Futebol e Ginástica Rítmica: Uma Proposta Para Trabalhar Gênero e Sexualidade no Ensino Fundamental Ii

Por: Camila da Silva Ribeiro, Cristiane Aparecida Pereira, Erik Vinícius Orlando Dopp, Naldleid Aparecida dos Reis, Rafael da Silva Xavier e Wedson Guimarães Nascimento.

V Congresso Sudeste de Ciências do Esporte

Send to Kindle


Resumo

INTRODUÇÃO

Este estudo descreve uma experiência pedagógica nas aulas de Educação Física, proposta do subprojeto do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação a Docência (Pibid) do IFSULDEMINAS financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O grupo composto por seis bolsistas e tematizou o tema Gênero e Sexualidade ao longo de aulas de Ginástica Rítmica e Futebol. O estudo foi realizado durante o 1° semestre de 2014, entre março e junho, com alunos do 7º, 8º e 9º ano do ensino fundamental II de uma escola estadual localizada na periferia da cidade de Muzambinho – MG. A escolha pelas duas modalidades se justifica por conta das representações sociais de gênero e sexualidade majoritariamente associados a cada uma delas. O futebol como esporte masculino, ainda que as mulheres tenham ampliado seu espaço recentemente; e a ginástica rítmica como prática feminina. Tal escolha presumia que preconceitos iriam aparecer ao longo dos processos, proporcionando debates sobre os temas. Para embasar nossas escolhas recorremos a alguns autores, Junior (1995, apud DEVIDE; PEREIRA, 2008) que afirmam que no contexto da educação física escolar, o futebol é um universo cercado de valores sexistas, atrelado às características fundamentais da corporalidade masculina – força, competitividade, agressividade e domínio do espaço. A não participação feminina no futebol sempre esteve associada às dimensões da perda da saúde, prejuízo à maternidade, razões estéticas e de feminilidade. Já sobre o conteúdo Ginástica Rítmica (GR), Antunes, Reis e Santos (2008) em pesquisa sobre o preconceito aos meninos na prática da Ginástica, mostram um dado que nos chamou atenção. Ao perguntar aos respondentes se consideram algum esporte ou atividade física não adequada para meninos, chegaram a seguinte conclusão, que alguns pais não deixariam a prática de dança ou Ginástica fazer parte da rotina diária de seus filhos por questões religiosas ou costumes de família, justificando suas respostas, dizendo que Ginástica é algo feminino, citam também o preconceito da sociedade como empecilho para a prática, apresentando dados mais efetivos a pesquisa mostra, que dos 24% respondentes que consideram que há esportes inadequados para homens, se observa que a maior porcentagem, 12,3%, foi para dança e Ginástica, enquanto outros esportes como voleibol, basquete, karatê, handebol e demais esportes não ultrapassaram os 7%. Dados estes que mostraram a importância de se trabalhar o conteúdo nas escolas.

OBJETIVO

Relatar as atividades dos pibidianos do IFSULDEMINAS – Campus Muzambinho nas aulas de educação física numa escola pública de Muzambinho-MG, com o conteúdo Futebol e Ginástica Rítmica, como proposta para reflexões sobre gênero e sexualidade.

METODOLOGIA

O relato de experiência apresenta a prática pedagógica desenvolvida na Escola Estadual Coronel José Martins, localizada na cidade de Muzambinho, no sudeste de Minas Gerais, com alunos do 7º, 8º e 9º ano do Ensino Fundamental II, totalizando 75 alunos aproximadamente. A intervenção aconteceu entre os meses de março e junho do ano de 2014, contando com quatro aulas de observação e sete aulas interventivas, sendo a primeira uma discussão inicial, três aulas de futebol e três de Ginástica Rítmica. Utilizamos como coleta de dados um questionário contendo questões abertas e fechadas, para que fosse determinado o conhecimento e a opinião dos alunos acerca dos conteúdos a serem ministrados, a fim também de detectar respostas relacionadas a gênero e sexualidade, para que assim pudéssemos planejar as aulas. Foram utilizados diários de campo redigidos pelos pibidianos e gravações de áudio e vídeo.

ANÁLISE E DISCUSSÃO

Na observação pudemos fazer alguns apontamentos. A escola em si não possui uma separação de gênero que tenha ficado clara em nossa observação. No entanto, as aulas de educação física possuem a cultura de reforçar a separação de gêneros, visto que meninas e meninos não participavam das mesmas atividades, exceto as meninas que mostravam uma maior habilidade. Estas eram uma minoria. As demais jogavam vôlei em um espaço lateral à quadra. A maioria das meninas não participava da aula, visto que nas aulas ministradas pelo professor o conteúdo, via de regra, era o futebol. Após analise da avaliação diagnostica pelo questionário, pudemos observar algumas frases sexistas, e outras carregadas de preconceitos em relação à GR e ao futebol, e os conflitos de gênero e sexualidade que não haviam ficado claro para nós durante a observação se tornaram mais visíveis. 
Fazendo uma análise mais aprofundada percebemos que as respostas dadas por eles não eram nada mais do que a representação de conceitos que são colocados pela sociedade, pais, amigos, conforme apontamos no inicio do trabalho.
Ao iniciarmos as aulas tivemos grandes surpresas: na aula inicial tivemos uma grande participação dos alunos. Passamos inicialmente dois filmes de Ginástica Rítmica praticada por mulheres e futebol praticado por homens. E o debate fundamentado nas respostas dadas por eles próprios balizaram as discussões. Observamos novamente falas preconceituosas, mais em relação à GR do que ao futebol. Posteriormente invertemos. Passamos um vídeo com futebol feminino e GR masculina e propusemos um debate final sobre os vídeos. A aceitação pelo futebol feminino foi maior do que a GR masculina, mas os alunos se propuseram a vivenciar as aulas que ministraríamos.
As três aulas de futebol tiveram uma participação de 100% dos alunos, visto que em nenhum momento colocamos o futebol propriamente dito aos alunos, e sim aulas dinâmicas com jogos ligados ao futebol: atividades como futebol de quadrantes e futebol generificado, para Pereira e Devide (2008) conteúdos generificados, como por exemplo, o futebol, através da co-educação, permitem ao docente problematizar as questões de gênero Os debates eram ricos em detalhes em relação a gênero e sexualidade. Os alunos no início rejeitavam as aulas mistas e depois passaram a aceitar com mais naturalidade. Os conflitos surgidos durante a aula eram discutidos ao final.
Já nas aulas de GR houve uma maior rejeição principalmente por parte dos meninos. Acreditamos que por ser uma modalidade tida com feminina e por exigir gestos mais delicados, ou mesmo pelo que já foi colocado para eles sobre a modalidade. Podemos considerar também o pouco tempo para a intervenção como um limitador para a maior sensibilização para a modalidade. Porém, ao final optamos por brincadeiras relacionadas às modalidades, nas quais trabalhamos contato físico, expressão corporal e tivemos uma maior aceitação. Na modalidade as discussões giravam mais em torno da sexualidade, onde os meninos se sentiam constrangidos em fazer alguns gestos, portanto ao optarmos por brincadeiras acabou “mascarando” um pouco os gestos da ginástica rítmica. Acreditamos que faltou um pouco de experiência ao nosso grupo acerca da modalidade, e o trabalho não ficou tão bom quanto o futebol.
CONCLUSÃO

A partir da prática pedagógica dentro da escola, foi possível identificar durante as aulas, certo receio por parte dos meninos executarem as aulas de GR, demonstrando uma possível forma de preconceito com a modalidade, alegando ser uma prática onde homens não poderiam participar devido a vários motivos. Porém, durante as práticas, houve pequenos grupos mostrando ainda alguma resistência em vivenciarem a modalidade. No entanto, o futebol foi muito bem aceito, tanto por parte dos meninos quanto por parte das meninas desde o início, onde obtivemos participação de 100% dos alunos em todas as aulas propostas. 
Acreditamos que a experiência enriqueceu nossa formação e que trabalhar gênero e sexualidade nas aulas de Educação Física é de extrema importância para o rompimento dos preconceitos. Nós, como professores podemos fazer com que estes alunos sejam “multiplicadores” da igualdade de gênero e respeito à diversidade sexual. 

REFERENCIAIS
ANTUNES, Heverton Tonani; REIS, Bruna Barros dos; SANTOS, Flávia Costa P. e. PRECONCEITO AOS MENINOS NA PRÁTICA DA GINÁSTICA ARTÍSTICA. Movimentum,Ipatinga, v. 3, n. 1, p.1-18, jul. 2008.

PEREIRA, Viviane Cristina Alves; DEVIDE, Fabiano Pries. Futebol como conteúdo generificado:: uma possibilidade para rediscutir as relações de gênero.Efdeportes.com, Buenos Aires, v. 12, n. 118, mar. 2008.

 


 

Endereço: http://congressos.cbce.org.br/index.php/5sudeste/lavras/paper/view/6368

Ver Arquivo (PDF)

Comentários


:-)





© 1996-2018 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.