Greve na Universidade Australiana! Entre Outras Peculiaridades da Vida Animal e Social na Australia.

Por: .

Blog do Jorge Knijnik - 2013

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Resumo

PECULIARIDADES 1 – Cheguei aqui na Australia em julho de 2009, e já comecei a trabalhar na University of Western Sydney. Eu vinha diretamente da USP, que a época estava em greve. A policia militar paulista tinha invadido o campus do Butantã, na zona Oeste de SP, e algumas semanas antes de imigrar eu presenciara as cenas que, infelizmente, podemos chamar como sendo as ‘de sempre’: bombas de gás jogadas nos manifestantes – inclusive em docentes de cabelo branco que haviam sido minhas professoras na graduação e que estavam dando flores aos policiais no portão do campus. O choque invadira a cidade universitária, mostrando todo aquele ‘preparo’ e ‘vontade de dialogo’ com os manifestantes – estudantes, funcionários e professores da maior universidade brasileira – no youtube há vários vídeos sobre isso, basta procurar ‘greve na USP 2009’. .

Pois bem, algumas semanas após a minha chegada, começam a circular os boatos de greve na minha universidade. Eu sem entender nada do que estava acontecendo, vi os cartazes, panfletos, e-mails, chamando para uma ‘industrial action’ em um determinado dia. Descobri que somente quem era sindicalizado tinha direito a aderir a tal ‘industrial action’, que se resumia a uma paralisação de um dia, contraria a lentidão que a administração da universidade impunha as negociações relativas ao dissidio coletivo daquele ano. A minha faculdade praticamente parou, entre outras no meu campus. Vi um piquetezinho de meia dúzia de sindicalistas tentando conversar com os carros que entravam, e mais nada. No dia seguinte, recebemos um comunicado por e-mail dizendo que aqueles que haviam aderido a greve – digo, a ‘industrial action’, ou em uma tradução livre, ‘ação contra o empregador’, que não se restringe apenas a greve, mas já explico isso – , enfim, os grevistas deveriam se registrar em um link especifico do RH, declarando que entraram em greve, para serem descontados aquele dia. Foi isso que aconteceu durante a ‘industrial action’ – algumas semanas depois a universidade apresentou uma proposta de negociação, que foi rejeitada via voto pelos docentes. Em novas negociações, o sindicato conquistou o que reivindicava em termos de reajuste e ampliação de direitos. Mas eu passei quase ao largo da situação.

Mas o acordo assinado naquela época era valido por três anos, de modo que os sindicatos (funcionários e docentes) e a universidade voltaram a negociar neste ano. A universidade colocou uma firma de advocacia para negociar por ela, o que, segundo os negociadores do sindicato, vem procrastinando todo o processo, uma vez que os caras não tem autonomia para nada. Entre junho e julho o impasse era grande, e-mails voavam para todo o lado, da administração da universidade e do sindicato – já sindicalizado, comecei a entender melhor como as coisas rolam. No inicio de agosto, depois de varias tentativas frustradas de negociação, o sindicato dos docentes, com o apoio da associação nacional dos docentes universitários, a nossa ANDES daqui, resolveu consultar seus associados sobre uma possível ‘industrial action’. Na verdade, esta eleição é uma exigência da legislação trabalhista australiana: o sindicato consulta o povo sobre a possibilidade de fazerem a tal ‘industrial action’ – não é a greve em si, apenas uma consulta se o pessoal faria ‘industrial action’ se a coisa ficar feia. Após alguns entraves jurídicos, com a universidade questionando o direito dos sindicatos de realizarem tal consulta, uma vez que eles não ‘estavam negociando em boa fé’, a justiça trabalhista autorizou e a tal consulta foi feita.

Assim, recebi em casa uma cédula enviada pela Comissão Eleitoral Australiana (!), com todas as informações de como votar, de como devolver minha cédula, um envelope lacrado e selado,etc. Na cédula, podia-se votar ‘sim’ ou ‘não’ para algumas alternativas de ‘industrial action’: sete eram as possibilidades naquele plebiscito: a) cinco minutos de paralisação de trabalho; b) uma hora de paralisação de trabalho; c) um dia de paralisação de trabalho; d)boicote, ou boicote parcial, do registro e envio de notas de alunos para os sistemas oficiais; e)boicote, ou boicote parcial, para qualquer hora extra ou atividade agendada para fora do horário de trabalho oficial (9-5); f)boicotes ou boicotes parciais no atendimento a qualquer demanda, incluindo responder a telefonemas, e-mails ou mesmo solicitações verbais; g) boicote ou boicote parcial do uso dos sistemas de intranet nos quais se faz todo o trabalho por aqui. São estas as possíveis ações que poderemos tomar, uma vez que a grande maioria (quase 80%) se mostrou a favor de uma possível ‘industrial action’ – eu achei a historia dos e-mails demais, como vou viver cinco minutos sem e-mails, Laercio?

Mas por enquanto nada rolou. A universidade voltou a dialogar com os sindicatos, o clima tenso cedeu, e as negociações prosseguem, com uma agenda quinzenal e ambos os lados se dizendo dispostos a resolverem tudo em dois meses. Veremos. Acho que não vai rolar bombas. Mas se eu não responder a alguns e-mails, vocês já sabem: estou em plena ‘industrial action’ por meus direitos aqui!

PECULIARIDADES 2 -  Hoje de manha chego na escola das crianças, e o caminho pelo meio do pátio que leva ate a quadra onde toda a escola se reúne pela manha para dar ‘good morning’ aos teachers e a diretora, ouvir os recados e se dirigir as classes, estava fechado. Uns tapumes isolavam a área, e para chegar à quadra temos que dar uma volta imensa por trás das classes, pelo bosque – ou então passar por uma área coberta perto da cantina, que também está fechada. Razão do isolamento? Um casal de ‘plovers’, um pássaro local, fez um ninho em cima do telhado da cantina e está chocando seus ovos ali. Segundo consta, este pássaro  é bem agressivo, principalmente na época que esta chocando, de modo que todo cuidado é pouco, eles tem garras afiadas e atacam as cabeças das pessoas mesmo, e machucam seriamente. A tarde, o jornal semanal da escola explica a situação e a posição oficial da diretora: o ninho não será removido, e o pátio continuara fechado. Na janta, meus filhos me explicam que por lei não se pode remover nenhum ninho de pássaro, eles tem o direito de se estabelecer ali. E cuidado com a sua cabeça, ande debaixo do caminho coberto!

PECULIARIDADES 3 – Há algumas semanas, sai para passear de bicicleta com umas das minhas meninas e com meu menino. Nosso destino era chegar a um morro e fazer uma trilha no meio de um bosque de onde se tem uma vista linda do rio Woronora. Quase meia hora para chegar lá, com uma subida forte no trajeto. Estávamos para começar esta subida, quando minha filha buzina, pede para eu voltar, e apontando para umas arvores, fala: ‘pai, olha este caminho aqui’. Eu não acredito, chego perto, e vejo o inicio de uma trilhazinha que nunca tinha visto, no meio de umas arvores, passando atrás de um monte de casas, tudo gramado. Um atalho, esta cheio disso por aqui no meu bairro e adjacências. Mas o atalho é todo ladrilhado, com uns lajotões retangulares, cada um  com  mais ou menos 3 X 2 metros, com uma superfície rugosa para evitar escorregoes. Seguimos por ali, bem gostoso, andamos uns dois km, e evitamos a maior parte da subidona. Grande descoberta da Lulu. Na semana seguinte, fazemos o mesmo caminho, e meu filho comenta, meio reclamando: ‘Pai, este caminho aqui está ruim, os lajotões  estão todos quebrados’. Eu penso comigo que o rapazinho esta virando australiano mesmo, já reclamando, só por conta de umas rachaduras no chão, uns solavancos que damos, em virtude das raízes de algumas arvores empurrarem para cima alguns lajotões, não significa nada, o caminho esta ótimo. Mas ele continua: ‘Pai, de bike ate da, mas e as velhinhas que andam por aqui? E o pessoal com carrinho de bebe?’. Eu sorrio. Oito anos e já com esta consciência aguda…

Ontem de manha peguei a trilha sozinho. No meio do caminho, umas áreas isoladas por faixas e cavaletes, e um pessoal trabalhando ali, removendo os lajotões, colocando um caminho que parece que vai ser de cimento e asfalto queimado, tudo novinho e lisinho. Passo ao largo, pela grama, devagar, e ouço dois funcionários analisando uns desenhos do local, e discutindo como alisar o trajeto sem danificar a raiz de uma arvore bem grande que passa por ali. Penso que, além dos meus filhos, outros cidadãos conscienciosos devem ter reclamado na prefeitura local, exigindo aquele conserto.

PECULIARIDADES 4 – No próximo dia sete, enquanto a seleção australiana leva um vareio da seleção brasileira em Brasília, os australianos vão às urnas. Ao que tudo indica, o governo reacionário que estava fora do poder ha vários anos, vai ganhar. Direitosa, vão fazer uma ‘reengenharia’ danada nos serviços públicos. Quem conhece o teor da palavra, sabe o que isso significa: cortes de gastos em prol dos seus grandes financiadores, construtoras e empresas mineradoras. A agenda dos caras é contraria ao tratamento humanitário e possibilidade de asilo e integração de refugiados que vem para cá; eles  tem uma ideologia do tipo ‘uma única Australia’, etc e tal. Eu tenho uma ex-aluna que agora trabalha comigo em um projeto de pesquisa, que não se conforma: ela reclama comigo, contundente: “Como pode, um povo que vive em um pais prospero como este, que estudou no mínimo 11 anos em uma escola com um curriculum humanista, que fala de multiculturalismo, tolerância, sociedade plural, aceitação do outro, etc, como podem eleger gente assim? Estou absolutamente frustrada com o eleitorado, com o povo australiano…”.  Será que novas ‘industrial action’ se avizinham? Não sei, mas somente quem viveu em uma ‘democracia interrompida’ sabe o quanto e’ bom viver em uma democracia, e o quão  importante e’ votar – inclusive para escolher o tipo de ‘industrial action’ que você almeja na hora de batalhar pelos seus direitos – e para que usem seus impostos para coisas centrais como consertarem as calçadas da vida.  Estou receoso: como este novo governo federal ira usar meu dinheiro? Espero que continuem protegendo os passaros – e consertando os atalhos.

Shana Tova para todas e todos!

Por Jorge Knijnik

em 5-09-2013, às 17:47

17 comentários. Deixe o seu.

Querido sobrinho,

Sem querer puxar o seu saco, mas já puxando (no bom sentido, é claro), acho que você deveria escrever mais. Sua prosa e suas histórias são deliciosas. Quase me senti ao lado de vocês numa bike, pedalando pelos atalhos australianos. Cheguei a sentir o vento no rosto. Pelo que você conta, a Austrália é quase tão fantástica quanto a nossa Londrina (hehehehe). Shaná Tová para todos vocês, também.

Por Julio Bahr
em 5-09-2013, às 18:42.

JK, já escrevi para a Embaixada da Austrália no Brasil pedindo pra liberar os teus emails durante a greve! Cuidado com a direita! Laércio.

Por Laércio Elias Pereira
em 5-09-2013, às 20:24.

Cara, que comentário gigante. Assim só vou ler a prestações! Abraço pra vc!

Por Antenor Magno
em 5-09-2013, às 22:09.

Querido Nicanor, no worries. Voce nao foge a raca- nem eu, de modo que parcelado tem juros! Abracao!

Por Jorge Knijnik
em 6-09-2013, às 0:19.

Laercio, esta direita vai ser foguete… Sao descendentes do George Bush II, dificil… Mudando de assunto, quais os dias da reuniao do Gavin em Canberra? A embaixada vai pagar minha passagem? Com wireless? Outra coisa: continuo achando que voces deviam ajeitar isso aqui para que as respostinhas ficassem logo abaixo dos respectivos comentarios… nada urgente, e sem desperdicio do dinheiro publico! abraco!

Por Jorge Knijnik
em 6-09-2013, às 0:22.

Tio Julio querido,

Obrigado, obrigado, aceito com gosto suas puxadas de saco! Tambem gostaria de escrever mais, adoro fazer posts – mas so’ consigo faze-lo no meu escasso tempo livre, a vida com uma jornada de trabalho oficial de 35hs/semanais nao e’ nada facil…alias, jornada esta conquistada durante a ultima ‘industrial action’ – durante as inesqueciveis ‘jornadas de julho/2009′. Um abracao a todas e todos londrinenses queridos!

Por Jorge Knijnik
em 6-09-2013, às 1:14.

Hey Jorge, It is indeed very generous of you to share these experiences with your kins, chums et alia. Your write up was so enlightening; very elaborate with clinical analyses of one who has lived in both situations; experiences worth bringing back home (someday, if you so desire). Anyways, I hear tha Aussie ladies are sick and tied of the enduring Sexism in that society; I hope the likely winners – The Reactionaries – don’t further clip the wings of our other halves!!!!!!! Positive vibe to you and the Family, and keep on keeping on.

Por Darlington George
em 6-09-2013, às 2:44.

Darlington, my dearest friend! So great to meet you here in this space! Unfortunately, you’re totally right, these reactionaries are really ‘macho’ guys, very misogynists, it’s a sad moment for the Aussie society concerning gender equality… What these guys did with the former Prime Minister, Julia Gillard, the first woman to be in charge here, was definitely outrageous…But you’re right again, we’ll keep on keeping on? What about you? What are you up to? Where? I hope you come here soon to bring these positive vibes in a more face to face mood! Heaps of love to you and family!

Por Jorge Knijnik
em 6-09-2013, às 4:32.

Parabens. Ficamos felizes com as boas noticias.Desejamos “agiit your” para todos e todas.Bjos dos Pais

Por Carlos T. Knijnik
em 6-09-2013, às 4:36.

Obrigado, Pai e Mae, um beijao, agit yur pra voces tambem! Avisem quando chegar!

Por Jorge Knijnik
em 6-09-2013, às 6:59.

Oi, JK.

Como o Sr. Júlio disse, você realmente nos faz viver um pouco da Australia!
É bem legal! (rs) O melhor é transportar essas experiências para a nossa realidade Brazuca, e pensar quanto a educação impacta em todos esses “causos”? Ou se seriam aqueles jogos comunitários que acontecem aos finais de semana? Ou tudo isso e mais alguma que eu ainda não li em suas outras postagens?
Espero que o governo não apronte muito e que os passarinhos continuem chocando seus ovinhos em paz!
Abraços!
ASA.

Por ASA
em 11-09-2013, às 5:17.

Querido ASA

Sempre bom te “ver” por aqui… acho que este eh um pouco o objetivo destas ‘notas do outro lado do mundo’… vivenciar o que rola por aqui, atraves do recorte, do olhar engracado e curioso – e por vezes incredulo – deste escriba aqui… Nao e’ pra ficar ‘incredulo’ com a historia dos passaros? Mas este governo que vem por ai… tristeza vai ser pouco… as previsoes sao que dure pelo menos seis anos… ja ouvi cada loucura… Temos que viver apesar dos governos…Como vai ser seu sandwich aqui? Abracao!

Por Jorge Knijnik
em 11-09-2013, às 12:10.

Oi, JK.

Sobre o “sanduba”, eu comecei a bisbilhotar algumas universidades e alguns programas, mas ainda não encontrei algum que eu possa me “agarrar” (rs).
Continuarei procurando!!
Abração e boa semana… A sua já começou, né?! (rs)

Por ASA
em 16-09-2013, às 5:47.

É Jorge, a vida não é difícil somente no Afeganistão, e mudanças no comando é quase sempre doloroso. Apesar de tudo, é bom que a democracia continue, assim você poderá escolher o que achar mais correto. Nada como ter múltiplas escolhas.

Aqui perto de casa, na cidade de Nara, a obra de alargamento da pista foi interditada porque durante a escavação encontraram alguns vasos ou coisas similares. Já são sete anos que a obra foi embargada, até que os “especialistas” descubram o que são todas aquelas coisas. O trânsito fica caótico mas ninguém reclama, porque a cultura por aqui é preservar a história.
A rua onde moro é toda arborizada com muitas árvores frutíferas. Os caquis, figos e uvas ficam expostas e ninguém em a ousadia de mexer porque elas são plantadas para os pássaros, que bicam, bicam e deixam uma sujeira enorme. No dia seguinte um funcionário começa a varrer o que sobrou no chão. É assim boa parte do ano. Agora o primeiro ministro Abe que subir o imposto sobre produtos para 8%. Acho que parte desse imposto vai para o salário dos “limpadores de frutas” do meu bairro.
Acho que é assim onde a consciência das pessoas é diferente, onde todos pensam em tudo, inclusive nos menos favorecidos.
Vamos nessa, Jorge. Não acho que ficaremos mais ricos, mas tenho certeza de que ficaremos melhores.
Um grande abraço.

*Ah!… continuo com o meu projeto de tentar uma equipe por aí.

Por Edison Yamazaki
em 16-09-2013, às 12:56.

Edison, irmao. Seu comentario-poetico (ou deveria dizer ‘poesia-comentario’) ficou lindo aqui neste post!Obrigado, colaboracao incrivel! Sim, ha de chegar um dia no qual passarinhos, caquis e figos serao prioridade nos quatro cantos do mundo!Valeu mesmo, e a A-League te espera para levantar o nivel por aqui – queremos te aplaudir em pe! Forte abraco!

Por Jorge Knijnik
em 18-09-2013, às 1:18.

Outro texto delicioso!

Queria saber como anda a greve aí agora. Alguns amigos meus australianos me contaram, bem sentidos, que a Direita ganhou as eleições. Certamente você terão novas e ‘heated’ “industrial actions”. A UniSydney tava nesse clima, né, várias paralisações.

Deixe-nos por dentro, Jorge!

Abraços,

Adriano

Por Adriano Senkevics
em 13-10-2013, às 18:32.

Oi,Adriano! Obrigado pelo chokito, digo, prestigio (horrivel essa…). O pessoal da Sydney Uni, depois de muitcha luta e paralisacoes, conseguiu o que queria! 15% e mais uma serie de reinvindicacoes conquistadas! Viva! Na UWS a primeira ‘half day’ greve vai ser quarta que vem….com direito a piquete no meu campus! Mas acho que nao vai rolar bombinhas de efeito desmoralizante nem balinhas emborrachadas pra ninguem….se quiser vir engrossar o piquete, o cappucino e’ por minha conta! Abracao!

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