Nota Editorial. Uma Proclamação Digna da Universidade: Haja Decência, Equidade e Respeito!

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Revista Portuguesa de Ciências do Desporto - n.1 - 2015

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É possível enganar todas as pessoas parte do tempo, e parte das pessoas o tempo todo, mas não é possível enganar todas as pessoas o tempo todo. 1

Há horas na história que intimam a não ficar na superfície; exigem mergulhar na raiz das circunstâncias com palavras e atos radicais. Esta é uma dessas horas, europeia e portuguesa (e, quiçá, mundial), porquanto está em causa a preservação do Humano. Ou seja, é uma hora de radicalidade na reflexão e na ação, não por opção, mas por estrita obrigação. Quem se esquivar a este dever, torna-se cúmplice de crimes contra a civilização, a Humanidade e a Sociedade.

I

Os factos reluzem, são incontornáveis e inegáveis. Dispensemos os eufemismos e os adoçamentos e ponhamos de lado o filtro da parcimónia para os caraterizar. Vivemos um tempo de esplendor tecnológico e de apagamento da luz dos ideais, das causas e utopias da Modernidade. Os mitos humanistas, iluministas e republicanos colapsaram sob a pata dos poderes da corrupção. A política tornou-se uma forma atualizada da prostituição e a democracia uma 'bancocracia' cleptomaníaca, faminta e insaciável de cupidez e ganância. A captura do interesse público pelo privado é escandalosa. Roubar e ficar impune é direito constitucional; o latrocínio é uma virtude e a integridade um defeito. Os personagens políticos ajoelharam e têm relações incestuosas com a teia do complexo aparelho económico-financeiro e o submundo dos negócios obscuros. A ficção democrática continua latente, porém num estado vegetativo. A confiança, a credibilidade e fiabilidade, que os jornais e o jornalismo deviam garantir ao público, estão assaz combalidas; os órgãos ditos de informação, os comentadores e jornalistas vivem em conúbio com os poderosos e, a mando destes, difundem patranhas e contam fábulas, num sofisticado jargão técnico, prenhe de termos incompreensíveis e de elegantes mistificações. Sob os holofotes da ribalta, artimanhas insidiosas dão às mentiras o banho e o brilho da verdade, e esta é compelida a resignar-se ao segredo dos túmulos.

O vocábulo 'novo' é um sinal da magia desta época de fratura social. O que é 'novo' é bom; o que é 'velho' é mau, transporta em si a 'peste grisalha', perigosa toxicidade, demasiada generosidade perante o desemprego, a pobreza e o caduco Estado Social, este, sim, culpado de tudo, tanto dos novos como dos velhos males. De frente dos nossos olhos estarrecidos avista-se um horripilante estendal de miséria material e ruína moral. Aos adultos e idosos foi roubada a estabilidade, aos jovens a identidade; os primeiros são obsoletos e descartáveis, os segundos são condenados a abandonar as 'margens de conforto', por mais apertadas que sejam. A aparência induz a essência: um panorama existencialmente amargurado! Por dentro e por fora, na alma e no corpo, as pessoas apresentam feridas lacerantes. Para culminar, como a cereja no topo do bolo, o exercício da cidadania é quase nulo; e, mesmo assim, vê-se objetiva e seriamente condicionado e penalizado.

Quem ler a Mensagem, de Fernando Pessoa, e olhar o estado do nosso país (e o do mundo) com a lupa crítica da consciência acordada, reconhecerá que nos encontramos no "auge da suprema prova", apontado pelo poeta naquela obra. Afinal, todos os tempos encerram desafios e colocam à prova a civilidade. Contudo, a hora presente é de uma gravidade tão ameaçadora para a manutenção da ilusão de uma sociedade regulada pela decência que leva a encarar o vate como um vidente.2

Urge escutar, decifrar e atender os apelos pungentes do poeta, não para elogiarmos a sua clarividência e lhe darmos razão, mas para nos pormos a salvo da acusação de conivência com a assustadora e ultrajante progressão do mal.

Victor Hugo (1802-1885) sentenciou, mais ou menos assim, que somente vive quem resiste e luta contra o mal. E este anda por aí à rédea solta, soltando risadas de gozo e triunfo e exibindo uma pose de invencibilidade. Pudera! Foi-lhe atribuído o glamoroso óscar de melhor ator no filme de histórias reais de chantagem, crime e tráfico de influências, com cenas policiais mais ou menos brutais, refinadas e palacianas.

Não é exagero, assumamos que esta é uma era de escuridão e de Armagedão. Ainda não é o horror absoluto, mas o cenário do dia-a-dia e os caminhos da sociedade e da humanidade já foram tomados por uma manifesta e trágica regressão civilizacional, pela banalidade da habituação à destruição de marcos paradigmáticos da civilização, aos crimes mais hediondos, perpetrados não na calada da noite, mas nas janelas escancarados do dia. A barbárie ronda-nos a porta e não pede licença para entrar.

Sim, os cavaleiros do apocalipse estão aí, cavalgando a toda a brida, empunhando a cartilha de um neoliberalismo de pendor darwinista e a espada afiada, cruel e gélida do Goldman Sachs e de outros generais da mesma tropa. Para os governantes contam mais a amizade e obediência aos banqueiros do que a honestidade e retidão devidas aos cidadãos. Os mais entrados na idade jamais imaginaram que seria desmoralizador e ultrajante o desenlace da sua passagem pela vida. Resta-lhes protestar e reagir com toda a radicalidade de que sejamos capazes, para não sermos mortos-vivos!

II

Num capítulo ("Uma história natural do mal") do livro Danos colaterais: desigualdades sociais numa era global, Zygmunt Bauman, porventura o mais conceituado e brilhante hermeneuta da contemporaneidade 'líquida', aponta a necessidade de rasgar as cortinas montadas e penduradas na frente do mundo, parafraseando Milan Kundera. Ele constata o desvirtuamento do conceito da razão elaborado por Kant, que traduziu os preceitos da linguagem sagrada, nomeadamente os mandamentos de Moisés, para a linguagem secularizada dos categóricos 'imperativos morais'. Agora a esperteza calculista perverte a razão e coloca-a ao serviço do poder, anulando ou adormecendo os escrúpulos éticos dos fortes e roubando a esperança aos fracos.

Tomando como ponto de partida a 'banalidade do mal', descrita por Hannah Arendt, Bauman recorre a outros estudiosos, nomeadamente Littell e Philip Zimbardo. O primeiro viu em Eichmann "um robô sem face e sem alma"; o segundo confirma que os praticantes de crimes hediondos, como, por exemplo, os cometidos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, são gente comum, simpática, popular, transformada em monstros e transportada a uma espécie de "lugar nenhum".

Bauman conclui que o mal mais horrendo é praticado por gente que pensa. Estamos razoavelmente precavidos e protegidos contra os crimes e ameaças dos monstros. Só que estes não têm rótulo que os identifique. São gente normal, que coabita connosco, frequenta os mesmos lugares, compartilha sentimentos e costumes idênticos aos nossos e não está, portanto, sob qualquer suspeita. O monstro é, afinal, algo ou alguém 'adormecido' dentro de nós, que revela inclinação ou vulnerabilidade para praticar atos indignos, em face de circunstâncias condicionantes.

O perfil psicológico de Eichmann aponta-o como pai extremoso, cuidando da família de maneira irrepreensível. Conhecedor e culto, enquadra-se na imagem dos torturadores apresentada no filme A Lista de Schindler. Segundo Littell, ele não era irracional ou dominado por paixões desprezíveis: "Decerto ele não era o inimigo da humanidade descrito em Nuremberg", "nem tampouco uma encarnação do mal banal", mas, pelo contrário, "um burocrata muito talentoso, extremamente competente em suas funções, com certa desenvoltura e um considerável senso de iniciativa pessoal".

Bauman remata : "Como administrador, Eichman decerto seria o orgulho de qualquer firma europeia de prestígio (poderíamos acrescentar: incluindo empresas com donos ou altos executivos judeus)." 3

Pode parecer excessivo, mas esta excursão afigura-se-me necessária para a imperiosa ponderação da burocratização que, nos últimos anos, se foi instalando paulatina e sorrateiramente na Universidade. Ela é potenciadora de consequências maléficas, das quais gostamos de nos abstrair, quando, como alertou Bertolt Brecht (1898-1956), não nos afetam imediatamente. Todavia o perigo de nos tornarmos aprendizes e vítimas dos feiticeiros do mal está comprovado; logo não deve ser descartado.

III

Como fazer frente a isto? Recordando, reavivando e assumindo o legado de Immanuel Kant (1724-1804): estamos obrigados a 'imperativos morais'. Estes não permitem que cerremos os olhos ao avanço das sombras da insensibilidade, ao abismo do pasmo, ao elevado grau de espezinhamento e humilhação, de desespero e indignidade a que estão a ser forçados tantos seres humanos.

Ninguém escapa a este desapiedado e doloroso aguilhão, a não ser que não consiga transpor a cerca do curral da animalidade. Todo o indivíduo decente e lúcido está a ser insultado, ao presenciar a desfaçatez com que os vários poderes impingem intrujices e praticam falcatruas, umas atrás de outras, visando aumentar e perpetuar o reinado do seu ilimitado e incontido regabofe. É demais! Em cada um dos humilhados e ofendidos é vilipendiada toda a humanidade.

Não podemos esperar, de braços cruzados, em quietude de ânimo, de boca fechada e de mãos atadas, pelo milagre da vinda de um regime que instaure a justiça e a moral ou restaure o seu índice suficiente. Cada um de nós tem que traçar e percorrer sozinho o roteiro coerentemente ético da sua vida, ser um exemplo na comunidade laboral e convivial. Tem que, nas palavras e nos atos, proclamar a imperiosa necessidade de uma equidade universal, aplicável a todo o sujeito humano, independentemente do estatuto cultural, intelectual e profissional, das circunstâncias de nascimento e das condições e nível de desenvolvimento.

Sim, Kant (e antes dele Pico della Mirandola, 1463-1494, na Oração sobre a dignidade do homem) disse-o sem sofismas: somos obrigados à filiação nesta causa, por mais distante que se apresente a concretização do seu teor idealista ou utópico. Somos obrigados a segui-la e a honrar os compromissos e princípios que ela aponta. Recebemos esta herança, vinda do fundo dos tempos e prescrita no Talmude da Babilónia, sendo agora a nossa vez de a aumentar e difundir. Sabendo que arrostamos com o perigo da ofensa de sermos acusados de loucos, radicais e excessivos, por nos inscrevermos em tais fileiras.

O obsessivo desmantelamento de estruturas e formas essenciais dos serviços públicos de educação, saúde e segurança social, ocorrido nas últimas décadas e ainda em curso, de modo intensificado e jihadista até ao extermínio total, intima-nos a assumir a letra e o sentido do mandamento da responsabilidade cívica e social.

Por mais dissemelhantes que sejam os figurantes do mundo, dado haver desigualdades inevitáveis, exijamos o respeito como pressuposto de todos, simplesmente pelo facto de pertencerem ao grupo dos humanos e estes serem portadores de uma dignidade que não tem preço. Exijamos para todos os humanos um respeito ideal e material, uma ponte que permita a todos atravessar e seguir em frente, de cabeça levantada, por cima do fosso da desigualdade e da diferença.

Richard Sennett, numa obra notável, mostra-nos a devastação da sociedade hodierna pela notória e chocante escassez de "expressões de respeito e reconhecimento pelos outros". Quanto mais necessitadas, fracas e frágeis são as criaturas, menor é o grau de respeito que lhes está agregado; elas não são vistas "como um ser humano pleno, cuja presença tem importância".

O ilustre académico prescreve rigorosa e taxativamente: "Quando uma sociedade trata a grande maioria das pessoas desta forma, julgando apenas alguns poucos dignos de reconhecimento, é criada uma escassez de respeito, como se não houvesse bastante desta preciosa substância para todos. Como muitas formas de escassez, esta é produzida pelo homem; ao contrário da comida, o respeito nada custa." Por isso é de estranhar que haja "uma crise de oferta" deste bem inestimável. 4

IV

Cada vez é maior a legião de indivíduos deixados para trás e atirados pela borda fora. A sociedade desfigura-se numa multidão aturdida, solitária e refém de inseguranças, de medos e receios, carente de convivência e autoconfiança. Logo agudiza-se a necessidade de nos tornarmos mais conscientes uns dos outros, de considerarmos o facto de existirem outros Eus e não apenas o nosso, de nos abrirmos à compreensão da alteridade e pluralidade de circunstâncias e condições.

Não estou a falar da prática da caridade, da piedade e de uma versão apodrecida da compaixão, que os fortes gostam de demonstrar de modo ostensivo e com toques de trombeta, porquanto isso lhes confere o poder e garante a oportunidade de degradar, de desrespeitar, ferir, ofender e tratar os pobres como bens danificados. Vão às igrejas e batem no peito como um percussionista no tambor, mas esquecem a advertência de Cristo: a mão esquerda não precisa de saber o que faz a direita.

Ao invés, estou a convocar, para vir ao palco, a trilogia republicana, particularmente a pulsão para a fraternidade e solidariedade. Mas isto requer vontade vigilante e consciência desejante. O comportamento altruísta, cívico e ético não é natural; é uma aprendizagem imposta, uma norma adquirida, que regula a interação e comunicação com os outros, por meio de instrumentos e significantes compartilhados. É a dimensão relacional da personalidade individual. Resulta de contratos entre pares vinculados pelo apreço mútuo e recíproco, porque sem confiarmos uns nos outros, não conseguimos 'conviver', viver juntos e em harmonia, fazer coisas relevantes. A troca é, neste plano, o princípio social por excelência. É ela que nos leva à solidariedade, ou seja, a sentir a dor do outro, mesmo que esta não seja nossa. A respeitar as carências dos que são diferentes, heterogéneos.

Como se sabe, a forma como os animais comunicam entre si é um critério de avaliação da sua inteligência. Isto não nos diz nada? Não terá aplicação a esta quadratura em que reduzimos as modalidades de comunicação e é discutível se o modo predominante congrega os padrões de uma genuína comunicação? Como valoramos o retrato de uma realidade em que se erguem muros à comunicação interpessoal e de proximidade, surgimos de costas voltadas uns aos outros e nos estranhamos e ignoramos? Seria tolo Friedrich Nietzsche (1844-1900) ao declarar que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença?

V

Retomemos o fio da meada. Porque é que a conduta moral requer uma vontade vigilante e uma consciência desejante?

Sendo a desigualdade uma inevitabilidade fundamental da existência humana, é imperioso instituir nela um sentido construtivo e não um estigma ou instrumento de aviltamento e destruição do outro e da sua autoestima. Isto reclama que se afirme e conserve a consideração e o respeito devidos a cada um num mundo desigual.

A dependência une as pessoas na vida familiar e afetiva e serve para desenvolver o sentimento de completude, assente na salutar interdependência que nos aprimora e afeiçoa as formas e expressões do corpo, a elevação e o habitáculo da alma. Porque há de ser um fator de exploração e manipulação, de insegurança e prejuízo no contexto social, porque não há de este ser uma configuração da interdependência ideal?

Será benfazejo admitir no credo político a tese de Margareth Tatcher de que não existe sociedade, mas tão-somente indivíduos e as suas famílias? Mais, se esta tese tivesse legitimidade e validade, não daria que pensar o tipo e a vida dos indivíduos e famílias nesta sociedade da multidão acantonada no silêncio e no esquecimento, desprovida de autonomia e de fé num radioso porvir, maioritariamente abandonada à sua sorte?

Carecemos da largueza de um espírito voltado para prover os défices alheios, para a generosidade em relação aos outros, que acabe ou atenue a estranheza, que não envolva a procura de relações de dependência almejada, mas tão-somente o cuidar dos outros, por isto ser um dever e fonte da nossa realização. Esta exigência não visa erguer a bandeira da igualdade absoluta, nem, muito menos, tecer armas por ela; mas visa, sim, ondular a flâmula da eliminação da necessidade material e a da garantia da preservação da dignidade de todos e de cada um. 5

Estamos cansados e fartos de discursos de compaixão e comiseração, e de lamentação do sofrimento alheio, que, por estar longe da nossa vista, também o está do nosso coração. É urgente que se faça e torne público o inventário da consideração concreta e contabilizada que é devida aos outros!

VI

Consequentemente, o Estado de bem-estar social não pode ser limitado ou reduzido e, muito menos, sacrificado. Ele carece de ser reanimado e reforçado; e de ser libertado da pirâmide burocrática que anseia asfixiá-lo, sem retorno.

Sendo isto muito, no entanto não basta! O Estado de bem-estar social é devedor aos indivíduos não apenas de alguma devolução monetária das contribuições que eles lhe deram. Uma vida ativa de trabalho árduo e dedicado não tem equivalente monetário; é merecedora de muito mais. Reclama consideração e reconhecimento. Pede um tratamento de reciprocidade ontológica, uma prática da segurança que sustenta o nosso ser e a sua expansão positiva.

Exijamos, pois, que cesse o ataque ao serviço público, o fim do escárnio e menosprezo dos seus servidores. Porque estes fazem coisas belas e úteis para o bem comum, coisas imprescindíveis que vale a pena fazer.

Exijamos respeito. Encontremos e usemos palavras e gestos que façam com que ele seja percebido e a sua expressão abundante e convincente. Voltemo-nos para fora de nós e declamemos os três axiomas do respeito, que a Modernidade nos legou:
Fazer alguma coisa da própria vida;
Cuidar de si mesmo;
Ajudar os outros.

Proclamemos que, acima de todas as desigualdades aceitáveis, impera o código único da cidadania. Apenas à luz deste e sobre as fundações da garantia da equidade, pode a desigualdade ser aceite e construída.

Não nos enganemos e iludamos. Nos dias de hoje, quem se afastar da denúncia das agruras, das aflições e vilanias que atingem o seu semelhante, afasta-se de si mesmo, porque elas atentam contra todos nós. Assumamos o compromisso implícito na forma como Richard Stennett conclui a atinente análise contida no seu livro: "Na sociedade, e particularmente no welfare state, a essência do problema que enfrentamos é como os fortes podem praticar respeito em relação àqueles destinados a permanecerem fracos…" A sociedade não pode olvidar que a teimosa realidade da divisão continua a ser um problema; nem pode virar-lhe as costas.6

Se não pusermos em marcha uma arte de atenuação e limitação das desigualdades, de contenção da rapacidade e da corrupção, cairemos na pauperização absoluta dos mais frágeis e na proletarização da grande maioria da população.

VI

O mapa mundi da desigualdade é acintoso e intolerável. Ora a Universidade não pode invocar inocência, nem lavar as mãos. Ao invés, tem pesadas responsabilidades neste cartório da amoralidade. Com efeito, o obsceno panorama da desigualdade não resulta linearmente do modelo de globalização em vigor. Este, como afirma Zygmunt Bauman, entre outros reconhecidos estudiosos do fenómeno, é um produto das filosofias ou teorias de gerenciamento ou managerialismo do mercado. E estas foram elaboradas no seio da Universidade.

Para agravar as culpas da Universidade, acresce que, como assinala José Dias Sobrinho, há uma "relação de mútua interação" entre o neoliberalismo económico e a educação superior. Ou seja, "a educação superior é a principal instância promotora" do modelo neoliberal de sociedade atualmente vigente. 7

Mais, será mentira que um número deveras significativo dos autores de fraudes e vigarices, cometidas por esse mundo afora, ostenta no seu currículo um MBA ou um doutoramento na mesma 'especialidade', obtido em reputadas escolas universitárias?

Não cerremos os olhos à verdade nua e crua. As doutrinas mercadológicas, saídas de 'laboratórios' universitários, inventaram e ditaram um vocabulário estupefaciente e paralisante que apregoa receitas e "mensagens de volatilidade, fluidez, flexibilidade e curta duração", num ambiente de relativismo e de fragmentação de todas as esferas da vida social, em mutação constante, ambíguo, efémero, incerto, plástico, vago, de vínculos frouxos, no qual a conservação, a solidez e durabilidade de orientações e referências são vistas como prejuízo, a sabedoria é indesejável e suspeita e é conveniente que os conhecimentos envelheçam e se esgotem depressa. Tudo quanto ameace introduzir ordem e regulação neste intrincado labirinto de caos e liquidez é rejeitado, porquanto ele oferece melhores possibilidades para tirar partido da incerteza e insegurança. E ajuda a subtrair ao controlo do civilizacional e cultural o irracional, o impulsivo, o instintivo, o animalesco.8

Eis aqui resumido o método escolhido pelas filosofias e teorias gerenciais, repete-se, geradoras do modelo de globalização em curso, para abater as barreiras institucionais que restringem o raio de ação das forças propulsoras das aberrantes desigualdades.9

Elas advogaram, no incisivo dizer de Zygmunt Bauman, a "desregulamentação abrangente", cujo alvo é o desmembramento dos "padrões de procedimento firmes e rígidos que a burocracia moderna procurou impor". Em consequência, "a intuição, o impulso e os estímulos do momento" situam-se "acima do planeamento e dos projetos meticulosos". 10

A 'desregulamentação' é o ADN que perpassa as filosofias e teorias de gerenciamento e managerialismo desta era, objetivamente desenvolvidas para manipular a incerteza em benefício dos detentores da informação privilegiada e em prejuízo dos que neles delegam confiança, depósitos e votos. Elas consagram a multiplicação e difusão dos poderes e a divisão do bolo entre eles, embora sob a batuta de um: o sistema financeiro e bancário.

Quão visionário foi o Padre António Vieira (1608-1679): "As varas do poder, quando são muitas, elas mesmo se comem, como famintas sempre de maiores postos!" 11

Agucemos o olhar. Os donos do conhecimento usufruem do crédito de se situarem perto das fontes da incerteza. Foi assim no passado; é assim no presente. Só que antes os 'conhecedores' usavam esse crédito em favor do bem geral, enquanto agora blindam o acesso à informação e servem-se dela para favorecer as suas clientelas que, como paga, reforçam o seu poder. Se antes ela era malquista, agora é procurada e bem-vinda pelos proveitos que ela traz aos grupos que a controlam e exploram, investindo nela um capital altamente lucrativo.

É este o cerne das ditas filosofias ou teorias. Mas é também um sinal de decadência e de indecorosa captura do interesse público pelo privado, do poder político pelo império económico-financeiro, da rutura da confiança entre os representantes e os representados, estes sem nada que os proteja da ambição e ganância daqueles.

Por efeito da 'arma da insegurança', por elas fabricada, o mundo converteu-se num "conglomerado de lugares repletos de pessoas prontas a sofrer sem reclamar qualquer regime fabril, ainda que cruel, em troca de qualquer salário para o sustento, ainda que miserável", como observa Zygmunt Bauman. 12

VIII

As teorias e propostas do neoliberalismo (Estado mínimo e privatização dos direitos e obrigações socias) são falaciosas. Põem nos ombros dos indivíduos a solução de todos os seus problemas e angústias. Fingem ignorar que não há solução individual para problemas socialmente fabricados.

A desigualdade é um deles. A desigualdade é crescente e assombrosa. Quem o afirma são os relatórios da ONU e os estudos de especialistas rigorosos e fiáveis. É verdade que há um considerável crescimento económico em muitos países e uma aproximação entre eles. Porém este crescimento não se traduz no aumento da igualdade dentro dos países. Pelo contrário, a desigualdade é galopante e potencia o enriquecimento dos que já são ricos. 13

A 'desregulamentação' política dos mercados e da circulação e movimentação do dinheiro, sempre à procura de regiões de baixos salários e ínfimos padrões de vida, é um efeito hediondo das ditas teorias, servindo para aumentar a gula nunca satisfeita da concentração de riqueza por uma minoria. 14

Para cúmulo, quando a oportunidade surge, nacionalizam-se os prejuízos e privatizam-se os ganhos e lucros. Isto revela bem o desaforo a que chegamos. Não há mais contratos de mutualidade. Os mandarins multiplicam, a bel-prazer, as vítimas das teorias em curso. Para tingir a hipocrisia, têm o descaramento de tratar os explorados como 'danos colaterais', como se estes não fossem intencionalmente procurados e o seu número não constituísse o índice de sucesso dos exploradores. Haja Deus!

E bem precisamos d'Ele, porquanto, conclui Zygmunt Bauman, "o crescimento incessante da distância entre os que 'têm' e os que 'não têm', conhecido na Europa dos primórdios do século XIX, está de volta, como uma vingança". 15

Cada um de nós, no respetivo mister, tem que ser arauto da denúncia expressiva dos males assinalados e da concretização expansiva dos preceitos enunciados. Tem que reavivar a crença e a esperança no homem ético, estético, íntegro e virtuoso e renovar as forças para lutar pela sua prevalência.

Por sermos académicos, o nosso dever afigura-se acrescido. Mas… entre a prática do fingimento e o cultivo da autenticidade para onde se inclina hoje a balança que julga a assunção de responsabilidade social pelos académicos?

A impressão, que se colhe da sua conduta neste capítulo, encaixa-se no vaticínio, nada abonatório, feito pelo escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784): "Quem não se importa com o próprio estômago, dificilmente se irá importar com outra coisa." 16

Ora como o salário, apesar de ser cada vez mais magro, ainda dá para forrar as paredes estomacais, a maioria dos académicos não parece estar muito sensível ao histórico desígnio da Universidade, nem empenhada em contribuir para o enfadonho labor de perceber, interpretar e aliviar as buscas, contradições, perguntas e dores da existência e deste mundo atormentado.

Todavia, a Universidade não pode ser o lugar onde os académicos se deitam no berço esplêndido do conformismo, da demissão e do oportunismo. Esse remanso deve ser procurado noutra instância. Na Universidade, pela sua incumbência humanista e social, espiritual, intelectual e universalista, é obrigatório levantar e ouvir a voz da exigência e da indignação cívicas, face ao absurdo afrontamento e esquecimento da decência, da equidade e do respeito. As ideias e as palavras ditas podem mudar o mundo, muito mais do que os papers e os rankings.

Retiremos a venda da opacidade. Infelizmente, a Universidade está a precisar de uma barrela que lhe limpe a sujeira da subserviência aos amos desta hora de regressão civilizacional e moral. Na barra dos tribunais que julgam as falácias em circulação, ela vai ter que confessar a traição e assumir um convincente arrependimento. Entregou-se a modismos fúteis e pseudo-produtivos, pensa pouco, verga-se e ajoelha demasiado. Vende-se nela muito gato por lebre!

Enfim, a Universidade hodierna naufraga no mar da convulsão e do conformismo. Ela e os seus membros têm muita dificuldade em acompanhar o pêndulo no seu movimento da confusão para a simplicidade, da penumbra para a claridade.

Serão estes dias de uma impenetrável complexidade ou seremos nós que temos pouca apetência para a clarividência? A nossa atenção não consegue ser indivisa e caminhar o suficiente para chegar à clareira da Humanidade.

Que grandeza do humano ansiamos edificar no nosso tempo, no nosso mundo? Em vez de um mundo mercantilizado, calculista e desumano, importa dar prioridade à erradicação das grandes fontes de sofrimento.

Que contributo quer dar a Universidade para isso? Talvez devesse voltar a cultivar o jardim do ócio criativo e abandonar a tentação do negócio lucrativo!

Como a cantora brasileira Ana Carolina, concluo com esta proclamação: "Minha esperança é imortal. E eu repito, IMORTAL! Sei que não dá para mudar o começo, mas, se a gente quiser, dá para mudar o final."

Jorge Olímpio Bento

1 A autoria desta frase não é conhecida, embora seja comumente atribuída a Abraham Lincoln (1809-1865).

2 Este contexto faz ressoar aos nossos ouvidos as conhecidas palavras de Ruy Barbosa (1849-1923): "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."Afinal, a honestidade é virtude difícil de alcançar em todas as eras, atendendo à constatação de William Shakespeare (1564-1616): "Ser honesto, tal como o mundo está, é ser um homem escolhido entre dez mil." (Escrito na Pedra, Jornal Público, p. 48, 16.09.2014.)

3 Zygmunt Bauman, Danos Colaterais: Desigualdades sociais numa era global, p. 162-187. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2013.

4 Richard Sennett, Respeito: a formação do caráter em um mundo desigual, p. 13-17. Rio de Janeiro: Record, 2004.

5 Caio Júlio Higino (Gaius Julius Higinus, ca. 64-17 a.C.) escreveu uma famosa fábula sobre o cuidado. "O texto (…) conta como Cuidado modelou uma figura a partir do barro, pedindo depois a Júpiter que lhe insuflasse o espírito, levantando-se então uma disputa sobre quem deveria dar o nome a essa figura, pois esse direito era reclamado por Cuidado, por Júpiter e pela Terra. No meio da contenda, foi escolhido Saturno como juiz, que assim decidiu: o nome para a nova criatura será "homem", pois foi feito a partir da terra, "ex humo" (em latim); na morte, Júpiter receberá o seu espírito e a Terra acolherá o corpo. Mas quem o manterá e terá solicitude com ele enquanto viver será Cuidado. Saturno (o Tempo) escolheu Cuidado precisamente pelo papel decisivo que cuidar desempenha na formação, desenvolvimento e manutenção do ser humano até à morte, incluindo o morrer. Para Heidegger, o cuidado é um existenciário, estrutura originária da existência." (Anselmo Borges, Francisco, Bismarck e as bem-aventuranças, Diário de Notícias, Lisboa, 31.03.2013).

6 Richard Stennett, ibidem, p. 298.

7 José Dias Sobrinho, Evaluación, educación superior, docencia: problemas y dilemas. Conferencia magistral, V Coloquio Internacional de la RIIED "Experiencias de evaluación de la docencia: debates en Iberoamérica", 3, 4 y 5 de septiembre de 2014. Instituto de Investigación y Desarrollo Educativo, UABC, Ensenada, Baja California, México.

8 Por mais estranho que pareça aos desatentos e ingénuos, este léxico adentrou a Universidade, com um séquito de consequências e implicações funestas. Um dia não longínquo, assim o espero, os académicos vão ter vergonha do seu consentimento, da sua insanidade, cobardia, cumplicidade, conivência e passividade face a esta involução.

9 Zygmunt Bauman, ibidem, p. 65-66.

10 Esta 'desregulamentação' é deveras 'interessante': dá rédea solta às instituições privadas e submete as públicas a uma tresloucada onda de burocratização e regulamentação, de controlo e controladores externos, sem precedentes. Isso mesmo é bem visível e pernicioso no ambiente instaurado dentro da Universidade.

11 Escrito na Pedra, Jornal Público, p. 47, 10 de agosto de 2014.

12 Zygmunt Bauman, ibidem, p. 59.

13 Veja-se a Pirâmide da Riqueza Global 2015, recentemente apresentada pelo Credit Suisse.

14 "2015 será recordado como el primer año de la serie histórica en el que la riqueza del 1% de la población mundial alcanzó la mitad del valor del total de activos. En otras palabras: el 1% de la población mundial, aquellos que tienen un patrimonio valorado de 760.000 dólares (667.000 euros o más), poseen tanto dinero líquido o invertido como el 99% restante de la población mundial. Esta enorme brecha entre privilegiados y el resto de la humanidad, lejos de suturarse, ha seguido ampliándose desde el inicio de la Gran Recesión, en 2008. La estadística de Credit Suisse, una de las más fiables, solo deja una lectura posible: los ricos saldrán de la crisis siendo más ricos, tanto en términos absolutos como relativos, y los pobres, relativamente más pobres". (El 1% más rico tiene tanto patrimonio como todo el resto del mundo junto, jornal El País, 13 de outubro de 2015)

15 Zygmunt Bauman, ibidem, p. 69.

16 Escrito na Pedra, Jornal Público, p.48, 09 de agosto de 2014.

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