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 Historicamente a Educação Física no Brasil sempre teve o seu papel social muito bem definido. Quem melhor sistematizou estas definições foi Ghiraldelli Júnior (1988) que identificou na história da Educação Física no Brasil 5 tendências marcantes: A Tendência Higienista (1889-1930), a Tendência Militarista (1931-1944), a Tendência Pedagogicista (1945-1964), a Tendência Competivista (1965-1984) e a Tendência Popular (Pós-85). Assim, ao longo do tempo, através destas tendências a Educação Física cumpriu obedientemente a função médico-higienista, militar-disciplinadora, educativo-patriótica, competitivo-desportiva e lúdico dissimuladora, confirmando a lucidez de Manuel Sérgio quando diz que "A Educação Física, [...] é sempre aquilo que outros querem que ela seja" (1991, p.100), como na constituição de 1937 onde pela primeira e única vez na história do país a Educação Física foi contemplada em dois artigos.


 O artigo 201 da lei 4024 estabelecia que "será obrigatória a prática da Educação Física em todos os níveis e ramos da escolarização, com predominância esportiva no ensino superior" (grifos nossos).


 O artigo 2º do decreto 69.450/71 estabelecia que "a Educação Física, desportiva e recreativa integrará, como atividade escolar regular, o currículo dos cursos de todos os graus de qualquer sistema de ensino" (grifo nosso).


 Os grifos nossos não são aleatórios: eles nos chamam a atenção para o fato de que a Educação Física sempre foi tratada como prática e atividade e não como conhecimento teórico e disciplina curricular. Este fato que seria um desmerecimento diante das demais disciplinas, coloca a Educação Física em posição de destaque: não sendo uma disciplina, ela não teria um conteúdo formal a ser ensinado, não sendo portanto, um fim em si mesma. Como prática, ela demanda um conjunto de atividades que, quando praticadas, contribuiriam para o crescimento e desenvolvimento humano em todas as duas dimensões, sendo portanto um meio para alcançar objetivos muitos superiores a aprendizagem formal do seu conteúdo.


 Esta percepção foi vislumbrada pela primeira vez no período que Guiraldelli Júnior convencionou chamar de Tendência Pedagogicista (1945-1964), onde todas as outras disciplinas do currículo escolar foram consideradas instrutivas, pelo conteúdo que deveriam informar, ao passo que a Educação Física passou a ser reconhecida como educativa, porque forma e informa através da prática, contribuindo para o crescimento e desenvolvimento das potencialidades afetivas, cognitivas e psicomotoras ao mesmo tempo e numa mesma atividade, como evidenciou Costa (1991).


 Historicamente o professor sempre trabalhou com atividades físicas como ginástica, recreação, esportes, danças e lutas que recentemente foram denominadas de cultura corporal. Em cada tendência, estes elementos foram utilizados de acordo com a definição de cada época. E hoje, qual o papel da cultura corporal na formação de nossos alunos?


 Partindo de algumas considerações pedagógicas levantamos alguns questionamentos: considerando que a função da Educação é modificar os alunos, que modificações queremos e podemos fazer nos nossos alunos através do ensino/aplicação dos elementos da cultura corporal?. Considerando que o conteúdo existe para cumprir um objetivo educacional, o que queremos que nossos alunos saibam ao final do curso? o que queremos que nossos alunos consigam através de suas experiências em Educação Física?.

 Considerando que o ensino se mede pela aprendizagem, que sentido educativo estamos dando a nossa ação quando avaliamos força, resistência, velocidade, habilidade motora ou conhecimento de regras desportivas?


 Estes questionamentos por si só nos levam a refletir sobre o que comumente chamamos de prática pedagógica e nos levam a constatação do que Singer & Dick (1980) observaram: "Os professores não sabem especificamente o que foi que seus alunos aprenderam" (p.112). Carmo (1987) evidenciou este caos exemplificando o fato de que, se colocarmos um aluno de 5ª série do 1º grau numa aula do 3º ano do 2º grau, o mesmo não terá grandes dificuldades, tendo "plenas condições de acompanhar os trabalhos e exigências da Educação Física" (p.42). E se invertermos a situação, o aluno do ensino médio embora pudesse ser maior, mais forte, mais habilidoso, não seria tão superior ao aluno do 3º ciclo do ensino fundamental. Este fenômeno não pode ser observado em nenhuma outra disciplina da grade curricular, pois todas elas possuem conteúdos definidos numa sequência pedagógica pré - estabelecida para cada fase, por bimestre e articulada entre as fases e graus de ensino.


 As aulas de Educação Física têm sido pautadas basicamente na cultura desportiva, onde nas 4 últimas fases do ensino fundamental e nas 3 fases do ensino médio, o aluno tem visto ano a ano, o vôlei, o basquete, o futebol, o handebol ou algum outro desporto. Na percepção do professor Renato Alvarenga, das mais de 60 disciplinas que compõem o currículo de graduação em Educação Física, após formado, o agora professor, trabalha com apenas quatro ( Desportos), porque o ano letivo é dividido em 4 bimestres e independentemente da fase e do grau de ensino a temática da aula tem sido sempre a mesma.


 Se esta cultura desportiva fosse o conteúdo formal da Educação Física, isto seria um fato catastrófico que a desqualificaria enquanto disciplina curricular e desmoralizaria o seu papel educativo; pois esta realidade mostra uma atividade sem coerência sem consistência, sem continuidade, sem articulação, incapaz de justificar - se como séria e importante na formação educacional do aluno. O aluno tem aula de vôlei, basquete, futebol, handebol, invariavelmente na 5ª, 6ª, 7ª e 8ª fase do ensino fundamental, torna revê-los nos 3 anos subsequentes do ensino médio, com as mesmas características, fundamentos e regras, e ainda assim muitos saem da escola sem saber jogar. Se tivermos uma definição clara do que é Educação Física, para que serve a Educação Física nas escolas, e soubermos responder porque Educação Física, pelo próprio nome, antes de ser Física é Educação, teremos condições de definir objetivos claros e encontrar um coerência neste aparente caos.


 Quando empregamos o termo "Educação Física" neste trabalho, estamos compartilhando da definição de Medina (1987), a que consideramos a mais coerente encontrada na literatura conhecida: "Aquela Educação Física entendida como disciplina que se utiliza do corpo, através de seus movimentos, para desenvolver um processo educativo que contribua para o crescimento de todas as dimensões humanas" (p.34). Este conceito por si só esclarece as três questões postas como condição para justificamos nossa prática pedagógica.


 Embora as correntes progressistas da Educação Física afirmem que ela não seja só desporto e que existem muitos espaços a serem preenchidos, ainda não apontaram para uma possível alternativa. Entendemos que não se trata de negar o desporto na aula de Educação Física; mas de situá-lo como um elemento indispensável ao processo que intencionamos desenvolver. Trata-se de reconhecê-lo como meio e não como fim; como estratégia de ensino e não como conteúdo de ensino. Desta forma, será perfeitamente aceitável termos alunos praticando voleibol, por exemplo, anualmente, a partir da 5ª fase do ensino fundamental até a 3ª fase do ensino médio e ao final destes 7 anos de prática ainda não dominar os fundamentos e regras deste esporte; mas ter desfrutado do prazer do jogo, ter participado das discussões e decisões em equipe, ter se situado no tempo e no espaço em relação à quadra , à bola, à equipe e às situações de jogo, ter exercido a sua lateralidade, ter coordenado os seus pensamentos, os seus movimentos e as suas emoções em jogo, ter tomado ciência de suas potencialidades e limitações, ter mexido com a sua auto-estima, ter vivenciado intensamente uma experiência em Educação Física, mesmo que não tenha aprendido a sacar, cortar bloquear...


 Obs.
O autor é professor e coordenador do curso de Educação Física da Universidade Salgado de Oliveira - Niterói e professor da Rede Pública Municipal de Itaboraí.


 Referências bibliográficas:


 Carmo, Apolônio Abadio do. Educação Física: uma desordem para manter a ordem. In: Oliveira, Vitor Marinho de. Fundamentos Pedagógicos - Educação Física. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1987. P. 41 - 47
Costa, Gilbert C. Implicações históricas da representação social da educação física escolar no Brasil. Niterói, 1995. 253 p. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Federal Fluminense.
___________. Resgate à dignidade. Ciências da Educação Física, São Gonçalo, RJ, nº 1, P.12-13, 1991.
Cunha, Manuel Sergio Vieira e. Educação Física ou ciência da motricidade humana? 2 ed. Campinas, SP: Papirus,1991.
Guiraldelli  Júnior, Paulo. Educação Física progressista A Pedagogia crítico social dos conteúdos e a Educação Física brasileira. São Paulo: Loyola, 1988.
Medina, João Paulo Subirá. A Educação Física cuida do corpo... e "mente". 7 ed. Campinas, SP: Papirus, 1987.
Singer, Robert N.; DICK, Walter. Ensinando Educação Física: uma abordagem sistêmica. Porto Alegre: Globo, 1980.