Ensinar a Gostar do Esporte: Tornando Significativa a Prática do Judô

Por: Adriana Santos,, João Paulo Rodrigues Nascimento, José Arlen Beltrão Matos e .

V Congresso Sudeste de Ciências do Esporte

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Resumo

O professor João Batista Freire (2003) afirma que para além de ensinar bem esporte a todos, devemos ensinar o aluno a gostar do esporte, de modo que tal sentimento desenvolva significados mais amplos que a simples prática de uma modalidade. 

Gostar do esporte pode envolver engajamento, busca pelo aprofundamento, desejo de superação, valorização, pertencimento, que pode se transformar no que Damon (2009, p. 49) chama de projeto de vida e afirma: “ O que importa para a felicidade é o comprometimento com algo que a pessoa considere envolvente, desafiador e atraente, especialmente quando ela faz uma valiosa contribuição ao mundo”. Se não para o mundo como um todo, mas para o universo daquele que pratica o esporte, que se envolve em todas as relações que caracteriza este fenômeno.
Desta forma, este estudo foi idealizado a partir de uma ocorrência verificada em uma das aulas do projeto de extensão Construindo pelo Esporte, do curso de Educação Física da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB. Este projeto oferece aulas de Judô, ministradas por discentes do curso de Educação Física e coordenado por dois docentes desta instituição, para uma comunidade rural da cidade de Amargosa, no interior da Bahia, com a frequência de duas sessões por semana, com duração de uma hora e meia cada. O núcleo possui 20 alunos, crianças e adolescentes de ambos os sexos, com idade entre 7 a 18 anos divididos em duas turmas. O projeto completou quatro anos de atividades sem interrupções e suas ações pedagógicas são norteadas pela continuidade do ensino, pela interação na construção do conhecimento, em linhas gerais baseadas pela resolução de problemas e pela corresponsabilidade no desenvolvimento do projeto.
A ocorrência que desencadeou esta pesquisa surgiu quando o primeiro jogo da seleção brasileira de futebol nesta Copa do Mundo, em 2014, coincidiu com o horário das aulas das duas turmas. Ao serem informados do cancelamento da aula, os alunos reclamaram afirmando, em sua maioria, que deveriam manter a sessão.
O estranhamento dos discentes bolsistas se deu principalmente por conta do envolvimento emocional que toda a cidade, incluindo a própria comunidade em que se insere o projeto, estava mergulhada, expressada pelos fogos de artifício, preparativos nas ruas, planos de reunião coletiva, fechamento do comércio e serviços, entre outros, bem conhecidos dos brasileiros.
Especialmente na Bahia, a Copa do Mundo de futebol coincidiu com o período de Festas de São João, muito característico do nordeste e, desta forma, a Secretaria de Educação do Estado antecipou as férias escolares que aconteceram durante o evento esportivo.
Sendo assim, diante de toda excitação, clima de férias dos alunos mais velhos, pois os mais novos permaneciam em aula no período da manhã, visto que sua escola tem administração municipal, imaginou-se que não haveria nenhuma espécie de desacordo em cancelar as aulas que coincidissem com os jogos do Brasil. A reclamação, para além da surpresa, gerou certa satisfação nos graduandos e docentes do projeto, indicando que nossas ações tem significado forte o suficiente para superar as expectativas dos jogos da seleção.
As aulas passaram a não ser mais canceladas, consequência esperada conforme nossa proposta pedagógica, explicitada anteriormente, que prevê a corresponsabilidade e interação nas ações, conforme defendem diversos autores da pedagogia do esporte como Paes (2001), Balbino (2005), Freire (1997). Para a melhor compreensão do fenômeno que vivenciávamos planejou-se esta pesquisa buscando investigar os motivos da reação observada.
Foi elaborado um questionário que foi aplicado na forma de entrevista individual, realizada por discentes bolsistas do núcleo, colhendo depoimento de todos os alunos de ambas as turmas. As respostas foram transcritas e reunidas em grupos que serão discutidas a seguir.

DISCUSSÃO DOS DADOS
Para buscar maior entendimento do clima emocional que a Copa do Mundo provocou na comunidade, perguntamos como seus moradores costumam assistir aos jogos e quais atividades promovem antes, durante e depois do jogo.
As respostas foram variadas, mesmo porque, tratando-se de uma comunidade com cerca de cem famílias, nem todos os seus moradores estão reunidos no mesmo local no momento do jogo. No entanto, se destaca nas respostas a união da maioria, em geral, nos bares, com muita conversa, zoada (barulheira, bagunça, bebedeira), camisas verdes e amarelas, fogos e enfeites nas ruas e casas. O clima real é de festa, também percebido pelos discentes e docentes que vivenciaram as manifestações durante os jogos.
Diante deste clima, a contrariedade pelo cancelamento da aula se torna ainda mais marcante. Deste modo, para melhor compreender esta reinvindicação, buscamos identificar quais alunos eram realmente contrários ao cancelamento e seus motivos.
Foram ao todo 18 entrevistados, sendo 8 da turma 1, alunos entre 7 a 10 anos; e 10 alunos da turma 2, entre 11 a 18 anos. Deste total, apenas um aluno da turma 2 foi categórico em afirmar que as aulas de judô deveriam ser canceladas para que se pudesse assistir aos jogos da Copa.
Um segundo aluno, também da turma 2 alegou que a aula poderia ser cancelada apenas se houvesse a possibilidade de transferi-la para outro dia ou horário. 
Todos os demais responderam que eram contra o cancelamento das aulas e os motivos alegados foram variados. Para a maioria, a relação deixar de aprender o Judô foi a mais marcante. Outros afirmaram ainda que o futebol nada tem de relação com o judô. Ainda houve alunos que defenderam a tese de que assistindo ao jogo não ganhariam nada, ao contrário da participação na aula.
Interessante perceber que esteve presente em depoimentos de 3 alunos mais velhos a presença do olhar mais crítico sobre os gastos excessivos na Copa e relacioná-lo ao seu próprio cotidiano, como por exemplo:
“Deve haver aula. Primeiro porque a gente não está ganhando nada nem está perdendo. Ganha fortes emoções na hora do jogo, só. E segundo o rombo que ficou aí. Um desvio de dinheiro público. A gente, tipo, que pagou os impostos para a presidente ir e construir estádio.” (Aluno 5)
“Se tiver como mudar a aula para outro horário ou então para outro dia poderíamos cancelar a aula, mas se não houver possibilidade não deveríamos cancelar a aula, porque a copa no Brasil não trouxe muitos benefícios, e quem acha que não trouxe benefícios para o Brasil sempre vai ser contra a copa, então eu acho que se tem jogo e tem judô, temos que ir para o judô.” (Aluno 10)
O depoimento crítico não permanece apenas nos gastos do evento futebolístico mas também na reflexão sobre a comparação entre as modalidades no país:
“Sim (devemos ter aula), porque assim não que eu tenha nada contra o Brasil, é um jogo qualquer como qualquer outro da Copa. No Mundial de Judô nós não paramos, então não devemos parar por conta da Copa.” (Aluno 7)
Podemos perceber ainda uma relação de responsabilidade para com o processo assumido de aprendizado na modalidade:
“Deve haver aula. Porque, por exemplo a gente está com uma atividade marcada, aí (se for cancelada a aula) a gente não aprende nada.” (Aluna 6)
“Tem que ter aula, por que temos que cumprir as tarefas que o judô tem para fazermos.” (Aluna 15)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os depoimentos demonstraram a existência de uma forte relação dos alunos com a prática da modalidade. A quase unanimidade sobre contrariedade no cancelamento das aulas, o desejo pelo aprendizado, a assunção das responsabilidades indicam o real engajamento no processo de desenvolvimento no Judô.
Com estas respostas podemos ousar em afirmar que o projeto de extensão foi capaz de estimular em nossos alunos o objetivo descrito por Freire e citado no início deste estudo de que é preciso ensinar a gostar do esporte. A afirmação de uma das alunas: “Devemos ter aula, por que a aula de judô é mais legal do que assistir o jogo” (Aluna 12), confirma esta posição.
Afinal, no dito país do futebol, durante o período que foi realizado o maior evento da modalidade, no nosso próprio país, com férias antecipadas, folgas decretadas, comércio fechado, comunidade em êxtase, um grupo de crianças e adolescentes preferirem, voluntariamente, manter suas aulas em detrimento de assistir aos jogos, no mínimo podemos afirmar que o Judô tomou proporções significativas em suas vidas. 

Endereço: http://congressos.cbce.org.br/index.php/5sudeste/lavras/paper/view/6240

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