O Desejo de Ser Olímpico

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Blog da Katia Rubio - 2015

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Quanto mais publico, mais chego à conclusão de que um livro é como um filho. Por mais cuidados que tomemos ao longo de sua gestação e parto, no momento em que ele ganha a luz e passa a ter vida própria, já não controlamos mais o seu destino. Afinal, um filho é sempre um filho.

Essa semana dei à luz o livro Atletas Olímpicos Brasileiros. Fruto de 15 anos de pesquisa esse livro começou a ser gestado antes ainda do anúncio do Rio de Janeiro como sede olímpica. Envolveu o trabalho e a dedicação de algumas dezenas de pessoas que além de apaixonadas pelo tema dedicaram-se à exaustão em estudar cada etapa que envolvia a pesquisa, desde a busca pelos atletas, passando pela abordagem inicial, a entrevista em si e por fim a descrição e análise dos dados dessa narrativa. Agora que ele está publicado causa espanto pensar no quanto de esforço está ali somado às 650 páginas que envolve dados objetivos como data e local de nascimento, nomes de clubes, colocação em competições. Eu estava certa, quando fizemos os inúmeros processos de revisão, que inevitavelmente alguns sacis brotariam dos redemoinhos que cada verbete biográfico continha e aguardo ansiosamente pela versão digital para que os possíveis furos possam ser cobertos com informação precisa.

Mas, o que efetivamente chama atenção nesse processo é o “making off” de toda a aventura vivida por essa trupe de pesquisadores. O que não consta do livro (as viagens, as respostas divertidas ou atravessadas dos entrevistados com as câmeras desligadas – lembrando que tudo foi gravado em vídeo -, os chás, cafés, sucos e bolos que desfrutamos nas muitas residências que visitamos, sem contar alguns almoços que foram verdadeiros banquetes para os padrões locais) e claro, as inúmeras mazelas humanas que uma pesquisa dessa envergadura não poderia deixar de captar. Importante informar que há um considerável número de psicólogos e psicólogas que participa do grupo com o claro entendimento de que a Psicologia do Esporte é muito mais do que avaliação, diagnóstico e intervenção pontual sobre temas específicos como motivação, controle de ansiedade ou visualização. O psicólogo do esporte pra valer é aquele que conhece a alma desse sujeito que treina e compete para ser sobre-humano.

E foi justamente nas mãos desses profissionais que alguns casos raros de atleta que desejou, ou pensou ser, ou se passou por olímpico, foram parar. Sim. Parece piada ou crueldade, mas tivemos alguns casos de atletas que se passaram por olímpico sem sê-lo. Ah o ser humano… espécie curiosa é essa que tem a seu favor a capacidade de simbolizar e produzir cultura, e também de transformar o universo conforme a sua conveniência, interesse e poder.

Contribuiu para esse quadro confuso a imprecisão dos dados disponíveis sobre a participação brasileira em Jogos Olímpicos. Muitos documentos são contraditórios e nos obrigaram a checar por periódicos e por outros atletas a veracidade de algumas informações.
Tivemos um caso, dos mais curiosos, de uma pessoa que se passou por outra para contar a história daquele que foi. Essa entrevista, realizada por Julia Amato, é um marco para o grupo. Ele contou com requintes de detalhes a sua (dele) vida pessoal e esportiva. Narrou fatos pitorescos da Vila Olímpica, deu detalhes da máquina de Coca-Cola que ficava ao lado do alojamento e da luta que perdeu. Passado um tempo, a busca e encontro com outros atletas, desvendou a farsa, mas uma questão permaneceu incomodando o grupo: como alguém pode passar por outro recriando uma história pública, afinal todos aqueles que competiram o fizeram publicamente? Gastamos várias reuniões discutindo essa questão, o que nos fez aprofundar a metodologia das narrativas biográficas e do nosso papel de investigadores. Esse caso emblemático nos colocou diante dessa humanidade imperfeita que somos, que mobiliza a imperfeição pelo desejo não realizado de algo. Diferentemente dos historiadores que buscam a verdade de fatos, nossa metodologia dá voz a um sujeito que tem sua história marcada por muitos fatos, e um específico que nos interessa sobremaneira, que é a participação em Jogos Olímpicos. Daí o desconforto vivido por muitos nos Congressos e Seminários que participamos quando afirmamos que a verdade é uma situação criada para descrever um episódio vivido ou desejado, e que pode variar conforme o ponto de vista do narrador. Óbvio que essa afirmação demanda a reflexão sobre a mentira. E então respondemos que tanto a verdade quanto a mentira não passam de um ponto de vista. Que a objetividade pertence ao campo do mensurável, do quantificável. E claro é que quando esse ponto de vista pode ser confrontado com documentos e a narrativa de outros tantos sujeitos que viveram a mesma situação a cristalização da verdade e da mentira é cada vez mais palpável. Bendito seja Saramago!

Houve pessoas que narraram suas trajetórias nos pré-olímpicos e nos Jogos Olímpicos com requintes de detalhes, sem necessariamente se passar por outro. E aí, mais do que no primeiro caso, fica manifesto aquele desejo irrealizado de ser olímpico. As entrevistas gravadas, que em princípio tinham a finalidade de ser uma fonte de dados, hoje se tornam quase uma prova legal de que fomos absolutamente fiéis aos depoimentos. Para nossa felicidade, o envolvimento de muitos pós-atletas e pesquisadores especialistas em modalidades específicas nos impediu de publicar essas biografias em um livro destinado apenas e tão somente aos olímpicos.

Importante destacar que no nosso entendimento foram atletas olímpicos todos aqueles que passaram pelas seletivas, chegaram à aclimatação ou à Vila Olímpica e não necessariamente competiram. Ou seja, os reservas que não chegaram a atuar, os reservas que atuaram, mas que não constam dos documentos, ou aqueles que se lesionaram ou foram cortados por outro motivo e não chegaram a competir. Há casos de atletas que se lesionaram dentro do vestiário momentos antes de entrar na pista. Há ainda aqueles que foram cortados já na Vila Olímpica por causa de alguma questão física ou disciplinar. Para nós, todos esses atletas são considerados olímpicos. Nossa generosidade não é obra do acaso. Ela reflete o reconhecimento pelo esforço do processo vivido pelo atleta para chegar a fazer parte de uma história que pertence a poucos. No caso brasileiro, a 1.796 atletas… ou melhor, 1.795.

Uma semana antes do lançamento do livro, checando a lista de olímpicos e convidados quase desfaleci quando acusamos uma convidada cujo verbete não constava do livro. Sim. Uma atleta foi convidada para a cerimonia do lançamento, aceitou e confirmou o convite e quando checamos com o livro o nome dela havia sumido do texto. Durante toda uma manhã tive vontade de bater a cabeça na parede por ter cometido uma negligência daquelas. Fizemos tantas revisões, conferimos e consultamos tantas pessoas em busca da elucidação da dúvida de alguns personagens específicos e como aquilo podia ter acontecido? E ao buscar nossos consultores daquela modalidade veio enfim o veredito: a atleta participou de toda a preparação, inclusive dos pré-olímpicos, mas no último corte, em duas edições olímpicas, ela ficou de fora da seleção. Por um lado foi um alívio imenso confirmar nosso acerto. Por outro, depois de rever a entrevista, fiquei imaginando que dor é essa que não cicatriza e leva uma pessoa a recriar sua história com um fato, que é publico, mas que não corresponde ao ocorrido. Imagino que há que se ter ajuda urgente para superar essa dor, essa cicatriz que não fecha, porque impede que a vida siga o seu fluxo normal. Esse tal de “princípio da realidade” é difícil mesmo de ser digerido, principalmente quando chegamos tão próximo do que desejamos.

Mas, uma história nos escapou. Por mais cuidados que tomássemos com a checagem dos dados uma dessas verdades construídas nos escorreu pelos dedos, e me remete a uma criança brincando de esconde-esconde. Sim, diante da aproximação do algoz a criança tapa os olhos com as mãos e fala em voz alta: ninguém está me vendo, ninguém está me vendo. Ou seja, o fato dela não ver o adversário dá a ela o conforto da invisibilidade. Tudo bem que crianças agem assim, mais na maturidade esse tipo de situação ganha contornos desagradáveis, senão trágicos. Mais uma pessoa se passou por olímpica sem sê-lo e diferentemente de outras que conseguimos conferir antes da publicação essa está lá no livro. Isso porque seu caso foi um dos que teoricamente não chegou a competir por motivo de lesão. Até aí, estaríamos cobertos de razão exceto pelo fato dela nem ter alcançado índice olímpico, nem tampouco ter chegado à Vila Olímpica. Em seu depoimento, gravado em vídeo, ela conta detalhes do embarque para os Jogos Olímpicos, do uniforme que era feio, do treinamento no qual se lesionou e do retorno ao Brasil. Para mim teria sido mais um dos casos pitorescos que exprime o desejo de ser olímpico, facilmente explicável pelas teorias psicológicas, não fosse a indignação das colegas de modalidade que no mesmo dia do lançamento do livro me alertaram sobre o erro. Sei que no princípio pareceu falta de rigor da minha parte, o que levou ao questionamento da pesquisa em si, por parte delas, e a uma revisão detalhada da entrevista gravada para a confirmação de um mau entendimento da minha parte. Mas não. Lá estava a entrevistada, oferecendo detalhes, impressões, análises e posições sobre os feitos ocorridos com ela, com as companheiras de time e com a delegação brasileira naquele evento. A sensação de alívio por não ter cometido um erro grosseiro como esse não apagou, nem minimizou, o mal estar das colegas de geração. Sentindo-se desrespeitadas por verem invadida uma seara construída com o esforço e o trabalho que só um atleta que chegou a esse nível pode experimentar, solicitam-me uma providencia em relação a esse fato. Desmascarar? Publicar uma errata? Tornar público o vídeo com a entrevista para que minha condição de pesquisadora não seja maculada? Ou oferecer ajuda, uma vez que a criação de situações como essas parecem ser constante? Procuro ainda escolher o caminho que dê às atletas olímpicas atingidas a justiça que lhes cabe e também, quem sabe ajuda, a quem provocou essa situação constrangedora. Penso que preciso de um pouco mais de tempo.

Agora que torno público o episódio, preservando a identidade das envolvidas, busco mostrar a complexidade dos seres humanos. E curiosamente observo que mesmo detendo poder em instituições consagradas, o que os torna entes quase inatingíveis, vivem a fragilidade das conquistas pessoais não realizadas. E então confirmo meu desejo de trabalhar com isso, nem com ratos, nem pombos, nem com o núcleo de células, porque é justamente a imperfeição e a finitude que nos torna humanos.

Por katiarubio
em 30-08-2015, às 11:23

6 comentários. Deixe o seu.

Comentários

Brilhante! Admirável sua competência, caráter e seu senso de justiça.
Excepcional trabalho! Orgulho de ser teu amigo e em muitas situações ter tido sua confiança.

Por Eduardo Monteiro Ribas
em 30-08-2015, às 15:56.

Katia,

esta dificil. Já vi que a editora é a SESISP; entrei no sitio Livraria sesi/senaisp. fiz o cadastro e não consigo efetuar a compra… o livro, conforme informam, não esta disponivel, mas pode ser feito o pedido sob encomenda – 7 dias para resposta da editora, entregar e depois mais 21 dias para a entrega via PAC – 36,90 reais – o livro, 130, 00 mas em ofrta, 96,00 – o que compensa o frete…
Mas… nõ se consegue concluir a compra, pois informa que já há cadastro; ao se dirigir ao login, dos cdastrados, pede todas as informações de novo e, ao preencher, informam que já esta cadastrado… ja fiz 18 tentativas!!!! e nao saio disso…
Não tem outro canal para a compra????????????????? SOCORRO!!!!!! QUERO MEU EXEMPLAR!!!!!!

Por LEOPOLDO
em 30-08-2015, às 17:30.

Katia,

nem mesmo pela Cultura… e la esta a 120,00…

Por LEOPOLDO
em 30-08-2015, às 18:04.

Já tentou na livraria Cultura?

Por katiarubio
em 30-08-2015, às 18:36.

Profa Katia,

Parabéns!
Ótima a história dos bastidores do livro. Relato saboroso da jornalista.
Nos enroscos cabe comemorar o diploma e a carteirinha de psicóloga da Autora.
Laércio

Por Laercio Elias Pereira
em 31-08-2015, às 13:52.

[…] Blog da Katia Rubio […]

Por BLOG: Carta aberta a Professora Katia Rubio | My Blog
em 29-09-2015, às 23:19.

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