Lazer e Recreação na América Latina: Alguns Desafios

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Blog do Bramante - 2016

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O XIV Congreso Nacional de Recreación / V Encuentro Latinoamericano de Recreación realizado na Colômbia no final de agosto, do qual falei brevemente em minha última postagem no blog, foi aberto com um painel latino-americano para abordar os desafios desse evento frente ao tema central proposto (“Educação e Recreação, um Vínculo impostergável”).

           Participaram desse painel representante da Argentina, Bolívia, México, Uruguai, Chile e Brasil, moderados por dois diretores da FUNLIBRE.

           Representando o Brasil, gostaria de compartilhar neste espaço uma breve síntese dos pontos que destaquei na ocasião:

1.  O fato de ser o único representante no painel a falar português, compreendendo que o idioma é a “porta de entrada” para a cultura de um povo. No campo do lazer, por exemplo, vamos encontrar algumas semelhanças entre as nossas realidades, no entanto, muitas diferenças. Por exemplo: o significado do que estamos aqui chamando de recreación. No Brasil, a palavra lazer ainda é a mais utilizada e, mais recentemente, ócio começou a ser introduzido na literatura, pela influência da escola espanhola, notadamente pelo Centro de Estudios del Ocio de Bilbao.

2.  Compreensão do lazer como um fenômeno sociocultural, historicamente situado e contextualizado no tempo-espaço, na perspectiva interdisciplinar e objeto de intervenção multiprofissional, dentro de um processo de construção transversalizada na sua gestão.

3.  Os desafios para o Brasil como um todo são os de sempre (porte, diferenças estruturais e conjunturais regionais) e os de agora (transformações políticas e dificuldades socioeconômicas).

4.  O retrato do lazer no Brasil na perspectiva da demanda e da oferta:

4.1  Pelo lado da demanda, temos um povo que gosta de brincar, com perfis demográficos e psicográficos em processo de grandes mudanças, rápido e profundo processo de urbanização (+ de 80% da população vive em uma das 5.570 cidades brasileiras), uma população que envelhece rapidamente, com novas constituições familiares, a redução da influência da religião católica, a instantaneidade da comunicação, a busca do efêmero, o fenômeno do “aprofundamento do tempo” (time deepening), o que significa viver mais experiências lúdicas quase que simultaneamente, as diferenças sociais e econômicas, etc.

4.2.  Pelo lado da oferta: crescente insegurança nos ambientes públicos, dificuldades na mobilidade urbana, impacto da hiperconectividade, a comodização do tempo livre, a comercialização exacerbada e o entretenimento casual assumindo cada vez mais o espaço do lazer comprometido e emancipador, a ausência do Estado, a incompetência administrativa nos ambientes de lazer, etc.

5.  A importância do LAZER nas políticas públicas sociais: o hiato entre o discurso e a práxis:

5.1. No setor público sempre aparece como um apêndice (Secretaria de Educação e Lazer, Esporte e Lazer, Cultura e Lazer...);

5.2.  Orçamento público: raro o setor específico que possui UM POR CENTO do Orçamento anual geral, tanto na União como nos Estados assim como nos Municípios;

5.3  Gestão da área no setor: habitual moeda de troca política (todos entendem de LAZER!)

5.4  Animação: desafios da “monocultura” do LAZER, expresso pelo desiquilíbrio de oferta de experiências físico-esportivas em detrimento dos demais interesses culturais;

5.5.  Fascínio político pelas novas construções, descuidando do que já existe;

5.6.  Falha grave no planejamento: na ausência de projetos de viabilidade de novos ambientes de LAZER, quase sempre se busca alternativas para a sua sustentabilidade.

6. Ausência de uma política consistente de recrutamento, qualificação, inserção e avaliação voltada para potencializar o corpo de voluntários.

7. Os valores do trabalho permeando os ambientes de lazer e os valores do “pseudoLAZER” adentrando os ambientes de trabalho.

8. Ausência de uma política articulada de formação de quadros profissionais na área, onde tem sido priorizado muito mais o debate conceitual do lazer do que os benefícios advindos de sua vivência para a população (as tentativas frustradas dos cursos superiores de formação de quadros para a área e a incapacidade de explicar a sua importância para a sociedade)

9.   Reconhecimento do crescente avanço na geração de conhecimentos sobre lazer no Brasil:

9.1.  Cursos de Mestrado e Doutorado na área,

9.2.  Periódicos indexados específicos para o campo do lazer (LICERE + Revista Brasileira de Estudos do Lazer),

9.3.  Criação da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Estudos do Lazer,

9.4.  Congressos específicos da área:

9.4.1  28º ENAREL, de 15 a 18 de Novembro, abordando o tema “Lazer, Práticas Corporais, Estado e Participação Popular”,

9.4.2  II Congresso Brasileiro de Estudos do Lazer, a ser realizado em Belém/Pará (norte do país) de 14 a 16 de Setembro. Tema: Lazer, desenvolvimento e sustentabilidade,

9.5. Grande número de Grupos de Pesquisas em Lazer no país: a consulta ao Diretório de Grupos de Pesquisa da Plataforma Lattes do CNPq em agosto indicou a existência 271 grupos nas universidades espalhadas por todo país.

Portanto, em minha opinião, o grande desafio deste evento será aclarar a compreensão conceitual de lazer, oferecendo subsídios para que os seus participantes possam qualificar sua intervenção profissional.

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