Ginástica na Academia: Aula de Educação Física ou Apenas a Venda de Um Serviço?

Por: Ueberson Ribeiro Almeida.

VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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O mercado de trabalho das academias apresenta-se em destaque na sociedade capitalista, já que, nesta, a boa aparência é status e cuidar da estética torna-se quase um padrão social. Há uma clara expansão desse mercado e, concomitantemente, dos cursos de Educação Física, pois é preciso garantir mão-de-obra para sustentar esse sistema de comércio. Pensando nisso, no âmbito profissional, resolvemos elaborar um projeto de pesquisa que possui os seguintes objetivos específicos: a) levantar dados sobre a prática pedagógica dos profissionais de ginástica de academia; b) levantar dados a respeito do desgaste físico desses profissionais e possíveis lesões decorridas da prática excessiva de exercícios; a) identificar as exigências em termos de performance, conhecimentos e postura ética que o mercado das academias fazem aos profissionais de Educação Física.

Problematização

Os estudos em andamento são excitantes e reveladores, pois, não encontramos, ainda, no Brasil, pesquisas ou estudos específicos que tenham como foco a preocupação com a integridade física dos professores de academia. Por outro lado, a pesquisa investiga também se a identidade pedagógica construída no âmbito da formação acadêmica em Educação Física (formação profissional) pode ser efetivada como prática nos espaços das academias ou se é reduzida ou anulada pelas "leis" que regem o mercado das academias.

As práticas corporais da atualidade trazem em seu bojo, fortes "marcas" das leis de mercado, pois de acordo com Silva (2001, p. 63), "O corpo, tanto como elemento de marketing quanto como objeto da indústria do remodelamento, extremamente produtiva, do ponto de vista financeiro, está no centro do interesse da economia de mercado e, portanto, profundamente marcado por seus fundamentos e por suas conseqüências. "

Sendo assim, indagamos se os "fundamentos de mercado" citados pela autora trazem algum tipo de benefício à prática dos profissionais de Educação Física nas academias ou se acabam por criar uma contradição entre o que o professor aprende em sua formação profissional em Educação Física e o que o mercado solicita como modelo de profissional.

A primeira vista, a problemática em questão parece ter pouca relação com a Educação Física escolar, porém não se pode esquecer que os profissionais que atuam nas academias de ginástica possuem, em sua maioria, formação acadêmica em Educação Física, estando também a escola dentro do seu campo de atuação profissional. Dessa forma, excita-nos saber qual é o perfil desse profissional, a sua personalidade e caráter pedagógico, tanto nas aulas de ginástica dentro das academias quanto diante de uma turma de crianças de escola pública. Visto sob esse prisma, a "teia" se emaranha mais ainda, pois será que os profissionais que atuam de acordo com as exigências do mercado das academias (se é que atuam dessa forma), quando chegam às escolas, atendem às necessidades educacionais/pedagógicas? Esses profissionais assumem posturas divergentes em relação ao ambiente e ao contexto no qual exercem seu trabalho?

Por outro lado, há possibilidade de que o estudo possa revelar profissionais que acreditam que ser educador, diante dos olhos do mercado, seja uma tarefa desafiadora, porém possível, e que não é preciso ter "dois pesos para duas medidas", mas é indispensável manter um caráter interventor/crítico tanto nos espaços das academias como nas escolas. Infelizmente, também é possível que haja aqueles profissionais que obedecem exclusivamente aos códigos estabelecidos pelo mercado capitalista e acabam por nutrir uma "pedagogia de mercado", que visa exclusivamente à obtenção de lucro, sendo, portanto, responsável pelo continuísmo de uma lógica política/social que acaba por reforçar a hegemonia de uma classe e a conseqüente exclusão de outras dentro da sociedade.

A prática de ginástica em academias vem crescendo e ganhando um espaço de destaque no contexto social atual, pois as pessoas acabam por preencher seu "tempo livre" com aulas de ginástica nas academias.

É notória a grande diversidade de "programas" de aulas de ginástica, mas basta que algum desses caia na monotonia para que surja um novo programa para substituí-lo. Será que essa diversidade de modelos de aulas de ginástica tem sua causa na evolução dos métodos que, por sua vez, visam a atender uma necessidade social no que diz respeito à oferta de programas de ginástica mais eficientes no âmbito da saúde ou essa questão está mais associada aos "interesses de mercado" (citados anteriormente), nas quais o que importa é consumir "o novo" cada vez mais? Como já foi dito, muitos programas de ginástica têm se desenvolvido prometendo sempre condicionar fisicamente e eliminar o sedentarismo. Sabe-se, no entanto, que para se adquirir condicionamento físico não é necessário freqüentar aulas de ginástica em academia. A crítica, de forma alguma condena ou discrimina a existência das aulas de ginástica em academias, muito pelo contrário, acreditamos que a academia pode ser um campo de trabalho realizador e promissor para o professor de Educação Física. O que questionamos são as formas pelas quais essas práticas vêm sendo efetivadas nos espaços privados (academias). Julgamos, porém, ser função da Educação Física escolar formar sujeitos cientes das armadilhas do sistema vigente e do consumismo que abrange as práticas corporais. Além disso, possibilitar, tomando como base uma matriz dialética, a formação de sujeitos autônomos.

Aproveitando o ensejo, não podemos de forma alguma nos esquecer de lembrar da questão metodológica, ou seja, dos métodos utilizados pelos profissionais de ginástica para garantirem o "sucesso" de suas aulas e o compromisso com princípios que garantam a ação educativa.A respeito da eficiência do método, Mattos, citado por Xavier (1986, p. 9), afirma o seguinte:

"Um método é efetivo quando ele cumpre certos princípios que garantem a ação educativa, isto é, não instrui apenas os educandos desenvolvendo neles estruturas mentais definidas, mas os educa também, formando hábitos e atitudes proveitosas e ideais superiores, enriquecendo e visualizando sua personalidade. Abrindo-lhes dessa forma, novos horizontes mentais e novas possibilidades de vida."

Em relação à questão abordada, esta pesquisa propõe um levantamento de dados objetivando lançar luzes sobre os modelos dos métodos aplicados nas aulas de ginástica e, dessa forma, compreender que tipo de prática pedagógica os profissionais das academias adotam. Sendo assim, a análise das práticas pedagógicas desses profissionais possibilitará esclarecer como eles se relacionam profissionalmente com os donos ou administradores das academias e com o seu público.

Com a intenção de melhor fundamentar a problemática, acreditamos que a citação abaixo refere-se à questão dos métodos de forma divergente da idéia de Mattos citada anteriormente. A fonte é de caráter prático (um manual de instruções para treinamento de profissionais da empresa Body Systens), na qual se encontram as seguintes afirmações para formação de profissionais de ginástica de academias:

"Só para verdadeiros profissionais [...]
Treine individualmente cada parte até não precisar olhar mais na pasta de coreografia.

Parabéns, você já decorou o primeiro elemento-chave da instrução notável e agora pode ser um verdadeiro professor, cuidando de seus alunos sem precisar lembrar da rotina."(BAKER. et al., 2001, p. 123).

Percebe-se na citação acima um adestramento do profissional: o decorar como "elemento-chave" para a realização de seu trabalho. Isso nos preocupa, pois sabemos que o "decorar" não participa da construção de conhecimentos e menos ainda de profissionais críticos e flexíveis a mudanças.

Metodologia

O tipo de pesquisa utilizado será a pesquisa descritiva, pois, segundo Cervo e Bervian (1983, p. 55),
"[...] a pesquisa descritiva observa e registra, analisa e correlaciona fatos ou fenômenos variáveis sem manipulá-los, isto é, sem a interferência do pesquisador. Procura descobrir, com a precisão possível, a freqüência com que um fenômeno ocorre, sua relação e conexão com outros, sua natureza e características."

Uma das técnicas utilizada para a coleta dos dados será a entrevista, pois, segundo Marconi e Lakatos (1988), "[...] a entrevista oferece maior oportunidade para avaliar atitudes, condutas, podendo o entrevistado ser observado naquilo que diz e como diz: registro de reações, gestos etc".

Fundamentado nisso, as entrevistas serão aplicadas aos professores de ginástica, aos donos ou responsáveis pelas academias e aos alunos das academias, inicialmente, com um roteiro de dez perguntas abertas para cada entrevistado (professores, donos de academias e alunos).

A outra técnica utilizada para a coleta de dados será a observação na vida real. Segundo Marconi e Lakatos (1988, p. 69), "[...] a melhor ocasião para o registro é o local onde o evento ocorre. Isto reduz as tendências seletivas e a deturpação na reevocação".

A pesquisa terá como ambiente de estudo e coleta de dados vinte academias da Grande Vitória. Serão entrevistados vinte profissionais de ginástica, vinte donos ou responsáveis pelas academias e cinqüenta alunos, sendo os últimos 50% do sexo masculino e 50% do sexo feminino. Além disso, serão observadas cinco aulas de ginástica e, para maior segurança da interpretação dos dados, duas aulas serão filmadas em academias de bairros distintos.

Resultados esperados

Espera-se com esta pesquisa contribuir para a discussão acerca do papel da Educação Física como prática pedagógica adotada pelos profissionais de ginástica de academia e assim melhor compreender a interface entre educação e mercado no contexto sócio/político/econômico. Além disso, pretendemos apresentar em congressos científicos, simpósios e posteriormente publicar em revistas técnicas da área. A pesquisa, ainda contribuirá para a elaboração da monografia de conclusão de curso de graduação em Educação Física.

O autor, Ueberson Ribeiro Almeida é Graduando em Educação Física no CEFD/UFES e voluntário do LESEF/CEFD/UFES e foi orientado pelo professor Valter Bracht do CEFD/UFES

Referências bibliográficas

  • Baker, M.et al. Body combat, les Mills body training systens. 2001.
  • Cervo, A.L.; Bervian, P. A. Metodologia científica, 3. ed. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1983.
  • Marconi, M. A.; Lakatos, E. M. Técnicas de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1988.
  • Silva, A. M. Corpo, ciência e mercado: reflexões acerca de um novo arquétipo da felicidade. Florianópolis: Autores Associados, 2001.
  • Xavier, T. P. Métodos de ensino em educação física. São Paulo: Ed. Manole, 1986.

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