Em Tempo de Feminismo, Opto Pelo Humanismo

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Blog da Katia Rubio - 2015

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Essa semana fui convidada pelo jornalista Demétrio Vecchioli, do Estadão, a fazer um texto dentro do tema #AgoraÉQueSãoElas. Segue abaixo o que pensei sobre isso.

Não me considero uma feminista no sentido estrito da palavra. Talvez por circular pela universidade e pelo esporte, ambientes onde predomina o machismo, meus textos e apresentações podem levar a esse entendimento. Entendo a luta das mulheres por dignidade e respeito no mesmo patamar de outros movimentos como negro, LGBT, índios, palestinos, sírios, refugiados. Sou antes de tudo uma humanista e nessa condição não tolero injustiça, discriminação, corrupção e outras atitudes que mobilizam as massas com protestos e panelas. Também noto que muito desses militantes também praticam cotidianamente delitos básicos como ultrapassar um sinal vermelho, não devolver o troco que veio errado na padaria ou a transferência da pontuação de uma multa de trânsito para o filho mais novo, atitudes repudiadas nos outros, mas que dentro de casa não fazem nem cosquinha diante “dos grandes problemas nacionais”.
Mas, o espaço hoje é destinado à discussão e entendimento sobre a condição da mulher, e claro falarei de um ambiente específico que é o esporte.
Nunca é demais lembrar que historicamente as mulheres foram destituídas do direito ao esporte. Na Antiguidade, as práticas atléticas eram um direito apenas dos cidadãos, e por isso as mulheres estavam alijadas tanto do exercício como da competição. E aquelas que desafiaram a norma e chegaram a ser descobertas foram punidas com a morte. Atitude nada democrática para uma sociedade considerada o berço da civilização Ocidental. Filosofia a parte, essa é uma pequena demonstração de como a construção do espaço feminino se deu nesses séculos nesse nosso mundinho, considerado o umbigo da civilização e da civilidade. Bárbaros eram os outros!
Revistos, repensados e repaginados os Jogos Olímpicos foram recriados no final do Século XIX dentro da lógica social que prevalecia naquele momento. No bojo da moral vitoriana era mesmo de se esperar que a recriação dos Jogos Olímpicos, um encontro de nobres, burgueses e aristocratas, basicamente europeus, respeitasse, com muito gosto, a tradição grega e os padrões da época: mulheres fora! Ou melhor, numa sociedade “iluminada” pela ciência emergente, o discurso para a exclusão não veio da prática política. Cidadania era um discurso elaborado demais para constar como alegação para a eliminação das mulheres. A ciência sim, essa senhora sisuda e tão adequada aos padrões vitorianos, poderia servir como nenhum outro argumento a justificar a inadequação da prática esportiva competitiva às mulheres: disseram os cientistas da época que as mulheres tinham nervos frágeis e corpos idem para participar de uma disputa onde a virilidade, a força e agilidade, características tão masculinas, eram determinantes para a execução daquele tipo de tarefa. E assim, na primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna as mulheres ficaram “abrilhantando as arquibancadas” como desejaram os dirigentes e mandatários do espetáculo olímpico de então… não por muito tempo!
Sorte nossa que Freud já vinha estudando Anna O. para afirmar que aquilo que nos fragilizava nada mais era, justamente, esse tipo de repressão que vínhamos sofrendo ao longo de séculos e que encontrou seu ponto culminante exatamente nessa sociedadezinha que buscava esconder suas contradições com discursos estruturados em falácias como os nervos frágeis.
Mas, como dizia minha avó Maria, não há dor que sempre aperte, nem mal que sempre dure. Mais um fenômeno social como tantos outros, o esporte não estava imune aos demais movimentos de mulheres por direitos. Direito ao voto, direito a salários iguais, direito aos direitos civis como um todo, e lógico, direito ao esporte e à competição também entrou na pauta das mulheres do Século XX.
E assim, já em 1900 as mulheres começaram um processo lento e gradual de conquista do cenário olímpico. No princípio em modalidades “belas e que não colocassem em risco sua integridade física e emocional”, ou seja, em esportes onde não havia contato físico direto, nem que exigisse demasiado esforço, como o tênis e o tiro com arco. Adoraria ver um desses cartolas de então assistindo a uma partida de Serena X Venus Willians no mês passado na semi-final de Wimbledon!
Ao longo do século passado assistimos a inúmeras idas e vindas nessa disputa silenciada, mas não silenciosa, pela conquista do espaço esportivo pelas mulheres. Basta lembrar a luta pelas provas de fundo e meio fundo no atletismo, uma vez que os dirigentes consideravam as mulheres incapacitadas para tamanho esforço.
Mas, mais do que tudo, o que as mulheres olímpicas brasileiras me mostraram é que a discriminação de gênero nunca veio sozinha. Se ser mulher era um tapa na cara dos machistas de plantão, ser mulher, e negra, e ativista era ainda mais molestador. Ouvi diversas mulheres olímpicas brasileiras narrarem suas histórias e dizer que tiveram que fazer não uma, mas duas, três, quatro vezes o índice olímpico para ser confirmada na edição olímpica em questão, enquanto tantos homens medianos conseguiam seus passaportes diante de uma indicação de algum dirigente bem relacionado.
Mas, de tantas histórias de mulheres, aquela que elejo para ilustrar esse meu ponto de vista é de Irenice Maria Rodrigues, considerada por muitos uma não olímpica, ou quase olímpica, porque foi, viu, mas não competiu. Porém, no meu entendimento do que é ser uma atleta olímpica, ela foi sim, e por isso está registrada em meu livro Atletas Olímpicos Brasileiros.
Irenice nasceu mineira, em Itabirito, e praticou salto em altura no clube Vasco da Gama, no Rio de Janeiro. Era negra, inteligente, pensadora, faladora e estudava, além de praticar esporte. Depois que se transferiu para o Botafogo passou a experimentar as provas femininas malditas do atletismo, como os 400 e 800 metros rasos, proibidas para mulheres, como se proibição alguma existisse. Seu corpo pedia e ela humildemente escutava e acatava. Habilidosa, treinava e se desenvolvia. Tornou-se rapidamente recordista brasileira nos 400 metros e sul-americana dos 800 metros. Para desgosto de cartolas e cientistas que afirmavam ser essa uma prova impossível para o corpo feminino Irenice foi aos Jogos Pan-americanos de Winnipeg, em 1967, e lá estabeleceu o primeiro recorde reconhecido os 800 metros para mulheres. Como não celebrar um feito desses em uma terra onde tão poucos recordes foram estabelecidos e reconhecidos? Mas, Irenice era mais que um corpo hábil. Ela era uma mulher. E mais do que mulher era uma mulher forte, negra, inteligente, pensadora, que viveu as mazelas de seu tempo. Um tempo brasileiro que transpirava ditadura, que prendia e batia não só em negras, mas também em estudantes, operários, professores e todos aqueles que desejassem ter seus direitos respeitados. Mesmo contra tudo e todos Irenice conseguiu o índice olímpico e foi aos Jogos Olímpicos do México, em 1968. Uma edição olímpica marcada por ser a primeira na América Latina, por ocorrer em um momento histórico em que os estudantes tomavam as ruas de Paris, em que Praga vivia sua primavera bradando contra as botas soviéticas que esmagavam suas flores, e o Brasil já conhecia o AI 1, AI 2, AI 3 e AI 4 e não tinha verba para enviar uma delegação significativa ao México. Falava-se em enviar apenas os atletas que tinham efetivas chances de medalha, o que reduziria a delegação a apenas uma dezena. Mas o momento político era delicado e a participação nos Jogos Olímpicos poderia diminuir a tensão política e distrair a plebe vil e ignara que pouco ou nada entendia do que se passava naqueles dias sombrios. Enfim, foram aos Jogos Olímpicos do México 80 atletas brasileiros, 76 homens e 4 mulheres, entre elas Irenice. Certo dia, porém, essa mulher que pensava, que falava, que incomodava por tudo isso, desentendeu-se com uma colega por causa de um feito ocorrido na pista durante um treinamento. O desentendimento gerou uma briga com contato físico (aquele mesmo que quase 100 anos antes os dirigentes olímpicos achavam inadequado às mulheres) e então, a recordista pan-americana com chances de medalhas, mas que era mulher, negra, pensadora, falante e pensante foi punida com o desligamento da delegação, tendo que voltar ao Brasil antes mesmo de competir, poucas semanas antes de se decretar o AI 5 que acabaria com os direitos individuais por anos a fio nesse país que pouco ou nada fazia pelas mulheres ou contra o racismo.
Pouco se fala ou se acha de material sobre Irenice. Sabe-se que era militante, não de pegar em armas como muitos o fizeram naqueles tempos de ar rarefeito, onde a gente falava de lado e olhava pro chão, mas era uma mulher negra, falante e pensante e também atleta, um ser costumeiramente tomado como pessoa proibida de pensar ou se expressar por força da ação, na época do amadorismo, e mais recentemente, da profissão, depois que o espetáculo esportivo se tornou uma dos negócios mais rentáveis do planeta.
Irenice formou-se em Letras e já faleceu. Suas pistas estão encobertas pela poeira e pela névoa do esquecimento, por mim tomado como temporário, porque sua história pulsa no corpo e no coração de tantas outras atletas, negras ou não, mas acima de tudo mulheres, silenciadas pelo poder, pela força, não da grana que ergue e destrói coisas belas, mas da ignorância e do preconceito que pesam sobre a vida de mulheres e homens que desejam “apenas” o direito e o exercício da justiça.

Endereço: http://web.archive.org/web/20160131004212/http://blog.cev.org.br/katiarubio/2015/em-tempo-de-feminismo-opto-pelo-humanismo/

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