O Tempo das Coisas

Por: .

Blog da Katia Rubio - 2012

Send to Kindle


Dizem que Deus criou o mundo em 6 dias e descansou no 7º. Para os mais afeitos a detalhes há no velho testamento uma descrição detalhada do Senhor. Conforme se pode ler no livro do Gênesis tinha-se lá um cronograma detalhado, provavelmente feito em algum planejamento estratégico num desses hotéis fazendas bacanas onde se fica de 3 a 4 dias discutindo quais as metas, objetivos, ações e finalmente os produtos que serão gerados daquela criação. Nada que se assemelhe, óbvio, às nossas infindáveis reuniões que nos tomam tempo precioso de coisas verdadeiramente importantes. Afinal, o criador sabe muito bem o que e quando fazer. Então assim foi feito.

Começou não pela internet, mas pela Luz, obviamente retirada da própria escuridão. Não vou buscar analogias com o conhecimento, a consciência ou coisas do gênero, porque até aqui ele ainda estava tranquilo, descansado, sem ninguém a lhe criticar as decisões. Era a criação pela criação. Que coisa maravilhosa. Fazer pelo supremo prazer do fazer. Certamente naquela noite ele foi dormir com a sensação de dever cumprido e nem se levantou para beber água e pensar no dia de amanhã.

Pois bem. Veio então o segundo dia e, ainda muito inspirado, ele criou o firmamento, termo que vem do latim clássico firmamentum, e significa “suporte”. Estava criada a abóbada celeste, dizem, que para separar um pouco aquele aguaceiro todo que era o tal do universo. Fico na dúvida se ele tinha certeza do que estava fazendo ou se simplesmente ele deixou rolar, tipo quando fazemos pintura de dedo e vamos pondo cores e quando nos damos por satisfeitos enxergamos um monte de coisas que nem de longe havíamos pensado em criar. Sou levada a crer que também no final desse dia ele sentou depois do jantar e ouvindo um dos velhos discos do Milton Nascimento ficou olhando para aquele monte de água, sorriu para com seus botões porque já sabia o que ia aprontar no dia seguinte. E mais uma vez, sem ter crítico, nem parecerista mal intencionado, ele deu uma bela espreguiçada e foi dormir.

E acordou no terceiro dia pronto para estabelecer novos paradigmas. Ok. Água é legal, velejar, surfar, nadar, pegar jacaré é muito bom, mas melhor ainda é ter terra firme debaixo dos pés. E assim separou a água da terra e determinou que do seco viessem as plantas. Legal imaginar que ele pensou em todo o sistema produtivo, danado o cara. Sem nem supor que haveria de existir os tais transgênicos, estava ele preocupado que as espécies gerassem frutos e sementes que resultariam em novas espécies. Teria dado um grande biólogo!

Depois de dormir e acordar no escuro por três dias ele achou por bem estabelecer melhor algumas coisas no quarto dia. E assim pôs as luzes no firmamento. Acho que ele estava naquele momento do planejamento estratégico em que já acabou o toró de parpite (também conhecido como brain storm) e é preciso começar a se preocupar com a execução daquele monte de coisas sugeridas. Estava começando o tormento de nossas vidas. Foi daí que nasceram as horas, dias, semanas, meses, anos, as estações e tudo que nos rege com aquelas palavras que nos fazem desejar férias eternamente: vamos logo que você está atrasada! Sorte que também ele criou o sol, a lua e as estrelas. E assim, para nosso alento, quando temos tempo e possibilidade de estar em um lugar onde não precisamos fazer nada com pressa, podemos olhar para a imensidão do firmamento e enxergar tantas estrelas quantas nossa paciência tiver disposição para contar.

E aí já estava no quinto dia. A conta do hotel começava a ficar cara e ainda tinha um montão de coisas pra fazer. Quem ia comer aquela montanha de hortaliças e frutas deliciosas do dia anterior? Ambientalista de carteirinha resolveu então dar cabo daquele desperdício todo e pensou em gerar vida para um consumo regrado mantendo tudo em equilíbrio. E assim começou pelo mar, pondo dentro d’água todo tipo de vida nadante. E acho que, num momento de descanso – afinal, esse dia a coisa foi puxada – enquanto secava o suor da testa ele olhou para o céu, com aquele solzão lindo de morrer, e percebeu que fazia um silêncio danado, sem graça de dar dó. E então, mais do que depressa e sem precisar esperar nenhum ofício ou consulta ao CJ ele criou os pássaros. Coloridos, barulhentos, simpáticos ali estavam eles, pronto para alegrar o alvorecer com diferentes cantos, e alguns para cuidar das noites e dos que nela se movimentam. E naquela noite ele foi dormir meio preocupado porque era hora de tomar uma decisão que faria seu projeto chegar ao Nobel, ou então, ver seu relatório final ser debulhado por um parecerista que certamente gostaria de ter feito o que ele fez, mas não teve talento, criatividade, nem coragem suficiente para tamanha pretensão. Afinal, os grandes projetos têm tudo isso. E dificilmente se encontra, lá no começo dele, quem consiga entender de fato a ideia proposta e o quanto ele pode render para ações futuras. Meio com insônia ele foi dormir e só pegou no sono quando se lembrou que era possível pedir recurso caso o relatório fosse denegado!

E lá estava ele de pé, bem cedo no sexto dia. Era hora de um corte epistemológico naquilo tudo. E embora fosse legal definir o design do projeto, a metodologia, os instrumentos de coleta de dados ele sabia que também precisava definir a equipe para o trabalho, afinal, ninguém consegue trabalhar sozinho por muito tempo. E olhe que ele só fez isso por 5 dias! E então ele mandou a terra produzir criaturas vivas como animais domésticos, répteis e animais selvagens segundo as suas espécies e criou então, a humanidade à sua própria imagem e semelhança. A única coisa lamentável é que naquele tempo ele ainda não conhecia Pichón Rivière, René Kaëz, Didier Anzieu, e nem tinha ouvido falar em grupo operativo, nem auto-gestão porque ele assim determinou: “domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todo o réptil que se arrasta sobre a terra”. Ah, se ele tivesse passado uma manhã de sexta-feira lá pelo CESC na EEFE…

Feito tudo isso ele tirou o sétimo dia para descansar e não foi para fazer relatório, transcrição de entrevista, nem novos agendamentos. Nunca ouvi nada sobre a existência de alguma refelxão crítica sobre a obra do criador, do tipo “se eu pudesse voltar atrás eu teria feito…”. Ele simplesmente descansou, deixando a entender que tudo tem seu tempo, mesmo em se tratando de algo divino.

Faço todas essas analogias talvez porque esteja tendo tempo para deixar os macaquinhos do meu sótão soltos, embora meu relatório da Fapesp tenha que estar pronto até o final desse mês. Mas faço também porque ontem mais uma atleta olímpica teve sua vaga assegurada para Londres 2012. Lembro, 4 anos atrás quando fui procurada para iniciar um trabalho para esse ciclo olímpico falamos sobre tudo o que estava em jogo: as incertezas quanto a patrocínio, a dúvida sobre se o corpo ainda aguentaria mais uma jornada, a emergência de novas adversárias, enfim, muitas coisas podem acontecer em 4 anos. Um ciclo que para muitos representa a própria razão de existir ou então de sofrer.

E como na solidão dos dois primeiros dias do processo de criação do universo mar, vento, barco foram as companhias constantes daquela velejadora que abriu mão de tudo para estar em mais uma edição olímpica. Parabéns, Adriana Kostiw. Que nesse momento você possa desfrutar do início dessa conquista, afinal seu dia de descanso só virá depois de agosto.

Endereço: https://web.archive.org/web/20140830213514/http://blog.cev.org.br/katiarubio/2012/o-tempo-das-coisas/

Tags: ,

Comentários


:-)





© 1996-2019 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.