Experiências Sociais e Sociocorporais: Influências na Prática Pedagógica do Professor em Início de Carreira

Por: Valéria da Penha Matedi Bufon.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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1. Introdução

Ao ingressar no curso de graduação em Educação Física da Universidade Federal do Espírito Santo, no ano de 2004, tinha a perspectiva de ser professora e de fazer pós graduação em uma área das Ciências da Saúde, como Fisiologia.

No entanto, o curso superou minhas expectativas, pôr apresentar um currículo que agrega, além do conhecimento das disciplinas biomédicas e do desporto, conhecimento das disciplinas das Ciências Humanas como Filosofia, Sociologia, Psicologia e Antropologia.

No primeiro período do Curso, cheguei à conclusão que seria necessário adiar por algum tempo meus planos de ingresso no mercado de trabalho; pois mesmo não vendo relevância nessas disciplinas, teria que estudá-las para ser aprovada no Curso e garantir um bom coeficiente de rendimento no histórico escolar.

Ao ingressar no segundo período, depararei-me com a disciplina Filosofia da Educação Física, pôr meio da qual pude compreender um pouco mais sobre o Curso, estudar o que realmente a Educação Física vem sendo e deve ser, e perceber que há uma grande necessidade de se entender a interface entre a Educação Física e o conhecimento das Ciências Humanas.

Nesse mesmo período, comecei a dar aulas em uma escola da rede estadual de ensino do Espírito Santo, especificamente para as quintas e sextas séries do Ensino Fundamental. Observei, então, que a Educação Física, naquele espaço, para aqueles alunos, estava ligada apenas ao esporte e às atividades corporais, e que muitos professores trabalham apenas com atividades como, vôlei, futebol, basquete e handebol. Constatei que esse é um dos fatores pelos quais grande parte dos alunos constrói uma visão da Educação Física vinculada apenas ao esporte e à saúde.

Essa estreita vinculação entre Educação Física e saúde, em seu sentido restrito, e Educação Física e esporte torna-se "[...ã principal referência dos alunos que ingressam no curso e, ao mesmo tempo uma barreira para que se possa compreendê-la de uma forma mais ampla e com seus diferentes campos de saberes" (FIGUEIREDO, 2004, p. 11).

Atualmente a Educação Física, vem sendo compreendida como multidisciplinar e seu currículo aborda atividades corporais em suas dimensões culturais, sociais e biológicas. Sendo assim, a disciplina tenta extrapolar essa estreita vinculação com a saúde e deixa de ter como foco apenas a questão do esporte ou da atividade física.

Apesar dessa visão ampliada, muitos alunos são resistentes a esses outros conteúdos e não vêem a Educação Física nesse contexto. Apenas uma pequena parcela de estudantes se interessam pela Educação Física como uma "[...]compreensão sócio-histórica e cultural da área" (FIGUEIREDO, 2004, p. 12).

Figueiredo (2004) com base em Carreiro da Costa, chama a atenção para o fato de que a maioria dos cursos de Educação Física limita o conhecimento dos estudantes. Desse modo, os estudantes de graduação avaliam suas experiências construídas dentro e fora da escola e, assim, moldam seu currículo e sua trajetória, interferindo em sua formação.

Outro texto da mesma autora, "Formação docente em Educação Física: experiências sociais e relação com o saber" (2004), retrata que as experiências sociocorporais dos alunos de um curso de Educação Física estudado influenciam na formação desses estudantes, no que concerne à orientação de trajetórias, às escolhas e à valorização de determinados conteúdos curriculares. Enfim, os alunos filtram o conhecimento que lhes interessa no currículo escolar de sua formação e excluem os que não lhes interessam.

Com isso, percebe-se que muitos alunos passam pela graduação sem mudar suas concepções anteriores, ou ainda, posteriores ao ingresso no Curso, perpetuando, dessa forma, a equívoca e diminuta visão de Educação Física ligada apenas ao esporte e à saúde.
Um dos motivos para que se tenha essa concepção, além da experiência construída pelo aluno do Curso durante sua trajetória escolar e não escolar, talvez seja o fato de que a Educação Física no Brasil, muitas vezes, em sua história, se confundiu com as instituições médicas e militares, pois privilegiava-se um discurso higienista, disciplinador e moralizador. Assim, a formação profissional também sofre influências dessa visão construída historicamente (SOARES, 1998).

Decorrente da experiência do aluno associada à sua prática, e da sua história da área, pode-se destacar a questão do "[...] distanciamento da Educação Física das demais licenciaturas, uma vez que as questões relativas à Educação Física eram tratadas desvinculadamente em relação aos assuntos da educação de um modo geral" (BORGES, 1998, p. 25). Esse distanciamento, mesmo considerando o parecer 672/69, criado pelo extinto Conselho Federal de Educação, no ano de 1969, responsável pela inclusão do conhecimento pedagógico nos cursos de licenciatura , ainda é bastante recorrente na formação profissional em Educação Física. O distanciamento traduzido em teoria versus prática nos currículos dos cursos de formação de professores pode gerar uma tendência em desvalorizar a formação acadêmica, no momento em que o professor em início de carreira se depara com a realidade escolar.

A prática pedagógica do professor recém formado pode se resumir na improvisação, na rotina e na reprodução de práticas docentes, assim como esse profissional pode tentar reproduzir ações, metodologias e comportamentos vividos anteriormente. Sem dúvida, essa afirmação corresponde a uma possibilidade e não a um ato de causa-efeito.

Tardif (1992), afirma diz que há uma multiplicidade de saberes que constituem a prática pedagógica e que esses saberes são provenientes de quatro fontes. São elas:

"Saberes da formação profissional (das ciências da educação e da ideologia pedagógica mobilizada em conformidade com essa atividade, transmitidos pelas instituições formadoras);

Saberes das disciplinas ( que correspondem aos saberes sociais sistematizados na instituição universitária);

Saberes curriculares (saberes sociais que a escola/sociedade selecionou para serem transmitidos às futuras gerações);

Saberes da experiência ( desenvolvidos pelo professor no exercício de sua profissão)". (TARDIF et al. citado por BORGES, 1998, p. 50).

Não dominando os saberes das disciplinas, do currículo e da formação profissional, os professores produzem ou tentam produzir saberes que compreendem e dominam. Há uma valorização dos saberes que qualificam de práticos ou da experiência. Isso faz com que os docentes se distanciem dos saberes adquiridos fora dessa prática.

A partir desses saberes, os professores julgam sua formação anterior ou sua formação ao longo da graduação, adequando o currículo à sua necessidade.

Nesse sentido, procuro identificar de que maneira as experiências sociais, mais especificamente, as experiências sociocorporais de um professor de Educação Física, em início de carreira, influenciam na seleção de determinados conteúdos a serem trabalhados nas aulas por ele ministradas; outro fator importante a ser trabalhado gira em torno do currículo de formação: o currículo do curso de Educação Física contribui para a prática pedagógica do professor em início de carreira?

Esta pesquisa tem como objetivo geral compreender como as experiências sociais dos professores de Educação Física em início de carreira influenciam na sua prática profissional; e como objetivo específico identificar e analisar como as experiências sociocorporais dos professores de Educação Física em ingresso de carreira influenciam nas escolhas dos conteúdos a serem trabalhados nas aulas.

2. Procedimentos metodológicos

Esta será uma pesquisa de campo do tipo qualitativa, que se caracteriza por permitir maior compreensão dos fenômenos sociais e da subjetividade de cada sujeito.

Para fazer a coleta de dados deste trabalho serão utilizadas a entrevista e a observação. A entrevista, por ser uma técnica de investigação social que nos permite obter dados em profundidade acerca do comportamento humano "[...]bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes" (GIL apud SELLTIZ et al., p. 273); e a observação, por representar não só um instrumento de captação de dados, mas por se apresentar, também, como instrumento de modificação do meio pesquisado e porque "[...] representa um processo de interação entre teoria e métodos dirigidos pelo pesquisador na sua busca de conhecimento e [...] reconhece em primeira instância o caráter peculiar dos seres humanos, seu comportamento e sua vida em grupo" (HAGUETTE, 1987, p. 61).

Essas duas técnicas permitirão obter uma análise qualitativa, com a finalidade de conseguir detalhes sobre as influências da experiência social e sociocorporal dos professores em início de carreira na sua prática pedagógica, orientando escolhas e definindo, além de interesses, a valorização de determinados saberes curriculares.

Este trabalho tem como sujeitos professores em início de carreira que, segundo Huberman (2000), podem estar entre os três primeiros anos de ensino, em que, as motivações são diversas. Esse período é considerado estágio de sobrevivência e descoberta, sobrevivência pela dificuldade dos professores em transmitir o conhecimento pedagógico adquirido e deparar-se com a complexidade da profissão e com o distanciamento entre os ideais e a realidade. E descoberta, porque traduz todo um entusiasmo inicial do professor em início de carreira .

Pretendo trabalhar com professores de Educação Física que atuam no Sistema Municipal de Ensino de Vitória (SEME), especificamente no Ensino Fundamental. A amostra para pesquisa será constituída por um percentual do universo de professores iniciantes na carreira e os dados serão fornecidos pelo Departamento de Recursos Humanos da SEME. Após as entrevistas com esses professores, será feita a escolha intencional de um deles a fim de observar sua prática pedagógica no cotidiano escolar e de compreender algumas de suas ações quanto à seleção de conteúdos.

Obs. A autora, Valéria da Penha Matedi Bufon (valeriamatedi@yahoo.com.br) é acadêmica e foi orientada neste trabalho pela Dr. Zenólia Christina Campos Figueiredo do CEFD-UFES

3. Referências

  • Borges, Cecília Maria Ferreira. O professor de educação física e a construção do saber. Campinas, SP: Papirus, 1998.
  • Gil, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999.
  • Figueiredo, Zenólia Christina Campos. Experiências sociais no processo de formação docente em educação física. Tese ( Doutorado em Educação) - Programa de Pós - Graduação em educação de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2004
  • Haguette, Teresa Maria Frota. Metodologias qualitativas na sociologia. Petrópolis: Vozes, 1987
  • Huberman, Michaël. O ciclo de vida profissional dos professores. In. NÒVOA, Antônio. (Org.). Vidas de professores. 2. ed. Portugal: Porto, 2000. p. 31-62.
  • Soares, Carmem Lúcia. Educação Física: raízes européias e brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 1994.

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