Memórias do Salto Triplo: Registro de Uma História Que Não Se Conta

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VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Compactuando de várias regras com o salto em distância, o salto triplo hoje corresponde a uma prova oficial do atletismo tanto masculino como feminino. Em linhas gerais, pode-se dizer que o objetivo é definir quem salta mais longe na caixa de areia, após a realização de uma corrida de aproximação. Com uma distância mínima da caixa de areia de 13 metros para as provas masculinas e 11 metros para as provas femininas, a tábua de impulsão serve como referência para a marcação do salto que é medido da borda da tábua mais próxima da caixa de areia (onde está a "linha de impulsão") até a marca mais próxima feita pelo atleta na areia e próxima à esta linha. Diferentemente do salto em distância, o atleta deve realizar os dois primeiros saltos com o mesmo pé e o terceiro com o pé contrário para depois cair na areia, na seqüência: direita, direita, esquerda e queda ou esquerda, esquerda, direita e queda.

Se essas são algumas das regras do salto triplo que revelam parte do conhecimento desta prova oficial do atletismo e que, portanto, deveriam ser ensinadas para as crianças no campo escolar, há muito mais para se conhecer em relação a essa prova. Ou seja, para além da normatização das regras que regem o salto triplo e dos movimentos próprios que garantem a sua especificidade técnica, o salto triplo tem uma história que deve ser resgatada e ensinada para os alunos dentro da escola, em especial em aulas de Educação Física. Assim, para além de um conhecimento normativo e técnico que envolve essa prova e que, certamente, deveria ser transmitido aos alunos no campo escolar, seria de suma importância que eles tivessem acesso a particularidades históricas desta prova, embora esse seja um processo de difícil reconstrução.

Ainda que este seja um estudo introdutório nesta perspectiva, foi possível observarmos por meio de uma revisão bibliográfica que o salto triplo cuja origem, segundo McNab (1979), é céltica, integrava as atividades desportivas rurais escocesas e irlandesas durante o século XIX, baseando-se no ritmo de "dois pulos e um salto" ou "pulo, passo e pulo". Os imigrantes escoceses e irlandeses levaram esses costumes para os Estados Unidos e para as colônias britânicas na parte final do século XIX, época de que se tem notícia de que o irlandês Edward Harding saltou 13m33 em 1871 e outro, Daniel Shanadan, 14m50 em 1886. Em 1900 determinou-se que o ritmo regulamentar desta prova passaria a ser exclusivamente o de "pulo, passo e salto", ou, como hoje prevê a regra: "um salto com impulsão em um só pé, uma passada e um salto, nesta ordem". Ainda que sejam poucos os que saibam, especialmente entre as crianças, esta é a prova olímpica que mais glórias tem dado ao Brasil. Além das duas medalhas de ouro olímpicas e dos cinco recordes mundiais de Adhemar Ferreira da Silva, do recorde mundial e das medalhas olímpicas de prata e bronze de Nelson Prudêncio e dos títulos pan-americanos e medalha de bronze olímpica de João Carlos de Oliveira, foram vários os atletas brasileiros renomados nesta prova. Em 1941, por exemplo, Carlos Eugênio Pinto saltou 15m10, enquanto Geraldo de Oliveira saltou 15m41 em 1948, marcas de grande projeção mundial. É justo lembrarmos de Hélio Coutinho da Silva, atleta que em 1951, dois meses após o primeiro recorde mundial de Adhemar Ferreira da Silva, saltou 15m99, isto é, a segunda melhor marca mundial do ano e a terceira melhor de todos os tempos. Não menos importante foi João Rehder Neto, o primeiro a ter no Brasil, o recorde reconhecido nesta prova, saltando em 1933, 13m15. Isso, certamente, é apenas parte da bela história do salto triplo brasileiro que continua a destacar talentos cujo representante mais legítimo nos últimos tempos é Jadel Gregório.

Apropriando-nos de parte do subtítulo do livro de Castellani (1988) diríamos que ainda que poucos conheçam as particularidades de uma "história que não se conta", nomes como os de Adhemar Ferreira da Silva, Nelson Prudêncio e João Carlos de Oliveira são capazes de nos trazer belas lembranças. Não à toa, este trabalho procurou deter-se no registro de uma história pouco conhecida e que merece ser resgatada e difundida, sobretudo no campo escolar. Nesse sentido, procuramos registrar parte de uma entrevista gentilmente concedida por Nelson Prudêncio, em março de 2002.

Sobre a "história que não se conta"

Nascia em Lins, no interior paulista, no dia 4 de abril de 1944, aquele que anos mais tarde viria a ser conhecido como um dos grandes nomes do Atletismo mundial: Nelson Prudêncio. Não diferente da maioria dos meninos de sua idade, Nelson era, além de entusiasta, praticante de futebol, desconhecendo - como infelizmente ainda ocorre com muitos - o atletismo, cujo contato viria a ocorrer somente após seus 20 anos de idade. Residindo em Jundiaí e mais tarde em São Carlos onde concluiu o Curso de Graduação em Educação Física, Nelson foi, como ele próprio costuma dizer, escolhido pelo salto triplo. Ainda que tenha participado de algumas competições nacionais com resultados expressivos nos 100 metros rasos, salto em distância, salto em altura e revezamentos, Nelson tinha uma habilidade toda especial para o desenvolvimento das especificidades requeridas no salto triplo. Em 1965 e 1967, por exemplo, Nelson chegou a saltar 16m46 em campeonatos sul-americanos, melhorando cada vez mais essa marca até conquistar o recorde mundial, na época 17m03, pertencente a outro brasileiro, Adhemar Ferreira da Silva. Aos 24 anos, ao lado de outros grandes nomes do salto triplo, tais como: o soviético Viktor Saneyev e o italiano Giuseppe Gentile, Nelson, que saltou 17m27, contribuiu para que o recorde mundial fosse quebrado por 5 vezes num intervalo de aproximadamente 4 horas, passando de 17m03 a 17m39, numa das competições mais emocionantes dos Jogos Olímpicos do México em 1968. Foi nessa competição que nos encheu de orgulho ao conquistar sua primeira medalha olímpica e uma das poucas do Atletismo brasileiro: a medalha olímpica de prata do salto triplo dos Jogos de 1968. Numa época em os recursos eram muito precários, o treinamento desportivo e a tecnologia eram bem diferentes do estágio atual e dividindo seu tempo entre o estudo, os treinamentos e o trabalho, Nelson continuou se dedicando ao Atletismo prosseguindo em suas conquistas. Logo ocuparia o 2o lugar no podium nos Jogos Pan-Americanos e representaria o Brasil em outros dois Jogos Olímpicos:

Munique, em 1972 onde conquistou sua segunda medalha olímpica, a medalha de bronze, após atingir a marca de 17m05; e Montreal, cidade que sediou os Jogos Olímpicos em 1976. Esses são apenas alguns exemplos das conquistas e vivências de Nelson Prudêncio no campo do Atletismo. Ao lado dos saudosos Adhemar Ferreira da Silva, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque em 1952 e Melbourne em 1956 e João Carlos de Oliveira, também medalhista olímpico e detentor do recorde mundial de 17m89 por cerca de 10 anos, Nelson é uma das grandes figuras do atletismo, em especial, da prova de salto triplo, cujo recorde atual é de 18m29, do inglês Jonathan Edwards, estabelecido em Gotemburgo, no dia 07 de agosto de 1995.

Memórias do salto triplo: entrevista com Nelson Prudêncio

SQM- Nelson, gostaria que você contasse a história de seu encontro com o atletismo.

NP- Bem, o primeiro contato meu com o atletismo ocorreu em 1964, isso já com 20 anos de idade. Até então, eu desconhecia realmente o que era o atletismo. Eu me lembro que quando eu apareci na pista, um dos atletas me perguntou se eu sabia o que era salto triplo. Eu disse que não. Aí ele demonstrou a técnica. Por ter saltado 11 metros e pouco da primeira vez, ele se entusiasmou comigo e me chamou para fazer o treinamento. Isso foi uma identificação do acaso. É dito no esporte que é a prova que escolhe o atleta e não o atleta que escolhe a prova. Pode até gostar de outra prova, mas, não tem um potencial, nem um bom rendimento na prova. Naquele momento, creio eu, o que beneficiou para que me mantivesse na prova foi o resultado da performance. Não sabia o significado de quanto era 16 ou 17 metros, mas, quem estava há mais tempo, já sabia o quanto valia essa marca.
SQM- E a sua participação em Jogos Olímpicos, como foi?

NP- Em 68, já nos Jogos Olímpicos, eu saí daqui do Brasil sem um resultado expressivo. Saí daqui com 16m20. Meu negócio, na época, era apenas bater o recorde sul-americano, que era de 16m56. Nos Jogos Olímpicos fui assistir a um show e quando saí, notei que havia no saguão uma exposição do México, em que havia um podium. Nesse podium, é claro, havia um mexicano em primeiro lugar, do lado direito, um americano e, do outro, havia um negro de camisa amarela. Identifiquei-me com isso e três dias antes da competição falei para meu técnico: "Eu vou subir no podium!" E ele disse: "Que bom, estou gostando de ver!" O índice das eliminatórias era de 16m20, sendo que o italiano Giuseppe Gentile abriu-a logo de cara com 17m10... novo recorde mundial e olímpico! Mas, meu objetivo era apenas passar para a final; era para isso que eu estava lá. No segundo salto, eu consegui! Havia feito 16m57 e batido o recorde brasileiro e sul-americano. Já tinha colocado meu nome na história da América do Sul com o recorde brasileiro e sul-americano, mas era na final que iria começar a competição mesmo. Voltei para o alojamento e no outro dia estavam lá os finalistas, eram 12 os classificados para a final. Primeiro salto do Gentile: 17m22... novo recorde mundial e olímpico! Hoje em dia eu penso: "O que eu estava fazendo naquele disco?" No desenrolar da competição, Viktor Saneyev fez 17m23 e, em meu segundo salto, fiz 17m05. Já estava dentro daquela premonição que eu havia visto, pois, eu estava entre os três primeiros. Portanto, cumpria-se a profecia, se é que eu a posso chamar assim. Eu praticamente já me sentia acomodado, pensando: "quem sou eu para saltar 17 metros!" Mas, felizmente, eu não saí da concentração. Quando eu fiz 17 metros sabia que a briga ia ser boa, porque eu estava em condições de igualdade com os outros competidores. Na quarta rodada de saltos, um outro russo fez 17m09 e eu caí para o 4º lugar. Pensei: "Desse jeito, eu estou fora da jogada!" E eu saltei. Você não percebe quando faz um grande salto. Só ouvi a exclamação do público... era o novo recorde mundial e olímpico anunciado. Eu não tinha preparação psicológica para a coisa, mas, naquele instante, eu era o novo recordista mundial e olímpico! Eu fiquei extasiado, abobado! Fiquei parado pensando..., mas, naquele momento, eu sabia que a competição ainda não havia acabado, pois, faltavam duas rodadas. Todos os atletas estavam presentes e motivados e isso permaneceu até a última série. Na 5a rodada, o Viktor Saneyev fez 17m39 e eu estava com 17m27. Eu disse: "bem, está ótimo!" Mas ainda faltavam outras pessoas com reais chances de saltar acima disso e, no último salto, eu saltei 17m15. Bem, havia terminado e eu já podia desligar o circuito. Para mim estava ótimo! Chorei que nem criança, justamente pelo fato de saltar acima de 17 metros ... e nas Olimpíadas! Pensei: "Estou no podium olímpico!" O sonho de todo atleta é estar numa Olimpíada, deixar o nome no livro da história e com a medalha olímpica. Ter ficado como o melhor do mundo naquele instante foi muito gratificante!

SQM- E os outros Jogos Olímpicos?

NP-Na Olimpíada de 72, disseram: "Vamos levar Prudêncio pelo o que ele simplesmente fez no passado." Eu havia trocado de técnico e disse a ele: "Vou à Olimpíada e vou saltar!" Então, eu disse para mim mesmo: "Vou subir no podium!" Na Olimpíada de 1976, em Montreal, como já existia o João, me puseram para escanteio, mas, quando saiu a relação dos convocados, eu estava entre eles. Fui mais para estimular o João. Não fui para a final. Não deu tempo para que eu me preparasse melhor e senti que os Jogos Olímpicos haviam terminado para mim. Com família constituída, os interesses passaram a ser outros. Minha passagem pelo esporte, creio eu, foi muito boa, abrindo um horizonte muito grande, não só em termos geográficos, como também, para o trabalho e integração com as pessoas.

Os autores: Sara Quenzer Matthiesen e Augusto César Lima e Silva pertencem ao Grupo de Estudos Pedagógicos e Pesquisa em Atletismo do Departamento de Educação Física da UNESP-Rio Claro

Referências bibliográficas

  •  Castellani, Lino. Educação Física no Brasil: a história que não se conta. Campinas: Papirus, 1988.
  • Jonath, Ulrich. Atletismo: Corrida e Salto. Casa do livro Editora, Lisboa, 1977.
  • MCNAB, Tom. Atletismo, Saltos e Lançamentos. Talus, Porto 1979.

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