Escola, Alunos, Pais e Comunidade: Relato de Integração

Por: Juliana Santos Costa.

XI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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INTRODUÇÃO

Nos dias de hoje, é comum encontrarmos pais tendo que trabalhar em mais de um emprego para conseguir sustentar suas famílias, muitas vezes numerosas. Ou ainda, trabalhar em excesso em busca de situações mais confortáveis e/ou para alcançar um modelo ideal, socialmente referenciado. Fatores de ordem organizacionais e as condicionantes socioculturais contribuem para que os pais não tenham tempo de acompanhar o crescimento de seus filhos e com isso, a vida escolar.

De acordo com Sá (2003), a questão da participação dos pais na vida de seus filhos, se encontra num contexto atual "... marcado por discursos e ideologias de feição neoliberal que reconceituam o cidadão como consumidor e em que o imperativo da modernização se sobrepõe às preocupações com a democratização..." (p.70).

Sá (2003), acrescenta que existem formas de participação diferentes dos pais na escola: "Não basta, contudo, saber em que momento ocorre a participação (se antes, durante ou depois do processo da tomada de decisão); importa também saber qual a proporcionalidade da representação e a substância da própria participação." (p.70)

Buscando superar o afastamento familiar das famílias na escola, a secretaria municipal de educação (SME) do Rio de Janeiro, tenta pelo menos uma vez no ano, mudar essa rotina oferecendo às unidades escolares, recursos para realização de um evento chamado "Brunch", fora do horário da grade curricular. O "Brunch" é um evento que está incluído no programa "Família e Escola". Unidades escolares tem autonomia para decidirem realizar o evento ou não.

A Escola Municipal José Eduardo de Macedo Soares, localizada na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, abraçou esta idéia e há três anos organiza o "Brunch". Este tem como proposta integrar comunidade e escola num mesmo local, proporcionando um dia de lazer, cultura, educação e principalmente cidadania na vida dessas pessoas que na sua maioria são carentes e necessitam de atenção. O evento oferece aos pais, alunos e toda comunidade, diversas atividades em formato de oficinas nas áreas de saúde, artes, esportes, educação, entre outros.

Consideramos o evento como uma forma de lazer, por ser uma atividade não obrigatória com atividades diferentes do dia-a-dia para ser realizada no tempo livre. Atividades de lazer devem fazer parte dos programas do governo. Andrade (2001, p.61) justifica considerando o lazer como "meio subsidiário de geração, conservação e garantia de bem-estar para os cidadãos, o estado deve interessar-se por ele, pelo menos no que concerne aos aspectos de educação e cultura, saúde e assistência". Segundo Dumazedier apud Andrade (2001), lazer é:
"O conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais". (p.42)

Neste ano corrente, o evento ocorreu no dia dezoito de agosto, numa manhã de sábado na própria escola, onde alunos do último período de Licenciatura em Educação Física da UFRJ cumprem estágio supervisionado, cuja carga horária é de 400 horas, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) número 9394/96. O estágio é referente às disciplinas Prática de Ensino e Didática Especial, obrigatórias para conclusão do curso de Licenciatura em Educação Física.

Dessa forma, este trabalho buscou reunir informações acerca da proposta de integração entre comunidade escolar e familiar, realizada nessa escola municipal. As experiências relatadas são oriundas da participação no dia do evento, bem como, as vivências cotidianas dos alunos estagiários, desde o primeiro semestre de 2007.

Este trabalho torna-se relevante, ao reconhecermos a importância da educação na formação de um cidadão e as contribuições adequadas de diversos veículos. Vale ressaltar que a LDB número 9394/96, prevê que a educação escolar deve complementar a educação familiar. Para Libâneo, (2005, p.118), a educação deve ser entendida como "fator de realização da cidadania, com padrões de qualidade da oferta e do produto na luta contra a superação das desigualdades sociais e da exclusão social..." Brandão (2005), afirma que ninguém escapa da educação, seja qual for o espaço, estamos envolvidos com ela.

CONHECENDO O "BRUNCH"

O "Brunch" vem sendo realizado na Escola Municipal José Eduardo de Macedo Soares há três anos, e segundo os organizadores do evento (direção, coordenação pedagógica e docentes) a cada ano tem aumentado a participação da comunidade. É uma atividade realizada em um sábado, com duração de quatro horas.

A palavra "Brunch" é um termo oriundo da cultura anglo-saxônica, diz respeito a uma refeição (um lanche) situada entre o café da manhã e o almoço. As iniciais "Br" referem-se ao café da manhã (Breackfast), e a terminação "brunch" refere-se ao almoço (Lunch). (Bresling et all, 1996).

Para organização do evento, a Prefeitura do Estado do Rio de Janeiro oferece uma verba fixa a escola para ser revertida em despesas relativas às refeições (café da manhã e almoço) e compra de material. Não podendo ser utilizada em outras despesas.

A divulgação foi feita com cartazes presos na entrada da escola e com um convite dado a cada aluno, que levou para casa. O convite do "brunch" indicava a proposta do evento, as atividades oferecidas com o cronograma: na entrada café da manhã, participação em oficinas, tipagem sanguínea e finalizando com almoço. Os alunos poderiam participar do evento, assim como seus familiares, para isso, bastavam se inscrever na secretaria da escola.

As principais atividades foram organizadas em forma de oficinas, ministradas pelos próprios professores da unidade escolar. Os professores interessados deveriam procurar o diretor e indicar a oficina que desejasse ministrar, conforme suas habilidades. Para tal, existe uma remuneração.

Tais oficinas buscam apresentar atividades que proporcionam práticas de lazer, bem como, que possam ser realizadas posteriormente pela comunidade podendo até contribuir no orçamento familiar.

As oficinas oferecidas foram: jogos de tabuleiro, colares e cordões, bolsas de Eva, sacola, teatro, pulseiras criativas, craquelê, atividades desportivas, corpo e movimento e reciclagem.

A oficina de jogos de tabuleiro dá a criança uma ótima oportunidade de brincar de jogos que andam esquecidos e que só ajudam no crescimento cognitivo, ajuda na sociabilização e resgata as brincadeiras tradicionais de nossa cultura.

Já as oficinas de colares e cordões, bolsas de Eva, sacola, teatro, pulseiras criativas e craquelê trabalham a coordenação motora, a motricidade fina, a lateralidade, além de ajudar na integração e sociabilização dos pais.

A oficina de reciclagem tem como objetivo de conscientizar as pessoas da preservação da natureza, diminuindo assim a poluição. Além disso, ajuda na geração de renda.

O "Brunch" teve início às oito horas da manhã com um café da manhã oferecendo café, leite, Nescau, biscoitos e pães. Os convidados se serviam e posteriormente destinavam-se ao pátio da escola, onde profissionais da área da saúde trazidos por Lions do Leme e do Lins, uma ONG disponibilizaram medição da glicose na qual o médico ou enfermeiro de acordo com os resultados aconselhava o "paciente" a melhorar alimentação ou procurar um médico para fazer mais exames, tipagem sanguínea, verificação de pressão arterial e etc. Em seguida direcionavam-se as oficinas que tinham se inscrito.

OFICINA DE ESPORTES

Nós, os estagiários da UFRJ, ficamos responsáveis juntamente com a professora de Educação Física da escola, pela oficina de esporte.

O planejamento da oficina foi elaborado durante as aulas de didática.

Destacamos como objetivo da oficina, integrar os participantes e proporcionar um pouco de lazer, descontração, cidadania e educação.

Com o intuito de atender aos objetivos, foram oferecidas atividades como: basquete, vôlei, capoeira, futsal, circuito, conteste, com cunho lúdico e pedagógico.

Inicialmente, o número máximo de inscritos era de 25 pessoas, entre adultos e crianças. As crianças foram chegando aos poucos na quadra, local onde foram realizada as atividades, e antes de começarem a participar das atividades, deveriam confirmar seu nome numa ficha que se encontrava na entrada, conforme pré-inscrição. Ainda que, o nome não se encontrasse na lista, a criança poderia participar, bastava colocar o nome e a idade, na hora. A quadra da escola foi inaugurada recentemente, depois de passar por quase um ano inteiro, 2006, em reforma. Possui um espaço amplo, com instalações para todos os esportes coletivos, além de três banheiros com chuveiro.

Iniciamos a oficina com uma gincana, dividindo os alunos em dois grupos. Explicamos que a gincana teria várias etapas e estas por sua vez sendo cumpridas, somariam pontos para o grupo e independente do resultado todos os participantes ganhariam brindes.

Já divididos em grupo, distribuímos bolas azuis para um grupo e douradas para o outro. Ao sinal do apito, todos deveriam encher a bola de gás e dá um nó. O grupo que terminasse primeiro ganhava ponto. Segunda tarefa era fazer um grito de guerra e cumprindo essa tarefa, os grupos ganhavam pontos. Terceira foi um conteste onde os alunos, divididos em dois grupos, deveriam percorrer um circuito saltando, correndo, rolando, pulando, ultrapassando obstáculos e estourando a bola de gás no final. Os alunos ficaram eufóricos com o circuito.
Depois do circuito os alunos vivenciaram a capoeira, dispostos em círculos, aprenderam a fazer movimentos básicos como aú, gingar e até a cantar.

A oficina de vôlei e de basquete aconteceu ao mesmo tempo. Dividimos a quadra em dois espaços e ensinamos fundamentos simples como o passe e a recepção da bola. Por último, foi realizado o futsal, formamos grupos de no máximo cinco alunos para jogar com um tempo cronometrado.

Embora a oficina tivesse adultos e crianças como público alvo, a maioria das inscrições e participações foram de crianças da escola na faixa etária entre 7 e 15 anos.As crianças costumam ter mais oportunidade de praticar atividades físicas, brincar e se divertir, devido a disciplina de Educação Física e seu tempo livre. Dessa forma, sentimos falta de um incentivo maior na prática para adultos, porque ali seria uma oportunidade de interagir com seus filhos, além de ter uma oportunidade de fuga dos problemas diários e ter realmente um momento de descontração, lazer e estreitar seus laços com seus filhos.

Com a finalização das oficinas foi servido o almoço: strogonoff, com arroz e batata palha com refresco. A comida foi muito bem preparada pelas merendeiras da escola, tudo estava muito gostoso.

Ao mesmo tempo teve uma apresentação de cães adestrados da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, trazidos por Lions do Leme e do Lins. Foi um show a parte e as crianças adoraram. O "brunch" teve seu encerramento por volta das 13:00 horas.

CONCLUSÕES

As experiências aqui relatadas contribuíram, não só para explicitar mais um modelo de escola que se preocupa em contribuir na formação de seus alunos, realizando atividades com cunho de integração, como também na formação dos estagiários, que se tornarão professores e estarão atuando diretamente com essas situações.

Vale destacar a contribuição da área da saúde, trazida pela ONG, para a informação de pais e filhos nos cuidados com o corpo, como noções de higiene, informações sobre DST e problemas cardíacos entre outros. Porém, isso não pode ser feito somente uma vez ao ano, pois as informações ali divulgadas acabam caindo no esquecimento, e nem sempre os hospitais e postos de saúde dão conta de oferecer este serviço para a população.

A hora da refeição foi um dos mais esperados e prestigiados pelos participantes, visto a carência e dificuldade que encontram em suas vidas diárias. Ouvimos de alguns participantes que aquela seria uma das únicas ou a única refeição do dia.

Apesar do evento não ser de grande porte e não atender a todas as necessidades da comunidade é uma iniciativa muito boa e estimulante na vida de pessoas que são carentes de tantos cuidados. È uma oportunidade para as mesmas, de ter acesso a coisas que nunca poderiam imaginar fazer.

O evento proporcionou para essas pessoas, pelo menos um dia de lazer, aprendizado, arte, cultura, educação e principalmente cidadania.

Sabemos que isso é muito pouco pela grande necessidade dessas comunidades, mas já é um pequeno grão que com o incentivo de todos poderia se tornar algo grande e importante.

Ainda que, a LDB número 9394/96 prevê que a educação escolar deve complementar a educação familiar, o que se observa atualmente é o afastamento cada vez mais freqüente da família na educação de seus filhos, esperando da escola o cumprimento ainda maior na educação.

Sendo assim, acreditamos que propostas de atividades como o "Brunch", em que as finalidades são atrair a família para escola, deva ser estimulado em outras unidades escolares Municipais, bem como particulares, Federais e Estaduais, vislumbrando mostrar a importância da família na educação de seus filhos e com isso conseqüente participação e redução de problemas como evasão, aprendizado e desinteresse.

Obs. Os autores, professora Ms. Juliana Santos Costa (ju77costa@yahoo.com.br) leciona na UFRJ e na Rede Municipal de Educação, e os acadêmicos Amanda Nunes Siston (amanda_ufrj@hotmail.com), Bruna Belisário de Amorim (brunaspiceg@hotmail.com) e Fábio Luiz Candido Cahuê (fabiocahue@gmail.com) estudam educação física na UFRJ.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Andrade, J. V. Lazer - princípios, tipos e formas na vida e no trabalho. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
  • Brandão, C.R. O que é educação? São Paulo, brasiliense, 2005. (Coleção primeiros passos)
  • Brasil. Lei Diretrizes e Bases da Educação. Rio de Janeiro - Secretaria do Estado de Ensino - 1996.
  • Bresling, G., Harlamdt, M., HORWOOD, J., Whitlan, J., Xavier, L. Collins Pocket Dictionary. São Paulo: New Color Edition, 1996.
  • Libâneo, J. C., Oliveira, J.F., Toschi, M. S. Educação Escolar: políticas, estrutura e organização. São Paulo: Cortez Editora, 2005.
  • Relatos da coordenadora pedagogia e professores da unidade escolar participantes do evento.
  • Veiga, I. P. A.; Fonseca, M.(orgs.) As dimensões do projeto político-pedagógico: Novos desafios para escola. Campinas, SP: Papirus Editora, 2003.

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