O Preço de Uma Medalha

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Blog da Katia Rubio - 2014

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Há algumas semanas ouço e falo sobre os eventos políticos dos últimos meses, assim meio de lado e olhando pro chão. Não sei se isso ocorre pelas muitas lembranças do aniversário de 50 anos do golpe militar ou se pela desorganização generalizada que assola o país no presente, mas o fato é que muitas memórias de um passado recente têm vindo à tona quase sempre de mãos dados com analises conjunturais que remetem ao que passa no presente sugerindo possíveis futuros, nada promissores. Claro que isso se dá em função de toda proximidade que tenho com o tema memória, história de vida e narrativas biográficas. Minha pretensão aqui é sempre resgatar nos sujeitos o que essas questões macro estruturais provocam em suas vidas, na produção dessas subjetividades e se desdobra na formação da identidade do sujeito. E mais uma vez uma notícia de jornal me leva a escrever um texto.

Ontem li no jornal que o Comitê Olímpico Brasileiro seguirá o “modelo” das grandes potências olímpicas de premiar com dinheiro os ganhadores de medalhas olímpicas nos próximos Jogos. E isso me faz pensar na inversão completa de todos os valores e sistemas que cercaram, e desde há muito, deixaram de cercar o Olimpismo e sua face pública, os Jogos Olímpicos. Nunca é tarde lembrar que os símbolos olímpicos não nasceram com os Jogos em 1896, mas foram criados ao longo dos anos, fosse por Pierre de Coubertin, fosse pelos nobres e doutos partícipes do Comitê Olímpico Internacional. As medalhas são um exemplo disso. Copiando o que se fazia na Antiguidade, os vencedores das primeiras provas dos primeiros jogos ganhavam uma coroa de oliveiras (e não de louros), uma referência à condecoração que se fazia nos Jogos Olímpicos da Grécia, muito embora na Antiguidade o vencedor da prova do Stadio ganhava privilégios para o resto de sua vida, uma medalha de prata e um diploma. A medalha como símbolo de conquista relacionado ao esporte é algo mais recente e é anterior aos Jogos Olímpicos da Era Moderna que em sua primeira edição em 1896 premiou apenas o primeiro colocado com uma medalha. E o que é mais curioso nisso tudo é ver que Coubertin em pessoa entendia que só havia um premio por competição, “não havendo nunca um segundo premio no campeonato” (Müller, 2000, p. 681).

Ou seja, a criação de três categorias de medalhas – ouro, prata e bronze – já é o olimpismo reinventado, assim como é o quadro de medalhas. O simbolismo das medalhas e seus metais referem-se, em tese, às raças tratadas por Hesíodo, em O trabalho e os dias, que relaciona a pureza do metal às raças correspondentes começando pelos mortais e chegando aos homens marcados pela mortalidade. E assim temos a escala ouro, prata, bronze e ferro a determinar a estirpe a qual pertencemos a partir do metal que nos define. Não bastasse isso a Guerra Fria produziu uma das maiores distorções olímpicas que é o quadro de medalhas que reflete a obra de Hesíodo privilegiando não o número de medalhas ganhas, mas a qualidade do metal conquistado. E assim, países que têm uma única medalha de ouro passam à frente daqueles que conquistam outras tantas de prata ou bronze, mesmo em modalidades coletivas onde é inegável o esforço e trabalho de muitos em prol de um único resultado.

Não bastasse isso as distorções foram se ampliando com o passar dos anos. A mesma Guerra Fria que produziu o quadro de medalhas, também levou a uma luta insana por posições e medalhas para justificar a supremacia de uma potência mundial sobre a outra. E mesmo depois de encerrada essa polarização do mundo em “apenas” dois blocos as distensões deixam suas marcas seja com o nome de Iraque, Afeganistão ou mais recentemente Criméia. O fato é que a comercialização e mercantilização dos Jogos Olímpicos distanciam a cada instante o conjunto de ideais e valores preconizado pelo Movimento Olímpico do início dessa grande aventura. A premiação por colocação é mais um desses sintomas e se aproxima de decadência e derrocada dos Jogos Olímpicos da Antiguidade quando os atletas deixaram de competir pela busca da própria excelência para disputar com os outros os benefícios de uma boa colocação nas competições.

Vejo que ao se aventar a possibilidade de premiação há um distanciamento cada vez maior do atleta do universo de valores que são fundamentais para seu pleno desenvolvimento como atleta e como cidadão. E nunca é demais lembrar que aquilo que se chama de valores olímpicos engloba a amizade, a excelência, o respeito, a coragem, a determinação, a inspiração e a igualdade, e mais que valores podem ser pilares, norteadores e balizas para a formação de pessoas dignas que contribuirão no pós-carreira para uma sociedade decente. E nessa linha de pensamento faço aqui a sugestão de se alterar a conjuntura atual e se iniciar um projeto em que sejam premiados atletas que colaboram para esses valores em sua pratica esportiva e competitiva. Justifico minha proposta fazendo uso de alguns argumentos a partir dos estudos que realizo há quase duas décadas. O atleta contemporâneo tem sua imagem e identidade associadas ao mito do herói e isso ocorre não apenas pelos resultados que ele conquista, mas principalmente pela sua trajetória que envolve dedicação, determinação, a superação cotidiana de seus limites pessoais e individuais, um posicionamento ético e tudo isso o faz sair da média. Daí a utilização de sua imagem para campanhas que envolvem, quase sempre, um vínculo com questões sociais, e porque, principalmente a juventude vê nesses homens e mulheres a perspectiva, a possibilidade de uma vida diferente para si, afinal se eles, brasileiros e brasileiras, estudantes, trabalhadores, filhos e filhas de famílias modestas ou médias, chegaram até ali é possível então para outros semelhantes chegarem também. Imaginem que maravilhoso seria se ao invés de se premiar apenas o resultado se buscasse acompanhar a trajetória que levou até a medalha, inspirando outros milhares ou milhões a fazer melhor a cada dia? Fica aqui então a minha sugestão.

Medalhas não brotam nas pistas, quadras, piscinas, campos e raias de forma espontânea como algumas flores no campo. Hoje, mais do que nunca, a estrutura que cerca um resultado esportivo é fruto de um trabalho complexo pouco acessível a muitos. E no caso brasileiro em específico, envolve uma resiliência e determinação absolutamente acima da média mundial. Sendo assim, premiar apenas quem chega a ocupar um lugar no pódio seria no mínimo uma ingratidão por todo o esforço de anos de trabalho e dedicação a uma causa. Prova disso são os atletas que chegam à 4ª ou 5ª colocações e que nos anais da história esportiva, inclusive a brasileira, são mencionados apenas como os perdedores. Já é mais do que tempo de se alterar essa lógica que coloca por terra o esforço que pode gerar no futuro os tão desejados campeões.

Deixo aqui registrado meu agradecimento a Raoni Machado pela colaboração com os dados sobre as medalhas, dentro do mais nobre espírito olímpico.

MÜLLER, N. Olympism Selected Writings. Pierre de Coubertin 1863-1937. Lausanne: Comitê Olímpico Internacional, 2000.

26.3.14

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