O Nazismo Não Mora Apenas em Charlottesvile

Por: Roberto Romano.

Jornal da Unicamp - 2017

Send to Kindle


“Ainda é fecundo o ventre de onde surgiu a besta imunda”. A frase é profética. Nela, Brecht revela a desgraça da suposta civilização moderna e a face horrenda das sociedades que portam a máscara democrática. Elas disfarçam a gravidez do estado de exceção com frangalhos de leis, retóricas camaleônicas. As instituições, em compasso de espera, nas delações premiadas e tribunais enviesados, falecem por causa dos monstros que alimentam nas suas barrigas de aluguel. Europa, Estados Unidos, Brasil: o nazismo está na ordem do dia.

As peças de Bertold Brecht alertam as consciências entorpecidas pela propaganda, martelada dia e noite pelos que assassinam direitos, liberdade, vidas dos “negativamente privilegiados” (Max Weber). Terror e miséria do Terceiro Reich (Furcht und Elend des dritten Reichs) peça espantosamente atual, expõe o pavor imposto pela generalizada delação, comum no raivoso nacionalismo. Recordemos que o autor usa a língua de Lutero. O reformador, ao traduzir a Carta aos Romanos (13, 1-7) usa o termo “Furcht”para salientar o elevado e sublime poder divino, fonte legítima de mando político. O medo trazido pelo nazismo não é  divino, mas miséria humana absoluta. Pena que no Vaticano de Pacelli, a concepção do Apóstolo tenha sido desviada até o cerne. Leia-se o pungente O Papa e Mussolini, publicado por David Kertzer. Numa cena estratégica do texto brechteano vemos o juiz com receio de julgar certo processo, porque alguns acusados pertencem à SA e, do outro lado, acusadores operam na SS. Como manter a impessoalidade do tribunal em semelhante choque de poderes? De outro lado, pais temem que seus filhos os delatem como contrários ao regime, porque aquela é a norma da juventude hitlerista. Cena patética numa prisão: o comunista critica o socialista por ter negado a frente única contra o fascismo, preferindo dar a vitória aos sequazes de Hitler, em vez de se aliar aos comunistas. Análises agudas de toda a produção brechteana podem ser lidas na imprensa alternativa, mesmo em nossos dias. Por exemplo no site lesmaterialistes.com, onde surgem leituras oportunas sobre Brecht e o nazismo.

Diderot, no início do “Plano de uma universidade, ou de uma educação pública em todas as ciências”, afirma com estilo também profético : “instruir uma nação, é civilizá-la. Diminuir os conhecimentos é a conduzir ao estado primitivo da barbárie. A Grécia foi bárbara; ela se instruiu e se tornou florescente. E o que ela é hoje? Ignorante e bárbara. A Itália foi bárbara; ele se instruiu e se tornou florescente. Quando a ciência e as artes se afastaram, o que ela se tornou? Bárbara. Tal foi também a sorte da África e do Egito; e tal será o destino dos impérios em todos os lugares da terra e em todos os séculos futuros”.

Não existe permanência garantida para a existência humana civilizada, sem que os saberes científicos e técnicos domem a barbárie. As artes, fruto mais delicado do espírito, moldam a sensibilidade, ajudam na tarefa de Sísifo: refinar  paixões e vencer a selvageria que dormita em todos e cada um dos que se abrigam nos coletivos humanos. A civilização possui fendas que, a qualquer momento, podem levar massas, governos, religiões, pensamentos, ao abismo.

Volto ao teatrólogo. “O fascismo não é o contrário da democracia, mas sua evolução em tempo de crise”. Em outro contexto, na peça aludida acima, Terror e miséria do Terceiro Reich, surge a passagem do pensamento liberal à tirania nazista, ilustrada pela técnica da mentira e do medo, a perda da liberdade e dos direitos das grandes massas, o que implode a democracia.

O que assistimos nos EUA, com a presidência Trump? Fruto da ausência de emprego, instrução e cultura, o mandatário bufão (palhaços no poder são perigosos, o exemplo de Hitler seria um aviso) levantou a capa superficial de civilização que enfeitava a sociedade, trouxe à luz o ressentimento, os preconceitos, o racismo e o nazismo de vastas camadas dos “negativamente privilegiados” norte-americanos.   Ele prometeu devolver a América aos brancos, banir os estranhos, impor uma nova leitura de “Law and Order”. Ele prometeu a guerra contra a democracia, a caçada ao diferente, a morte do “inimigo interno”.   Chamou a paixão do ódio como eficaz cabo eleitoral. E venceu. Charlottesville não é causa de nada, mas sintoma do que vai no ventre imundo da besta.

No Brasil, segue a rotina de negar as Luzes. Aqui, os poucos combatentes em prol do saber e da técnica estão a cada minuto mais isolados. Eles são vozes a clamar no deserto. A rede universitária, gerada em décadas de batalhas, está sufocada pela ausência de recursos financeiros e pela fuga de cérebros. O brain drain faz razzia em todo mundo, mas aqui aparece sua face genocida: pesquisas graves na área médica e demais setores de saúde pública estão paralisadas. Agências de fomento têm seus cofres aniquilados, pouco sobrou, em termos federais, para a inovação industrial. A Fapesp é uma fortaleza, não sabemos até quando, que resiste com dificuldades crescentes.  Como fruto de semelhante campanha oficial contra os saberes, o Brasil anda rápido para trás em todos os campos científicos, tecnológicos, humanísticos. E, no mesmo passo, milhões de seres humanos aumentam o monstruoso exército de reserva que serve, quase escravo, aos fins do capital especulativo. Aumentamos a barbárie, sem nunca garantir a democracia, o saber científico, a liberdade de expressão. Responsabilidade estatal (nos três poderes) é apenas ....uma palavra, vazia de sentido.  Duas ditaduras recentes mostram o que pode ser o nosso futuro, caso não tenhamos força para barrar a propaganda das “reformas”, ablação última do direito que restou aos “negativamente privilegiados”.

Massas em desespero são cativas de sonhos e promessas. O nazismo, o fascismo e todas as formas de poder ditatorial trazem o ensinamento. Na Alemanha e demais países europeus, os políticos (incluindo os que se diziam progressistas) brincaram com fogo ao desprezar o peso das multidões reduzidas ao nível abaixo da subsistência. Atenção! O ódio que tomou conta de Berlim ou de Charlottesville, mora nas dobras da sociedade brasileira. Parte dos nossos juízes toma o partido dos “positivamente privilegiados”, contra os que perdem os direitos mais comezinhos. Logo, eles serão obrigados a decidir apenas entre os membros da SA e das SS. Não haverá cidadão para julgar, fora dos movimentos fascistas. Ressurgem nas ruas brasileiras os gritos do ódio. É de bom alvitre rever o filme Mephisto. O cômico, quando menos se espera, abre a via da tragédia.  

Roberto Romano da Silva é professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Autor de vários livros, entre eles “Brasil, Igreja contra Estado” (Editora Kayrós, 1979), “Conservadorismo romântico” (Editora da Unesp), “Silêncio e Ruído, a sátira e Denis Diderot” (Editora da Unicamp), “Razão de Estado e outros estados da razão” (Editora Perspectiva). 

Endereço: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/roberto-romano/o-nazismo-nao-mora-apenas-em-charlottesvile

Comentários


:-)





© 1996-2018 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.