Jogos e Brincadeiras no Contexto Escolar: Uma Reflexão Sobre o Uso Pedagógico do Jogo Tradicional no 1º e 2º Ciclos do Ensino Fundamental

Por: Daniele da Silva Siqueira.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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O problema

Com a chegada da era industrialização e posteriormente da globalização, os centros urbanos passaram por grandes transformações, restando apenas os playgrounds, pracinhas, parques e outros poucos espaços de lazer. Gradativamente as crianças foram sendo alijadas do convívio com os adultos e dos espaços urbano. Houve um processo de infantilização da brincadeira e uma progressiva desvalorização já que, num mundo orientado pelo trabalho e pelo lucro, ela é considerada uma atividade não produtiva.

A violência urbana e a falta de espaços se tornam os principais fatores apontados para a diminuição das brincadeiras de rua, muitas delas já esquecidas pelas gerações atuais.

O mundo infantil foi invadido por jogos eletrônicos, músicas com movimentos sensuais, brinquedos industrializados representando heróis ou bandidos de desenhos infantis. Com isso, observa-se que, nos dias atuais, os jogos, brinquedos e brincadeiras tradicionais infantis foram perdendo espaço entre as crianças.

Na escola, a aula de Educação Física seria uma ótima oportunidade para se introduzir os jogos e brincadeiras tradicionais na vida das crianças, trabalhando a ludicidade, interando a criança com a cultura (resgatando tradições, contribuindo para um desenvolvimento mais rico em informações), trabalhando o processo de socialização, sem dizer que o espaço da aula de Educação Física é um dos locais onde a criança se sente mais livre para por em prática suas brincadeiras, pois deixam a mesa e a cadeira da sala de aula e vão para um espaço onde a criatividade e o movimento podem ser por ela mais explorados.

A escola

Os jogos tradicionais trazem em si o selo da cultura popular e sempre foram olhados com desconfiança pela escola, que os separou em bons e maus jogos e aqueles que não foram diretamente jogados fora, sofreram um processo de transformação pedagógica e seus conteúdos culturais foram retirados e muitas vezes substituídos por outros de caráter totalmente pedagógicos, nos conta Vasconcellos (2003).

Não retirando o valor do material pedagógico - ou seja, dos objetos lúdicos fabricados e utilizados desde o início para dar suporte à ação educativa, cabe a indagação: será que um dominó só é educativo se for de cores, ou de contas? Será que um jogo de percurso só tem valor se as casas de avanço, retrocesso e chegada forem eventos históricos ou de perguntas e respostas sobre ciências, matemática, português?

A construção do conhecimento através dos jogos tradicionais.

A importância da classificação dos jogos se dá no fato de que a estrutura de cada grande grupo de jogo, na maioria das vezes, guarda em comum uma temática e uma dinâmica, onde sua compreensão em cada jogo ou grupos de jogos é fundamental para que o professor possa eleger aqueles tipos com os quais vai trabalhar.

O que é temática do jogo?

A temática do jogo se refere ao tipo especial de atitude psicológica que dado jogo exige. Todo jogo comporta uma dimensão que está para além das regras explicitadas, comporta uma narrativa da qual o jogador se vê obrigado a compartilhar ainda que inconsciente. Um bom exemplo é o jogo de amarelinha que reflete sobre a trajetória da Terra ao Céu, ou seja, como a maioria dos jogos de percurso, indaga sobre a vida e a morte, os caminhos do homem e da alma. Assim, sucessivamente, do mais simples ao mais complexo, em maior ou menor grau, todo jogo tem uma dimensão dramática.

O que é dinâmica do jogo?

Dinâmica é o modo como tal jogo é jogado. O modo de jogar um jogo sempre implicará algum tipo de habilidade física e intelectual. Nenhum jogo é constituído apenas por uma dessas habilidades. Em maior ou menor proporção elas estão presentes em todos os jogos.

Assim, podemos concluir que o jogo de uma forma geral - e o jogo tradicional em particular - integra os processos de construção de conhecimento. Nele não se separa cognição e afeto e é essa característica que faz dos jogos instrumentos tão valiosos aos psicopedagogos e aos professores que percebem o processo de aprendizagem como algo que implica a totalidade do sujeito. Esses sujeitos transformam o mundo por meio de esquemas de assimilação e projeção e também transformam a si mesmos em função da realidade, por meio de processos de acomodação e identificação.

A questão cultural

Dentro do ambiente escolar, a cultura popular vem sofrendo um desgaste e sendo interpretada por alguns professores de Educação Física como algo sem função, sendo lembrada apenas nas datas comemorativas, onde o mesmo monta uma "dancinha folclórica", utilizando o folclore apenas nas festas juninas ou no mês de agosto, onde se comemora o seu dia (22/08). Como fica a questão da preservação cultural?

A questão da preservação da cultura popular nas aulas de Educação Física só será possível quando:

Os professores se conscientizarem da importância e dos benefícios adquiridos através da preservação da cultura popular por jogos e brincadeiras tradicionais;

A educação física na busca de sua identidade, se redefina como educação assumindo compromisso com uma prática democrática, que respeite os limites, interesses e anseios do cidadão brasileiro;

No contexto da educação, a cultura for considerada como base sobre a qual a educação física deva traçar seus objetivos e conteúdos, levando em consideração que o destino do homem deve ser criar e transformar o mundo, sendo sujeito de sua ação.

A questão da convivência social

Guimarães (2002) nos fala que a convivência social exige adaptação a um sistema de regras previamente estabelecidas, conhecidas e aceitas (de um modo geral) por todos. Estas normas implicam em cumprimento de leis, onde eventuais contradições às regras constituem-se em transgressões passíveis de punições.

Para o autor citado, os jogos e brincadeiras são atividades que podem servir como uma espécie de laboratório onde praticamos e aprendemos as regras da sociedade na qual vivemos e para qual devemos apresentar a nossa parcela de contribuição.

A questão lúdica

O lúdico, desde tempos imemoriais, faz parte da vida humana, sendo que as épocas e as sociedades a culturas têm suas brincadeiras próprias.

Aprender a brincar de forma simbólica, representando a realidade onde vive, resgatando suas lembranças e valores, regras e fantasias, faz parte do desenvolvimento humano das crianças de hoje e de sempre.

Os jogos e as brincadeiras se constituem em uma das referências concretas sobre a cultura lúdica popular e permeiam o dia a dia do homem.

Piaget (1977) adota o uso metafórico vigente na época, da brincadeira como conduta livre, espontânea, que a criança expressa por sua vontade e pelo prazer que

lhe dá. Para o autor, ao manifestar a conduta lúdica, a criança demonstra o nível de seus estágios cognitivos e constrói conhecimentos.
É possível desenvolver iniciação esportiva através de atividades lúdicas, exercícios de coordenação motora, lateralidade, ritmo, noções de regras de jogos e de limites e também, estimular o interesse das crianças na procura de novas formas de descobrir o mundo, de relacionar-se consigo e com os outros e de iniciar-se com dignidade como cidadão brasileiro.

Conclusão

No 1º e 2º ciclos do ensino fundamental, a maior especialidade da criança é brincar e, infelizmente, algumas escolas não estão utilizando dessa prática como conteúdo de suas aulas para a realização do resgate cultural popular. Sobre isso, Freire (1989) nos diz que "...negar a cultura infantil é, no mínimo, mais uma das cegueiras do sistema escolar".

A história de um povo se dá através de sua cultura. Sem esses valores, poderia se chegar à perda de uma identidade e é indiscutível a importância de sua inserção na educação. Para tornar mais eficiente a divulgação da cultura no ambiente escolar, seria antes desejável garantir o conhecimento e impedir a desvalorização de nossas tradições nacionais.

As situações lúdicas são favoráveis ao processo de aprendizagem, pois conseguem a atenção da criança na execução do exercício de forma satisfatória e agradável, sem deixar de destacar que além da brincadeira popular constituir um momento de interação social bastante significativo, a sociabilidade constitui motivação para que seja mantido o interesse pela atividade.

A escola, através das aulas de Educação Física, deve dar oportunidade a todos os alunos para que desenvolvam seus potenciais, visando o aprimoramento como ser humano em todos os aspectos: social, cognitivo, psíquico e outros, trabalhando a criança em sua plena formação perante a sociedade.

É preciso que haja uma conscientização dos educadores em desempenhar o importante papel de iniciar a criança numa atividade lúdica, na qual a contradição entre ensino e realidade necessita ser eliminada. Assim, esse estudo pode provocar uma reflexão nos profissionais de Educação Física que lidam com turmas do 1º e 2º ciclos do ensino fundamental no sentido de preservar o espaço lúdico em suas aulas, que é um espaço tão produtivo para a aprendizagem.

Os autores, Daniele da Silva Siqueira é professora de educação física e educadora da ONG Fundação Gol de Letra, e Miguel Angelo Lima de Almeida é aluno de educa[]ao física no Centro Universitário Plínio Leite - UNIPLI

Bibliografia

  • Benjamim, W. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002.
  • Brougere, G. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1995.
  • Freire, J. B. Educação de corpo inteiro. Rio de Janeiro: Scipione, 1989.
  • Guimarães, J.G.M .Repensando o Folclore. São Paulo: Manole, 2002.
  • Kichimoto, T. M. Jogos infantis: o jogo, a criança e a educação. Petrópolis: Vozes, 2003.
  • Kichimoto, T. M. Jogos tradicionais infantis. Rio de Janeiro: Vozes, 1993.
  • Kramer, S; Leite, M. I. F..P. (orgs). Infância e produção cultural. Campinas: Papirus, 1998.
  • Lima, M. Arquitetura e educação. São Paulo: Studio Nobel, 1995.
  • Piaget, J. O julgamento moral na criança. Trad. De Elzon Lenardon, São Paulo: Mestre Jou, 1977.
  • Vasconcellos, T. Jogos e brincadeiras no contexto escolar. Boletim Salto para o futuro - T.V. escola. São Paulo: 2003

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