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Quem me acompanha neste espaço ao longo dos três anos, certamente vai observar que o ENAREL tem sido aqui um tema recorrente. Há razões “efetivas” e “afetivas” para tal, dada a minha relação com o mesmo ao longo de sua história e especialmente neste ano em que se comemora sua 25ª edição. O SESC/Departamento Nacional está encabeçando a sua organização, com o apoio de importantes instituições ligadas ao desenvolvimento do conhecimento e das boas práticas do lazer. Uma de suas iniciativas para perpetuar a história desse evento foi captar entrevistas com atores que essa organização entendeu como pessoas que, de algum modo, contribuíram para a sua manutenção até os nossos dias. Com muito orgulho, fui uma delas e aqui compartilho as perguntas que me fizeram e um resumo que embasou minhas respostas em entrevista concedida nesta semana. É bom lembrar a todos que o ENAREL deste ano será em Ouro Preto, de 13 a 16 de novembro. Para maiores informações, visite o site: http://www.sesc.com.br/portal/site/enarel/o+enarel

Em tempo: peço desculpas pela extensão deste post, mais longa que o habitual.

1) Resuma, por favor, a sua trajetória profissional e a relação com o campo do lazer.
• Início de carreira como Professor de Recreação na FEFISO (1972)
• Manhãs de Lazer + EPT: anos 1970/80
• SESC/SP na sede em 1976 – Dumazedier
• Prefeitura de Sorocaba: Programa Lazer (1977) + Secretário: políticas públicas (várias pastas)
• Doutorado na área nos USA
• Professor da FEF/Unicamp no Departamento de Estudos de Lazer
• Professor convidado em vários cursos de pós-graduação no Brasil e exterior
• Produção acadêmica

2) Sobre o Encontro Nacional de Recreação e Lazer – ENAREL, quando você participou pela primeira vez e em quantas (quais) edições tem participado?
Fui um dos seus criadores, co-organizador das diversas edições e participante na maioria deles.

3) Quanto à multiplicidade das temáticas já abordadas, o que destaca como principais contribuições?
Por carecer de uma estrutura mais orgânica, há pouca interação entre a demanda para uma possível oferta de temas que possa atender as necessidades reais e em potencial da comunidade interessada. Os temas escolhidos de maior realce são aqueles que conseguiram aliar um elevado debate conceitual traduzido em práticas robustas.

4) No que tange as edições do evento, você diria que o caráter itinerante e os diferentes atores envolvidos em cada organização interferem no resultado final? Por quê?
Interferem, pois cada ENAREL é considerado como um evento (“É-vento”) em si próprio, com reduzida conexão entre as suas edições, o que poderia potencializar a sua eficácia.

5) Que importância tem o ENAREL para os estudos sobre o lazer no Brasil?
• Foi pioneiro nas diversas dimensões, especialmente por introduzir essa temática como uma área do conhecimento em desenvolvimento;
• Conseguiu atrair estudiosos, pesquisadores e demais profissionais dos distintos campos do conhecimento relacionados ao lazer. considerando-o como uma área de intervenção;
• Estimulou novos cursos de graduação na área que, embora não tenham prosperados, alimentaram outras iniciativas no nível da pós-graduação, tanto lato-sensu como stricto-sensu.

6) Se participa de algum grupo de pesquisa (com ênfase no lazer), que tipo de contribuição pode ser buscada nas programações do evento?
Atualmente não participo de qualquer grupo de pesquisa na área.

7) Entendendo que as instituições de ensino têm papel fundamental na produção de conhecimentos, e que o campo do lazer por ser reconhecidamente multifacetado admite contribuições de diferentes áreas de formação, como as Universidades poderiam ser mais participativas nas organizações das futuras edições do ENAREL?
Creio que “perdemos o bonde da história” desejando atribuir hoje ao ENAREL um possível papel aglutinador das diferentes áreas do conhecimento no campo do lazer com foco nas Universidades. Ao longo do tempo, o ENAREL que construía no início uma identidade voltada para profissionais nos distintos lócus de trabalho no campo do lazer, inclusive a Universidade como um ponto fundamental para a sua subsistência, foi aos poucos mudando em direção a uma vocação como um evento mais voltado ao mundo acadêmico, por extensão, mais valorizado pela comunidade. Hoje não temos nem uma e nem outra coisa.

8) O que diria sobre a escolha do tema central desta 25ª edição do evento: lazer como direito social?
Consciente ou inconscientemente, desde sua criação, o ENAREL tem assumido como tema prioritário, na maioria das vezes, o lazer na dimensão do setor público nas distintas esferas de governança. Portanto, ao trazer o lazer como um direito social – grande conquista na Constituição de 1988 – como muitos outros direitos, necessita avançar do patamar da legalidade para a sua legitimidade. Creio ser um tema relevante e que poderá trazer benefícios concretos à área.

9) Qual a prospecção para as próximas edições do ENAREL, em vista das novas conformações do campo de estudos e sabendo que hoje existem outros eventos que se destinam a abordar questões relacionadas ao lazer?
Reafirmo a necessidade do ENAREL reencontrar a sua vocação, especialmente hoje frente às diversas possibilidades que a academia tem tratado do tema no nível mais conceitual. Em minha opinião o ENAREL poderia explorar a possibilidade de voltar a ser um espaço para Profissionais do Lazer, nas suas distintas dimensões. Para tal, hoje eu creio que o SESC é a organização mais competente para “apadrinhar” sua realização nos próximos 3-5 anos visando dar o perfil de evento que ainda não temos no país.

10) Considerando a sua experiência na área, qual a avaliação que o senhor faz da pesquisa e do estudo sobre o lazer, atualmente? E sobre as suas perspectivas futuras?
Avançamos muito, tanto no plano conceitual como no plano da intervenção. No entanto, temos um longo caminho a seguir. Cada vez mais temos ampliado nossa base epistemológica para estudar o lazer, deixando de ser, por exemplo, um apêndice da Educação Física para ser um campo múltiplo do conhecimento. Nossa inserção, ainda que recente no cenário internacional poderá ampliar nosso entendimento dos diversos enfoques teóricos na área já em avançado estágio de desenvolvimento em outras regiões do mundo. No entanto creio que temos ainda muito a aprender no campo metodológico de como melhor compreender esse fenômeno em nossa sociedade.

11) Da mesma forma, considerando a sua experiência profissional, qual a avaliação que o senhor faz sobre a questão do lazer no Brasil, concernente às políticas públicas, à atuação do setor privado e do terceiro setor, ao papel dos recursos humanos na área? E sobre as suas perspectivas futuras?
Essa questão é muito abrangente e merece ser subdivida nas respostas:
• Há uma desconexão entre o avanço nos estudos referentes às políticas públicas no campo do lazer e sua efetiva aplicação. Independente do ente público, municipal, estadual ou mesmo federal, além do tema não ser uma prioridade, o mesmo sofre as conseqüências dos solavancos da descontinuidade administrativa. No Brasil ainda se pensa em plano de governo e não em plano de estado;
• No setor privado, a indústria do entretenimento floresce. Mais do que atender as demandas do mercado, cria novas necessidades de consumo no tempo/espaço da não obrigação, descartando o potencial sócio-educativo que o lazer pressupõe;
• O terceiro setor carece de maiores estudos diagnósticos para se compreender o estágio de desenvolvimento do lazer em que se encontra para poder evoluir. As ONGs dedicadas aos diversos interesses culturais do lazer utilizam mais suas práticas como um meio do que um fim, deixando de lado uma visão mais emancipadora para assumir uma visão funcionalista do lazer;
• Embora não perguntado aqui, tenho a convicção que o sistema “S” pode representar o que há de melhor em termos de uma visão do lazer sócio-educativo. Ciente que cada setor adota uma visão em relação ao lazer (por exemplo, hoje o SESI difere muito do SESC) e que dentro de sua própria estrutura, cada Departamento Regional dessas entidades concebe-se uma forma de colocar em prática seus documentos basilares, vejo nelas a possibilidade de superação de uma visão mais ingênua da simples distração para uma interpretação do lazer mais orgânica, que promova a efetiva transformação das pessoas;
• Os recursos humanos são a essência dessa necessária transformação. Infelizmente as agências formais de desenvolvimento desse capital humano deixam muito a desejar, cabendo quase que exclusivamente às organizações contratantes a capacitação de seus quadros;
• A perspectiva futura do campo do lazer continua sendo potencialmente positiva, a depender de uma conjunção de esforços dos seus principais atores, partindo das universidades para os distintos ambientes de intervenção profissional. Ao tratarmos de lazer estamos sempre tratando do presente-futuro, da expectativa de se viver melhor, da busca da harmonia, do equilíbrio e do viver com mais qualidade.

Por Bramante
em 21-09-2013, às 10:51

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Comentários

Nossa, 25 anos de Enarel!
Parabéns a todos que continuam nessa estrada!

Beijo!

Por Maria Cláudia
em 21-09-2013, às 23:14.

Opa, Bramante,
Entrevista histórica. Vou espalhar.
Estamos precisando de ajuda pra juntar a documentação e parceiros para publicarmos TODOS os trabalhos das 25 edições do ENAREL na biblioteca do CEV. Tal qual fizemos com as 14 edições do Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa, em parceria com a Casa da Educação Física de Minas Gerais. Será que o SESC topa? Onde temos reunidos, ou podemos reunir, todos os anais?
Alumia?
Laércio

Por Laercio Elias Pereira
em 22-09-2013, às 10:22.

Caro Laércio, essa entrevista faz parte de um projeto relacionado ao que vocês está propondo. O Departamento Nacional do SESC convidou pessoas que direta ou indiretamente participaram desse processo de criação do ENAREL. Uma equipe de cinegrafistas está captando imagens a qual, creio eu, deverão fazer parte de um acervo a ser disponibilizado à comunidade interessada num futuro próximo (quem está coordenando esse trabalho é o Prof. Pina). Quanto aos anais, quero crer que Prof. Marcellino e Prof. Isayama devem ter tido acesso a esse material, pelo menos nas primeiras 21 edições, para escrever o livro “ENAREL 21 anos de história” (certamente, a melhor recomposição documental que temos até hoje sobre o evento). Acredito que o SESC possa ter interesse,pois competência e recursos para um trabalho de tal monta possui.

Por Antonio Carlos Bramante
em 22-09-2013, às 21:13. 

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