Resumo

Os antigos batuques têm sido explorados pela historiografia como exemplo de proibições feitas às etnias negras pelas leis municipais, no Brasil Colônia. Para um considerável número desses estudos, tais proibições visavam poupar a força de trabalho do escravo. Ao contrário dessas investigações, esta pesquisa privilegiou como tema central os batuques, considerando que as restrições impostas a eles se deram no sentido de controlar as emoções, como recurso de “civilidade” no século XIX. Para tanto, utilizaram-se de códigos de comportamento social, direcionados a negros escravos e pretos livres, através das posturas municipais, fazendo emergir uma etiqueta cristã-católica em continuidade à civilização européia. No Brasil, os antigos batuques eram motivados pelo sentimento de ligação com a ancestralidade, herdada de um habitus estruturado pelas sociedades africanas. Os documentos escritos, orais e iconográficos demonstraram que esses batuques permanecem até hoje em nossa sociedade, com características religiosas e artísticas. Nestas últimas, o controle social das emoções e o autocontrole a ele associado foram fundamentais para o desenvolvimento de uma atividade artesanal de batuque, antes circunscrita às etnias escravizadas. A mudança lenta e gradual de uma arte artesanal de batuques para uma prática artística da dança afro foi possível mediante o processo de interdependência funcional entre negros e brancos, que participavam da sociedade escravista, como também a alteração das funções dos indivíduos no interior dos próprios batuques. Temos, portanto, um processo de integração da civilização africana com habitus ancestrais, constituindo uma nova sociedade

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