O Corpo e Seus Textos: o Estetico, o Politico e o Pedagogico na Dança

Por: Elaine Melo de Brito Costa.

2004 09/08/2004

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Resumo

Neste estudo, o corpo dançante revela-se tanto autor como espaço cênico de inscrição do texto coreográfico. Sua qualidade de autor consiste em escrever o texto em si mesmo. Quanto ao espaço cênico, nele acontece a arte da dança. O objetivo desta pesquisa é compreender os sentidos estético e político do corpo, que revelam a composição coreográfica como um texto, coletivo e dialógico, em construção, escrito pelo corpo. A natureza fenomenológica deste estudo baseia-se em Merleau-Ponty, numa abordagem do corpo vivido e da sua descrição e também em Paul Ricoeur, em sua concepção da hermenêutica, que interpreta a realidade a partir do corpo vivido. Ao interpretarmos o corpo dançante no processo de composição coreográfica – na Gaia Companhia de Dança, em Natal (Brasil) – foram descobertos horizontes de significação e revelados os textos estético e político do corpo na dança. O texto estético enaltece a criação do belo no próprio corpo, assim como a criação cênica pelo mapa interpretativo e pela experimentação significante do movimento, estratégias utilizadas no processo de ensino-aprendizagem da expressão e intencionalidade do movimento. É o Ser dançante que desdobra suas inspirações, seus sentimentos e pensamentos em conhecimento sensível. No texto estético, o corpo reafirma sua qualidade de sujeito-objeto, por ser autor deste texto e espaço de sua escrita. O corpo escreve a obra de arte e cria o espaço cênico por meio de uma lógica sensível, que aponta interfaces entre inspiração e raciocínio, consciência e inconsciência, sujeito e objeto. O corpo dançante realça o campo da linguagem, especificamente a linguagem não-verbal, para falar sobre o nordeste brasileiro, o ambiente urbano e o comportamento humano. A abertura e a imprevisibilidade da linguagem do corpo afloram a sensibilidade para produzir múltiplos sentidos e percepções sobre estas temáticas. No entanto, é preciso a presença da leitura estética para não restringir a apreciação do texto estético ao fato do espectador gostar ou não daquilo que contempla, e sim saber apreciar a composição coreográfica em seus elementos cênicos, tais como: técnica do movimento, figurino, cenário, maquiagem e música. O texto político faz da dança um acontecimento político, em que a cena da arte dançante só é possível na presença do outro. A dança existe no corpo. No texto político, o corpo dançante revela outros horizontes de sentido para pensar a relação com o outro, não somente no ato da dança, mas também num cenário solidário, heterogêneo, plural, que respeita as diferenças. A política do corpo acontece tanto no espaço da ação e da liberdade, do cuidado de si, da experimentação, quanto no espaço vazio, que pode ser preenchido pela amizade, enquanto exercício do político. Na composição coreográfica, o texto político é escrito pelo corpo em suas experiências impossíveis e distantes, que o desafiam a apontar outros cenários para as ações política e de amizade, além dos princípios preconizados pela família, religião, escola, que buscam, por sua vez, os iguais e os íntimos. Os corpos dançantes abrem perspectivas para novas formas de amizade, que solicitam a presença do outro em sua existência, para reavivar a convivência, o político na dança e em outros palcos. O texto pedagógico perpassa pelos textos estético e político do corpo e anuncia a urgência do ensino da dança, baseado não somente no respeito à capacidade e potencialidade do corpo, como também no reconhecimento do outro, enquanto Ser criativo e escritor da vida humana. O texto pedagógico entrelaça dimensões corpóreas do Ser: subjetividade e objetividade, emoção e razão, pensamento e ação, necessárias à criação estética, política e didática. O aprendizado na dança ou em outras práticas corporais é tecido numa ação coletiva que precisa conviver, respeitar e tolerar as diferenças, como um direito à dança e à vida. É possível, então, compor conscientemente nossa historicidade, nosso mundo vivido numa experiência estética e política, fora do teatro, a partir da poética de nossa existência com o outro, que vislumbra novas formas de convivência com a família, a escola, a igreja, o trabalho, o casamento, os saraus e a dança. 

Endereço: http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/274999

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