Influências da Formação em Licenciatura na Ação Docente: Um Retrato de Volta Redonda

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IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

O estudo aqui apresentado é a terceira parte de um trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Física de Volta Redonda (LEPEF-VR) que visa acompanhar a trajetória de formação e atuação do profissional de Educação Física, no espaço formal da escola, na região sul do estado do Rio de Janeiro.

Nos dois trabalhos anteriores, nos foi possível observar quais as concepções sobre Educação Física Escolar (EFEsc) existentes entre os professores do Curso de Licenciatura em Educação Física (CEF) do Centro Universitário de Volta Redonda (Unifoa); em seguida, como uma continuidade lógica no percurso deste profissional, o estudo foi voltado para a identificação da existência e modelos de Políticas Educacionais para a Educação Física no Sul Fluminense no sentido de se construir um levantamento da organização pedagógica nesta região, e, neste terceiro momento, procuramos detectar as Influências da Formação em Licenciatura em Educação Física, na ação docente em Volta Redonda, e com isto quais os elementos desta formação universitária mais influenciam a ação deste docente na região.

O objetivo é analisar nas realidades do cotidiano docente as marcas da formação universitária e das políticas educacionais em suas perspectivas de trabalho. Quais os elementos da formação universitária que mais influenciam a ação cotidiana do docente? Qual o discurso deste professor em relação a esta influência e o que aparece disto na sua ação prática cotidiana? Como as políticas educacionais em Educação Física (EF) colaboram, efetivamente, para a prática docente?

A metodologia escolhida foi o estudo de caso, qualitativo e interpretativo, fazendo uso da observação sistemática e da entrevista semiestruturada, além da necessária revisão bibliográfica. O estudo se limitou às escolas de Volta Redonda pela relevância observada desta cidade no cenário educacional da região, por uma necessária centralidade no foco da pesquisa e, também, por ser uma continuação dos estudos anteriores. A seleção das escolas e professores a serem investigados foi uma amostragem aleatória com turmas do ensino fundamental e médio, nos turnos diurno e noturno.

Um pouco de história

A Educação Física e o esporte em Volta Redonda começam a existir, significativamente, com a construção de um complexo esportivo para os funcionários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e seus familiares, na década de 1950. De 1954 a 1980, a CSN deu muito apoio ao esporte na cidade, patrocinando a vinda de equipes de outros estados para competições. A EFEsc tinha, então, o objetivo de incentivar a prática do esporte, descobrir talentos e formar equipes para as disputas dos Jogos Estudantis que ocorriam sempre no segundo semestre de cada ano e constituíam o ponto alto do trabalho dos professores de Educação Física nas escolas. A competência destes profissionais era medida pelas medalhas e troféus que seus alunos conquistavam nos Jogos Estudantis, segundo Vilela (2002) "... caracteriza-se assim a valorização da ‘performace esportiva’ como objetivo da EFEsc. Por isso, nos anos de 60 e 70, o desporto de alto nível subjuga e coloca a E.F. a serviço do treinamento desportivo".

No ano de 1971, foi fundada a Escola de Educação Física da Fundação Oswaldo Aranha (EEF - FOA), isto foi um divisor de águas na EF da região, pois permitiu a substituição dos leigos, que atuavam na EF, pelos profissionais graduados. Esta mudança trouxe para a região fundamentação teórica e, por conseqüência, uma melhora significativa no trabalho de EFEsc, isto, contudo, não significou um abandono ao "esportivismo" da EFEsc.

Em meados da década de 1980, houve um apelo feito por Medina (1986) "A EF precisa entrar em crise urgentemente. Precisa questionar criticamente seus valores. Precisa ser capaz de se justificar a si mesma". Hoje a procura que nos aflige é justamente o fato de que a EF precisa sair desta crise tão longa e encontrar, pelo menos provisoriamente, os fundamentos que lhe possibilitem a legitimação no espaço escolar. Mudança é a palavra de ordem no país e no sistema escolar isto não é diferente. Embora o número de pensadores críticos da EF tenha aumentado significativamente nas últimas décadas as propostas ditas transformadoras ainda não passaram do nível crítico teórico.

A ação docente

O trabalho de campo da pesquisa foi composto de um questionário e o acompanhamento de aulas práticas destes docentes. Quando questionados sobre a existência de uma política educacional voltada para a Educação Física, as respostas aconteceram com o uso de jargões comuns na área ou utilizando o objetivo geral da instituição para fazê-lo. Apenas um dos entrevistados declarou que não existe esta política específica como, também, não existe para qualquer outra disciplina, o que existe é uma política educacional voltada para as escolas públicas municipais de Volta Redonda. Esta dificuldade nas respostas existe também no nível das SME’s como nos relata Rocha Junior e outros (2004) : "... existe uma nítida indefinição e confusão". Portanto é perfeitamente compreensível esta mesma incerteza no docente que deveria receber esta orientação da mesma SME.

A escolha dos conteúdos pelos professores das escolas públicas municipais e estaduais é feita sob a luz de um documento de orientação curricular enviado pelas respectivas secretarias e que é seguido dentro de cada realidade específica. Na rede privada, o que se vê é o interesse do aluno definindo os conteúdos da área. Apenas uma das escolas privadas segue um programa enviado pelo curso que orienta, pedagogicamente, a instituição, e este conteúdo contempla apenas a prática esportiva nas aulas de Efesc. Segundo o Coletivo de Autores (1992)"...o esporte determina, dessa forma, o conteúdo do ensino da Educação Física, estabelecendo também novas relações entre professor e aluno ..." Esta prática nos parece um retrocesso à década de 1970. No curso noturno, no entanto, EFEsc não possui um conteúdo definido e o que se vê, basicamente, é a preocupação do professor em possibilitar a prática recreativa de qualquer tipo de jogo. Com esta falta de definição nos conteúdos, os objetivos são os conhecidos jargões para a área ou para a instituição escolar como socialização, formação integral do aluno e valores morais. Com isso, ficaram claras as contradições entre conteúdos e objetivos da área.

Quando questionados sobre as disciplinas da sua formação universitária que destacam de grande importância para sua rotina profissional, as disciplinas esportivas (handebol, voleibol, futsal, etc) não aparecem, e recreação e jogos são citados como os que "muito auxiliam na práxis diária". Isto nos leva a considerar, também, a presença forte da EFEsc recreativa nestas instituições. Notamos também que, no discurso dos professores, o professor de EF possui, hoje, o respeito da comunidade escolar em função da postura e do discurso de cada profissional individualmente. Porém no nível administrativo pedagógico a EFEsc não possui caráter reprobatório, o que reforça a idéia de que ela ainda é tratada como uma atividade e não como uma disciplina.

Em relação à situação atual e o futuro da EFEsc, a opinião dos professores girou em torno de quatro pontos bastante definidos: A EFEsc conseguiu avançar na questão do reconhecimento dos outros profissionais da educação; As autoridades responsáveis pela educação no país não possuem uma visão de reconhecimento da EFEsc como disciplina curricular; Existe uma preocupação muito grande com a questão da "esportivização" e da competição na EFEsc e a preocupação de que a EFEsc caminha para uma definição de sua identidade, porém ninguém arrisca tentar afirmar qual e quando será definida esta identidade.

Partindo da análise do questionário, fica clara a consciência dos professores de todos os anseios e preocupações que transpassam a EFEsc há tempos, as respostas deixam clara esta consciência e, também, a expectativa em contribuir para o desenvolvimento dos alunos através de suas aulas. Conseguimos definir, ainda, uma recusa nominal ao "esportivismo" e á competição exacerbada nas aulas de EFEsc, isto, porém, entra em contradição quando passamos da teoria à prática e nos colocamos a observar a prática pedagógica destes professores. Independente do tempo de conclusão, do curso de licenciatura deste professor, a aula percorre o espaço entre a prática regulamentada do desporto e "qualquer coisa" (prática comum no curso noturno) que o aluno queira fazer, passando pela recreação e, com poucas exceções, conseguimos detectar até a existência de uma proposta progressista da EFEsc, mesmo que tal professor não tenha a real consciência disto. No noturno a EFEsc vive uma inconsistência muito grande e, parece, ainda não ter encontrado um discurso e uma prática que justifique a sua existência.

Considerações não-finais

O que podemos constatar com este trabalho está longe de ser uma consideração final sobre a EFEsc no sul do estado e nem pretende ser definitiva neste sentido. Mas podemos observar que, numa visão geral do trabalho, os professores possuem um discurso e uma prática sobre EFEsc diferenciados em função do seu local de trabalho, seja ele na rede pública municipal e estadual ou na privada. E também que este discurso nem sempre está coerente com a prática exercida. Percebe-se então a falta de unidade da EFEsc nos estabelecimentos de ensino de uma mesma cidade onde existem conteúdos e objetivos diferenciados para as mesmas séries em função da rede a que está ligado. Mais do que isto, esta diferença existe até mesmo em escolas da mesma rede e mesmo entre turmas da mesma escola. Isto potencializa os problemas da EFEsc e dificulta cada vez mais o reconhecimento da disciplina como de importância para a formação do educando. Acreditamos caber, então, aos Cursos de Licenciatura em Educação Física um papel muito importante na formação da conscientização deste futuro profissional quanto ao seu papel como educador e da sua atuação séria, da sua responsabilidade no cotidiano da profissão. Mas, acima de tudo, todo profissional é responsável pela sua prática e precisa assumir uma postura incisiva no sentido de contribuir para a formação dos alunos pelos quais responde.

Obs. Os autores professores Silvio Henrique Vilela, Flávio Damião P. Junior, Fernanda D. de Oliveira, Raquel Lino L. de Freitas, Rodrigo Amâncio de Assis e Thaisa da Silva Barbosa são todos pesquisadores do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Física de Volta Redonda (LEPEF-VR).

Referências bibliográficas

  • Caparroz, Francisco E. Entre a Educação Física na escola e a Educação Física da escola. Vitória: CEFD-UFES, 1997.
  • Coletivo de autores. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo, Cortez - 1992.
  • Fensterseifer, Paulo Evaldo. A Educação Física na Crise da Modernidade. Ijuí: Unijuí, 2001.
  • Kuns, Elenor. Educação Física: ensino e mudanças. 2.ed. Ijuí, Editora Unijuí, 2001.
  • Medina, João Paulo Subirá. A educação Física cuida do corpo - e "mente": bases para a renovação e transformação da educação física. 11ª ed. Campinas, Papirus, 1993.
  • Muniz, Neyse Luz. Influências do pensamento pedagógico renovador da educação física escolar: sonho ou realidade? (Dissertação de Mestrado) RJ: PPGEF/UGF, 1996.
  • Rocha Junior, Coriolano P. da. Porpostas pedagógicas em Educação Física: um olhar sobre a cultura corporal. (Dissertação de Mestrado). RJ: PPGEF/UGF, 2000.
  • Rocha Junior, Coriolano P. da e outros. Políticas Educacionais em Educação Física: Uma análise sobre o sul fluminense. In: Anais do II Encontro Fluminense de Educação Física Escolar 2004, Niterói.
  • Vilela, Silvio Henrique. O Corpo na História (A E F em Volta Redonda de 1964 a 1985).(Dissertação de Mestrado) Vassouras, USS, 2004.

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