O Clima Motivacional nas Aulas de Educação Física: Uma Abordagem Sócio-congnitivista

Por: Walmer Monteiro Chaves.

VI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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A escola se apresenta, prioritariamente, como um espaço de transmissão de conhecimentos e de desenvolvimento de hábitos e habilidades específicas. Deve existir então uma preocupação do professor no que se refere às questões didático-pedagógicas e ao clima motivacional das aulas, visando dar algum suporte para as questões afetivas, sociais, emocionais, psicomotoras e de formação da personalidade do educando.

Baseado na Teoria Social Cognitiva da Abordagem por Objetivos / Metas ( Nicholls,1984; Duda,1989), o objetivo do presente trabalho é destacar as características das metas tarefa e ego e suas implicações no clima motivacional das aulas de Educação Física no contexto escolar. A questão central é se o professor ao estabelecer o clima nas suas aulas privilegia a meta tarefa, pedagogicamente mais desejável, ao invés do ego envolvimento.

Teoria social cognitiva da abordagem por objetivos / metas

Para Bzuneck (1999) essa teoria desenvolvida desde o final dos anos setenta, representa uma continuidade na abordagem cognitivista, baseada na teoria da necessidade de realização (Mc Clelland/1961 e Atkinson/1958). Seu referencial teórico denomina-se sócio-cognitivista por possuir elementos típicos do cognitivismo, bem como, por considerar as influências de natureza sócio-ambiental.

Baseia-se em duas metas denominadas por Nicholls (1984) e Duda e Nicholls (1992) de tarefa e ego, que são qualitativamente diferentes entre si e fornecem explicações específicas dos comportamentos de realização, característicos das situações de aprendizagem escolar. Cada uma das metas representa um propósito ou razão para o aluno aplicar esforço e obter sucesso numa determinada atividade, seja de natureza cognitiva, psicomotora, afetiva ou comportamental.

Um indivíduo que possui um envolvimento denominado de tarefa nas atividades, apresenta as seguintes características (Duda,1993/1994; Stephens,1998; Rascle et.al.,1998; Papaioannou e Kouli,1999; Bzuneck,1999; Treasure e Roberts,2001) : o sentimento de sucesso na realização de atividades depende de si mesmo; possui uma auto-referência em relação às suas habilidades; sente grande prazer e satisfação em participar, jogar e atribui o sucesso à equipe; não está preocupado com a performance para o rendimento, mas para a aprendizagem; sucesso associado ao duro esforço, persistência e utilização das habilidades para a realização das atividades; compromisso social, compreensão e cooperação com os colegas; não se utiliza do esporte como meio de status social e promove atitudes éticas e lícitas para obter sucesso na realização das tarefas; boa concentração e atenção nas atividades não desistindo frente às dificuldades; inovação, criatividade e aprendizagem; considera o erro como informativo e parte do processo de crescimento; fracasso considerado como falta de esforço e o resultado é visto como conseqüência do esforço pessoal; sentimento de orgulho e satisfação após sucesso conquistado com esforço e de culpa, associado à falta de esforço, e finalmente, escolha de tarefas mais desafiadoras e de risco, implicando em níveis mais altos de desempenho.

Por outro lado, uma pessoa que possui um ego envolvimento apresenta as seguintes características (ibid.): sucesso associado à superior habilidade e sensação de competência; preocupação em derrotar os adversários; maior competitividade e individualismo; utilização do esporte para aumentar a popularidade / status social e sua auto-estima; atenção voltada para o rendimento e performance; valoriza a vitória e, se possível, com o menor esforço; capaz de utilizar meios ilícitos para vencer (fraudes, doping, técnicas e táticas enganosas, agressividade e deslealdade,...); importa-se com a opinião de outras pessoas sobre o seu desempenho; são menos persistentes, desistindo de certas atividades; frente a um desempenho negativo reage justificando a falta de interesse na atividade, uso inadequado de estratégias e equipamentos, fatores externos (arbitragem, azar, pressões da torcida,...); busca menor grau de dificuldade nas atividades para obter sucesso mais facilmente; maior nível de ansiedade e tensão frente à competições; utiliza medidas padronizadas para obter sucesso; constante comparação com outras pessoas no que tange ao rendimento; fracasso atribuído a falta de capacidade, despertando sentimentos negativos e escolha de tarefas mais fáceis, com menos riscos, implicando em níveis mais baixos de desempenho.

Os indivíduos que possuem um envolvimento tarefa estão relacionados com a motivação intrínseca na execução das atividades, enquanto os que possuem um ego envolvimento estão relacionados com a motivação extrínseca ou incentivação.

Papaioannou (1998) constata que a motivação está relacionada à autodeterminação. As pessoas mais autodeterminadas são reguladas por razões internas, relacionadas então com a motivação intrínseca e as pessoas menos autodeterminadas estão associadas aos estímulos externos e a motivação extrínseca.

É importante ressaltar que a perspectiva de metas varia entre indivíduos e contextos. Uma pessoa não se orienta da mesma forma em todas as situações, podendo ocorrer uma simultaneidade e diversidade de graus nas metas tarefa e ego, possibilitando uma utilização adequada ao modelo vigente.

Implicações na educação física escolar

A preocupação com o clima motivacional nas aulas de Educação Física justifica-se na medida em que inferimos sobre até que ponto o professor utiliza-se de técnicas e estratégias prevalentemente voltadas para o ego envolvimento, uma vez que, a meta educacionalmente mais desejada é a tarefa.

O ambiente psicológico das aulas exerce uma forte influência na formação das metas e o professor pode ser considerado o mais poderoso agente desse processo, por meio de determinadas práticas de ensino. As diversas ações pedagógicas (pistas, orientações, gestos e verbalizações) formam um currículo oculto com efeitos na determinação da meta tarefa ou ego envolvimento.(Bzuneck,op.cit.)
Martinez (1996) considera que a escola dá uma ênfase grande à transmissão de conhecimentos e ao desenvolvimento de habilidades e, por vezes, ao invés de contribuir para desenvolver recursos subjetivos favoráveis, estimula a insegurança, o temor ao erro, a desvalorização e desmotivação. A autodeterminação como capacidade do sujeito para determinar suas ações, reflexões e convicções, apesar dos estímulos externos, é um importante elemento de saúde psicológica.

A busca de um clima tarefa nas aulas pode contribuir para que os alunos enfrentem melhor as situações de dificuldades, sejam de ordem cognitiva, emocional, afetivo-social ou psicomotora, passando a encará-las como desafios a serem superados, ao invés de barreiras intransponíveis. A formação de um ambiente de aceitação das diferenças entre os integrantes do grupo, também propicia àqueles que possuem maiores dificuldades de exposição junto aos colegas, a possibilidade de aumentarem a autoconfiança no sentido da superação.

O exercício da prática social pelos alunos durante as aulas requer empenho, respeito mútuo, igualdade de condições e um grande investimento nas relações interpessoais. As lideranças devem surgir de forma espontânea e democrática, expressando a representatividade do grupo e não de uma forma individualista visando o prestígio e status social (ego envolvimento).

As pessoas que agem impelidas pela motivação intrínseca (tarefa) são mais autodeterminadas do que as pessoas que são reguladas pela motivação extrínseca (ego), portanto deduz-se que o investimento na meta tarefa trará maiores benefícios para os alunos nesse sentido.

Papaioannou (1998) afirma que em relação à disciplina nas aulas um clima de envolvimento tarefa propicia o entendimento, o estabelecimento de regras que facilitarão a organização, a cooperação, o senso de responsabilidade, a atenção e concentração na execução das atividades e enfim, favorecerá o processo ensino-aprendizagem. Por outro lado, um clima de ego envolvimento com a sustentação da disciplina por imposição de regras e normas, que por vezes causam humilhações aos alunos, não contribui efetivamente para a formação de valores democráticos e pautados na cidadania, bem como é de pouca eficácia na questão disciplinar.

A exacerbação da competição, da rivalidade e da aptidão física e performance nas aulas contribuirá para a formação de um clima baseado no ego envolvimento, que destoará de valores pedagógicos. A questão da agressividade, presente em nossa sociedade, poderá ser amenizada nas aulas através de uma meta de orientação tarefa, onde prevalecem preceitos de colaboração, cooperação, organização e a premissa de jogar "com" os outros e não "contra" os outros.

O comportamento conhecido popularmente como "amarelão" surge em conseqüência do medo, da ansiedade, da insegurança, do stress e pode ser identificado com mais clareza numa postura de ego envolvimento.

A conduta ética, moral e estética também estão presentes nas aulas e não podem ser desprezadas como em situações de alunos que burlam regras e regulamentos do jogo, utilizam meios ilícitos para vencer e compactuam com idéias de utilização de ingredientes nocivos à saúde. Essas posturas estão enquadradas na meta de ego envolvimento e devem ser descartadas na práxis pedagógica.

A Educação Física numa perspectiva de promoção da saúde objetiva a busca de uma consciência corporal saudável e o desenvolvimento de uma auto-educação permanente em relação à prática de atividades físicas e a um estilo de vida ativo. A aderência e a manutenção dessa prática está relacionada à persistência, ao prazer e a valorização do esforço presentes na meta tarefa.

No que tange ao processo de avaliação o professor que valoriza o resultado como forma de prêmio, nota, reprodução de informações e habilidades, desempenho medido e dá ênfase à avaliação somativa, estará mais próximo ao clima de ego envolvimento. Já o professor que avalia todo o processo ensino-aprendizagem destacando as tentativas, esforços e evoluções, as potencialidades e o desenvolvimento cognitivo, afetivo-social e psicomotor dos alunos, através de constantes estratégias diagnósticas, formativas e somativas integradas, estará relacionado ao envolvimento tarefa.

Considerações finais

Segundo Feijó (1998) o primeiro objetivo existencial da educação é estimular o educando a se envolver em um processo de autodescoberta. A atividade consciente, bem orientada irá colaborar na autocompreensão, autoconsciência, auto-expressão, auto-aceitação e finalmente no processo de auto-realização do aluno. "Rivalidade, inveja, insegurança, ambições irrealistas, medos, falta de visão do conjunto, incompetência, mau profissionalismo - esta é uma lista introdutória de problemas humanos, que repercutem na saúde física e mental do aluno de Educação Física e do atleta competititivo".(p.57)

Considerando que o movimento humano possui uma intencionalidade e está carregado de emoções, julgamentos, predisposições subjetivas e serve de instrumento de diagnóstico para avaliarmos gestos e posturas dos alunos, o clima motivacional numa aula de Educação Física é de fundamental importância na formação integral do educando, pautada em preceitos éticos, estéticos e morais.

Baseado na Teoria Social Cognitiva da Abordagem por Objetivos / Metas, podemos observar que o envolvimento tarefa e ego nas atividades contribui para o clima motivacional das aulas. Apesar de serem duas metas distintas os indivíduos podem se utilizar das duas, dependendo da situação ou do contexto existente.

No contexto escolar o clima motivacional que deve prevalecer nas aulas de Educação Física é o de envolvimento tarefa, com o intuito, inclusive, de quebrar o paradigma, ainda vigente, da aptidão física, da performance e do rendimento. O professor deve preocupar-se com o aspecto didático-pedagógico, mudando assim, os enfoques e as perspectivas do ensino e de sua intervenção nas aulas.

Obs. O autor, prof. Walmer Monteiro Chaves keciona nas redes municipais de Itaborai e S. Gonçalo e é mestrando na Universidade Castelo Branco.

Referências bibliográficas

  •  Bzuneck, José Aloyseo. Uma abordagem sócio-cognitivista à motivação do aluno: a Teoria de Metas de Realização.Psico-USF. Bragança Paulista, v.4, n.2, p. 51-66, jul-dez, 1999.
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