Educação Infantil e a Formação de Professores em Periódicos de Educação Física (1973 – 1999)

Por: Kezia Rodrigues Nunes.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Esta investigação focaliza a análise acerca da formação de professores e o contexto da Educação Infantil, pesquisando o que as produções presentes em periódicos de Educação Física discutem sobre essa temática, com base na produção de referências de artigos apresentada no Catálogo de Periódicos de Educação Física e Esporte (1930-2000) (FERREIRA NETO, 2002). A pesquisa abrange o exame da bibliografia pertinente, inventário das fontes (identificação, localização, compilação e fichamento dos dados) e análise dos dados. O perfil teórico-metodológico da pesquisa incorpora contribuições da área da Educação, em especial da Educação Infantil e Formação de Professores e da Educação Física. O trabalho foi organizado em três momentos: o primeiro refere-se ao estudo da infância no Brasil, focalizando a construção histórica da Educação Infantil, sua especificidade, currículo a ser trabalhado e a formação de professores; o segundo momento trata da apresentação dos artigos dos periódicos da Educação Física na Educação Infantil; o terceiro analisa a reflexão apontada pelo corpus documental.

A literatura pertinente mostra um contexto recente em termos de pesquisa, marcado por conflitos de todos os tipos: de identidade, currículo, fundamentação teórica, implementação, entre outros. A interpretação histórica sobre a Educação Infantil revela a criação das instituições infantis no País por influências principalmente européias, e sua destinação social passa por assistencialismo, guarda, compensação de carências culturais e afetivas, complemento para a escola primária, além de experiências que favorecessem o desenvolvimento natural das crianças, de acordo com vivências de outros países que, como afirma Rocha (1999, p. 46), [...] evidencia uma preocupação com a criança e com uma delimitação etária que decorrerá no desenvolvimento de novos campos científicos tais como a Biologia e a Psicologia infantil, que vão ocupar-se basicamente de uma caracterização das etapas do desenvolvimento infantil.

Assim, não se pode ignorar, conforme declara o autor Debortoli et al. (2001-2002), que, do casamento entre Pedagogia e Psicologia herda-se a mania de selecionar, classificar e hierarquizar o desenvolvimento das crianças como se eslas constituíssem páginas em branco nas quais, pouco a pouco, fossem deixandas as marcas mais adequadas segundo o modelo evolutivo que se tem em mente, sempre operando com estágios, fases ou etapas construídas abstratamente, tendo-se a presunção do controle e da previsibilidade.

Pode-se observar que as recentes produções da Educação Infantil (ROCHA, 1999; KUHLMANN JÚNIOR, 2000, 2003; DEBORTOLI et al. 2001-2002; LANTER-LOBO, 2003; NASCIMENTO, 2003) têm enfatizado a necessidade de contemplar o educar-e-cuidar intrínseco em sua proposta e apontam o entrecruzamento de diferentes áreas - Educação, Psicologia, Antropologia, Sociologia, História, Saúde, Serviço Social, Educação Física, Lingüística, Arquitetura, Artes, Letras - pressupondo um trabalho de organização coletiva e integrada, no qual a criança é vista como um todo, em que a brincadeira, as interações e as diferentes linguagens são o eixo do trabalho pedagógico da Educação Infantil, sem a fragmentação de funções e áreas de conhecimento, longe do modelo escolarizado. Kuhlmann Júnior (2003) afirma que não é a criança que precisa dominar conteúdos disciplinares, mas as pessoas que a educam, partindo da especificidade do ser criança nas suas diversas formas de manifestação, viabilizando a constante reflexão da docência. Dessa forma,

[...] uma instituição pode ser educacional e adotar práticas e cuidados que ocorrem no interior da família, sem precisar escorar-se em uma divisão disciplinar que compartimenta a criança. A instituição pode ser escolar e compreender que para uma criança pequena, a vida é algo que se experimenta por inteiro, sem divisões hierarquizadas. Que para ela, a ampliação do seu universo cultural e o conhecimento do mundo, ocorre na constituição de sua identidade e autonomia, no interior do seu desenvolvimento pessoal, diferentemente da segmentação proposta (KUHLMANN JÚNIOR, 2003, p. 65).

Além disso, é possível visualizar, conforme esclarece Nascimento (2003), que a nova LDB nº 9.394/96, que determina a Constituição de 1988, estabelece que a Educação Infantil é um direito da criança de zero a seis anos e um dever do Estado, que deve oferecer, gratuitamente, atendimento em creches e pré-escolas, independentemente da condição social da criança; mas não é obrigatória, sendo prioridade legal e institucional o ensino fundamental. Agora as crianças pequenas são contempladas como cidadãs de direitos na Constituição, no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), na LDB, no Plano Nacional de Educação e ainda nos polêmicos Referenciais Curriculares Nacionais de Educação Infantil (RCNEI). Entretanto, em nenhum dos referidos documentos, a questão da formação do profissional para o trabalho com a Educação Infantil é destacada, assim como as condições e formas de implementação para efetivá-la.

Diante disso, um desafio para este novo milênio é: lutar pela obrigatoriedade da matrícula da criança de zero a seis anos, garantir o papel do professor pela profissionalização e valorização nas instituições de Ensino Infantil, que exigem a função de cuidar e educar, mesmo sabendo que os mecanismos atuais de formação, especialização e atualização não contemplam esse duplo trabalho (LANTER-LOBGO, 2003).

Ao pesquisar essa temática no corpus de análise deste estudo, averigua-se que, dos trinta e seis periódicos pesquisados, foram encontrados vinte quatro artigos referentes a esse tema, constituindo-se um corpus documental de 168 artigos que, após sofrer delimitação, circunscreveu-se a dezesseis artigos localizados em cinco periódicos de Educação Física (Revista Paulista de Educação Física, Motrivivência, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Revista Brasileira de Educação Física e Desportos, Esporte e Educação).

Conforme recomendam Catani e Souza (2001) ao sistematizarem a produção do conhecimento sobre a Imprensa Periódica Educacional Paulista (1890 - 1996), pode-se sublinhar a possibilidade de se desenvolver o trabalho com e a partir da imprensa periódica, indicando duas diretrizes: uma delas é o estudo interno do próprio periódico, denominado de estudos dos periódicos como objeto; a outra é o estudo do periódico como núcleos informativos ou como fonte. Neste trabalho, foi utilizada como eixo central, a segundo diretriz norteada por Catani e Souza (1999), já que, de modo geral, os periódicos foram usados como fonte de estudo.

Com base na análise do debate presente nesses artigos, apreende-se uma discussão ainda incipiente, mas verifica-se que é crescente a preocupação com a pesquisa na área, refletindo a própria situação da Educação Infantil, que é " [...] relativamente desprestigiada dentro de todas as áreas de pesquisa em educação, é uma área em que existe apenas um acervo pequeno de trabalhos, sem uma tradição maior" (CAMPOS, 1998, apud ROCHA,1999, p. 85). Muitas questões comuns levantadas entre os artigos incidiram-se para discussão indicando que, no atual estágio de conhecimento da área, as questões em aberto são mais básicas, dirigindo-se atenção em discutir a pertinência ou não e o papel da Educação Física como área de conhecimento no trabalho com Educação Infantil, entendendo ser o movimentar-se humano a grande contribuição da Educação Física, uma das várias formas de linguagem, manifestação e expressão da criança.

Infere-se nesta análise ainda que a formação de professores de Educação Física deve estar atenta às produções da Pedagogia da Educação Infantil, iniciando um processo de formulação/reformulação das práticas pedagógicas e da reflexão/sistematização/produção desses processos, além de promover políticas públicas que viabilizem a formação inicial e continuada de todos os profissionais envolvidos, em busca de uma atuação coerente que respeite o mundo infantil, entendendo que:

[...] onde não há uma visão de educação básica universal, de educação como direito humano, formação, não haverá possibilidade de afirmar uma cultura profissional específica. Aí está o cerne de nosso prestígio ou desprestígio social e profissional, na visão estreita ou alargada de ensino ou de educação que afirmemos (DEBORTOLI et al, 2001-2002, p.97).

Além disso, a análise dos artigos da área sugere a necessidade de estudos na Educação Física que auxiliem a construção de uma concepção Educação Infantil, que valorize e sistematize o seu movimento corporal no processo de apropriação da cultura e na construção do seu pensamento.

Finalmente, é válido corroborar que é imprescindível ampliar com outras análises o mapeamento desta discussão, bem como em outras fontes, além de ainda se focalizar a discussão acerca dessa temática no/com o cotidiano escolar, avaliando a construção de saberes produzidos por professores e alunos nesse contexto.

Os autores, Kezia Rodrigues Nunes é do CRIA- CEFD/UFES, Dr. Valter Bracht é do LESEF - CEFD/UFES e Ms. Kalline Pereira Aroeira é do UVV; PROTEORIA.

Referências

  • Catani, D. B.; SOUSA, C. P. de: Catálogo de imprensa periódica educacional paulista (1890-1999): um instrumento de pesquisa. In: Catani, Denise Bárbara; SOUSA, Cyntia Pereira de: Imprensa periódica educacional paulista (1890-1999). São Paulo: Plêiade, 1999.
  • Debortoli, J. A. et al. Infância e conhecimento escolar: princípios para a construção de uma Educação Física "para" e "com" as crianças. Revista Pensar a Prática, Goiânia: Ed. UFG, v. 5, p. 92-105, jul./jun. 2001 - 2002.
  • Ferreira  Neto, A. et al. Catálogo de periódicos de educação física e esporte (1930-2000). Vitória: Proteoria, 2002.
  • Nunes, K. R. Formação do professor de Educação Física para a Educação Infantil: Uma análise do debate em Periódicos (1973 - 1999). (Monografia em Educação Física) - Universidade Federal do Espírito Santo,Vitória, 2003.
  • Kuhlmann Júnior, M. Educação infantil e currículo. In: FARIA, A. L. G.; PALHARES, M. S. (Org.). Educação Infantil pós-LDB: rumos e desafios. Florianópolis: Editora da UFSC, 2003, p. 51-66.
  • Nascimento, M. E. P. Os profissionais da Educação Infantil e a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. In: Faria, A. L. G.; Palhares, M. S. (Org.). Educação Infantil pós-LDB: rumos e desafios. Florianópolis: Editora da UFSC, 2003, p. 101-120.
  • Rocha, E. A. C. A pesquisa em educação infantil no Brasil: trajetória recente e perspectivas de consolidação de uma pedagogia.1999. Tese (Doutorado em Educação) -Campinas, 1999. Disponível em: http://www.ced.ufsc.br/~nee. Acesso em 15 set. 2003.
  • Silva, E F. A Educação infantil como campo de conhecimento e suas possíveis interfaces com a Educação Física. Revista Pensar a Prática, Goiânia: Ed. UFG, v. 5, p. 39-57, jul./jun. 2001 - 2002.

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