Influência da Intervenção Psicomotora em Crianças com Síndrome de Down

Por: Geciely Munaretto Fogaça de Almeida.

58 Reunião Anual da SBPC

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INTRODUÇÃO:

A síndrome de Down (SD) é uma condição genética que constitui uma das causas mais comuns de deficiência mental, compreendendo cerca de 18% (MOREIRA et al. 2000). No que se refere ao desenvolvimento de habilidades motoras, Mancini (2003) cita estudos que revelam atraso nas aquisições de marcos motores básicos em crianças com SD e em idade escolar demonstram níveis de desenvolvimento motor atrasados (GALLAHUE; OZMUN, 2001). Do ponto de vista cognitivo, a literatura indica atraso mental (de leve a moderado), sendo observado maior comprometimento na área da linguagem (SAMPEDRO et al. 1997).

As alterações específicas apresentadas por essas crianças, em geral, irão interferir na sua capacidade de desempenhar atividades diárias. Porém, tratamentos específicos podem contribuir para seu desenvolvimento biopsicossocial. Diante dessa realidade, o Laboratório de Desenvolvimento Humano - LADEHU, do Centro de Educação Física, Fisioterapia e Desportos - CEFID, da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, vem desenvolvendo desde 2005 um Programa de Intervenção Psicomotora Específica - PIPE, direcionado a crianças com SD de 04 a 12 anos. São propostas atividades reeducativas, englobando as áreas da motricidade fina e global, equilíbrio, esquema corporal, organização espacial e temporal, linguagem, além do favorecimento dos aspectos sociais. Este estudo teve como objetivo verificar a influência das intervenções nessas crianças.


 METODOLOGIA:

Nesta pesquisa experimental do tipo estudo de caso, a amostra foi de 5 crianças com síndrome de Down, entre 5 e 8 anos de idade, sendo casualmente 3 meninos e 2 meninas, que procuraram atendimento no LADEHU, durante o ano de 2005 e freqüentaram o Programa de Intervenção Psicomotora Específica - PIPE neste período. O atendimento compreendeu: Avaliação motora, através dos testes da Escala de Desenvolvimento Motor - "EDM" (ROSA NETO, 2002); Avaliação biopsicossocial com os responsáveis da criança; Avaliação postural e antropométrica, seguida de Intervenções Psicomotoras e reavaliação final.

As sessões de intervenção foram realizadas por uma equipe multiprofissional (3 fisioterapeutas, 2 educadores físicos, 2 fonoaudiólogas, uma terapeuta ocupacional e uma psicóloga). O número total de sessões foi de 45, mas variou em cada criança, dependendo do tempo de permanência no programa.

As aulas foram coletivas, em 2 sessões semanais, com duração de 50 minutos cada. Foram propostas atividades estimulantes, realizadas de forma lúdica, num espaço adequado. As atividades englobaram as áreas de motricidade fina e global, equilíbrio, esquema corporal, organização espaço-temporal e linguagem, organizadas através de temas, programados quinzenalmente. Para a análise dos dados utilizou-se a estatística descritiva, sendo analisados de forma quantitativa e qualitativa, utilizando-se estudo comparativo do tipo pré e pós-teste.


 RESULTADOS:

CASO A - Masculino. 15 intervenções. Quanto ao desenvolvimento neuropsicomotor, a sustentação cefálica ocorreu aos 18 meses e a marcha sem apoio após os 3 anos. Falou as primeiras sílabas aos 4 anos. Freqüenta a escola especial desde os 5 anos. Seu quociente motor geral passou de 27,4 para 33,0 e a área com maior avanço foi o esquema corporal (passou de 37,9 para 58,3).


 CASO B - Masculino. 17 intervenções. A sustentação cefálica ocorreu entre 3 e 6 meses e a marcha sem apoio aos 24 meses. Falou as primeiras sílabas aos 3 anos. Seu quociente motor geral passou de 50,0 para 62,5, com grande melhoria na área do equilíbrio (42,9 para 75,0).


 CASO C - Masculino. 15 intervenções. A sustentação da cabeça ocorreu aos 8 meses e a marcha sem apoio aos 30 meses. Falou as primeiras sílabas aos 24 meses. Não freqüenta escola especial e freqüenta escola regular desde os 4 anos de idade. O quociente motor geral foi de 45,3 para 50,0, sendo que as áreas que mais desenvolveu foram motricidade global e equilíbrio.


 CASO D - Feminino. 32 intervenções. Quanto ao desenvolvimento neuropsicomotor, a sustentação cefálica ocorreu aos 5 meses e a marcha sem apoio entre 10 e 15 meses de idade. Iniciou a falar após os 3 anos. Freqüenta a escola especial desde os 3 meses e a escola regular desde os 18 meses. Seu quociente motor geral passou de 42,6 para 52,9; a área de maior desempenho foi motricidade global.

CASO E - Feminino. 40 intervenções. A sustentação cefálica ocorreu aos 7 meses e a marcha sem apoio aos 4 anos. Falou as primeiras sílabas entre os 3 e 4 anos. Freqüenta escola especial desde os 12 meses de idade. Seu quociente motor geral passou de 26,3 para 35,8 e a área de maior ganho foi o equilíbrio.


 CONCLUSÕES:

Nossos resultados demonstram atrasos nas aquisições motoras em relação ao desenvolvimento motor normal, confirmando a literatura (PUESCHEL, 1995; MUNDY et al. 1995; SARRO; SALINA, 1999). Outros estudos que realizaram avaliação motora por meio da "EDM" em deficientes mentais também encontraram classificação "muito inferior" no desenvolvimento motor (MARINELLO, 2001; ALMEIDA, 2005). As intervenções tiveram efeitos positivos em relação às dificuldades apresentadas pelos sujeitos no pré-teste, embora a classificação "muito inferior" tenha permanecido em todos os casos após as intervenções.

Entretanto, o rendimento pouco satisfatório em algumas habilidades indica a necessidade de mais tempo para as intervenções e análises mais profundas sobre outras características e comportamentos. Esse avanço é comprovado através de pesquisas, que referem que crianças com síndrome de Down podem alcançar estágios mais avançados de raciocínio e de desenvolvimento quando estimulados (BOMFIM, 1996; SILVA 2002).

A pesquisa mostrou a importância da avaliação motora em crianças com síndrome de Down, destacando o resultado positivo da intervenção psicomotora específica, tanto no aspecto motor quanto no aspecto social. Os resultados permitem elaborar a hipótese de que, por meio da experiência obtida por estimulação, pode ser construído um novo padrão de comportamento em pessoas com síndrome de Down, levando a melhorais no seu desenvolvimento global.

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