Educação Física: Teoria e Cotidiano na Escola

Por: Mariane Borges Cantarino e Themis de Farias Nascimento.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Apresentação

Depois de aprovado em concurso público para o magistério o professor, de um modo geral, se depara com uma realidade social e econômica, nas escolas, que dificultam, muito, a prática docente. Percebe-se que existe um abismo entre as teorias estudadas nas Faculdades de Educação Física e o que o professor encontra nas escolas em que leciona.

Quando defrontamos as teorias idealizadas (Leis, Parâmetros e propostas) que norteiam a Educação em geral, e a Educação Física em particular, e a realidade do cotidiano que encontramos nas escolas públicas, percebemos a grande distância que existe entre a teoria apregoada e as condições prática para realiza-las. As dificuldades constatadas geraram em nós uma série de conflitos que ora dão origem a esse artigo.

A questão do estudo

A história do Brasil sempre foi marcada pelo autoritarismo, pelo desrespeito a classe trabalhadora, pela dominação política e social. A produção da desigualdade no nosso país data da vinda dos portugueses. É histórico o grande abismo entre a classe dominante e os camponeses e assalariados em geral. Fossem os senhores da cana de açúcar, do café, do cacau ou do algodão os detentores da riqueza e do poder, a situação das camadas pobres da população sempre foi de penúria. A industrialização do país nas duas primeiras décadas do século XX não alterou a situação do proletariado. Para poder competir à burguesia requeria para si medidas protecionistas e pagava baixos salários. Perpetuando dessa forma a miséria dos menos favorecidos que com a industrialização saiam do campo em busca de emprego nas cidades onde vendiam sua força de trabalho a qualquer preço (SOUZA, 1991).

A situação não se alterou, o que pode ser percebido por alguns indicadores sociais, mais recentes. Para que se tenha uma melhor compreensão do significado desses índices utilizarei indicadores que continuam nos apontando que as desigualdades no Brasil estão longe de desaparecer. Segundo a estimativa da UNICEF, há no Brasil 200 mil crianças vivendo do "lixo", cada um dos quinhentos lixões abrigam cerca de 400 menores (o Globo 8/12/1997). Em relação a educação, segundo o Inaf (Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional ), somente 25% da população tem domínio da leitura e um em cada quatro brasileiros é analfabeto ou não consegue ler e escrever com precisão (o Globo 9/09/2003 ).

As propostas

As várias leis e propostas oficiais como a LDB, PCNS, a proposta Multiculturalista da prefeitura do Rio de Janeiro trazem, no seu bojo uma série de indicações de como a educação deve ser conduzida. Entretanto, essas leis e propostas estão completamente distanciadas da realidade, tanto no que concerne as suas aplicações quanto com relação às perspectivas de mudanças.

Apresentamos a seguir um trecho da constituição brasileira para discussão:

"Capitulo III da educação, da cultura e do desporto. Seção I da Educação. Art. 205 - A - Educação direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua classificação para o trabalho. Art. 206 - I - igualdade de condições para acesso e permanência na escola".

Enfatizamos em negrito dois trechos que entendemos, merecerem comentários, tendo em vista as condições de vida do povo brasileiro, em especial a dos alunos das escola em que lecionamos. As perguntas que fazemos são: é realmente possível se alcançar o desenvolvimento "pleno"? Quantos são os brasileiros que tem direito a "cidadania"? E a resposta é: É obvio que milhares de crianças brasileiras não têm as mínimas condições de "acesso e permanência na escola".

O sistema excludente que nos rege vem perpetuando uma nação na qual uma pequena minoria desfruta dos privilégios, do conforto e das facilidades do primeiro mundo enquanto a maioria esmagadora da população vive as agruras do terceiro mundo.

Apesar do quadro flagrante de desolação, a Educação Física brasileira, continua se pautando segundo as diretrizes dessa disciplina, utilizado pelos países capitalistas de primeiro mundo. Podemos dar um exemplo ilustrativo dessa situação. Na década de 60 os problemas decorrentes da inatividade e da obesidade foram reconhecidos como um problema de saúde pública nos Estados Unidos. A verdade que naquele país as pessoas comiam demais e alimentos riquíssimos em caloria, e não se exercitavam. No Brasil o que tínhamos eram problemas de desnutrição, alimentação precária e em contrapartida, pessoas fazendo uma quantidade razoável de exercícios. É obvio que estamos falando de uma classe brasileira, majoritária, pois existe, de fato, uma parcela da população brasileira que tem as mesmas necessidades da população brasileira que tem as mesmas necessidades da população dos Estados Unidos.

A Educação Física tem sido mero reflexo do que acontece na sociedade em geral e conseqüentemente tem cumprido o papel de perpetuar os valores da classe dominante. O que fica mais evidente durante os períodos ditatoriais. Durante o Estado Novo a Educação Física foi utilizada como meio de desenvolver o patriotismo e cultivar o civismo para doutrinar as pessoas tornando-as leais ao Estado.

Na época da Ditadura Militar utilizaram à Educação Física para atingir os seus objetivos. O desporto foi amplamente utilizado pelos militares com o objetivo de afastar os alunos das atividades políticas. Durante esse período, os jogos Estudantis e universitários, receberam enormes incentivos por parte desses governos (CASTELLANI FILHO, 1998).

Esse estudo entende que a sociedade brasileira é injusta e autoritária. Essa situação é mantida por uma Ideologia alienante que mascara a realidade ocultando os conflitos. A Educação Física assim com a Educação em geral, também fazem parte desse sistema e reforçam os valores da classe dominante.

Características da clientela, comunidade e das escolas.

Trabalhamos em escolas da periferia, composta de inúmeras favelas que são controladas por facções criminosas. As escolas atendem aos filhos de classe trabalhadora na sua maioria vivendo em condições de miserabilidade. Local em que a violência é uma constante e a lei que rege a vida dos moradores é a do tráfico de drogas. Nossos alunos oriundos desse meio expressam em seus comportamentos a desmotivação e a descrença. O cotidiano dessas crianças é de violência e desesperança. Diariamente as ouvimos comentarem sobre, as rivalidades nas favelas, os tiroteios quase diários e os "bailes funks" em que os traficantes torturam e matam. Mais de uma vez os alunos já nos relataram os assassinatos executados com requintes de crueldade. Essas cenas acontecem diante de todos e fatos como esse, são assunto do cotidiano da escola.

Um outro comentário que as crianças costumam fazer é que na família deles há pelo menos um familiar envolvido no tráfico ou algum parente que esteja preso. Esses fatos são tratados com normalidade.

Um outro fator que dificulta em muito o trabalho dos professores é a sexualidade descontrolada dos adolescentes que iniciam a vida sexual entre 11 e 13 anos, e o resultado é a gravidez precoce de inúmeras meninas. Para muitas delas isso não é problema, pois segundo elas, é só arranjar um crente para assumir o filho. Um dos maiores desejos dessas meninas e se tornarem mulher do chefe do tráfico de drogas e dessa forma conseguirem dinheiro e poder.

Após ter estudado as leis e diretrizes governamentais para Educação Física brasileira, além das propostas de vários estudiosos da área, optamos por tomar como referência para a nossa prática, a tendência conhecida como Crítico Superadora.

A proposta crítico superadora

As pedagogias até então empregadas pela Educação Física tem se baseado na lógica formal e na transmissão do conhecimento técnico.

Estas pedagogias são acríticas, pois não tem a preocupação de relacionar os conteúdos com a realidade social (SOARES, 1991).

A proposta Crítico Superadora tem como fundamentação os pressupostos Marxistas ela destaca a função social da Educação Física na escola. O seu objetivo é viabilizar os interesses da classe trabalhadora que são: "a necessidade de sobrevivência, a luta cotidiana pelo direito ao emprego, ao salário, a alimentação, ao transporte, a habitação, a saúde, a educação, enfim a condições dignas de existência. (SOARES, 1991, p.24) " Nessa proposta os conteúdo da educação Física não fica restringido ao esporte, como conteúdo único e hegemônico, e sim, como um deles juntamente com a dança, a luta, a expressão corporal a mímica. Esses conteúdos são denominados pelos autores da proposta como "cultura corporal" que adota a dinâmica de utilizar os conteúdos para levar os alunos a refletirem, procurando situá-los com a relação à realidade em que vivem.

Como exemplo de aplicação da proposta utilizaremos o futebol, esporte de grande popularidade no mundo, mas particularmente no Brasil onde é tido como a"paixão Nacional." O ensino do futebol vem sendo restringido aos gestos técnicos e as movimentações táticas. Consideramos que a escola deva ser um local de transmissão de conhecimento e, sobretudo de reflexão sobre esse conhecimento. " A fascinação que o futebol causa em milhões de pessoas no Brasil e no mundo, o número de termos próprios do futebol utilizados na nossa linguagem corrente e nas músicas, parecem ser motivos suficientes para que o ensino do futebol na escola não seja reduzido aos gestos mecânicos. Não podemos deixar de discutir essa riqueza de informações e enfocar o futebol destacado da realidade em que ele está inserido deixando de utilizar esse esporte como um instrumento de conscientização dos alunos.

Com base nesse pressuposto mencionaremos a seguir alguns tópicos que ilustram a necessidade de se considerar o futebol para além do ensino do gesto mecânico.

"Na prática a copa do mundo já encerra uma disputa direta entre empresas que comandam os espetáculo orientadas para a valorização de suas mercadorias, incluindo a principal os jogadores (CARRANO, 2000)".

As brigas entre torcidas.

O uso que foi feito do futebol durante a ditadura militar iniciada em 1964, para encobrir as arbitrariedades cometidas contra os opositores do regime.

Discutir a probabilidade que uma pessoa tem de se tornar um ídolo como Ronaldinho.

Apesar de entender que o aluno com fome, ameaçado na sua integridade física e psíquica e sem perspectivas, dificilmente poderá ser motivado e aprenderá, entendemos ser necessário adotar uma pedagogia que leve o aluno a refletir, procurando situá-lo com a relação à realidade. Apesar do ceticismo que ora temos, nos propomos a tentar desenvolver a Proposta Crítico Superadora, por entender ser a ela que tem melhor potencial par provocar as mudanças que entendemos serem necessárias.

As autoras, Mariane Borges Cantarino é professora do Município de Teresópolis e do Estado do Rio de Janeiro e Themis de Farias Nascimento é professora do Estado do Rio de Janeiro (FAETEC) e do Município do Rio de Janeiro

Referências bibliográficas

  •  Carrano, Paulo César, R. Ronaldinho: ídolo esportivo ou mercadoria global? In: Carrano, Paulo César, R. Org. Futebol paixão e Política. Rio de janeiro: D&P, 2000.
  • Castellani Filho, Lino. Educação Física no Brasil: a história que não se conta. São Paulo. Papirus, 1988.
  • Chauí, Marilena. Cultura e Democracia. São Paulo: Cortez, 1990.
  • Melo, Vítor Andrade de. Futebol que história é essa. In Carrano, Paulo César, R. Org. Futebol paixão e política. Rio de janeiro D&P, 2000.
  • Oliveira, Inês B. et al. Futebol: os santos guerreiros contra o dragão da maldade. In:
  • Carrano, Paulo César, R. Org. Futebol paixão e política. Rio de janeiro D&P, 2000.
  • Soares, Carmem Lúcia et al. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1993.
  • Souza, hebert de. Escritos indignados: democracia x Neoliberalismo no Brasil. Rio de Janeiro: IBASE, 1991.

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