Mudanças Sociais e Jogos e Brincadeiras Populares no Cintexto Rural

Por: Marcia S. Damazio.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

O ensino da educação física nas escolas públicas encontra inúmeras limitações para o alcance de seus objetivos, porém mesmo diante das barreiras observadas no cotidiano, possibilidades de ações pedagógicas também se apresentam e, podem se constituir em espaço de descoberta e de aprendizado. O relato de experiência que apresentamos aqui representa uma alternativa para o ensino da educação física, no sentido de contribuir para a construção de momentos de reflexão e de prática não restritos a conteúdos tradicionais. Outros relatos já foram apresentados no meio acadêmico, trabalhando na perspectiva do resgate da memória lúdica popular, mas acreditamos que em cada contexto as experiências se concretizam de modo diverso, tendo em vista os múltiplos fatores determinantes de uma realidade social. Em cada escola, a proposta de trabalho, abordando a cultura lúdica e corporal das camadas populares, pode ser delineada a partir de diferentes enfoques e objetivos.

No ano letivo de 2003, a escola púbica, localizada numa comunidade rural do Município de Teresópolis, que oferece o 3º. e 4ª. Ciclos do Ensino Fundamental, apresentou aos professores o "Projeto Meio Ambiente" , que tinha como objetivo refletir em torno de problemas ambientais encontrados na região, bem com trabalhar no sentido de conscientização dos educandos. A fim de contribuir com o projeto, foi realizado um trabalho de pesquisa juntamente com as turmas de 5ª. Série (3º. Ciclo), com os objetivos de: levar aos alunos a refletir sobre as mudanças sociais observadas nas comunidades rurais em termos de aspecto físico e ambiental; resgatar a cultura lúdica das comunidades rurais; refletir sobre mudanças no brincar de crianças e adolescentes da região.

A escolha pela abordagem dada o projeto por parte da educação física, se deu pela necessidade de ampliar a compreensão em torno das questões ambientais, levando os educando a perceber como diferentes dimensões da vida social, inclusive a ludicidade, são afetadas pelas mudanças mais amplas operadas no espaço físico e social. Assim torna-se possível uma visão da totalidade do fenômeno estudado nas diversas disciplinas durante o projeto.

Na sociedade capitalista em que nos inserimos, crianças e adolescentes, seja no meio urbano, seja no espaço rural, diante da disponibilidade de jogos e brinquedos industrializados, pouco tem se aventurado na busca por alternativas para brincar e jogar, numa maior interação com o meio ambiente que o cerca. O valor dado aos jogos e brincadeiras tradicionais tem merecido atenção de estudos no campo da sociologia, no sentido de compreender como são percebidos pelos grupos infantis. Damazio (1995), com o objetivo de analisar a cultura lúdica e corporal de crianças e adolescentes de uma comunidade rural da região, observou que a preferência do grupo estava voltada para os jogos e brinquedos eletrônicos e industrializados. Mas também foi possível observar que juntamente com os traços de modernidade também vivia o tradicional. Muitas brincadeiras tradicionais ainda se faziam presente no cotidiano das crianças, que afirmaram ter aprendido estas brincadeiras juntamente com colegas nos momentos de recreação na escola ou pela interferência dos professores. Dessa forma, ressaltamos a importância de iniciativas no contexto escolar que trabalhem a cultura lúdica e corporal como conteúdo pedagógico educação física.

Concordando com Soares (1992), a educação física, tem a tarefa de trabalhar pedagogicamente a cultura corporal como conteúdo.

Faz-se necessário incluir nos planejamentos, desde o ensino de jogos esportivos até práticas alternativas de atividades físicas, como também jogos e brincadeiras populares. Ainda, destacamos o papel da educação física defendido por Soares, no sentido de buscar possíveis relações de interdependência que o jogo e outros temas da cultura corporal, tem com grandes problemas sócio-políticos atuais, possibilitando a visão da totalidade dos fenômenos sociais.

O professor tem papel de destaque no ensino de jogos e brincadeiras populares, pois como citado acima, os professores também foram responsáveis pela difusão de jogos e brincadeiras ditas tradicionais vivenciadas pelo grupo estudado. Resende (1995) destaca a escola como espaço de vivencia e reflexão em torno das práticas corporais, e neste processo o professor é o responsável pela mediação dos conflitos criando ambiente de reflexões e decisões. Cabe aos educadores repensar a sua tarefa social diante dos objetivos educacionais mais amplos, que não só o ensino de técnicas e regras de esportes tradicionais.

Procedimentos metodológicos

Os alunos foram orientados para iniciar a entrevista com familiares. Após esta fase as informações obtidas foram apresentadas aos alunos em sala, e serviram de elementos para reflexão envolvendo a temática do "Projeto Meio Ambiente". Para orientar este momento foi utilizado o estilo de ensino conhecido com Descoberta Orientada (Moston, in Faria Júnior,1987). Questionamentos foram apresentados ao grupo de alunos a partir dos dados registrados e expostos no quadro. Foram destacados como aspectos relevantes: as mudanças observadas no brincar, as mudanças observadas no meio físico e social, e as diferenças no brincar entre grupos femininos e masculinos. As observações feitas pelos alunos foram registradas e, neste momento também os mesmos elegeram aquelas brincadeiras que seriam vivenciadas durante as aulas.

Durante as aulas de educação física nas semanas que se seguiram, os alunos vivenciaram os jogos e brincadeiras selecionadas.

Algumas crianças motivadas pelo projeto, espontaneamente levaram para a escola brinquedos como a peteca e a bazuca de bambu, esta confeccionada por um menino. Para avaliar o trabalho, além de observações ao longo das aulas, foi solicitada uma apreciação através de desenhos.

Resultado da coleta de dados e reflexão

Entre os jogos e brincadeiras descritos nos trabalhos estavam: amarelinha, casinha, boneca, jogar bola, pular corda, carrinho, cantigas de roda, passar anel, lata velha ou pique lateiro, pique com variações, abobrinha, malha, peteca, entre outras. Estes foram identificados pelos alunos como atividades ainda vivenciadas nos dias atuais, mas de forma diferenciada, sofrendo alterações diante das mudanças ocorridas no meio econômico e social. Como a brincadeira de boneca, que no passado era confeccionada a partir de tecido e sabugo de milho, material comum na região. Hoje a boneca é industrializada e comprada, e as famílias têm condições financeiras como acesso facilitado para adquirir o brinquedo industrializado. Os familiares também indicaram as alterações na condição sócio-econômica, que foi destacada pelos alunos: "eu não brincava, pois tinha que trabalhar diferente de hoje".

Observamos a diferenciação no brincar a partir da condição de gênero, que também passou por mudanças. Os seus avôs jogavam futebol e as vovós brincavam de boneca. No presente a participação nos jogos e brincadeiras não fica totalmente restrita ao gênero. Como comentaram: "As meninas também jogam futebol e até brincam de carrinho, e dirigem carro." Houve uma imersão das meninas no universo masculino, porém o inverso não aconteceu. "Meninos não brincam de boneca nem de casinha", concluíram.

Os alunos também perceberam as transformações processadas no ambiente físico, como a diminuição de áreas cobertas com vegetação, a redução de espaço físico ao redor das residências, o aumento na construção de residências e do comércio. Assim, concluíram que muitas brincadeiras e jogos não são tão comuns diante destas mudanças. Como exemplos, podemos citar a confecção de bonecas de milho, o esconde-esconde no milharal e de peteca de palha deste grão, já que poucas famílias o cultivam. Também relataram a possibilidade de adaptações ao meio físico e às condições atuais existentes nas comunidades em que moram. Se não há mais balanço nas árvores, eles são improvisados nos galpões, local onde são preparados os produtos agrícolas para comercialização.

Os alunos consideram interessante como brincadeiras tão antigas, vivenciadas pelos avôs ainda estão presentes no seu dia-a-dia, como a "lata-velha", jogo relatado por um senhor de 76 anos de idade. Um outro jogo muito apreciado pelo grupo foi a "malha", ainda praticado pelos moradores da região. Observaram como o velho e novo convivem num mesmo espaço e, que nem tudo que diz respeito ao passado é negativo, mas como eles mesmo relataram e experimentaram, pode resultar em atividades prazerosas.

Conclusão

O trabalho realizado no espaço de aula da educação física foi uma rica experiência tanto para os alunos como para a professora. Os alunos puderam observar as relações que existem entre a vida social e econômica e o conteúdo lúdico do mundo em que vivem. As mudanças processadas no meio social e no ambiente natural influenciaram também as formas de jogar e brincar, ao longo de um determinado período histórico.

Juntos, professor e alunos, chegaram a descobertas relevantes, contribuindo para que os alunos os percebem como atores sociais e como construtores do conhecimento. Foi possível ao vivenciar jogos e brincadeiras, trabalhar a idéia de valorização do saber popular, resgatando a memória lúdica das comunidades rurais.

Por fim, este relato de experiência vem reforçar a defesa de que a educação física pode contribuir para a formação de indivíduos criativos, críticos e participativos, se inserindo numa proposta educacional mais ampla, onde a relação teoria e prática se torna possível, sem negar a ludicidade que faz parte do mundo infantil. O trabalho de reflexão bem orientado, e na sua estreita relação com a prática, não se constitui uma tarefa desagradável aos olhos dos alunos. Cabe ao professor a tarefa de planejar, preparar adequadamente o trabalho pedagógico e direcionar o processo de construção do saber. E por que não, levar nossos alunos a filosofar?

É no cotidiano das escolas, e de modo particular de nossas escolas públicas, que educação física é construída em busca de sua firmação como disciplina que tem o papel de refletir pedagogicamente sobre a cultura corporal e superar praticas reprodutivistas, como até então vem configurando o cenário da educação física

A autora, Ms. Marcia S. Damazio é professora da UNESA - Campus Nova Friburgo e do Ensino Fundamental da Prefeitura de Teresópolis

Referências Bibliográficas

  •  Damazio, Márcia da Silva. "Cultura lúdica e corporal ente crianças e adolescentes - zona rural 3º. Distrito de Teresópolis." Monografia (Pós Graduação) Sociologia Urbana / IFCH, UERJ, Rio de Janeiro, 1997.
  • Faria Júnior, Alfredo Gomes de. "Prática de Ensino em Educação Física: estágio supervisionado." Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1987.
  • Rezende, Helder Guerra. Reflexões sobre algumas contradições da Educação Física no âmbito da Escola Pública e alguns caminhos didático-pedagógicos na perspectiva da cultura corporal. "Revista Movimento". Porto Alegre, Ano I, n.1, p.20-28, set. 1994..
  • Soares, Carmem Lúcia e outros. "Metodologia do Ensino da Educação Física." São Paulo, Cortez, 1992.

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