Miguel de Unamuno: Um Reitor à Altura da Função

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Blog do Cev - 2017

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Miguel de Unamuno (1864-1936) assumiu, em 1891, a cátedra de grego na Universidade de Salamanca. Em 1900, com apenas 36 anos de idade, é nomeado Reitor, cargo que exerceria por mais duas vezes e do qual foi afastado definitivamente pelo General Franco, devido a um incidente ocorrido em 12 de outubro de 1936.

Nesse dia realizou-se, no salão nobre da instituição, a sessão solene de abertura do ano letivo, a que ele presidiu na condição de Reitor. Um dos oradores (Francisco Maldonado de Guevara) lançou um violento ataque contra a Catalunha e o País Basco; qualificou as duas nações de "anti-Espanha e de tumores no sadio corpo da nação" e asseverou que "o fascismo redentor da Espanha saberá como exterminá-los, cortando na própria carne, como um decidido cirurgião, livre de falsos sentimentalismos".

Na sequência, alguém gritou o lema da Falange fascista: Viva la muerte! O general falangista Milán-Astray, presente no ato, secundou: Espanha! A plateia respondeu: Unida! Ele repetiu: Espanha! E a multidão replicou: Grande! Millán-Astray exclamou pela terceira vez: Espanha! Nesse momento um grupo de camisas azuis da Falange entrou no salão e fez uma saudação, com o braço direito levantado, ao retrato de Franco, pendente numa parede.

Miguel de Unamuno, que até então se tinha mantido em silêncio, levantou-se e fez um corajoso pronunciamento: “Estais à espera de que vos fale. Conheceis-me bem e sabeis que sou incapaz de permanecer em silêncio. Às vezes, permanecer calado equivale a mentir, porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Quero tecer alguns comentários ao discurso, se posso chamá-lo assim, do Professor Maldonado (…) Falou da guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu próprio já disse isso noutras ocasiões. Mas não, a nossa é tão-somente uma guerra incivil. Não basta vencer; há, sobretudo, que convencer. O ódio, que não deixa lugar à compaixão, não pode convencer. Um dos oradores presentes é catalão, nascido em Barcelona e está aqui para ensinar a doutrina cristã, que vós não quereis conhecer. Eu nasci em Bilbau (...) Porei de lado a ofensa pessoal que se deduz do furioso ataque a bascos e catalães, chamando-os de anti-Espanha, até porque com a mesma razão poderiam eles dizer o mesmo.”

O general José Millán-Astray, que nutria uma profunda inimizade por Unamuno, pôs-se a gritar: “Posso falar? Posso falar?” E, em altos brados, declarou: “A Catalunha e o País Basco são dois cânceres no corpo da nação! O fascismo, remédio da Espanha, vem para exterminá-los cortando na carne viva como um frio bisturi!”. Alguém do público tornou a gritar: Viva la muerte!

Seguiu-se um silêncio mortal e todos os olhos se voltaram para Unamuno, que continuou: “Acabo de ouvir o necrófilo e insensato grito de ‘Viva la muerte!’ Isto parece-me o mesmo que ‘Muerte a la Vida’. E eu, que passei a minha vida a compor frases paradoxais que despertavam a ira dos que não as compreendiam, devo dizer, como especialista na matéria, que esta frase me parece ridícula e repelente. Como foi proclamada em homenagem ao último interveniente, entendo que a ele é dirigida, se bem que de forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que é um símbolo da morte. O general Milan-Astray é um inválido. Não é necessário dizer isso com um acento pejorativo, pois é, de facto, um inválido de guerra. Cervantes também o foi. Mas os extremos não servem como norma. Desgraçadamente na Espanha atual há demasiados mutilados. Atormenta-me pensar que o general Millán-Astray possa ditar as normas da psicologia das massas. De um mutilado, que carece da grandeza espiritual de Cervantes, um homem viril e completo apesar das suas mutilações, de um inválido, que não tem essa superioridade de espírito, é de esperar que encontre um terrível alívio vendo multiplicar os mutilados ao seu redor. O general Millán-Astray deseja criar uma nova Espanha, criação negativa, sem dúvida, à sua própria imagem…”

Millán-Astray interrompeu o Reitor, exclamando furibundo: “Morra a intelectualidade traidora! Viva a morte!”. Unamuno, sem se intimidar, continuou: “Este é o templo da inteligência e eu sou seu sumo-sacerdote! Vós estais a profanar este sagrado recinto. Tenho sido sempre, digam o que disserem, um profeta do meu país. Vencereis porque tendes força bruta de sobra. Mas não convencereis, porque para convencer há que persuadir. E para persuadir falta-vos algo que não tendes: razão e direito…”.

A alocução de Unamuno deixou o público encolerizado, tendo alguns oficiais sacado as pistolas. Todavia ele conseguiu sair incólume do recinto. Nesse mesmo dia, o Conselho Municipal decretou a sua expulsão. Alguns dias depois Franco assinou o decreto de destituição de Unamuno da função de Reitor da Universidade de Salamanca.

Miguel de Unamuno veio a falecer em 31 de dezembro daquele fatídico ano. Já não há reitores assim, comprometidos com a causa e missão da Universidade, como casa da espiritualidade, da intelectualidade e liberdade. Os de agora, salvo uma ou outra rara exceção, têm compromisso com o sistema que corrói o mundo.

31.10.2017 – Jorge Bento

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