O Lazer Como Elemento Crítico da Prática Física Escolar

Por: Thiago Elias Merlo.

X EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

O fenômeno da globalização desencadeou modificações estruturais severas em diversos segmentos econômicos, sociais e políticos. A história e a historiografia nos permitem formular esta afirmação, haja vista as observações empíricas e comparativas que são desenvolvidas ao longo da popularização desta temática. Não alheio a esta ordem de modificações estruturais econômicas e sociais severas que a globalização oferece, debates sobre lazer são elaborados em diversos segmentos das ciências, em especial das Ciências Sociais e da Educação Física. Passou-se a acreditar que o prazer, o tempo livre, a recreação e animação cultural, ou seja, o lazer é parte integrante de qualquer processo de aquisição de bem-estar que transcenda os seres humanos e como a reflexão crítica acaba por se apresentar neste modelo que interage com o lazer, o modelo capitalista e neoliberal mantém um equilíbrio de forças entre "corpo dominado" e o "corpo dominador" (MEDINA, 2005).

Todos estes esforços convergem para classificar o lazer como elemento de importância social e salutar, fazendo com que haja equilíbrio das obrigações ditas convencionais (trabalho e estudo) e da utilização crítica e reflexiva do tempo livre.

O debate promovido por este artigo é enveredar nossos esforços para que estes conceitos de modo de vida salutar promovido pela temática do lazer sejam iniciados a partir da menor idade do ser humano em vida escolar, onde os processos aplicados a aquisição de criticidade/criatividade se iniciem dentro do veículo mais apropriado para apuração e disseminação de conhecimentos. Crianças a partir dos sete anos seriam as beneficiadas desse modelo de gestão de conhecimento a partir da animação cultural.

Abaixo mostraremos o atual modelo de gestão social escolar atrelado ao lazer, desenvolvendo a etnografia do modelo escolar vigente no primeiro segmento do ensino fundamental escolar. Após as descrições de ordem empírica, discutiremos a metodologia de análise crítica em conjunto com algumas referências do lazer na preparação do indivíduo e, consequentemente, do senso crítico.

Etnografia do modelo escolar

De fato, a LDB (1996) - Lei de Diretrizes e Bases - e os PCNs (1996) - Parâmetros Curriculares Nacionais - contribuíram para promoção de uma educação (em especial a Educação Física) mais crítica e soberana. Entretanto pouco se avançou na questão do lazer na formulação destas documentações apresentadas pelo Ministério da Educação nas instituições de ensino do país. As referências sobre o lazer dentro nas documentações dos PCNs são deslocadas, desconexas e descontextualizadas da temática. Ou seja, o resultado prático é que o lazer não se apresenta como um ferramental útil a criticidade dos alunos, pois o modelo educacional gerido aos alunos não apresenta condições didático-pedagógicas para formulação de autoconhecimento (GADOTTI, 2005).

A idéia principal dos elaboradores das políticas públicas educacionais, essencialmente baseadas no modelo educacional progressista revolucionário como Paulo Freire e Moacir Gadotti, era apresentar recursos que permitiriam as instituições melhorarem suas metodologias de ensino-aprendizagem, adaptando seus conteúdos as novas formas da educação nacional. Embora as intenções fossem as melhores, o que estamos observando (e de certo modo avaliando também) é que as ferramentas para capacitação do aluno no que se refere a pensar e agir são pouco eficazes em termos de resultados práticos, observados na análise de discurso de alunos, cujo objetivo era o entendimento dos fenômenos sociais

Nos PCNs (1996) voltados ao ensino médio, percebe-se que há a intencionalidade de iniciar um debate sobre o lazer nesta faixa etária.

Se o aparecimento da temática do lazer se apresentou tão tardiamente, é sinal de que os legisladores acreditam no lazer como elemento técnico/teórico da população com maior capacidade de abstração, quando o ideal seria educar o aluno no lazer e com o lazer a partir da menor idade escolar.

As instituições brasileiras de ensino tiveram a liberdade de adaptar seus PPPs - Programas Políticos-Pedagógicos - com recursos que fizessem da educação um veículo de transformação social. A partir de análises empíricas, percebemos que poucas foram as escolas incluíram o lazer e animação cultural nestes programas.

A ineficácia da inserção do lazer entre crianças abre brechas perigosas para formulação de políticas públicas equivocadas disfarçando a fragilidade do modelo escolar a partir da nova integração social. A responsabilidade pelo uso do lazer é significativa, mas sabemos que para uma boa política pública se tornar eficaz, faz-se necessário abalizar os recursos estruturais e organizacionais do evento em questão (COHEN e FRANCO, 2002). Muitas vezes, aplicam-se modelos sócio-esportivos em diversos segmentos da população e de diferentes faixas etárias, quando o bom movimento seria a resignificação do espaço escolar para o uso coletivo dos alunos e da comunidade.

Metodologia de análise crítica

As formulações etimológicas sobre o lazer (MELLO e ALVES JUNIOR, 2003) traçam novos panoramas e perspectivas através de um olhar crítico nas escolas fluminenses e brasileiras. As críticas apresentadas ao atual modelo de gestão de valores humanos aqui expostas são observações empíricas do autor, analisadas diretamente no campo de estudo.

A metodologia aplicada para coleta e seleção destes dados empíricos está próxima a desenvolvida por Florestan Fernandes (1959), cujo trabalho resultou em produção científica significativa e o desenvolvimento de tratados de metodologia de pesquisa científica. Para melhor compreendermos acerca da manipulação dos dados, discutiremos o papel do pesquisador no processo de pesquisa e a correlação espacial que a pesquisa despende com relação ao grupo pesquisado.

As dialéticas promovidas a partir das observações de estudo são resultados diretamente coligados ao tipo de pesquisa e a postura do pesquisador. O tipo de pesquisa considera-se um modelo ordinário onde o pesquisador se apresenta no campo, coleta dados empíricos, seleciona e debate a partir de uma temática preestabelecida, que não raramente se modifica a partir de outras dialéticas de acordo com o material recolhido em campo. Ou seja, um fluxo de interação que nos levaria a um ciclo de eventos sociológicos.

O modelo de observação do pesquisador sobre os pesquisados também é de suma importância. Os níveis de influência e interação se articulam para exibição dos resultados, considerando a influência do pesquisador ou não.

A temática do lazer observados nas escolas, cerne deste estudo, encontre-se em um modelo de pesquisa classificado como "observação não participativa". O pesquisador não é parte integrante deste modelo, seja no corpo discente, seja no corpo docente e administrativo. Os resultados apurados também consideram a hipótese das informações não estarem em riqueza de detalhes pela falta efetiva de participação, porém cientes de que as mesmas informações são acomodadas cientificamente de modo alterado já que somente um "terceiro olhar" pode demonstrar idéias intrínsecas ao grupo.

Por fim, esta análise do lazer foca basicamente a escola carioca e fluminense, embora sua aplicabilidade possa ser quase toda escola do Brasil. Este modelo de análise, de modo geral, é influenciado pelo artigo de Florestan Fernandes (1977) sob o título "Relações de raça no Brasil: Realidade e mito" publicado na coletânea de Celso Furtado "Brasil: Tempo Modernos". Fernandes discute as relações de raça na cidade de São Paulo, mas não se furta em afirmar que suas conjecturas são aplicáveis a todo país. Ou seja, este artigo conduz o debate a partir de um pensamento prepositivo, traçando modelos mais concisos de compreensão do fenômeno social.

Desenvolvimento

A virtudes do lazer como elemento de prática crítica desenvolvem novas capacidades de observação qualitativa de mundo, principalmente na escola, já que o componente básico para entendimento do todo é a compreensão reduzida do próprio eu. Sendo assim, vejamos como o lazer pode contribuir para formulação de perspectivas de individuo enquanto membro de sociedade.

Lazer para formulação global do indivíduo

Para que o indivíduo se forme nos modelos contemporâneos de sociedade, faz-se necessário a aquisição de algumas aptidões mínimas referentes a convívio social, adequação e divisão de espaços sociais, coletividade, compreensão do espaço público e todas as temáticas que se referem a vida em grupo. De acordo com a Florestan Fernandes (1970), a sociedade é formada pelos "fenômenos sociais na medida em que estes traduzem ou exprimem certo estado de sociabilidade e de coordenação supra-individual de reações ou de comportamentos de organismos coexistentes nas mesmas unidades de vida". Fernandes (1970) define "ordem sociocultural" como a capacidade de "produzir cultura, de transmiti-la e de criar, por meio dela, importantes transformações nos recursos adaptativos condicionados biológica ou psicologicamente". Ou seja, o lazer se entrelaça com a "ordem sociocultural", pois permite que no tempo livre apresente-se a adaptação e reprodução de conhecimento coletivo.

Entendemos que a sociedade e o lazer não são procedimentos acabados, sem perspectivas de mudanças no seu modelo estrutural. A sociedade e o lazer são entendidos como processos, ou seja, estão em contínuo movimento de modificação de suas formas, conteúdos, discursos e propósitos (MELLO e ALVES JUNIOR, 2003).

Especialmente o lazer toma propósitos significativos, pois a formulação global do indivíduo passa, inclusive, pelo desenvolvimento de aptidões que envolvam entretenimento, recreação e animação cultural. Por isso o lazer é discutido sobre o viés das cidades, do trabalho, nos projetos socialmente inclusivos e integradores, e no caso deste artigo, através da educação.

O lazer na educação global das crianças do primeiro segmento do ensino fundamental pode propiciar os primeiros entendimentos de sociedade com suas igualdades e diferenças. Logo um dos primeiros propósitos do lazer nesta faixa etária é atenuar as discrepâncias na observação do "outro". Como acreditamos que o lazer também é um processo educacional de compreensão cultural, veremos as atenuações das diferenças culturais e sociais almejadas por Furlani (2005).

Talvez um primeiro passo seja o de considerarmos que as representações e os significados das lutas políticas são culturais(...). Diante dessa concepção, pensar a educação(...) e o processo de formação educacional, visando à crítica dos modelos de desigualdade social é, necessariamente, ver o currículo como um "território a ser contestado" (...). Essa mesma escola e seus currículos (...) podem transformar-se em locais de disputa de novos significados culturais e de contestação desses modelos excludentes e desiguais. (p. 221-222).

As minimizações das discrepâncias supracitadas também se envolvem com a utilização crítica dos espaços públicos de lazer. A escola tem a responsabilidade de resignificar estes espaços, fazendo com que a criança entenda seu papel na coletividade e na conservação do patrimônio público. A bem da verdade, a utilização do espaço público nos oferece dialéticas tão expressivas quanto a temática do lazer.

Tanto que Freyre (1981) já oferecia pensamentos neste sentido desde o início do século XX.

Melo e Alves Junior (2003) debateram a importância do profissional de lazer sendo um eficaz condutor de criticidade social, bem como um reorganizador das temáticas do lazer, papel este que o educador de modo geral deve ter.

(...) Se as restrições de acesso aos equipamentos culturais e de acesso às múltiplas possibilidades de lazer são comuns e constituem o quadro de isolamento de grande parte da população, pode o profissional de lazer sensibilizar e estimular os habitantes a conhecerem melhor sua cidade e seu potencial de aproveitamento. Nesse processo de apresentação, o profissional de lazer contextualizaria os problemas, estimulando o cidadão a tomar parte do processo de luta necessário à reorganização do meio urbano e à melhor distribuição de bens (...). (p. 50).

A promoção do lazer nas menores idades se integra tanto ao espaço público, quanto ao processo educacional. Um outro elemento que não deve ser omitido é o lazer infantil (ludicidade, brincadeiras e tempo livre) com o lazer dito adulto onde há o envolvimento com as relações de trabalho e com a prática esportiva direcionada (MELO e ALVES JUNIOR, 2003). Sem dúvida, o melhor ferramental para integração do lazer infantil e adulto encontra-se nos equipamentos públicos e privados de lazer como praças, cinemas, clubes e pontos turísticos. A descoberta dos espaços de lazer faz com que a criança reflita sobre seu pertencimento aquele local e procure entender suas responsabilidades enquanto membro participante do grupo social. O adulto se apresenta com os mesmos questionamentos infantis, porém sua responsabilidade se potencializa a medida em que a criança oferece os resultados de suas práxis.
Conclusão
Os pensamentos aqui expostos são elaborados para compreensão dos fenômenos sociais, e não necessariamente para transformação.

Interessante seria que todos os conteúdos deste material oferecessem críticas ao modelo de gestão de valores humanos (especialmente sobre o lazer) do primeiro segmento do ensino fundamental. Na verdade não é isso que foi feito. O espaço disponível a apresentação das idéias sobre lazer, animação cultural e uso crítico do tempo livre serviu apenas para constarmos que simplesmente há pouca ou nenhuma prática de lazer apresentada institucionalmente.

Quando não vemos a prática do lazer em nosso cotidiano, caminhamos a passos largos para alienação cultural e política de um povo. O trabalho, o estudo, as práxis necessárias a sustentabilidade e explicação poética do homem na terra, de nada valem se o espaço crítico não for oferecido.

As observações empíricas e não participativas demonstraram em que patamar encontra-se esta temática do lazer e se o debate está propicio ou não na escola. O fato é que as escolas fluminenses e brasileiras não entenderam ainda a importância do lazer. Os resultados, na prática, serão o atraso de gerações acerca das compreensões políticas, sociais e culturais.

Logo as compreensões sobre o lazer devem ser fomentadas não somente no campo teórico/científico, devendo ser esclarecido de modo mais simples, objetivo e direto aos responsáveis pela inclusão do lazer nos bancos escolares, para que, num futuro não distante, possamos observar as modificações necessárias referentes ao modelo de ensino nacional.

Obs. O autor, acadêmico Thiago Elias Merlo (tmerlo@gmail.com) é aluno da U Castelo Branco e membro da ANIMA (EEFD/UFRJ) e foi orientado pela prof doutoranda Angela Brêtas Gomes dos Santos da EEFD /UFRJ

Referências

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