Exportação de Jogadores Brasileiros Motiva Pós-doutorado na Escócia

Por: Mônica Maia.

Revista Fator Brasil - 2007

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Resumo

01/06/2007 - 09:34 

A exportação de craques do futebol é um fenômeno lucrativo, muito popular mas pouco estudado. Só no ano passado 822 jogadores brasileiros foram transferidos para clubes estrangeiros em operações geradoras de divisas e impasses sobre imigração, ainda não investigados pelo campo da chamada "sociologia do esporte". Priscila Mendes da Silva Cardoso, 20 anos, bolsista de Iniciação Científica da Faperj desde dezembro de 2006 e aluna de Educação Física no 7º período da Unisuam (Centro Universitário Augusto Motta), move-se nessa grande área com rapidez e desenvoltura.

Ela está sob orientação de Carlos Henrique de Vasconcelos Ribeiro, coordenador técnico de Educação Física da Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro), doutor em Educação Física e Cultura pela Universidade Gama Filho e Universidade de Stirling, Escócia, onde completou uma bolsa-sanduíche. Lá Carlos Henrique também pretende fazer seu pós-doutorado sobre Esporte e imigração. Enquanto isso, ele treina as habilidades de sua aluna em reunião, tratamento e compilação de dados para essa nova empreitada acadêmica.

"Essa pesquisa é um braço do pós-doutorado, chamada Do Brasil para o mundo - o processo de transferência dos jogadores de futebol", esclarece Carlos Henrique Ribeiro. Autor do livro Mais que pendurar as chuteiras - o futebol que insiste no social (Nipress, Rio, 2005), professor adjunto das faculdades Maria Thereza e Unisuam, ele pesquisa mecanismos e conseqüências dessa intensa exportação de músculos e ossos, materializada em craques que vendem habilidades nacionais, como os dribles e a ginga do nosso "futebol-arte" em 72 países, nos cinco continentes.

É o caso de Afonso Alves, atacante do Heerenveen, na Holanda, recém-convocado pelo técnico Dunga para a Seleção brasileira. Mineiro de Belo Horizonte, 26 anos, Afonso foi eleito jogador do ano na Holanda, concorre à Chuteira de Ouro da Uefa. Jogou nos times suecos Örgryte, de Gotemburgo, e Malmö, equipe da cidade de mesmo nome no sul do país. "Ele saiu daqui muito novo, jogava em um time pequeno, teve proposta do Juventus, mas não aceitou. Hoje, o passe dele está umas 10 vezes mais valorizado. Esses craques são artigo de exportação, mas às vezes nem são conhecidos no Brasil", avalia Priscila.

Ela mostra que Portugal desde 2002 lidera o ranking dos países que mais recebem craques brasileiros, a uma média de 140 jogadores por ano. "Isso representa 35% das transferências. Itália, França, Alemanha, Japão e Espanha seguem Portugal nesse ranking, e as transferências têm aumentado muito. Só no Japão esse ano foram 49 até maio", conta a bolsista.

Seu orientador lembra que isso tem um impacto econômico: "Assim como os imigrantes mexicanos, esses jogadores mandam dólares e euros para o Brasil, passam a ser uma fonte de receita considerável", sugere, explicando que são várias as categorias de jogadores nesse trânsito: "Temos diversos níveis de futebol: na Espanha, está hoje o melhor de nossos jogadores, é onde estão as estrelas mundiais. A China está tentando popularizar o esporte, contratando jogadores brasileiros", considera.

"Por ano, temos 822 atletas transferidos na categoria profissional, fora os "de base" - aqueles com menos idade, que estão nos Centros de Treinamento brasileiros e continuam nos Centros de Treinamento de outro país. No caso de menores de 16 anos, a lei proíbe certos acordos. Entre 14 e 17 anos, os atletas que vão para o exterior têm que ser acompanhados pela família, que também precisa ter trabalho garantido, entre outras exigências contratuais", explica a jovem pesquisadora, sublinhando que Afonso já superou as marcas de gols de Ronaldinho e Ronaldo.

Imigração, incorporação cultural e adaptação - Segundo Carlos Henrique Ribeiro, matérias em grandes jornais também comprovam que cada vez mais brasileiros despontam no futebol europeu e cada vez mais jogadores são importados pelos clubes estrangeiros. "Com isso, em apenas um mês os jogadores conseguem o certificado nacional de transferência e o visto. Já começam a agilizar o processo quando agência qualifica. Esses adolescentes ficam horas treinando, são mão-de-obra qualificada. O movimento acontece também no futsal para a Espanha e no basquete para os Estados Unidos", lembra o professor.

"Eles são o Brasil no futebol, mas estão no estrangeiro por opção. Nascer no Brasil faz com que eles tenham uma marca, um brand particular nesse esporte", analisa Carlos Henrique, que assina artigos acadêmicos que exploram questões como a identidade de craques brasileiros atuando em outras seleções nacionais como Guimarães (Costa Rica), Deco (Portugal), Kuranyi e Paulo Rink (Alemanha), Alex, Roberto, Kazu e Wagner (Japão) e Oliveira (Bélgica).

"Apesar desses jogadores serem pouco conhecidos no Brasil, muitas vezes eles salvaram suas novas seleções da derrota, são como heróis que ajudaram a conquistar um título importante. Também é comum vermos a mídia nacional chamá-los de brasileiros, apesar de estarem atuando em seleções estrangeiras, em outros países, onde estão envolvidos com aspectos simbólicos, tais como a camisa, o hino nacional e os torcedores", questiona o professor Carlos Henrique em seu artigo Jogadores brasileiros em seleções do estrangeiro: a qual nação eles pertencem?.

Nesse trabalho, ele considera o exemplo de Kuranyi, jogador da Seleção alemã de futebol, que morou no Brasil até os 15 anos de idade: "(...) significativo para a problematização de nossa pesquisa. Ao marcar um gol pela seleção da Alemanha ele não comemorou e sua resposta para tal fato foi '...eu ainda respeito e amo o Brasil, por isso não podia comemorar'", explica o pesquisador.

Mas essa rota de ida tem volta? Muitos retornam por motivos simples: "Quem volta é porque não se adaptou devido a razões diversas como a cultura, a língua, o frio, a religião. Em 2006, 50% desses 882 que foram transferidos voltaram para o Brasil. Vamos fazer entrevistas previstas no projeto para identificar com precisão as razões desse retorno", diz o professor.

E de onde vêm esses atletas? Segundo o levantamento dessa pesquisa, a maioria dos jogadores é de São Paulo (246 transferidos); seguido pelo Rio de Janeiro (85 transferidos); Rio Grande do Sul, com 79 registros, e Paraná, com 75 exportados. Mas São Paulo também é campeão de voltas. "Teve um retorno de 105 em um ano em que 248 foram transferidos, ou seja, 30% do total", aponta Priscila. Ela lembra que muitos clubes brasileiros recontratam esses atletas que retornam.

Com esse universo, temos a indústria do esporte como a quarta na pauta de exportações do país. "Só de transferências, as vendas de jogadores geraram U$ 1 bilhão entre 1994 e 2005. Antigamente, os grandes clubes eram os celeiros. Hoje, temos os clubes de empresários. Antigamente, os empresários visitavam os clubes e faziam uma porcentagem de contrato para o clube. Agora, os empresários do mundo do futebol abriram seus próprios clubes", diz o professor Carlos Henrique.

Segundo ele, hoje, os empresários só agenciam e Fifa faz a transferência: "Os clubes de empresários são quase desconhecidos, não se ouve falar, mas exportam jogadores. Alguns deles são o CFZ, do Zico; o Barra da Tijuca Futebol Clube, ou o Clube Boa Vista. A intenção deles é criar talentos e vendê-los. Esses clubes tendem a crescer. Porque no site da FIFA estão listados cada vez mais clubes desse tipo. Cai um menino bom na mão deles, o menino vai para o Flamengo, Vasco, ou depois para um clube europeu. Em toda transferência, o clube tem um ganho de 5%", explica o professor, mostrando que quem transfere está num grande business, e o clube justifica seus ganhos contínuos porque investiu na formação de um profissional qualificado e o exporta.

Em outro exemplo dessas transações, cita-se Zé Roberto, da Seleção brasileira, que jogava na Alemanha e agora está no Santos. "O time brasileiro recontrata, ou contrata em outro patamar, o jogador que está lá fora. Nesse trânsito, geram-se as grandes oportunidades e transações do futebol exportação", exemplifica o professor. Ele lembra que a aluna Priscila produz artigos acadêmicos indexados para pares acadêmicos.

A vigência da bolsa de Iniciação Científica da aluna é de 12 meses, mas pode ter renovação de mais 12 meses. Mas por que uma lourinha delicada como Priscila está dedicada aos dados e números das batalhas desses heróis internacionais do gramado? Ela disfarça, mas seu mentor acadêmico entrega: "O noivo foi ex-jogador do São Cristóvão, jogou com Ronaldo, jogou futsal e futebol de campo". Com certeza, um pontapé inicial na grande área da sociologia do esporte para quem está se especializando nas tramas do futebol exportação. | Por: Mônica Maia/Faperj

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