O XV é de Piracicaba ou do Mercado Global?

Por: Ana Paula Zaguetto Alves e Cassiana Purcino Perez.

Com Ciência - n.157 - 2014

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Em 2012, após 17 anos, o Esporte Clube XV de Novembro – o XV de Piracicaba – retornou para a primeira divisão do campeonato paulista, um ano antes de completar seu centenário. E por pouco o Nhô Quim, como é conhecido, não comemorou seus cem anos na segunda divisão. O time se livrou do rebaixamento na última rodada e em 2013 e 2014 a ameaça de queda continuou rondando o clube. Para os torcedores, de um dos times mais tradicionais do estado de São Paulo, não é fácil ver o clube lutando para não cair, quando o desejo é vê-lo na disputa pelo título.

Não é possível precisar todas as causas para a atual situação do XV, mas fatores políticos e econômicos foram e continuam sendo decisivos para que o primeiro time do interior que ascendeu à divisão de elite do paulista, hoje, esteja longe de conquistar um título nela. Esse não é um problema enfrentado apenas pelo Nhô Quim, mas também pelos outros “times pequenos” de todo o país e inclusive pelos “times grandes”. Todos sofrem com pressões e decisões tomadas com objetivos econômicos e políticos em detrimento do futebol. E enquanto alguns clubes sucumbem, sendo vendidos para empresas, fundindo-se com outros ou mesmo encerrando suas atividades, outros lutam para manter sua identidade e sua fiel torcida.

Sem dúvida, a abertura da economia dos países ao mercado global afetou, de forma pungente, as culturas locais. Às grandes empresas multinacionais, interessa a homogeneização dos gostos, das preferências e dos modos de vida, criando-se lá e cá as mesmas necessidades por produtos pensados para atender às massas. O futebol, como produto cultural rico em emoções e simbolismos, funciona como metáfora dessa sociedade, espelhando, dentro dos seus clubes, as transformações que vêm ocorrendo do lado de fora das quatro linhas do campo. É um fenômeno da vida coletiva que consegue sintetizar toda a vida social, configurando o que o sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss chamou de fato social total.

Hoje vale o que fica, o que incomoda

No Brasil, a prática do futebol esteve restrita, no seu início, à elite do país, com as ligas dominadas por ricos e brancos apenas, em uma realidade de exclusão social que expressava o momento histórico pós-abolição da escravatura. Foi somente a partir da década de 1920 que os negros e os operários pobres começaram a ser aceitos nos clubes de futebol brasileiros, representando um processo de luta entre elitização e democratização que era marca de nossa sociedade na época. Hoje, o futebol permite a participação de todos, seja como praticante ou torcedor, sem grandes discriminações classistas, étnicas ou raciais.

Como esporte mais popular no Brasil – e no planeta –, o futebol participa na constituição de identidades, condicionando nossa relação com o mundo. Portanto, não se impressione se uma das primeiras perguntas que você escutar ao conhecer alguém seja “para que time você torce?”. A escolha de um time representa a adoção de uma determinada identidade, a vivência em conjunto com outros torcedores, que oferece ao indivíduo um sentido de pertencimento, tão raro e tão perseguido nas sociedades atuais, e que é um dos aspectos fundamentais para a explicação da popularidade do esporte.

Ao reconhecer-se como pertencente a um grupo, o torcedor vai incorporando comportamentos que têm como manifestação principal uma certa forma de torcer, mas que pode influenciar em outras dimensões de sua vida cotidiana, criando novas maneiras de sentir, pensar e agir. Esse fenômeno é explicado pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud, como mente coletiva de um grupo psicológico, cujas características mais importantes são o sentimento de poder invencível, o sacrifício dos interesses pessoais em nome dos interesses do grupo e o surgimento de traços de personalidade, geralmente contrários àqueles dos indivíduos isolados.

Simultaneamente a essa paixão e identificação ao grupo, o indivíduo passa a ter necessidade de demarcar seu pertencimento, formando-se então um prolífico mercado consumidor de produtos do time e dos jogos. A indústria do consumo transforma, assim, objetos, materiais ou simbólicos, em produtos com potencial de consumo pelas massas, imprimindo legitimidade popular àquilo que antes não despertava o interesse do consumidor. As características culturais do futebol assumem um caráter mercadológico, transformando as relações sociais em produtos a serem amplamente consumidos. Surge, então, uma nova lógica, mais globalizada, voltada para os interesses de mercado: para ser torcedor de verdade, é preciso vestir a camisa, ir ao estádio, ter a caneca, a bandeira, o broche e diversos outros produtos veiculados pelo marketing esportivo como essenciais à demonstração de seu amor pelo clube.

No entanto, os valores tradicionais ainda persistem e se tornam uma barreira para a mercantilização total da sociedade. “Ao que pertenço, eu sei, nunca fui moda/Hoje vale o que fica, o que incomoda”. Esses são versos de um soneto escrito por Rui Kleiner, músico, historiador e conselheiro do XV de Piracicaba, em homenagem a Cecílio Elias Netto, jornalista e escritor piracicabano. Ambos têm em comum a paixão pelo Nhô Quim e a luta por preservar a cultura e resgatar a memória da cidade, das quais o clube faz parte. Para Rui, a moda é o capitalismo e suas definições sobre como a sociedade deve ser e funcionar. E para que o capitalismo avance, é preciso eliminar tudo que possa lhe oferecer resistência: “O que tem raiz fica, mas fazem questão de colocar concreto em cima das raízes para que lá não cresça nada”. As raízes são o que incomoda, o que permanece e que permite a resistência às forças do mercado. A moda hoje é o crescimento da cidade comandado pela especulação imobiliária, ignorando “o que vale”: o rio de Piracicaba, que corta a cidade e que deveria ser a referência para o planejamento urbano.

O modelo de crescimento urbano atual afeta também o futebol. A multiplicação dos empreendimentos imobiliários, em especial os edifícios residenciais, acaba por ocupar os terrenos baldios da cidade, que antes eram campinhos de futebol, a chamada “várzea”. “A criançada não saía da várzea. Saía da escola e ia correndo jogar futebol. Os domingos eram uma festa. De manhã, o campeonato amador, espalhado pela cidade; à tarde, o time reserva do XV; e depois, o time principal”, conta Cecílio. Além de ser opção de lazer e trazer mais segurança, pois havia ocupação do espaço público, o fim da várzea também mudou a formação dos jogadores, que antes surgiam no futebol amador e agora são formados pelos empresários e escolinhas dos clubes, que fazem isso de acordo com seus interesses financeiros.

Além disso, a construção de uma identidade compartilhada, que causa a sensação de aceitação e participação social, tem o poder de reforçar e atualizar as diferenças e valores regionalistas, colaborando na constituição do reconhecimento do cidadão na memória coletiva de sua cidade ou região. O espaço geográfico da cidade passa, então, a servir como referencial da identidade cultural dos sujeitos e o espaço urbano ganha novos sentidos, tornando-se objeto de apropriação das torcidas. As histórias do time e da cidade confundem-se e complementam-se, tornando-se indissociáveis. Ao servir aos interesses capitalistas, no entanto, a cidade deixa de proporcionar a seus habitantes esses espaços simbólicos e a expressão cultural da identidade perde espaço para o ganho financeiro. Nesse contexto, vão-se os campinhos e o estádio de futebol deixa de ser um espaço de vivências para todos e passa a ser local para os poucos que podem pagar por seus ingressos.

Identidades tradicionais x identidades globais

No futebol globalizado e mercadorizado, que transpõe barreiras e necessita de mercados consumidores mundiais, o paradoxo que se apresenta é exatamente sobre a necessidade de identidades e identificações para que os consumidores reconheçam-se com seus produtos. As referências tradicionais de identidade perdem espaço para identidades construídas a partir de elementos mais heterogêneos, mais interculturais. Da mesma forma que pessoas de países e culturas diferentes passam a se vestir com a mesma marca de roupa, escutar a mesma música e usar o mesmo aparelho de celular, os clubes de futebol que se organizam como empresas também se globalizam, tornando-se uma marca a ser consumida. As camisas dos times viram estampas de patrocinadores, e os jogadores, garotos propaganda. A mercadorização do futebol acaba por transformar o próprio futebol, privilegiando-se os campeonatos por pontos corridos, onde aspectos do mundo empresarial tornam-se medida para determinar se um time é bom ou ruim: produtividade, gerenciamento, marketing, negociação de jogadores.

A transformação do futebol em negócio interfere na própria identidade do clube. São vários os casos de clubes, inclusive o XV, em que o escudo, as cores e a camisa do time mudaram para se adequar à imagem da empresa financiadora: “Não condiz com a história. Quebram a tradição do clube. Não é melhor ter algo original do que uma cópia?”, questiona Rui. A relação dos torcedores com o time também muda, devido à pressão do mercado de atletas: “Não dá tempo nem de gravar o nome dos jogadores de um time”, diz Cecílio. Além disso, quanto mais um clube é organizado segundo interesses econômicos e políticos, mais os torcedores e os sócios se distanciam dessa organização, perdendo o poder de interferir no modelo de gestão e na direção dos times de futebol.

O distanciamento do futebol dos torcedores é acentuado pela atuação dos meios de comunicação de massa, que transformam o esporte em espetáculo. Um dos pontos mais questionados é o horário dos jogos. Para se adequar à programação da televisão, os jogos acontecem em dias e horários que dificultam a ida do torcedor ao estádio. A venda de ingressos é uma das principais fontes de renda para os clubes e a diminuição do público torna-os ainda mais dependente do patrocínio de empresas, ameaçando ainda mais sua identidade.

Na luta contra o rebaixamento

Amantes do futebol arte e críticos da atual situação do esporte, Cecílio e Rui vislumbram com certo pesar o futuro do XV, que pode acabar em fusão ou venda para uma empresa. Mas a esperança de torcedor de ver a continuidade do Nhô Quim se mantém. Como Cecílio diz, a vida é um jogo e, segundo o jargão futebolístico, “um jogo só acaba quando termina”. Na disputa entre globalização e tradição, entre mercado e raízes, poderemos ver algo novo surgir.

Os principais estudiosos da sociologia do futebol concordam com a visão dos dois quinzistas e defendem que essa globalização não é antagônica à ideia de diferença, pois a forma como os grupos se apropriam dos elementos da sociedade global, combinando-os e transformando-os, é feita de maneira particular, dependendo da cultura de cada região. Franklin Foer, autor do livro Como o futebol explica o mundo, viajando pelo planeta para compreender como a atual integração mundial havia afetado o futebol, observou que, de fato, “a globalização havia fracassado em reduzir as culturas futebolísticas regionais”.

O sociólogo francês Regis Debray aponta dois aspectos fundamentais na formação de uma comunidade: a transmissão e o ponto de coerência. A transmissão permite a construção da tradição e a preservação da memória. Significa portar uma informação ao longo do tempo. O ponto de coerência é aquilo que reúne as pessoas, que funda uma comunidade, que pode ser um herói, um evento, ou mesmo um time. O ponto de coerência é o sagrado. Debray afirma que mesmo as sociedades que se consideram irreligiosas possuem seus lugares sagrados, como a Praça Vermelha para a União Soviética: “O sagrado é aquilo que nos mantêm juntos, aquilo que compõe e não há necessidade de uma religião institucionalizada para isso”.

A religião, no sentido proposto por Debray, é o que nos dá o sentimento de fraternidade, de solidariedade e de pertencimento – cria um “nós” simbólico. O capitalismo globalizado, por sua vez, estimula o egocentrismo, a perda da memória e das referências tradicionais de identidade. No entanto, a globalização é um processo paradoxal. Se, por um lado, as forças de mercado buscam derrubar fronteiras e criar novas referências de identidade e socialização que propiciem o consumo de bens e serviços, por outro, há um movimento das pessoas na busca por referências, por suas raízes, algo que dê significado para suas vidas. “A globalização, pra mim, é só econômica, não é cultural. Nós temos um intercâmbio mais fácil de cultura, mas ela está despertando o senso de raiz. Ninguém mora no mundo, ninguém mora no Brasil, ninguém mora no estado de São Paulo, ninguém mora em Piracicaba, nós moramos na nossa rua e na nossa casa. Se estourar um cano aqui na esquina é mais importante que estourar uma bomba no Iraque. Isso você sente na carne”, diz Cecílio.

O XV de Piracicaba funciona como um marco fundador, o sagrado para essa comunidade. E sendo parte da identidade da cidade e dos seus moradores, a paixão pelo clube pode ajudar a manter vivas as raízes. Não é uma questão de defender a tradição a qualquer custo nem de negar os benefícios da sociedade contemporânea. Mas se deixarmos que apenas a lógica de mercado decida sobre o que é bom para nós, acabaremos perdendo as experiências que trazem significado para nossa vida e que fazem a vida valer a pena. Experiências que propiciem a construção de identidades e relações sociais voltadas para uma sociedade mais humanizada, onde a felicidade das pessoas não dependa apenas de consumo, desempenho e produtividade, onde os torcedores do XV, ou de qualquer outro time, possam vibrar e chorar por causa das vitórias e das derrotas em campo, e não porque o time ainda existe ou deixou de existir.

Em O poder do mito, Joseph Campbell diz que o que de fato buscamos não é um sentido de vida, mas experiências de vida, de modo que “sintamos o enlevo de estar vivos”. Em uma sociedade em que tudo se torna cada vez mais imaterial e na qual a imagem e o consumo predominam, onde estão as experiências concretas que podem fazer nos sentirmos vivos? Talvez a experiência do futebol possa dar uma resposta. Talvez a luta contra o rebaixamento do XV seja a luta contra o rebaixamento da própria vida.

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