Formação dos Professores de Educação Física da Eefd Para Atuação com Alunos Especiais

Por: Debora da Silva Ferreira.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

A discussão sobre a inclusão escolar de alunos considerados portadores de necessidades educacionais especiais tem se intensificado nas últimas décadas no Brasil e no mundo. A mesma envolve questões referentes às diferentes concepções de deficiência, e, com ela, todo o problema de avaliação, diagnóstico e prognóstico.

Segundo Cury (2003), o princípio da inclusão escolar é entendido como uma forma de garantir, de maneira incondicional, acesso às escolas por todos, permanência e qualidade de ensino e, no caso específico das pessoas portadoras de necessidades educacionais especiais, escolarização em classes do ensino comum juntamente com os outros alunos.

Nessa perspectiva, e tendo em vista, as orientações políticas emanadas das diferentes Secretarias de Educação do País, a efetivação da inclusão tem se constituído em um grande desafio para educadores, dirigentes, pais e alunos. Além disso, merece destaque a quantidade de dúvidas e inquietações de grande parte dos professores de Educação Física em face dessa nova realidade, já que parcas são também as orientações acerca de como devem atuar os profissionais da Educação Física que, até então, trabalharam com esses alunos separados dos demais.

Estar apto, do ponto de vista da formação/preparação profissional, implica em considerar inicialmente que a formação profissional é um processo longe de se esgotar no ensino superior. Mas, a despeito das limitações existentes neste processo, não se pode abrir mão de que professores recém-formados deveriam possuir ferramentas básicas para suas incursões profissionais futuras, ou seja, conhecimentos teóricos/práticos científicos nessa área de conhecimento

A competência necessária para atuar junto a esses alunos, no campo da Educação Física, passa pela organização de ambientes que permitam a execução de tarefas motoras adequadas ao seu processo de desenvolvimento. Passa também, pelos conhecimentos relativos especificamente ao assunto "deficiência", bem como aqueles relacionados à aprendizagem motora, ao desenvolvimento motor e à metodologia do ensino da Educação Física. Focalizar o movimento e não a "deficiência" da pessoa é a posição que deve ser assumida desde a graduação. Não compete ao professor reverter alterações morfo-funcionais constitutivas de uma pessoa. Todavia, é sua responsabilidade proporcionar a ela condições de emitir respostas motoras, sociais, cognitivas que lhe permitam interagir com seu ambiente físico-social de modo cada vez mais satisfatório.

Por esta razão, o presente trabalho visa identificar como estão sendo formados os alunos do curso de Licenciatura em Educação Física da EEFD no que diz respeito a questão da inclusão de alunos com necessidades especiais nas aulas de Educação Física nas escolas.

Partimos do princípio de que um profissional formado com competência deveria demonstrar sinais de preparo para lidar com as diversidades, ou pelo menos a disponibilidade para encarar o que possa considerar como um desafio de maneira saudável, ou seja, abordando a diversidade como um recurso positivo a ser explorado nas aulas.

Deve-se atentar também para o fato de que a inclusão escolar é uma parte de um processo bem maior que é a inclusão social. E que o professor de Educação Física, assim como os demais, têm uma grande responsabilidade pelo desenvolvimento global dos alunos, visando a qualidade de vida através do bem-estar físico e mental, bem como proporcionar aos demais alunos o significado do respeito ao próximo e às diferenças.

Neste sentido pretende-se analisar as concepções de respostas a perguntas sobre a formação profissional dadas pelos alunos pré-formandos da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro do curso de Licenciatura.

Metodologia

O estudo abrangeu uma amostra de 16 alunos do 8° período do curso de Educação Física, durante o 1° semestre letivo do ano de 2003.

Tal amostra representou cerca de 2,2% do universo de alunos desse curso que é de 727, e 18,6% da população abrangida pelo estudo, que é dos 86 alunos do 8° período. A amostra foi composta por alunos que se dispuseram a participar do estudo, de ambos os sexos, com uma média de idade de 23,43 anos, todos pré-formandos do curso de licenciatura no período de 2003/01, pois são alunos que, pressupõe-se, já passaram pela prática de ensino e estão entrando no mercado de trabalho.

A pesquisa apresenta uma abordagem qualitativa de forma descritiva, pois segundo Rampazzo (2002), já se conhece algo sobre o assunto e porque tem uma pesquisa documental e de campo.

Foi aplicado aos alunos, um questionário aberto, visando coletar dados a respeito da formação profissional e do desenvolvimento do trabalho com alunos com necessidades educacionais especiais.

Através do instrumento utilizado, foi realizada uma análise de conteúdo, classificando as respostas coletadas e agrupando-as em categorias, a fim de apurar a freqüência das respostas de cada categoria.

Resultados e discussões

Foi aplicado aos alunos do 8° período um questionário aberto composto de 11 perguntas. As respostas foram classificadas e agrupadas em categorias. As perguntas tinham o objetivo de verificar como esses alunos estavam sendo formados no que diz respeito à questão do desenvolvimento do trabalho com alunos portadores de necessidades educacionais especiais em suas aulas.

Para tanto era preciso ter informações sobre o que eles entendiam por inclusão, como a Educação Física poderia auxiliar nesse processo, se eles tinham presenciado a inclusão ou a exclusão nas aulas observadas da prática de ensino, se eles saberiam promover a inclusão desses alunos em suas aulas, se a faculdade de Educação Física da UFRJ tinha oferecido algum instrumento para que esses futuros alunos pudessem trabalhar com alunos portadores de necessidades especiais, se algum momento do curso teve algum professor que trouxe experiência de trabalho na área, se eles tinham o conhecimento do decreto que afirma a necessidade de disciplinas desse aspecto no currículo e se o currículo atual do curso oferecia condições para trabalhar com esses alunos.

E foi através das respostas a essas questões que percebeu-se um primeiro conhecimento do que esses alunos pensavam em relação a sua própria formação. Dentro dos alunos que participaram dessa pesquisa, 50% definiam inclusão como uma participação e convivência; 43,75% acreditavam que era uma integração social e 6,25% achavam que era não ter preconceito. Importante ressaltar que quase todas as respostas apresentavam um caráter de inclusão escolar, quando na verdade a pergunta era bem mais ampla. Já no auxílio da Educação Física no processo de inclusão, foi encontrado 25% das respostas para duas categorias: a promoção de práticas não excludentes e a formação do indivíduo. Esse ponto a respeito da formação do indivíduo vai de encontro o que nos diz o PCN (1998) sobre o aprimoramento como seres humanos.

Quando perguntados se saberiam promover a inclusão e como fazer, 50% responderam que era possível através da adaptação das aulas e os outros 50% achavam que era através da valorização das qualidades pessoais e das diferenças. Porém, teve uma resposta que chamou atenção que foi justamente a que apresentou a busca por conhecimentos específicos. Isso mostra a necessidade que se tem de estudar aquilo que é diferente e que não se tem conhecimento.

Em relação à questão a respeito dos possíveis instrumentos oferecidos pela faculdade, mais da metade dos entrevistados, 75%, acreditam que a faculdade não ofereceu instrumento algum para trabalhar com alunos portadores de necessidades especiais. Afirmam que há uma insuficiência de conteúdo e que os professores não tem um conhecimento suficiente para transmitir aos alunos. Não apontam somente na direção de ter disciplinas que retratam esse tema, mas também os demais professores que não comentam e nem adaptam suas aulas para mostrar uma outra possibilidade de trabalho.

Em relação ao decreto n° 3298 que sugere que os cursos superiores devam incluir disciplinas e conteúdos nos currículos relacionados à pessoa portadora de alguma necessidade especial, 68,75% não sabiam que decreto era esse e nem do que se tratava.

Considerações finais

Existem várias razões pelas quais a Educação Física pode demonstrar papel importante no processo de inclusão. Em primeiro lugar, ela possibilita um maior contato corporal com todos os alunos devido ao seu grau de liberdade, assim permite uma maior participação de todos, inclusive daqueles que apresentam dificuldades. Desta forma, mesmo os alunos apresentando desempenhos diferentes, o grau de satisfação pode ser considerado elevado. Por isso, o professor de Educação Física é visto como um profissional que desenvolve as atitudes mais positivas, justamente por ser uma disciplina mais dinâmica e com um maior contato entre professor e aluno.

No que tange a questão dos alunos pré-formandos se sentirem-se aptos a trabalhar com alunos portadores de necessidades educacionais especiais, foi verificado um maior grau de insatisfação com o currículo do curso, pois, segundo os estudantes que responderam ao questionário, durante a formação, poucas são as chances de se ter contato com esse tipo de assunto, não há uma obrigatoriedade de cursar a única cadeira relacionada a esse tema, já que esta faz parte da complementação do currículo e também, mesmo que essa disciplina fosse obrigatória, a sua carga horária é muito pequena não possibilitando a realização de uma parte prática.

Portanto, a Educação Física Adaptada que é um direito, deve ser obrigatória, oportunizando assim, aos futuros professores a melhor relação com alunos que apresentarem algum tipo de dificuldade, seja na própria aprendizagem ou em algum comprometimento motor.

Para esses alunos, o currículo deveria ser melhor estruturado para prepará-los para o mercado de trabalho e assim legitimar uma estrutura capaz de criar diversas competências da prática docente.

Foi encontrado nas opiniões dos alunos pré-formandos a necessidade de haver disciplinas que tratem desse assunto, todavia, compartilham da opinião onde as demais disciplinas, cuja primeira vista parecem não ter nada direcionado a esse tema, também tenham o compromisso de ensinar, demonstrar e comentar como agir diante da possibilidade de ter alunos portadores de necessidades especiais. Pode-se perceber então, que não é uma questão das disciplinas, mas sim do corpo docente não acostumado a comentar e nem mesmo adaptar ou mudar o rumo das aulas para explicar ou expor como deveriam lecionar eem turmas onde existam alunos com dificuldades. Talvez, essa forma de agir dos demais professores, deve-se ao fato de não haver estudantes de educação física com reais comprometimentos, justamente por eles acreditarem que estão muito próximos da homogeneidade e que não precisam variar muito.

Sobretudo é possível pensar que se o currículo do curso fosse voltado para a diversidade, os professores poderiam lembrar de comentar mais a respeito e também haveria novos instrumentos voltados para uma práxis reflexiva onde os futuros professores encontrariam possibilidades de adquirir conhecimentos, competências e atitudes, para que se possa compreender e atuar em complexas situações de ensino.

Sabe-se que a aprendizagem e a formação profissional não ocorre somente durante o período da graduação, mas que este é um processo contínuo. Porém, o início de todo esse processo começa no primeiro período da faculdade e desse ponto em diante é preciso caminhar procurando adquirir novos conhecimentos e oportunidades de crescer como profissional e pessoa. O currículo e os professores são dois pontos chaves que caminham juntos durante toda a formação profissional, por isso, não é possível visualizar uma renovação curricular se na prática continua-se oferecendo aos alunos idéias de competição e de exaltação da perfeição. Talvez fosse preciso uma mudança não somente no âmbito das disciplinas, mas na forma em que elas são oferecidas, ou seja, com um maior comprometimento à cooperação, ao respeito, à solidariedade e à visualização da diferença como recurso. É preciso uma renovação comprometida com a atitude de direcionar as aulas como forma de se ter todos os alunos realizando uma determinada atividade. Não é possível a compreensão de falar em incluir todos os alunos se isto não é vivenciado por quem fala. É necessário haver uma conscientização e um respeito às diferenças individuais ou grupais como gênero, raça, classe social e ideologias. Quem sabe assim, seja possível ter futuros profissionais atuando junto à igualdade de direito e proporcionando uma qualidade de vida a todas as pessoas.


Obs.
As autoras, professoras Debora da Silva Ferreira (pichot@nitnet.com.br), Carolina Noury da Silva Azevedo (carolnoury@uol.com.br) e a Dr. Mônica Pereira dos Santos (monicapes@globo.com) lecionam na UFRJ.

Referências bibliográficas

  • Brasil. Ministério da Justiça. Secretaria de Estado dos Direitos Humanos. Decreto N° 3.298 de 20 de Dezembro de 1999. Brasil, 1999.
  • Brasil. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais - Educação Física. Brasília, 1997. v.7
  • Cury, C.R.J. Educação Inclusiva: Simpósio - A formação de professores na perspectiva da educação inclusiva. Disponível em: <www.mec.gov.br> Acesso em: 28 março 2003.
  • Rampazzo, L. Metodologia Científica para alunos dos cursos de Graduação e Pós-Graduação. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

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