Linguagem Corporal, Estados Emocionais e Educação Física

Por: Walmer Monteiro Chaves.

VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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O objetivo do presente trabalho é suscitar a reflexão acerca das contribuições que a prática de atividades físicas orientadas podem proporcionar, no que tange aos aspectos emocionais e psicológicos.

O problema está centrado na valorização exacerbada dos benefícios biológicos e funcionais que a atividade física proporciona, em detrimento dos benefícios no âmbito emocional.

Através da linguagem corporal pode-se perceber significados, valores, sentimentos e emoções, por vezes relacionados a necessidades, carências ou dificuldades pessoais. A utilização do movimento humano como instrumento de diagnóstico para detectar essas dificuldades é de fundamental importância para uma interferência profissional no meio educativo.

Os benefícios e valores adquiridos na esfera emocional auxiliam o indivíduo no desenvolvimento de sua personalidade, identidade e cidadania, contribuindo para uma formação pautada em preceitos éticos, morais e estéticos.

Numa visão sistêmica de homem, a ciência deve procurar compreendê-lo de forma integral, valorizando os aspectos biopsicossociais e suas inter-relações com o meio ambiente. A intencionalidade do movimento está fundamentada nas carências e necessidades do indivíduo, sejam de natureza física, psicológica, moral, afetiva e sócio-histórica.

Corporeidade e motricidade

O corpo é o princípio e a condição estruturante da existência humana e o veículo do ser no mundo. Dessa forma ele não pode ser encarado somente sob o ponto de vista físico ou "coisificado", mas dentro de uma perspectiva mais ampla já que não estamos no mundo diante do nosso corpo; estamos no nosso corpo, ou melhor, nós somos o nosso corpo. (MERLEAU-PONTY, 1994)

A idéia de corporeidade está associada ao corpo humano e ao comportamento motor ou ato motor, enquanto a idéia de motricidade está ligada ao movimento do corpo e sua conduta motora (movimento intencional, com sentido, significado, temporalidade e espacialidade).

Segundo Feijó (1998) o corpo é a expressão da unicidade da pessoa, o limite físico da personalidade, o território da liberdade subjetiva, a estruturação da autenticidade e da criatividade, bem como, a manifestação da presença e da influência da pessoa.

Através de suas manifestações corporais o ser humano se comunica e se expressa, deixando transparecer suas carências, privações, necessidades, dificuldades existenciais e emocionais. Em cada palavra da linguagem corporal, cresce o diálogo entre os homens e o corpo proporciona diversas e sucessivas leituras. (CUNHA, 1994)

A motricidade emerge da corporeidade e a conduta motora pode ser considerada como o comportamento motor enquanto portador de significação, de intencionalidade, de consciência clara, de vivência e "com-vivência", numa dialética entre o intrapessoal e o interpessoal. (ibid)

Fonseca (1996, p.9) ressalta que "o essencial é a intencionalidade, a significação e a expressão do movimento, e desta forma o movimento põe em jogo toda a personalidade do indivíduo". A motricidade é a projeção de um mundo (o próprio homem) em outro mundo (envolvimento), sendo, portanto inconcebível perceber o homem sem movimento e envolvimento.

Semiótica e linguagem corporal

Segundo Santaella (1983) é a Semiótica que estuda toda e qualquer linguagem, tendo como objetivo analisar como se estrutura a linguagem de todo e qualquer fenômeno de produção, significação e sentido, visando descrever e destacar nesses fenômenos a sua constituição como linguagem.

As linguagens e os códigos são dinâmicos e situados no espaço e no tempo, com implicações de caráter histórico, sociológico e antropológico. O convívio social requer o domínio das linguagens como instrumento de comunicação e negociação de sentidos. (LADEIRA E DARIDO, 2003)

A linguagem corporal é uma forma de se comunicar que varia entre contextos e culturas, sofrendo interferências do meio onde o indivíduo está inserido. A linguagem como forma de participação e interação social propicia ao indivíduo o reconhecimento do outro e de si mesmo, aproximando-se cada vez mais do entendimento mútuo.

Feijó (op.cit., p. 28) considera que a Educação Física pode contribuir na aventura de descoberta da própria personalidade, que para existir precisa do social, pois [...] "no contato com as diferenças dos outros, fica mais fácil acompanhar e descobrir aqueles traços e modos que constituem o conjunto típico da própria personalidade".

A comunicação não-verbal assume relevância nos processos de comunicação humana, influenciando nas relações interpessoais e os profissionais que se utilizam desta forma de comunicação no exercício de suas funções são de extrema importância, pois podem colaborar para uma melhor percepção e avaliação de outras pessoas e para uma contribuição mais geral na formação do indivíduo. (MESQUITA, 1997)

O profissional de Educação Física deve estar atento às diversas formas de manifestações dos alunos, utilizando o movimento humano como instrumento de diagnóstico para detectar suas possíveis dificuldades, necessidades ou carências, visando a superação das mesmas.

Estados emocionais e educação física

Segundo Miranda (1998, p.64) "a atividade física e o esporte são importantes não somente como instrumento para os benefícios corporais, mas também como elemento de suporte de moldura emocional significativa e funcional."

Um dos fatores explicitados nas atividades físicas é o efeito emocional sobre o comportamento da pessoa diante de uma tarefa qualquer. Dependendo da influência do estado emocional o comportamento pode ser beneficiado ou prejudicado, facilitado ou dificultado e, por vezes, impedido.

A prática de atividades físicas regulares pode proporcionar ao indivíduo contribuições positivas nos seguintes aspectos: humor, autoconfiança, auto-expressão, disciplina, auto-estima, concentração, superação de conflitos / frustrações, afetivo-sociais, autocontrole, funcionamento intelectual, autoconceito, ansiedade, reação ao estresse, agressividade, autodeterminação, auto-realização, formação da personalidade e, de forma geral, na estabilidade emocional.

Sendo assim, possíveis dificuldades ou distúrbios psicológicos podem ser evitados ou minimizados, com uma prática de atividades físicas orientadas e centradas em valores que possam estabelecer o equilíbrio emocional. Como exemplo podemos citar casos de depressão, disfemia, timidez, insegurança, medo, questões sociais e de conduta, dispersão, distúrbios psicossomáticos, hiperatividade / hipocinesia, anorexia / bulimia, dentre outros.

Para Deutsch (2003) a contribuição da Educação Física no processo de autoconhecimento dos alunos pode colaborar para uma melhor qualidade de vida dos mesmos. E os benefícios não ficam somente na área fisiológica, mas pelas oportunidades que as atividades físicas oferecem de um maior contato, com o próprio corpo e dos outros, com os próprios limites e dos outros, podem colaborar para um melhor trânsito entre emoções e sentimentos e, provavelmente, uma maior compreensão do comportamento.

Utilizando a atividade física como um meio para a formação integral do aluno, podemos propiciar aos nossos alunos, através de diferentes vivências, o contato com diferentes emoções, sentimentos e estados emocionais, ligados a um estado corporal que se manifesta verbal ou não verbalmente. A movimentação corporal através da prática de atividade física colabora para a "movimentação das emoções", e sendo assim, podemos afirmar que a movimentação corporal interfere na emoção e esta pode interferir na qualidade do movimento.(ibid)

Porto e Gaio (2002, p.146) consideram que as possibilidades de movimentos em que estejam presentes o pensamento, o sentimento, a ação e a criatividade propiciam [...] "subsídios ao indivíduo para que ele venha a conquistar autonomia, auto-estima e autocrítica, atendendo assim, algumas das necessidades humanas referentes à qualidade de vida."

Considerações finais

Considerando o indivíduo um ser biopsicossocial e indissociável, cuja personalidade, corpo e mundo devem conviver em harmonia e integração, o profissional de Educação Física não pode desprezar as possibilidades de contribuir efetivamente para o desenvolvimento pleno do ser humano.

O professor deve, portanto, utilizar o movimento humano e a expressão corporal como meio de diagnóstico para detectar possíveis dificuldades e necessidades dos alunos, no sentido de auxiliá-los na superação das mesmas.

Uma metodologia voltada para a formação de valores, construção das noções de cidadania e relacionamentos interpessoais pode oferecer aos alunos possibilidades de enfrentar melhor os desafios na realização de atividades físicas e no decorrer de suas vidas.

O clima motivacional nas aulas é de fundamental importância na transmissão de valores que vão sendo introjetados pelos alunos e contribuem para o desenvolvimento de suas personalidades. A formação de uma atmosfera psicológica positiva e de um ambiente de segurança, de aceitação e respeito às diferenças individuais, de cooperação, solidariedade e justiça, são importantes para uma convivência prazerosa e de aceitação mútua entre os integrantes do grupo.

Os alunos possuem seus ambientes psicológicos próprios e estão sempre processando informações, valores e conhecimentos vindos do ambiente de classe. As diversas ações pedagógicas (pistas, orientações, gestos e verbalizações) formam um currículo oculto que é transmitido para os alunos e que deve estar carregado de valores positivos para as suas formações.

As atividades de aula devem ser diversificadas e com diferentes níveis de dificuldades para que os alunos possam vivenciar e experimentar suas competências e reais possibilidades, enfrentando sucessos, fracassos e desenvolvendo sua autocrítica. As atividades devem propiciar momentos de espontaneidade, criatividade, autenticidade, auto-expressão, autonomia e autodeterminação, visando o desenvolvimento da identidade dos alunos e sua formação mais ampla.

É de fundamental importância o trabalho integrado entre a Educação Física e a Orientação Pedagógica e Educacional, pois através da leitura da linguagem corporal de nossos alunos, podemos dar significativas contribuições para um investimento qualitativo na educação dos mesmos. Faz-se necessário, também, ressaltar que a Educação Física por si só não irá solucionar determinadas dificuldades dos alunos, mas poderá colaborar na detecção dessas e no encaminhamento para profissionais de outras áreas.

Dentro de uma proposta educativa, a construção de consciências críticas deve ser um objetivo constante e a escola não deve se eximir desse papel, sinalizando a inversão de valores que coloca o homem cada vez mais para o "ter" em detrimento do seu "ser".
Na construção de seu conhecimento, o aluno deve saber respeitar os seus limites e capacidades, valorizar a sua experiência corporal, participar ativamente da aprendizagem do uso de seu corpo, buscar fontes de pesquisa diversificadas para compará-las e criar mecanismos para interagir com o meio, usufruindo os benefícios da prática de atividades físicas para uma vida saudável e de qualidade em todos os sentidos.

Finalizando, a preocupação com os estados emocionais dos alunos nas aulas, segundo Deustsch (op.cit., p.28), [...] "nos dá a verdadeira dimensão do "fazer" atividade física e a responsabilidade do profissional-orientador da atividade, que não propõe um "exercício" para um "corpo", mas uma atividade-processo para um ser uno".

O autor: prof. Walmer Monteiro Chaves, mestre em Ciência da Motricidade Humana (UCB); professor das redes municipais de Itaboraí e São Gonçalo e particular de Niterói

Referências bibliográficas

  •  Cunha, M.S.V. Para uma epistemologia da motricidade humana. 2 ed. Lisboa: Compendium, 1994.
  • Deutsch, S. Estados Emocionais e Movimento. Motriz. Rio Claro, v.9, n.1, supl., p. S25-S28, jan./abr. 2003.
  • Feijó, O. G. Corpo e movimento: uma psicologia para o esporte. 2.ed. Rio de Janeiro: Shape, 1998.
  • Fonseca, V. Psicomotricidade. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  • Ladeira, F. T. e DARIDO, S. C. Educação Física e Linguagem: algumas considerações iniciais. Motriz. Rio Claro, v. 9, n. l, p. 25-32, jan./abr. 2003.
  • Merleau-Ponty, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
  • Mesquita, R.M. Comunicação não verbal: relevância na atuação profissional. Revista Paulista de Educação Física. São Paulo, v. 11, n. 2, p. 155-163, jul. / dez. 1997.
  • Miranda, R. Atividade física e emoção. In: Miranda, R. (org). III Simpósio Mineiro de Psicologia do Esporte. Juiz de Fora: EDUFJF, 1998.
  • Porto, E. e GAIO, R. Qualidade de vida e pessoas deficientes: possibilidades de uma vida digna e satisfatória. In: Moreira, W. W e Simões, R (org.). Esporte como fator de qualidade de vida. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.
  • Santaella, L. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983T

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