveira.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Justificativa

Entendendo sua importância para a Educação, a Educação Física passa a compor a grade curricular também do Ensino Noturno de caráter facultativo. Devemos interpretar que a facultatividade da lei referida não é para a escola ou o sistema ao qual está inserida e sim, para o aluno. Logo, os Sistemas de Educação devem oferecer o ensino da disciplina em sua grade curricular.

Tudo isto é muito novo para quem, até então, ministrava aulas para crianças e adolescentes, considerando que o público-alvo agora, trata-se de adultos que trabalham durante todo o dia e que à noite, buscam novos conhecimentos. Esta clientela adulta, em geral, é composta de avôs e avós, pais e mães, jovens e até adolescentes acima dos 14 anos de idade. Neste sentido, pela heterogeneidade do grupo, a exigência de uma proposta pedagógica também diferenciada é necessária. As Unidades Escolares, até então, justificava a não inserção da disciplina ao currículo porque os alunos já vinham cansados do trabalho e o sistema aplaudia, pois seriam menos docentes para admitir. Tais justificativas do sistema e das escolas carregam consigo um certo preconceito conturbado: será que existe apenas a Educação Física dos testes físicos e dos jogos com bola? Será que o próprio sistema ainda não reconheceu a Educação Física como um processo de ensino voltado para a educação e formação do indivíduo, este em que faixa etária ou sistema estiver? Acredito que seja apenas uma questão de proposta e holística para estas questões.

Proposta pedagógica para a educação de jovens e adutos e ensino médio:

A partir da análise do grupo discente com base em uma conversa informal registrada para discutir questões como, por exemplo, "o que era a educação física para eles?", o que eles pensavam a respeito da implantação de mais esta disciplina no currículo?" e se fosse uma disciplina aceita por todos, "o que eles gostariam de estar aprendendo nas aulas", obteve-se em consenso, os seguintes objetos de interesse apresentados em uma notável tríplice divisão:

Atividades profiláticas e recuperativas:

Nutrição / alimentação , Saúde / doenças , Alongamento, Ginástica, Correção de postura, Relaxamento

Esportes com e sem bola:

Basquetebol, Futebol, Handebol, Voleibol, Dança, Capoeira, Atletismo

Atividades recreativas:

Queimado, Amarelinha, Piques, Pula-corda, Elástico, Cabo-de-guerra, Dança da corda, Bambolê (arco), Entre outros
Ao interpretarmos estas respostas dos alunos, notamos que a Educação Física parece permanecer intacta com os seus objetos de trabalho: a prática das atividades corporais lúdicas e desportivas presentes sob os aspectos levantados como as atividades esportivas e recreativas. Mas o que nos chama a atenção é a presença da preocupação com a saúde. Não aquela dos jovens em manter-se em boa forma física, como protótipo social, mas estarem informados a respeito das doenças relacionadas ao corpo e a relação destas com as atividades físicas; a manutenção da saúde; a profilaxia de doenças já hospedadas; a alimentação para uma vida saudável. Ao analisarmos as brincadeiras, vemos um traço marcante no público pesquisado: o estado de ego da criança que não morreu, através das citações das atividades da cultura corporal de cada um em épocas de criança.

Estes dados são suficientes para reconhecer e validar de vez a Educação Física no Curso Noturno. Estas exigências marcantes de notáveis peculiaridades predispõem a uma metodologia eficaz e segura do ponto de vista docente, haja vista a insegurança temerosa daqueles que até então não tinham experiência na área e da visão limitada que pedagogos, orientadores e outras áreas do conhecimento tinham da Educação Física.

Enfim, considerando todos estes fatos, emerge então as seguintes metas de trabalho distintamente por grupos de atuação:

Grupo A:

Este grupo, composto por turmas em processo de alfabetização ( CA, I, II, III, IV fases), terá um trabalho de cunho recreativo-socializativo e recuperativo-profilático.

Grupo B:

Este grupo, composto pelas turmas das fases V, VI, VII e VIII do curso supletivo mais o curso regular do ensino médio, propõe-se um trabalho recreativo pré-desportivo e esportivo, por considerar o nível de idade do grupo e a cultura corporal dos mesmos, além do trabalho desenvolvido no grupo A.

Metodologia em acordo com as metas


Recreativo socializativo e recreativo-profilático:

Recreação com jogos simples, de grupo, de baixíssimo impacto e de socialização. Atividades profiláticas como a ginástica para 3ª idade, ampliação das condições cardiovasculares e cardiorespiratórias e ginástica corretiva além de noções básicas de saúde.

Recreativo pré-desportivo e desportivo:

Recreação de grandes jogos, de grupos ou não, de impacto mais acentuado predominando os jogos cooperativos e de socialização.

Atividades esportivas (jogos) respeitando o desempenho do grupo e as relações da atividade para com a qualidade de vida, bem como aqueles previstos nas metas supracitadas.

Para justificar tal dicotomia de metas para alcançar os objetivos a serem propostos, fora o considerável filtro porque passam os educandos dentro do sistema de educação brasileira e, aqui especialmente, da nossa rede estadual de ensino. É comum vermos nas séries iniciais do curso noturno, um público discente mais "maduro", com um nível de idade mais elevado. Considerando fatores morfofisiológicos próprios desta idade, chega-se ao consenso de que atividades práticas devem conter-se a integração do grupo, a socialização, a cooperatividade, a manutenção da saúde entre outros, ao contrário daqueles das séries que envolvem alunos da V a VIII fases, que geralmente são mais novos cronologicamente e dispostos fisicamente para atividades que exijam maior trabalho físico. Além disso, não podemos deixar de lado a peculiaridade da presença de doenças degenerativas e adquiridas próprio da idade. Os grupos marcados pelo nível de idade mais elevado estão, fisiologicamente mais predispostos a fragilidade neuromotora pela fatigabilidade e degeneração natural do organismo.

Nestas linhas, toda e qualquer atividade a ser proposta deve considerar todos estes fatores não como empecilhos para a realização da prática, mas como uma cautela preexistente desde o planejamento e que finaliza com cuidado redobrado na realização efetiva das ações, principalmente motoras.

Avaliação do processo ensino-aprendizagem no ensino de educação física noturna

Devemos antes de tudo, entendermos a distinção entre avaliar e medir. A partir daí, surge outras questões como, por exemplo, como avaliar esta nova clientela: os alunos do curso noturno? Será com provas escritas ou testes de habilidades motoras e capacidades físicas? É obvio que a forma de avaliação deverá sofrer influência da formação do grupo, seus interesses e peculiaridades. Deve-se considerar aqui não a técnica aprendida; não o desempenho físico ascendido; mas, sobretudo, a qualidade de vida adquirida - seja de si ou das relações de convívio social - decorrente do processo ensino-aprendizagem.

Cabe ressaltar o fator motivação dos alunos que participam da aula. Comumente, podemos observar alunos portadores de alguma seqüela (artrose, hérnias de disco, hipertensão entre outros) que merecem uma maior compreensão e apreço. Uma Educação Física que dê compreensão profilática das condições morfofuncionais do aluno, proporcionando bem estar a partir da inclusão, leva-o, mesmo que indiretamente, a participar das aulas com prazer, de livre e espontânea vontade e, não, porque o sistema incluiu mais uma disciplina no currículo, seja ela facultativa ou não.

Segundo POWERS (2000) "o exercício tem sido utilizado como uma intervenção não-farmacológica em vários problemas, tais como a obesidade e a hipertensão leve, e como parte normal do tratamento do diabetes e da doença coronariana." (p. 300)

Não se trata aqui de reabilitar ou realizar trabalhos exclusivamente com grupos especiais, mas fazer com que os alunos entendam que vários benefícios orgânicos são adquiridos quando há adesão de alguma prática de atividade física que lhes agradem e lhes façam bem.

O fator motivação neste caso é de extrema relevância, pois em geral, alunos do curso noturno formam um grupo de pessoas cronologicamente mais maduras. Neste caso, o trabalho lhes toma tempo de lazer, de cuidar de si mesmos, como é o retrato da sociedade moderna. Incentivar para a adesão não somente às atividades da aula de Educação Física Escolar, mas para uma mudança de hábitos e conceitos sobre saúde é fundamental para que benefícios fisiológicos se instalem. Neste sentido, a avaliação deve considerar o entendimento que o aluno passou a ter de si e das relações humanas envolvidas; não apenas como protocolo avaliativo, mas como absorção de conhecimentos relevantes e de utilidade diária à sua saúde.

O autor, André de Brito Oliveira, é professor do CIEP 148 - Prof. Carlos Hélio Vogas da Silva, localizado no Município de Araruama, RJ.

Bibliografia:

  •  Powers, Scott K. Howley, Edward T. Fisiologia do Exercício: teoria e A Aplicação ao Condicionamento e ao Desempenho. Ed. Manole, 1ª edição, São Paulo, 2000.
  • Lei de Diretrizes e Bases da Educação Fundamental 9394/96
  • Araújo, Cláudio Gil Soares de. Fundamentos Biológicos: medicina desportiva. Ed. Ao Livro Técnico, Rio de Janeiro, 1985.
  • Dieckert, Jürgen. Elementos e princípios da educação física: uma antologia. Editora Ao Livro Técnico, Rio de Janeiro, 1985.
  • Thomas, Alexander. Esporte: introdução a psicologia. Ed. Ao Livro Técnico, Rio de Janeiro, 1985.
  • Souchard, Ph.E. O stretching global ativo: a reeducação postural a serviço do esporte. 1ª edição brasileira, ed. Manole ltda. São Paulo, 1996.
  • Oliveia, André de Brito. ARPE: alongamento reeducativo da postura em escolares. VII Encontro Fluminense de Educação Física Escolar. Universidade Federal Fluminense, Departamento de Educação Física e Desportos. Niterói, 2003.

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