Jogos cooperativos: Uma estratégia essencial da cultura corporal nas escolas públicas

Por: Marco Antonio Santoro Salvador.

V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 Entender a realidade social e interpretá-la pelo ponto de vista de uma sociedade de classes, com propostas e objetivos diferentes e antagônicos.


 É com esta compreensão que passamos a reestruturar nossa prática pedagógica, na construção de um caminho que apontasse uma clara direção com o objetivo de contribuir na promoção de mudanças significativas, tão urgentes em um país de extremas desigualdades sociais.


 Um projeto que buscasse contribuir na construção de pessoas com senso crítico, autônomas e solidárias, capazes de transformar esta realidade tão perversa, e junto a este processo, realizarmos um trabalho onde, na prática cotidiana das aulas, desenvolvêssemos formas de relações em que o planejamento fosse discutido com os alunos, que a avaliação perdesse o mito do poder e pudesse ser realizada em conjunto e em processo contínuo, que as regras esportivas e de convivência fossem discutidas e transformadas, dando significado aos conteúdos, de forma que fosse resgatado toda a experiência corporal acumulado por eles, montando atividades de jogos populares e manifestações folclóricas, dentre outras.


 Buscamos resgatar no sentido individual de cada aluno, a sua auto-estima e a sua cooperação, tão esmagados por uma cultura ocidental de consumismo e competição exacerbada.


 Entretanto, por acreditarmos que mudanças sociais significativas só se sustentam se esses conceitos estiverem interiorizados e passarem a ser valor em cada ser humano, e não apenas praticado no campo do discurso.


 De acordo com esta compreensão é que elegemos os jogos cooperativos como instrumento essencial nas atividades cotidianas das aulas, somado a todo aparato da cultura corporal, esta estratégia nos concebe a oportunidade dos alunos experimentem mudanças sociais de comportamento e percepção contextualizadas a realidade social.


 Neste sentido, buscamos uma referência pedagógica voltada para a superação destes paradigmas, bem como a seleção de conteúdos em nossa área específica que nos proporcionasse condições de uma leitura crítica desta situação e consequentemente, suas superações.


 Encontramos no campo pedagógico, a tendência crítico-superadora (SAVIANI, 1991) como nosso referencial teórico pedagógico e especificamente na Educação Física encontramos a proposta denominada de cultura corporal (COLETIVO DE AUTORES, 1990).
Embasados nesta tendência enfocaremos o jogo, genuinamente de expressão humana, que assume um importante canal de ligação entre o imaginário do homem e o entendimento de sua realidade.


 Quando a criança joga, ela opera com o significado das suas ações, o que a faz desenvolver sua vontade e ao mesmo tempo tornar-se consciente de suas escolhas e decisões. Por isso, o jogo apresenta-se como elemento básico para a mudança das necessidades e da consciência. (op. cit., p. 66)


 Portanto, o jogo é fundamental no processo ensino-aprendizagem no contexto de uma ação que se propõe questionadora e transformadora da realidade atual, pois ao modificarmos os comportamentos das pessoas nos jogos estaremos viabilizando alternativas de transformação de suas atitudes nas suas vidas, além dos jogos.


 Neste sentido, os jogos cooperativos detém uma significativa importância, como instrumento de transformação de consciência e comportamentos tão arraigados em nossa sociedade competitiva e individualista, pois os jogos cooperativos exercem oposição a competição.


 A competição, bem como a cooperação são comportamentos culturalmente apreendidos, portanto inundados de valores e normas, não é sem intenção que a sociedade capitalista promove a super valorização da competição, manifesta nos eventos esportivos, enfatizando o resultado numérico, a vitória e o esforço individual na superação de índices e recordes.


 Não se trata de condenar a competição como grande responsável pelas mazelas de nossa sociedade contemporânea, pelo contrário, estudos apontam que comportamentos competitivos das primeiras civilizações humanas, garantiram nossa perpetuação da espécie e por este motivo podemos estar aqui para questioná-los.


 O que se deve estar atento é a exacerbação da competição, a idéia de que é o único caminho de se manter vivo em nossa sociedade contemporânea, de que cada indivíduo é um adversário, e de estarmos ainda muito arraigados aos conceitos positivistas do Darwinismo e, portanto sob a ideologia da seleção natural, onde os mais capazes triunfam em detrimento dos menos capazes.

 A discussão sobre a competição x cooperação deve ser superada, pois Cooperação e competição são dinâmicas distintas porém, não muito distantes. São aspectos de um mesmo espectro que não se opõe entre si, mas se compõe. As fronteiras entre elas são tênues, permitindo um certo intercâmbio de características, de maneira que podemos encontrar em algumas ocasiões uma competição-cooperativa e noutras uma cooperação-competitiva. (Jogos cooperativos: um exercício de convivência. São Paulo: SESC)


 O conhecimento dos jogos cooperativos sistematizou-se a partir da década de 50 nos Estados Unidos onde Ted Lentz foi o precursor, e mais tarde foi se disseminando por diversos países.


 Podemos destacar também a grande contribuição do canadense da Universidade de Otawa que publicou um livro em 1978, chamado "Winning through cooperation" provocando a produção de pesquisas e trabalhos sobre os jogos cooperativos.


 No Brasil, o processo de difusão dos jogos cooperativos data de 1980 com experiências realizadas no estado de São Paulo, e hoje encontra-se relativamente bem conhecido em todo país.


 São jogos que resgatam valores que se perderam nesta sociedade desumana em que vivemos. Através dos jogos cooperativos temos a possibilidade de exercitar o compromisso, a confiança, a auto-estima, a cumplicidade, a solidariedade, o respeito mútuo entre outros; já que todos os participantes são convidados a aceitar a diversidade e limitação do outro.


 A performance individual perde o seu status, pois os participantes não são excluídos durante o jogo, o qual começa e termina com o mesmo número de participantes, sem a intenção de identificar um ganhador ou um perdedor.


 De acordo com ORLICK (1989) para se colocar em prática atividades de jogos cooperativos, devemos estar atentos a diversidade de culturas e realidades existentes, contextualizando os jogos aos pressupostos sociais.


 Toda e qualquer mudança deve respeitar características, onde sons e ritmos próprios do contexto onde se realizam. Cada grupo apresenta particularidades que devem ser consideradas como orientadoras para o processo de mudança. (op. cit., p. 23)
As categorias basicamente se dividem em:


 ( Jogos cooperativos sem perdedores ( Considerados como plenamente cooperativos, nestes jogos se formam um único grupo, onde todos tem o mesmo objetivo de superar um desafio comum, com ênfase no prazer de continuar a jogar juntos, exemplos:


 ( roda invertida ( Forma-se uma roda, onde todos dão as mãos trocadas para os colegas dos lados (mão direita para o colega da esquerda, mão esquerda para o colega da direita), ficando com os braços cruzados à frente do corpo voltados para o centro do círculo, todos juntos deverão terminar a atividade voltados na mesma posição, de frente para o círculo, mas com os braços estendidos e descruzados, sem soltar as mãos.


 ( nó humano ( Todos os colegas se reúnem e cada um agarra uma das mãos de 2 pessoas, não podendo segurar a mão de quem está ao seu lado, nem as 2 mãos da mesma pessoa. Formado o nó humano, é preciso soltar o nó, sem soltar as mãos, com o objetivo de formar um círculo.


 ( banco companheiro ( Todos sobem aleatoriamente no banco sueco, não podendo tocar no
solo e ao sinal do professor, todos devem se colocar em fila de acordo com o desafio proposto que pode ser por ordem alfabética, de tamanho, de idade etc.


 ( Jogos de resultado coletivo ( Atividade em que se formam 2 ou mais equipes, onde se exerce significativa cooperação tanto entre os componentes da mesma equipe, quanto com a outra equipe, com o objetivo de produzir um esforço coletivo para realizar metas comuns a serem alcançadas, exemplo:


 ( batata quente ( Duas equipes separadas em espaços distintos, mas próximas uma da outra, brincam cada uma com um "bolão" com a regra de não deixá-lo cair e nem poder segurá-lo, ao sinal do professor as equipes devem trocar os bolões, ao mesmo tempo, onde os 2 bolões nunca podem estar juntos na mesma equipe e no mesmo espaço, com o objetivo de manter esta atividade o maior tempo possível.


 ( Jogos de inversão ( São jogos onde se propõem a destituir o conceito rígido de separação em times adversários ou em ganhar e perder, pois os jogadores trocam de lugar uns com os outros nas diferentes equipes, construindo a noção de interdependência entre os grupos, exemplos:


 ( em rodízio ( O jogador troca de equipe toda vez que sacar (volei), ou arremessar em lance livre (basquete) ou cobrar um escanteio (futsal), ou qualquer outro jogo em que se estabeleça 2 equipes.


 ( inversão total ( Se o jogador realizar um gol (futsal ou handebol) ou um ponto (volei ou basquete), tanto o jogador quanto o ponto passam para a outra equipe.


 ( jogos semi-cooperativos ( Realizados em um contexto de aprendizagem desportiva, onde uma equipe joga contra a outra, mas a questão do resultado é secundarizado, priorizando a ênfase no jogo e no prazer que ele proporciona, exemplos:


 ( volençol ( Formam-se grupos com pedaços grandes de panos distribuídos nos dois lados da quadra de volei, onde devem repetir a mesma dinâmica do voleibol, usando os panos ao invés das mãos.


 ( futebol solidário ( É a mesma dinâmica do futebol normal, mas com os jogadores em duplas com as mãos dadas, inclusive o goleiro.
( basquete amigo ( É um jogo que se baseia no basquetebol tradicional, onde o objetivo não é realizar cestas e sim trocar passes até todos os componentes da equipe conseguirem manusear a bola e passar para o colega, sem que haja interrupção dos passes pela outra equipe.


 Analisando os diferentes tipos de jogos cooperativos, perceberemos que, em todos eles, podem surgir alternâncias e interrelações de suas características ou tipos, adaptações e invenções que professores e alunos possam criar e experimentar.


 Devemos estar atentos, seja qual for a estratégia, que somos agentes de um processo de mudança ou manutenção de nossas realidades, e portanto, além da competência técnica, devemos perceber qual é o nosso compromisso social e nos questionarmos:


 Que tipo de ser humano quero ajudar a construir?


 Que tipo de sociedade quero ajudar a formar?


 Obs.
O autor Marco Antonio Santoro Salvador é professor do Colégio Pedro II, da rede estadual e da municipal, a co-autora, Sonia Maria Siqueira Trotte, e professora da rede estadual e da rede municipal.


 Referências bibliográficas


 Brotto, Fábio Otuzi. Jogos cooperativos: se o importante é competir, o fundamental é cooperar. São Paulo: Cepeusp, 1995 / Santos: Projeto Cooperação, 1997.
Brown, Guillermo. Jogos cooperativos: teoria e prática. São Leopoldo: Sinodal, 1994.
Coletivo de autores. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.
Jogos cooperativos: um exercício de convivência. São Paulo: SESC. (Apostilas).
Orlick, Terry. Vencendo a competição. São Paulo: Círculo do Livro, 1989.
Saviani, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1991.

 

 

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