O Corpo da Escola e Seus Enlaces na Cultura Corporal

Por: Valner Pimentel Marins.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Os pressupostos pedagógicos:

"Brincar é uma das atividades fundamentais para o desenvolvimento da identidade e da autonomia. O fato de a criança, desde muito cedo, poder se comunicar por meio de gestos, sons e mais tarde representar determinado papel na brincadeira faz com que ela desenvolva sua imaginação. Nas brincadeiras as crianças podem desenvolver algumas capacidades importantes, tais como a atenção, a imitação, a memória, a imaginação. Amadurecem também algumas capacidades de socialização, por meio da interação e da utilização e experimentação de regras e papéis sociais." (PCN)

Visão e revisão do nosso tempo:

Essa instituição na qual denomina-se "Escola", tem trazido à tona diversos discursos pedagógicos emergentes sobre temas educacionais e suas variadas tendências filosóficas e paradigmas com fins de contribuir com o processo crítico e histórico ao longo dos anos. Observa-se um movimento geral, com situações conflitantes, mas pouco eficientes na prática. Face as várias tentativas de se obter êxito no ensino, jogam-se objetivos e conteúdos como se fossem um dever de casa para o professor e aluno e não numa elaboração do pensamento criador e analítico, capaz de colocar esses pressupostos frente as cardeais filosóficas desse século, que ainda está longe de ser mais "humanista".

Na maioria da vezes os alunos dizem que não gostam de estudar porque a escola é chata e os professores complicam muito suas cabeças com temas que por vezes não conseguem sequer entender a importância, muito menos dar significação como disciplina curricular, no que isto afeta diretamente na sua vida. Em contradição, a aula de Educação Física é um dos momentos mais esperados durante a rotina escolar e por sinal, a mais marcante dentre todas as outras disciplinas.

O meio estudantil é um lugar precioso não só de trocas de informações, mas de trocas afetivas. É essa espontaneidade que transcende a todas as dificuldades e barreiras do cotidiano escolar e transforma alguns fatos em grandes ocorrências para toda a vida: seja um bate-papo; um momento de descontração com piadas; uma brincadeira; um jogo; um olhar; um conflito; um desafio; etc. É uma fase da vida em que todos os estudantes se igualam como pessoas em grau de responsabilidade e importância. Quem não se lembra dos momentos inesquecíveis vividos durante os recreios na escola. É sem dúvida, também, um dos melhores momentos da vida. As vezes, carrega-se o cheiro das merendas e as lembranças das boas brincadeiras alegres de correr para o resto da vida. O jogo por sua vez, motiva e impulsiona algumas dessas ações. Talvez a Educação devesse ser redimensionada para uma "multi-atividade" num sentido mais amplo conforme um dos antigos conceitos Piagetinianos sobre as disciplinas, descrito como "transdisciplinaridade", onde a parceria entre as várias matérias é tão intensa que acaba dando lugar a uma "macrodisciplina" e o professor não é só professor dessa ou daquela disciplina, mas um "educador" que ultrapassa as fronteiras de sua mera disciplina e vagueia por todos os lugares do campo do conhecimento, favorecendo um ensino mais interessante.

O jogo como objeto da cultura:

É inegável que o jogo é um perfeito aliado da Educação e do progresso, inseparável. Conforme diz Alcides Scaglia ao comentar no livro de João Batista Freira "O Jogo: Entre o Riso e o Choro": a Escola "... deveria ensinar os alunos a jogar, criando o ambiente para o jogo e permitindo assim que o movimento e a alegria contaminassem as, quase sempre, gélidas, imóveis e cinzas escolas".

Com a divulgação das Olimpíadas de Atenas em 2004, pode-se constatar claramente a importância que a Educação Física Escolar exerce no contexto cultural brasileiro, e os impactos culturais que os países hoje considerados como de primeiro mundo obtém à nível de retorno econômico geral por terem investido na educação aliado ao esporte de base, que é o esporte escolar, servindo como alavanca para o avanço laboral, econômico e tecnológico das gerações futuras.

A brincadeira é uma forma privilegiada de aprendizagem onde existem dimensões funcionais e simbólicas inscritas que se arrastam na formação do caráter de cada indivíduo e solidificam o futuro cidadão. Nela podem aparecer diversos fatores como: agressividade, capacidade de liderança, superação, alegria, satisfação, desespero, desatenção, sofrimento, angústia, desânimo, dor, etc.

No jogo, prazer e desprazer caminham lado a lado e, sem essas variáveis, não se justificaria sua prática. Porém, algumas correntes atuais criticam as formas de competições e defendem exclusivamente que é preciso favorecer os jogos "cooperativos" nas escolas para que alunos aprendam a lidar com as situações de ajuda, respeito, solidariedade e o trabalho em grupo de modo geral. Mas será que só podem ser obtidos com jogos "cooperativos"?

Não importa o método quando a atividade é animada e a participação é efetiva, mas nada na vida pode ser levado ao extremo, pois a racionalidade manda agir com ponderação sem radicalizar-se. Conforme nos diz Jaques Delors, no relatório da UNESCO sobre a educação para o século XXI, "... graças á prática do desporto, por exemplo, quantas tensões entre classes sociais ou nacionalidades se transformaram, afinal, em solidariedade através da experiência e do prazer do esforço comum!"

Contudo, existem várias formas de se desenvolver o desporto, apoiadas na cultura corporal. Mas dentre a diversidade de colaborações, está a proposta atual da ONU, sobre a política para expansão esportiva, dividida em quatro níveis, a saber:

1.º Esporte Social - instrumento de inclusão social (em todos os tipos de esporte, há o fator inclusão social, mas há, também, uma política específica para isto);

2.º Esporte Educacional - complemento à atividade escolar (política global, que envolve o esporte além da disciplina Educação Física, e a revitalização dos jogos estudantis e universitários);

3.º Esporte de Alto Rendimento - o esporte competitivo (com o esporte para milhões, produzir-se-ão muitos atletas - e estes servirão de exemplo para a prática de esporte por milhões); e

4.º Recreação e Lazer - Esporte como qualidade de vida: saúde e bem-estar físico e psicológico (incentivo à prática esportiva para todos, como parte do cotidiano).

Enfim, é dever do educador profissional em educação física trabalhar o seu aluno e sempre estabelecer um elo entre a aprendizagem e a cultura corporal de sua realidade considerando os quatro níveis de política estratégica da ONU também na sua prática. O que significa que o esporte na escola deve ser sempre tratado como social, educacional, de rendimento e recreativo, pois o homem é indivisível!

Assim como é óbvio que o esporte traz, solidariedade, respeito, disciplina, tolerância, cooperação, vida saudável e ainda evita: evasão escolar, uso de drogas e criminalidade.

Com várias linhas de ação, o Ministério do Esporte vem demonstrando perseguir esses objetivos, como a exemplo dos comerciais que vêem circulando na mídia sob o belíssimo título: "Eu sou brasileiro, não desisto nunca!". Com ótima comoção desportiva de luta, fé e de amor à pátria, erguendo-se a auto-estima brasileira, embora observa-se que centenas de escolas brasileiras parecem ter sucumbido a qualquer tipo de esperança, investimento e incentivo à prática esportiva, arrastando nesse bolo, professores estressados e desmotivados.

Neste contexto, sobre qualquer conclusão que se tire, não há de se esquecer que o poder transformador não está só na máquina administrativa, mas nas mãos dos profissionais também, pois o esporte é uma mola propulsora de otimismo. É lógico que as políticas do poder público influem, mas a era de lamentações e conformismos não se sustentam mais na atualidade. Se cada um fizer sua parte, o todo será favorecido. Não importando que os apelos da mídia sejam verdadeiros ou falsos e mesmo que os reais interesses de impacto e repercussão estejam mascarados para servir de alienação como a exemplo de tantos outros do passado, em qualquer hipótese, há toda uma maturidade profissional que nos dá, autonomia e capacidade crítica para enfrentar de peito aberto qualquer "quadro de consciência" emergente. Graças aos reflexos da cultura corporal brasileira, sentida e entendida na música, na dança, na arte, no esporte e na cultura de modo geral. Enfrentando certezas ou incertezas, a existência é a essência do pensamento que nos remete ao conhecimento. Logo, a reflexão mais exata sobre o conhecimento, conforme nos esclarece Edgar Morin, "é , pois, uma aventura incerta que comporta em si mesma, permanentemente, o risco de ilusão e de erro." (2002, p. 86)

O autor, Valner Pimentel Marins, é professor da Rede Pública da Prefeitura Municipal de Teresópolis-RJ.
Referências bibliográficas:

  •  Freire, João Batista. O Jogo: Entre O Riso E O Choro. São Paulo, Editora Autores Associados, 2002;
  • Delors, Jaques. Educação, Um Tesouro A Descobrir. Relatório da UNESCO Sobre A Educação Para O Século XXI. Brasília, UNESCO, 1993;
  • Morin, Edgar, Os Sete Saberes Necessários à Educação Do Futuro. 6ª Edição, São Paulo,
  • Editora Cortez: UNESCO, 2002.

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