O Perfil das Licenciaturas em Educação Física das Universidades Privadas da Cidade de Juiz de Fora

Por: Renata Torres Careli.

X EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

No campo educativo as políticas neoliberais manifestam-se pelo aniquilamento da escola pública mediante aos mais diversos subterfúgios (Frigotto, 1995). Nos últimos governos do Brasil, o que vem ocorrendo com o ensino superior é o constante incentivo de abertura de universidades particulares, com o discurso da universalização do ensino superior. Pois, desta forma, o governo se exime de seu oferecimento. Ficando a cargo somente do incentivo de financiamentos, tais como: FIES, PROUNI, entre outros.

Trata-se, enfim, de transferir a educação da esfera política para a esfera do mercado, negando a sua condição de direito social e transformando-a em possibilidade de consumo individual, variando segundo o mérito e a capacidade dos consumidores (Gentili, 1998).

A questão que colocamos em discussão é a qualidade do ensino que vem sendo oferecido nestas universidades, pois algumas instituições não estão preocupadas com o tipo de formação que vem se oferecendo aos seus alunos, mas sim, com o lucro que vão obter no final.

Na cidade de Juiz de Fora ocorreu o fenômeno da proliferação destas instituições privadas, e junto com elas, a proliferação dos cursos de educação física. Ao todo, nos últimos cinco anos, foram três instituições inaugurando seus cursos de licenciatura nesta área. A partir deste fenômeno, surgiu nossa preocupação com a formação destes professores de educação física, pois acreditamos que estes são futuros formadores de opiniões.

Neste sentido, existem diferentes possibilidades de orientação durante a formação dos futuros professores, podendo-se formar como simples reprodutores do sistema vigente ou como críticos que poderão trabalhar junto aos seus alunos a idéia de uma efetiva mudança social.

O quadro teórico da educação física apresenta várias abordagens, sendo algumas reprodutoras e outras críticas. No entanto, nenhuma se demonstrou capaz de justificar e assegurar sua importância como a crítico superadora, pois esta possui a definição de um corpo de conhecimentos que garante a autonomia da educação física e a este corpo de conhecimento se denomina cultura corporal.

Esta abordagem, surgida no começo dos anos 90, tem como base teórica o materialismo histórico-dialético. Foi criada por um Coletivo de Autores (1992) que trouxe uma visão mais ampla de educação e sociedade. Inconformados com os rumos da educação física, percebendo que ela servia como um instrumento de dominação e de disciplinarização, o que negava a realidade a jovens e adolescentes e contribuía para a manutenção do sistema, eles elaboraram um conjunto de elementos de base político-filosófica, das quais se destacam as seguintes idéias: a) o homem é um ser cultural socialmente definido; b) a sociedade não é constituída por um processo natural; c) a não-aceitação da exploração do homem pelo homem; d) há um anseio de mudança da realidade; e) o movimento cultural é social e culturalmente definido.

O objetivo do nosso estudo é investigar nas faculdades privadas de licenciatura em educação física no município de Juiz de Fora como as disciplinas que englobam os referenciais teóricos do ensino da educação física escolar vem sendo ministradas, bem como são orientados os estágios supervisionados buscando um enfoque nas abordagens críticas.

Sendo assim, este estudo justifica-se a partir do comprometimento das instituições e dos professores que tem como responsabilidade formar os futuros professores que serão formadores de opinião e interpretar a influencia direta na formação crítica de seus alunos.
Diante disso levantamos algumas questões que tentaremos responder no decorrer do trabalho: Durante o processo acadêmico esta criticidade é apresentada e orientada diretamente aos alunos? O posicionamento dos professores perante aos alunos influencia a futura escolha durante a licenciatura?

Como meios para atingir os objetivos deste estudo pretende-se utilizar a dialética materialista histórica. Como metodologia foi feito um estudo de caso na cidade de Juiz de Fora, onde foram pesquisadas três instituições privadas de ensino superior. E foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com cinco professores das referidas instituições.


 Os professores e as instituições

Foram investigadas três instituições privadas A, B e C, de ensino superior, com licenciatura em educação física, objetivando analisar as disciplinas ligadas diretamente à prática escolar. Na instituição A, foram entrevistados dois professores, que denominaremos A1 e A2.

Sendo a disciplina prática de ensino com estágio supervisionado I lecionada pelo professor A1, e a didática da educação física e prática de ensino com estágio supervisionado II pelo professor A2. Na instituição B foi entrevistado o professor B1 da disciplina fundamentos da pré-escola. Na instituição que C, entrevistamos o professor da disciplina coordenação de estágio, que denominaremos de C1, e o professor das disciplinas didática e organização do trabalho pedagógico e educação física e infância com prática pedagógica, denominado C2.

Em relação a formação dos professores entrevistados todos se licenciaram pela Universidade Federal de Juiz de Fora, entre os anos de 1985 a 2001, onde apenas um não possui o título de mestre, e os demais possuem o título em áreas não relacionadas com as disciplinas em discussão.

Percebemos na fala de um dos entrevistados, que a sua primeira opção de trabalho não era na área escolar e sim na área de treinamento esportivo.

"...Então eu sou pós-graduado, tenho especialização em treinamento desportivo e tenho alguns cursos, mais na área de treinamento porque, por que a minha intenção era trabalhar em clube, só que infelizmente os clubes em Juiz de Fora estão falidos..."
"...eu sou pobre, se fosse milionário, rico, eu monto um negócio pra mim e pronto, mas a área escolar é o caminho!"(A1)

Desta forma o entrevistado nos leva a entender que o campo escolar não é prioridade em sua formação, bem como não era na sua atuação profissional, e que buscou este campo por acreditar na estabilidade financeira que este poderia lhe proporcionar.

Tratando especificamente sobre as disciplinas, buscamos informações sobre as ementas e sua elaboração. Todos os entrevistados relataram à presença de ementa em suas disciplinas onde observamos dois diferentes tipos de elaboração. Na instituição A, o processo ocorre de maneira diferenciada, pelo fato dos professores receberem esta ementa já elaborada em sua matriz (que se situa em outra cidade) não podendo modificá-la na integra, sendo permitido realizar algumas modificações. "... em termo de documento agente envia o que agente modificou mais o que eles dão, agente não pode abrir mão do que é colocado por eles, ou seja, agente parte de um mínimo e amplia, mas este mínimo na realidade eu dou quase nada dele, só fica no papel..."(A2). Nas demais instituições a elaboração desta ementa é realizada de maneira semelhante, pois através dos relatos percebemos que os professores que ministram a disciplina são seus autores e as elaboram a partir das necessidades apresentadas no decorrer do curso. "... acaba que a ementa tá sendo feita de acordo com a primeira turma, então a medida que ela vai avançando e faz a ementa da disciplina que vão ser ministradas..."(B1).

Ainda buscamos saber nas disciplinas as relações apresentadas sobre o quadro teórico da educação física. Na instituição A o quadro teórico é apresentado na disciplina didática da educação física ministrado pelo professor A2, onde ele nos relatou apresentar todas as abordagens fazendo suas observações e focando no que ele denomina de "progressistas" . O professor A1, que ministra a disciplina subseqüente não trata diretamente as abordagens, mas relata que realiza um breve resgate.

O professor da instituição B diz não ser a sua disciplina responsável por esta discussão, e sim a disciplina didática geral que é ministrada por uma pedagoga. Ao indagamos sobre esta disciplina procuramos saber se o referencial teórico era relacionado com a educação física obtivemos uma resposta positiva, o que achamos estranho por esta professora não ter na sua formação básica nenhum tipo de conhecimento específico (não tivemos a oportunidade de entrevistá-la para obter maiores informações).

Já a instituição C, a disciplina didática e organização do trabalho pedagógico é de tronco comum com a graduação em educação física, onde o professor não fala sobre as abordagens, desta forma acreditamos ser esta uma didática geral. "... elas são em campos ampliados,..., então agente tá trabalhando com a noção do campo escolar e também com os outros campos de atuação do profissional de educação física, nos clubes, no lazer, nas escolinhas, nas academias, bom, entre aspas, no geral..." (C2). A apresentação teórica, segundo o professor, é feita em um outro momento e em outra disciplina - introdução à educação física.

Fizemos um levantamento em relação aos estágios acadêmicos na tentativa de buscar na prática destes alunos uma correlação entre teoria e prática, e obter informações sobre a coerência entre esses.

O que destacamos na instituição A foi a presença de dois estágios de observação sendo feitos em momentos diferentes. No primeiro momento eles observam a educação fundamental, de1ª a 4ª séries, e posteriormente concluem o estágio no ensino fundamental de 5ª a 8ª séries e no ensino médio. São disciplinas orientadas por diferentes professores ambas sem intervenções pedagógicas obrigatórias, mas com a possibilidade de intervir se caso o professor da turma observada der abertura para tal.

"... eles vão a escola e observam e procuram intervir dentro do que o professor lá da escola deixa, tem professor que não deixa e tem professor que deixa e vai embora, tem professor de vários tipos então, dentro do possível, eles observam e fazem a intervenção..." (A2)

O professor A2 responsável pelo segundo estágio avalia esta disciplina através de plano de curso e planos de unidade (plano de aula).

Estes devem ser elaborados baseados no que ele denomina de abordagens progressistas. E ao término da disciplina entregam um relatório final sobre o estágio.

Mesmo havendo as avaliações teóricas em relação aos planos de aula e de curso sentimos a falta da intervenção pedagógica em si, pois é neste momento que os alunos teriam a possibilidade de colocar os seus planos em prática e intervir diretamente no que foi planejado.

O estágio apresentado na instituição B também segue a mesma linha de observação. Como forma de avaliação é exigido um plano de ensino que tem que estar embasado teoricamente, mas sem que se exija um posicionamento.

Na instituição C os estágios são divididos em dois. Sendo o primeiro obrigatoriamente na escola e o segundo, se o aluno desejar, pode ser realizado fora da escola, em áreas que os professores denominam como campos ampliados da educação física (clubes, escolinhas). A característica de todo o processo de estágio é de observação, havendo a intervenção quando o professor da escola observada der abertura e utilizando o referencial teórico do mesmo, sendo assim, não há posicionamento por parte do aluno. O processo de avaliação é feito através de um relatório final.

Achamos uma coerência com os professores da instituição A quando indagamos sobre o posicionamento frente ao quadro teórico da educação física. Ambos dizem acreditar na linha denominada por eles de progressista por estar pautada na cultura corporal de movimentos, guardando coerência com as informações dadas aos alunos nas disciplinas ministradas por eles. O professor B1 diz não acreditar em nenhuma abordagem específica, diz depender da situação para só então adequar o referencial e é este posicionamento que é passado aos alunos. Já o professor C1 diz ser crítico superador, mas não se posiciona desta forma ao orientar o estágio. Enquanto o professor C2 "... somos todos construtivistas na primeira à quarta, somos todos desenvolvimentistas na quinta à oitava, e todos crítico superadores no ensino médio".

Conclusão

Considerando que a escola é um espaço onde são formados cidadãos e refletindo sobre a visão desses cidadãos que ela deve ajudar a formar, concordamos que seu papel se apresenta sob o interesse na modificação das relações sociais de produção (socialização da riqueza historicamente produzida e socialmente acumulada). Nessa perspectiva, torna-se inviável que a formação do futuro professor seja realizada de forma fragmentada.

Constatamos que as disciplinas envolvidas na formação do licenciado, não direcionam o aluno para uma abordagem da educação física, seja ela crítica ou reprodutora, o que para nós é um problema, pois, acreditamos na necessidade deste direcionamento. Quando o professor não aponta uma direção para o aluno, sua formação acadêmica torna-se deficitária no referencial que fundamentará sua prática pedagógica na escola.

Em relação aos estágios, percebemos uma total desorganização quanto à sua realização, pois, além de contarem apenas com a observação, esta não é orientada. Os alunos aprendem a elaboração de planos de curso e de aula, porém, sem conexão com algum referencial teórico, porém não os colocam em prática. Nos momentos em que deveria existir uma intervenção pedagógica, esta não acontece. Desta forma a práxis não apresenta coerência.

Concluímos então que os cursos de licenciatura das instituições privadas de Juiz de Fora, encontram-se sob a perspectiva de mercado, despreocupados com a qualidade da formação do futuro professor de educação física.

Obs. As autoras, profs. Renata Torres Careli (renatacareli@bol.com.br), Ayra Lovisi Oliveira (ayralovisi@yahoo.com.br) e Telma Freitas de Abreu ( telmafreitasa@ig.com.br) são membros do GETEMHI da UFJF

Bibliografia

  • Coletivo de Autores. Metodologia do ensino de educação física. Campinas: Autores associados, 1992.
  • Frigotto, Gaudêncio. Os delírios da razão: crise do capital e metamorfose conceitual no campo educacional. In: GENTILI, Pablo (org). Pedagogia da exclusão: critica ao neoliberalismo em educação. 4a ed., Petrópolis, Vozes, 1998.
  • Gentili, Pablo. A falsificação do consenso: simulacro e imposição na reforma educacional do neoliberalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

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