O todo e a parte na Educação Física escolar: Por uma cultura corporal de movimento como um conteúdo sem barreiras

Por: Gustavo Henrique Pontes.

V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 A Educação Física Escolar é alicerçada pela diversidade de saberes, evidenciada pelas diferentes abordagens-antagônicas. Um processo que inicialmente postulou-se como salutar para a solidificação da área; mas em contrapartida formou uma cortina de fumaça entre as diferentes visões fundamentando um campo de debate, de fragmentariedade, de linearidade, aliado a uma idealização da ação profetizada de forma singular, que nos expõem ao reducionismo e a simplificação com relação a nossa saberiorização (saberes+ação) e que consideramos hoje um obstáculo para a sua maturação e sua auto-organização.


 Vemos a Reeducação Física que reconstrua seus saberes, inter-relacionando as singularidades a favor de uma pluralidade, como um meio para tamponar os buracos e clarificar a unidade; uma ética na diversidade. Um olhar que evidencie os diálogos, o eco ao invés do ego e a conexão entre as partes a favor de uma unidade plural, reconhecendo a riqueza da diversidade solidária. Delineando uma coexistência entre os mesmos e harmonizando a autonomia-dependência na demanda das aulas de Educação Física Escolar.


 Partindo destas idéias iniciais, vislumbramos uma proposta de intervenção no "Colégio Piratininga" - São Paulo, que buscava tecer os diferentes horizontes, tendo como princípio de elaboração a fabricação de uma rede dialógica entre os conteúdos da Educação Física Escolar, amplificando o leque de possibilidades de aprendizagem e sendo também estes conteúdos trabalhados na dimensão atitudinal, procedimental e conceitual, tendo o construtivismo radical como o cenário destas aulas, enfatizando o conhecimento do conhecimento numa visualização global nas aulas. Elas foram realizadas no 1o semestre de 2001 e teve como participantes alunos do Terceiro e Quarto ciclo do ensino fundamental.


 2 - Organização da proposta temática


 Enfatizamos a necessidade de práticas pedagógicas transmitidas de forma teórica e prática, e também de forma sintetizada, como destaca BRACHT (1999). Capacitando o aluno à decifrar o todo e as partes da Educação Física Escolar e contextualizar a complexidade do real das aulas.


 A síntese dos conteúdos foi realizada através da ligação em forma de rede de três conhecimentos o cultural, o corporal e o de movimento. Sendo os aspectos culturais (esportes, jogos, danças, lutas, ginásticas e atividade física), corporais (aspecto biológico, psicológico, social, antropológico e mitológico) e do movimento (fisiológicos, biomecânicos, nutricionais, comportamento motor, históricos, sociológico e filosóficos). Uma reforma no ensino que conduza uma reforma no pensamento. Observa Daolio (1995) que a questão natureza/cultura não se mostra mais como uma disputa onde se defende a predominância de uma em relação a outra. A vontade de abrangência é que deve orientar nossas práticas escolares, que entrecruzem ciência, sabedoria, arte, ludicidade, fontes de onde brota a vida cultural de um povo (Vago, 1999). Já PERRENOUD (1999), destaca que, se o sistema educativo não perder tempo reconstruindo a transposição didática (a transformação de um conhecimento científico em conhecimento escolar), se contentará a verter antigos conteúdos dentro de um novo recipiente.


 Para CUNHA (1999) a existência humana ocorre impreterivelmente indissociada do meio. Nosso meio compõe-se dos elementos circundantes aos seres humanos, bem como deles mesmos e de suas relações entre si; não sendo, portanto físico ou biológico ou social ou cultural, mas composto por uma interação complexa desses aspectos entre outros. Segundo LASZLO (1999) não existem forças separadas na natureza, apenas conjuntos de eventos em integração com característica diferenciadas, que atuam juntas e evoluirão juntas. Uma consiliência, pelo entrelaçamento entre as disciplinas, fornecendo um mapa com isso um mapa mais claro do que é o conhecimento (WILSON, 1999). O grande corte entre as ciências da natureza e as ciências do homem, condena as ciências humanas à inconsistência extrafísica e condena as ciências naturais à inconsciência da sua realidade social. Devemos articular aquilo que está fundamentalmente disjunto e que devia estar fundamentalmente junto (MORIN, 1987).


 A rede destaca-se por processos de produção, nos quais a função de cada componente consiste em particular da produção ou transformação de outros componentes da rede. Desse modo, toda a rede, continuamente, "produz a si mesma". Uma importante característica é o fato de sua organização incluir a criação de uma fronteira que especifica o domínio das operações da rede e define o sistema como uma unidade (MATURANA e VARELA, 1995).


 Construindo uma rede de ponto ligados entre si por uma pluralidade de ramificações, cada ponto é uma tese, e nenhum ponto é privilegiado em relação ao outro, nem subordinado, pois ambos são retroativos, dialógicos e circular. Interando esta rede ao meio ambiente e a vida dos alunos, o próprio processo da vida é um processo de cognição; viver é conhecer. Um pensamento inevitavelmente complexo, pois não basta inscrever todas as coisas ou acontecimento em um quadro, trata-se de procurar sempre relações e inter-retro-ações, numa reciprocidade parte e todo.


 O termo latino complexus significa "o que é tecido junto". É o cerne da epistemologia da complexidade, que advém de três teorias: a teoria da informação no qual no universo existem a desordem e a ordem, a teoria da cibernética A age sobre B e B age em retorno sobre A e a teoria dos sistemas liga o conhecimento das partes ao conhecimento do todo e afirma que o todo é mais que a soma das partes, indicando a existências de qualidades emergentes que surgem da organização do todo e que podem retroagir sobre as partes, mas o todo é também menos que a soma das partes, pois as partes têm qualidades que são inibidas pela organização global. O conceito de sistema esta compreendida como a idéia de rede relacional, os objetos dão lugar aos sistemas e as unidades simples dão lugar a unidades complexas (MORIN, 2000).


 Sendo a cultura corporal de movimento o conteúdo da reforma, proporcionando o conhecimento de forma organizada e sistematizada, aproximando os alunos as questões mais amplas da escolarização, para que a mesma seja adaptada, interada e transformada; em relação ao meio. Ressaltando concomitantemente uma aprendizagem de modo multidimensionalidade considerando as três grandes categorias do conteúdo: a conceitual, a procedimental e atitudinal.


 Baseando-se nessa classificação ZABALA (1998) procurou caracterizar cada tipo de conhecimento, explicando a forma como eles são aprendidos. O conceitual engloba os conceitos, fatos e princípios, sistematizando aquilo que o aluno, ao passar pelo processo de escolarização deve saber. Os conhecimentos procedimentais envolvem técnicas e habilidades, compreendendo tudo aquilo que o aluno deve saber fazer. O conhecimento atitudinal regula, normatizam e orientam as formas de agir dos alunos, sendo constituído por atitudes, normas e valores que explicitam como o aluno deve ser. Uma oportunidade de ser, fazer e saber a cultura corporal de movimento.



CULTURAL, CORPORAL, MOVIMENTO

 

        AMBIENTE

3 - Metodologia e resultados da intervenção


 Através da aplicação de um questionário antes e após da intervenção, realizamos a análise do pensamento com relação à Educação Física Escolar, por parte do aluno ao todo das aulas.
O distanciamento de um questionário para o outro foi de três meses período este que foi realizado as aulas de 3 e 4ciclo do ensino fundamental, tendo 30 alunos como o número total de participantes da intervenção, sendo a cultura corporal de movimento os três eixos a foram trabalhados de forma inter-ligada e multidimensional. Podemos destacar na tabela abaixo os resultados.
Tabela 1 - Resultado em porcentagem do questionário aplicado aos alunos da 3 e 4 ciclo do ensino fundamental, visando diagnosticar o pensamento dos alunos sobre a Educação Física Escolar.

Questões Pré Pós


 (Sim Não Sim Não)


  A educação física escolar e o esporte são mesma coisa? 61% 39% 11% 89%


 O conceito é um conhecimento importante a ser desenvolvido? 10% 90% 100%


 As aulas são variadas em termos de conteúdos? 30% 70% 100% -


 As aulas são pertinentes e motivantes? 55% 45% 70% 30%


 Seus conteúdos são organizados? 40% 60% 80% 20%


 Os conteúdos das aulas são importantes para o seu dia-a-dia? 51% 49% 75% 25%

Podemos observar por meio da tabela uma mudança significativa na maioria dos questionamentos sobre o pensamento dos alunos perante as aulas. Ocorre de forma clara uma ampliação na intervenção da Educação Física Escolar, pode-se dizer que ocorre uma passagem de um pensamento linear para um complexo por parte dos alunos na disciplina curricular. Uma ação que implicou e um feedback.


 5 - Conclusões


 Nos últimos anos a Educação Física Escolar vêm navegando por mares antes desconhecidos, deixando de ser apenas uma pequena ilha dentro da mundialização. Novas propostas têm demonstrado estes novos horizontes, endossamos a complementaridade entre elas, para clarificarmos o diálogo e que o mesmo não esteja presente apenas na escola, formando uma grande teia entre as partes da Educação Física.


 Obs.


 O autor, Prof. Gustavo Henrique Pontes é licenciado na Unesp de Presidente Prudente e especializando em Pedagogia de Movimento pela Unicamp - Campinas.


 Referências bibliográficas


 Bracht, V. Educação Física & ciência: cenas de um casamento (in) feliz. Injuí: Editora UNIJUÍ, 1999.
Cunha, M. S. V. Maurice Merleau-Ponty: o corpo e a fenomenologia. Corpoconsciência, n.3, p. 35-55, 1999.
Daólio, J. A ruptura natureza/cultura na Educação Física. In. Ademir de Marco (org) Pensando em educação motora. Campinas: Papirus, 1995.
Lazslo, E. Conexão Cósmica: guia pessoal para a emergente visão da ciência. Rio. Petrópolis: Vozes, 1999.
Maturana, H. e Varela, F. A árvore do conhecimento: As bases biológicas do entendimento humano. Campinas: Editora Psy II, 1995.
Morin, E. O Método. I. A natureza da natureza. Lisboa: Publicações Europa-América, 1987.
Morin, E. Introdução ao pensamento complexo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Peirópolis, 2000.
Perrenoud. P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
Vago. T. Intervenção e conhecimento na escola: por uma cultura escolar de Educação Física. In. GOELLNER, S.V. (org). Educação Física/Ciências do Esporte: intervenção e conhecimento. Florianópolis: Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, 1999.
Wilson, E. A unidade do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1999.
Zabala, A. A prática educativa: temos que ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1998.

 

 

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