Jornalismo Esportivo Versus Jornalismo Religioso: Princípios Distintos Que Se Aproximam.

Por: Débora Oliveira Maciel e Elaine Valéria Rizzuti.

XVIII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e V Conice - CONBRACE

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Resumo

INTRODUÇÃO

Este artigo tem como objeto de estudo o jornalismo esportivo e o jornalismo religioso. Cada um deles retrata somente o objetivo do foco, seja esportivo ou religioso, porém, não ultrapassa a marca jornalística entre um e outro. O mesmo, não se pode dizer na prática onde é possível perceber certa religiosidade na manifestação esportiva.
Pensar nas interpretações, ainda superficiais, das imagens esportivas com gestos religiosos e nas marcas que nelas se inscrevem através da linguagem e de suas formas, cujos valores vão se deslocando do moral, ético e social para o individual e subjetivo, nos levou à seguinte situação problema: Porque as duas formas jornalísticas não se relacionam a ponto de retratar ambas ao mesmo tempo?
Nosso olhar nesse trabalho está voltado para um curso contínuo de trocas, assimilações, aproximações e afinidades para então considerarmos a possibilidade de, em um mesmo instante, ocorrer a fusão dessas duas formas jornalísticas.
Rizzuti (2010) indica ser inegável o fato de que religião e esporte possuem fundamentos, preceitos e princípios distintos, no entanto, eles se articulam e se entendem. O universalismo contido no esporte (Jogos Olímpicos) também é o universalismo que a religião pleiteia. A religião busca por um maior número de adeptos e, consequentemente, maior visibilidade e, no esporte, a competição entre rivais, buscando dentre outros objetivos e interesses, a superioridade ou a superação. Sendo assim, mesmo a mídia estando constantemente evoluindo de maneira significativa, não existem trabalhos que abordem as duas situações (religioso e esportivo) de maneira agrupada. Sendo assim, torna-se evidente a importância desse trabalho, uma vez que essa área é ainda um tanto quanto carente.
A longa duração dessas duas práticas nos dá a oportunidade de tomá-los como objeto de estudo vis-à-vis, pois, são dois fenômenos que comparados apresentam características comuns.
OBJETIVOS
i)Verificar quais são as marcas religiosas presentes na mídia esportiva impressa; ii) Investigar se a existência de gestos religiosos e/ou sagrados durante a prática esportiva veiculada pelas imagens indica uma possível fusão entre a mídia esportiva e religiosa; iii) Apresentar quais são as características que indicam uma possível fusão ou aproximação.
METODOLOGIA
O objetivo do estudo foi fazer uma análise intencional e não aleatória, das imagens veiculadas no Jornal Folha de São Paulo, no período da Copa das Confederações 2008, realizada na África do Sul. Neste momento, quando o Brasil se tornava campeão, a FIFA proíbe as manifestações religiosas. (Folha de São Paulo, São Paulo, 23 de ago.2009. Caderno Esporte, p. D1.)
Reconhecendo nosso objeto de estudo, e as múltiplas interpretações pela imagem selecionada, inseridas em um contexto histórico (Copa das Confederações – 2008, África do Sul) e veiculadas pela mídia impressa, escolhemos como referenciais teóricos para análise e interpretação dos dados, a Semiótica e a Iconografia.
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Segundo ECO (2008) existe diferença entre “uma semiótica da comunicação e uma semiótica da significação, mas essa discrepância não deve resolver-se numa oposição sem mediações possíveis”. (p.5). O autor admite ser essa diferença uma aproximação que seguem linhas categoriais na tentativa de combater a indeterminação semântica, processo que se justifica neste estudo, na tentativa de fazer um mapeamento para a busca de significados, a fim de ampliar as possibilidades de interpretação das imagens veiculadas e selecionadas por nós.
A Iconografia, como referencial teórico, também preconiza que há códigos que precisam ser identificados, compreendidos e decifrados, indo além do visível e da intencionalidade de seu produtor, agregando novos valores e significados (KOSSOY, 2001; PAIVA, 2002).
Assim, o tema que a imagem fotográfica aborda é um fragmento do real determinado, recortado de um contínuo de vida, símbolos e representações, resultantes de possibilidades de ver, optar e fixar a realidade, de forma estética e ideologizada. (BAUER; GASKELL, 2002, p. 325).
De maneira geral, nossa intenção é tornar explícita a compreensão da imagem, como fonte iconográfica, de acordo com os objetivos de nosso estudo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Partindo de tudo o que foi relatado anteriormente, e enfatizando o fato de que a mídia, em especial a televisão e o jornal impresso, desempenha um papel central na produção, reprodução e ampliação de muitas das questões associadas ao esporte no mundo. A seguir, faremos uma análise preliminar e uma leitura superficial baseada nos gestos presentes nas imagens e que após observações podem dar sentido mais amplo do que a simples reportagem apresenta. Pois, já que esporte e religião são duas vertentes que apresentam ligações entre si, seria possível fundir as duas formas jornalísticas de apresentar os fatos?
A imagem selecionada “como “fonte iconográfica” impressa apresenta-se como um mosaico composto por seis figuras assim publicada:
O jogador de futebol Kaká, celebrando o título do Milan no Mundial de Clubes- 07; Borges, após o time de São Paulo sagrar-se hexa campeão do Campeonato Brasileiro, em 2008; o são-paulino Hernanes comemorando seu gol. Continuando, temos Cesar Cielo, no Mundial de Natação, em Roma, e Usain Bolt,(considerado o homem mais veloz do mundo) antes da prova no Mundial de Berlim. (Folha de São Paulo, São Paulo, 23 de ago.2009. Caderno Esporte, p. D1
Estas imagens nos mostram alguns gestos religiosos de atletas consagrados que têm com ponto de partida “a mensagem”, que nos dizeres de Franco (2007), pode ser verbal (oral ou escrita), gestual, silenciosa, figurativa, documental ou diretamente provocada”. (p.19).
Assim, com o auxílio da Semiótica (ECO, 2008) e da Iconografia (KOSSOY, 2001; PAIVA, 2002) foi possível, preliminarmente, compreender um pouco mais o sentido da imagem, em seus elementos icônicos, seu conteúdo manifesto, as significações explícitas ou latentes.
Todas essas manifestações latentes captadas pelas câmeras parecem demonstrar que a religiosidade está presente em várias modalidades esportivas, pois estão constantemente sendo registradas pela mídia, seja por foto, seja por vídeo, embora sem o foco explícito da religiosidade ou da religião.
Assim, os gestos e apelos religiosos representados por atletas nos remete à necessidade estratégica midiática de oferecer produtos/serviços, que atendam às demandas do leitor quer esportivo quer religioso, para estrategicamente não perderem o “cliente/leitor” para seus “concorrentes”. Visto dessa forma, interpretamos que ainda que o jornalista, intencionalmente, crie um mosaico de imagens para atender às demandas do “cliente/leitor”, diversificando manifestações religiosas e modalidades esportivas, não há uma fusão da
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religião com o esporte. Por meio da “informação não textual” (PAIVA, 2002, p.20) pode-se dizer que os fenômenos se aproximam, sem, no entanto, perderem sua autonomia e que, assim como nas imagens, eles agregam valores e significados um ao outro.
CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Acreditamos que nosso olhar ainda é restrito e superficial quanto às duas modalidades “recortadas” neste estudo, que necessita ainda de uma maior aproximação, exploração e sistematização.
Inferimos que é possível por meio dos atos de glorificação, quer sejam de proteção ou agradecimento, que os atletas demonstram valores como a força, a destreza, a inteligência, a valentia, a competitividade, o poder. Analogamente, isso nos remete aos intentos das modalidades jornalísticas, esportiva e religiosa. Assim, acreditamos que manifestações religiosas se fazem presentes no universo esportivo onde, independente da cultura, os atletas deixam transparecer tais manifestações que são expressas por meio das imagens na mídia impressa.
Ainda que constatada a predominância da mídia esportiva, em alguns momentos com características religiosas entendemos, preliminarmente, que dentro dessas perspectivas, os caminhos apontam para uma aproximação ou convergência entre jornalismo religioso versus jornalismo esportivo, sem se fundirem, algo que poderíamos considerar apenas no campo simbólico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUER, Martin; GASKELL, George. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2002.
DIAS, João Gilberto Friolli, et al. Marketing esportivo como ferramenta de sucesso das estratégias de marketing nas empresas. Lins, São Paulo. 2009. Disponível em: http://www.unisalesiano.edu.br/encontro2009/trabalho/aceitos/CC30581505808.pdf. Acessado em: 12 de out. 2012.
ECO, Umberto. Os limites da interpretação. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.
FRANCO, Maria Laura P.B. Análise de conteúdo. 2.ed. Brasília: Liber Livro Editora, 2007.
KOSSOY, Boris. Fotografia & História. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
PAIVA, Eduardo F. História e imagens. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
RIZZUTI, Elaine. Religião e Esporte: Relações de Reforço mútuo sem perda de autonomia das partes. 2010. 179f. Tese (Doutorado em Educação Física). PPGEF/ Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.


 

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