Nós na Escola: Que Tempo/espaço de Reflexão é Esse?

Por: Mauro Sérgio da Silva.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Os tempos e espaços dos professores destinado à reflexão tem apresentado algumas limitações, que acabam restringindo a possibilidade de pensar a prática a partir de um coletivo, de uma reestruturação e ampliação das alternativas de trabalho na escola. Por isso, nesse breve texto, apresentaremos um grupo que está sendo gestado a partir de nossas necessidades - professores e acadêmicos - de compartilhar experiências. Discorremos num primeiro momento acerca da reflexão como um elemento necessário à prática do professor e logo após destacamos o GRUPO "NÓS" NA ESCOLA, que vem se mostrando como um espaço importante para o debate das questões relacionadas a Educação Física escolar.

Segundo Pimenta (2002), o professor reflexivo pode ser entendido como um intelectual em processo contínuo de formação, que pensa sua formação como um moto-contínuo, com a compreensão de que está se autoformando, tendo o discernimento que ao se defrontar com suas experiências práticas no cotidiano escolar, passará por um processo de reelaboração de seus saberes iniciais. No contato direto com a prática é construído pelo professor um arcabouço de saberes experienciais, ocorrendo a cada novo contato com a prática uma nova reestruturação, ou seja, uma nova síntese de saberes. Como destaca Pimenta (2002, p. 29), "[...] é nesse confronto e num processo coletivo de troca de experiências e práticas que os professores vão constituindo seus saberes como praticum, ou seja, aquele que constantemente reflete na e sobre a prática". Nessa perspectiva então, é necessário que se proporcione tempos e espaços para que para que possa ser construído um processo de reflexão coletivo.

Vale ressaltar, que os problemas da prática dizem respeito a questões que demandam decisões importantes, tais decisões podem ter influências desastrosas no trabalho do professor, se não forem bem fundamentadas e coerentes com seus anseios e a realidade em que se está intervindo.

Zeichner citado por Gómez (2001, p. 194) afirma que,
[...] a reflexão implica a imersão consciente do homem no mundo de sua experiência, um mundo carregado de conotações, valores, intercâmbios simbólicos, correspondências afetivas, interesses sociais e cenários políticos. A reflexão, ao contrário de outras áreas do conhecimento, supõe uma análise e uma proposta totalizadora, a qual captura e orienta a ação [...])

A busca de esclarecimento de questões pedagógicas e questionamentos das suas práticas desencadeada por uma inquietação quanto ao que fazer para modificá-las, constituem características de um professor crítico-reflexivo (PIMENTA, 2002). Engendrar um círculo de debates que certamente proporcionará a emergência de propostas esclarecedoras de muitas dúvidas, será bastante profícuo, pois, o questionamento advindo de outrem possibilita uma nova formulação de saberes pelo professor, daí a importância de grupos como o "Nós" na Escola.

De acordo com Pérez Gómez (2001, p. 192), [...], uma das chaves fundamentais no desenvolvimento profissional do docente será a formação, a utilização e a reconstrução permanente de seu pensamento prático reflexivo, como garantia de atuação relativamente autônoma e adequada às exigências de cada situação pedagógica.

Entretanto, conforme Elliott apud, Pérez Gómez (2001, p. 196) alguns cuidados devem ser tomados ao se perspectivar uma prática reflexiva, nos quais

[...] o professor que desenvolve suas teorias a partir unicamente da reflexão sobre a experiência, deixando de lado as reflexões passadas e presentes dos demais, acaba inventando a roda, além de sucumbir as suas próprias deficiências e interesses. A reflexão individual é uma condição necessária, mas não suficiente. O professor isoladamente considerado é uma vítima fácil de suas próprias deformações, insuficiências e interesses, assim como das pressões institucionais e sociais, deformações que se mantêm com facilidade alimentadas pela própria inércia da pressão grupal, institucional e ambiental .

Lüdke (2001, p. 80) nos alerta que alguns cuidados devem ser tomados ao se discursar acerca da formação do professor reflexivo, afirmando que. "[...] o componente da reflexão passou a ser considerado imprescindível para o trabalho e para a formação do professor, correndo o risco de ser tomado como garantia suficiente para tanto".

Os comentários até o momento reforçam a idéia de grupos que tenham como intento primordial à discussão das experiências no cotidiano escolar, aproximando, dessa forma, as produções individuais, para a socialização e produção em grupo, como apresentaremos a seguir.

O GRUPO "NÓS" NA ESCOLA surgiu a partir das inquietações de três acadêmicos-docentes (dois hoje já concluíram a formação inicial) originadas por problemas de diferentes ordens, enfrentados no ensino da Educação Física na escola. A organização do grupo foi se dando tacitamente, a partir de conversas e encontros informais, que aconteciam esporadicamente no Laboratório de Estudos em Educação Física (LESEF) do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Espírito Santo, do qual somos integrantes, em que aproveitávamos para comentar sobre nossas experiências na escola.

Nesse período em que o grupo veio sendo constituído, fomos assumindo posturas diferentes diante da prática e tendo maior clareza ao abordar o objeto de estudo do grupo, qual seja, nossa própria prática pedagógica em Educação Física escolar, e, dessa forma, temos conduzido nossas reflexões. A partir disso, cabe destacar que nos encontros do grupo buscamos compreender melhor o trabalho que realizamos, esses momentos vem se apresentando como um elemento relevante para nosso trabalho, ao nos fornecer subsídios para suplantar muitos dos problemas enfrentados.

Apesar desse grupo ter se originado no espaço físico e a partir da relação que estabelecíamos no LESEF, surgiu por iniciativa própria dos acadêmicos-docentes, aparentemente sem influência direta do espaço institucional em que estávamos inseridos. No entanto, esse espaço nos tem possibilitado um maior acesso à pesquisa e a produção acadêmica de maneira geral, sendo esses, alguns condicionantes que podem ter favorecido a gênese desse tempo/espaço de reflexão, contudo não foi o que determinou sua criação.

Esse grupo tem como objetivo, possibilitar um espaço/tempo para a socialização de experiências de professores e acadêmicos de Educação Física, bem como a reflexão a partir dos diversos contextos escolares. Tendo como temática central a prática pedagógica em Educação Física escolar: problemas, possibilidades e realizações no cotidiano escolar.

Na dinâmica de organização, se faz presente a estrutura de um grupo de estudo, que normalmente é composto por pessoas que se aglutinam num espaço para realizar a leitura de um texto e tecer considerações sobre esse. Embora tenha esse formato, o "NÓS" NA ESCOLA talvez se distancie um pouco dessa organização "tradicional" de grupo, porque tem como idéia central a leitura das práticas construídas nas diversas realidades escolares, numa perspectiva de pesquisa, na qual há um objeto de estudo bem definido, e que por meio dos diferentes olhares são engendradas contradições e consensos, e proporcionam um "novo" pensar a prática, sendo um momento em que temos a oportunidade de expô-las, para a partir daí, tecermos considerações e possíveis contribuições para os trabalhos dos integrantes do grupo.

Os autores, Mauro Sérgio da Silva é professor da rede municipal de Cariacica, Leonardo Lima Rodrigues, professor da rede municipal de Vila Velha e Ueberson Ribeiro Almeida, professor da rede estadual do ES, todos membros do LESEF/CEFD/UFES

Referências

Gomez, A. I. P. A cultura escolar na sociedade neoliberal. Porto Alegre: Artmed, 2001.
Ludke, M. Formação inicial e construção da identidade profissional de professores de 1o grau. In CANDAU, V. M. (Org). Magistério: construção cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 110-125.
Pimenta, S. G. Formação de professores: identidade e saberes da docência. In PIMENTA, S. G. (Org.). Saberes pedagógicos e atividade docente. São Paulo: Cortez, 2002, 3a ed., p. 15-34.

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