Os conteúdos da Educação Física escolar quanto às naturezas conceituais , procedimentais e atitudinais

Por: Walmer Monteiro Chaves.

V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 O objetivo desse trabalho é ressaltar a importância de se ampliar as abordagens dos conteúdos selecionados numa proposta curricular, visando uma formação plena do educando. O presente tema surgiu da observação que a Educação Física escolar, por ser uma disciplina eminentemente prática, contempla mais os conteúdos de natureza procedimental. Dessa forma, surge o questionamento se a Educação Física está contribuindo para uma formação crítica, contextualizada e ampla do aluno.


 Tradicionalmente a escola privilegia o aprendizado cognitivo e, de forma geral, as disciplinas específicas abordam mais os conteúdos de natureza conceitual. Sendo assim, em relação à natureza dos conteúdos trabalhados, surge um ponto de tensão entre a Educação Física e as demais disciplinas escolares, com exceção da Educação Artística e Musical.


 Este tensionamento, por vezes, é responsável pela desvalorização da disciplina que trata do "corpo" em relação às que tratam da "mente", sendo mais difícil a troca de experiências e a inserção da Educação Física nos debates educacionais.


 Há de se reconhecer que algumas disciplinas possuem um cunho mais conceitual, enquanto outras são mais procedimentais e atitudinais. Não é propósito do trabalho querer inverter posições ou equilibrar situações, mas ressaltar que apesar das características inerentes de cada disciplina, deve-se procurar abordar as três formas de naturezas na seleção de seus conteúdos.


 Portanto, é importante para os professores [...] "todo questionamento ou toda crítica envolvendo a verdadeira natureza dos conteúdos ensinados, sua pertinência, sua consistência, sua utilidade, seu interesse e seu valor educativo ou cultural" [...]. (Forquin, 1993, p. 9)


 2. Cultura, conteúdo e currículo escolar


 Para Forquin o significado de cultura é "um patrimônio de conhecimentos e de competências, de instituições, de valores e de símbolos, constituído ao longo de gerações e característica de uma comunidade humana" [...] (ibid. p. 12)


 "A cultura é essencialmente dialética. Informa-a uma dupla intenção: a de descobrir e a de transcender; a de refletir fatos e projetar utopias; a de ser reflexa e tensional. Supõe opções, atitudes, posições." (Mendes, 1994, p. 70)


 Ocorre que a aprendizagem passa pela aquisição e assimilação de certos conteúdos, geralmente oriundos de culturas dominantes na sociedade, que dentro de uma cultura escolar, tradicionalmente, são muito valorizados.


 Segundo Soares e outros (1992, p. 214), "A escola tem privilegiado, historicamente, conteúdos escolares que se ligam diretamente ao mundo produtivo, julgando assim, "aproveitar" melhor o tempo da criança na escola" [...]. Por esse motivo disciplinas como a Educação Física, Artística e Musical, por vezes, são questionadas quanto aos seus valores dentro do currículo escolar.


 A pura transmissão de conteúdos desconectados da realidade, fragmentados, sem sentidos e significados, reporta-nos ao que Paulo Freire (1980) definiu como concepção "acumulativa" da educação (concepção bancária), na qual o professor deposita o saber e os alunos são os depósitos, recebendo, aprendendo e reproduzindo passivamente os conhecimentos.


 Forquin ressalta que a noção de "currículo oculto" ou "programa latente" serve para deixar clara, [...] "a diferença entre o que é explicitamente perseguido pela escola e o que é efetivamente realizado pela escolarização enquanto desenvolvimento das capacidades ou modificações de comportamentos nos alunos". (op. cit., p. 23)


 Para o autor esses saberes, competências, representações, papéis e valores que não figuram explicitamente nos currículos escolares, realçam uma "programação ideológica" escolar, uma vez que esses aspectos escapam ao controle institucional podendo servir como saberes práticos ou valores de contestação.


 Preocupado, pois, com um posicionamento muito atrelado às questões cognitivas no contexto escolar e com indicadores de uma compreensão de que a Educação Física se resume a uma mera exercitação prática-corporal, do "fazer por fazer" e da "atividade pela atividade", discutiremos, a seguir, algumas questões quanto à natureza dos conteúdos selecionados.


 3. A natureza dos conteúdos e suas implicações na educação física escolar
Segundo os PCN’s (1998) os conteúdos de ensino podem ser selecionados quanto à sua natureza conceitual, procedimental e atitudinal.


 Os conteúdos de natureza conceitual envolvem a abordagem de "conceitos, fatos e princípios, que referem-se à construção ativa das capacidades intelectuais para operar com símbolos, signos, idéias, imagens que permitem representar a realidade." (ibid., p. 75)


 Os conteúdos procedimentais são proposições de ações presentes na aula e [...] "expressam um saber fazer, que envolve tomar decisões e realizar uma série de ações, de forma ordenada e não aleatória, para atingir uma meta". (ibid., p. 76)


 "A terceira categoria diz respeito aos conteúdos de natureza atitudinal, que incluem normas, valores e atitudes, que permeiam todo o conhecimento escolar." (ibid. p. 77)


 Para o Grupo de Trabalho Pedagógico - UFPe / UFSM,
"A ação pedagógica deve se realizar no horizonte de experiências da criança e do jovem, para possibilitar a estes amplos conhecimentos, escolas de valores, modelo de ação, desenvolvendo, assim, a sua capacidade de atuar." (1991, p. 34)
Referindo-se à Educação Física Escolar, na qual o conteúdo de ensino é configurado pelas atividades corporais institucionalizadas (procedimentais), surge pois o desafio aos profissionais da área de ampliar as perspectivas de suas atuações.


 Quanto à natureza conceitual não é proposta tornar a Educação Física uma disciplina predominantemente teórica, mas destacar que enquanto ciência, ela possui um corpo de conhecimentos que pode enriquecer o currículo escolar e despertar a reflexão crítica.
"Desse modo, um componente curricular com seu conteúdo específico justifica-se na medida em que contribui, enquanto parte, para a apropriação, pelos alunos, de uma totalidade de conhecimentos que lhes possibilite a leitura crítica do mundo que os cerca." (Soares, op. cit., p. 213)


 Baseado na perspectiva da cultura corporal os conteúdos conceituais da Educação Física podem ser tematizados e problematizados, dentro de um contexto sócio-histórico que permita ao aluno a leitura da realidade.


 No que tange aos conteúdos procedimentais, a preocupação reside no fato de ocorrer na Educação Física Escolar a perspectiva do desenvolvimento da aptidão física e do esporte de rendimento.


 A "prática pela prática", o fator mecânico, o aprimoramento de capacidades e habilidades, etc., desencadeiam nos alunos uma postura não reflexiva, por vezes, afastada de conceitos e valores importantes para a construção da cidadania.


 Para Carmo Júnior o sentido da Educação Física vai muito além da prática como forma simplificada de exercício físico e isso implica em associar conceitos, valores e comportamentos preexistentes sociológica, psicológica e biologicamente. "Sua estrutura conceptual e seu conteúdo elegeram uma autêntica relação do homem consigo mesmo, restaurando o sentido de totalidade na unidade humana". (1998, p. 107)


 Os conteúdos atitudinais constituem o alicerce de toda a formação educacional do indivíduo. Eles se expressam através de: normas; valores estéticos, morais e éticos; aspectos ligados às relações interpessoais; respeito às diferenças; cooperação, solidariedade e socialização; dentre outros.


 Estes conteúdos não são totalmente esquecidos pela Educação Física Escolar, porém devem ser cada vez mais valorizados por seus profissionais. Esse conjunto orgânico de valores subjacentes à cultura corporal são identificados com a formação de uma cidadania humanista e democrática, que, segundo Resende e Soares (1997), se estabelecem,


 [...] "em crítica àqueles que reproduzem a marginalização, os estereótipos, o individualismo, a competição discriminatória, a intolerância com as diferenças, dentre outros valores que reforçam as desigualdades, o autoritarismo, etc.". (p.33)


  Daolio ressalta que [...] "o conjunto de posturas e movimentos corporais representa valores e princípios culturais de uma sociedade. Portanto, atuar no corpo implica em atuar na sociedade na qual este corpo está inserido." (1993, p. 54)


 Finalizando, o Coletivo de Autores (1992) destaca a importância da reflexão sobre a interdependência entre os conteúdos ou temas da Educação Física e os grandes problemas sócio-políticos atuais, no sentido de promover a apreensão da prática social, no meio escolar, estabelecendo laços concretos com propósitos políticos de mudanças sociais.


4. Considerações finais


 Reconhecendo que cada disciplina escolar possui suas características próprias e predominâncias quanto às naturezas de seus conteúdos, os professores devem, ao selecioná-los, procurar ampliar o lastro de abordagens, no sentido da formação geral do aluno.
A busca de conteúdos abrangentes, significativos, não fragmentados e contextualizados contribuirá para que o aluno possa realizar uma leitura crítica do mundo.


 Deve-se procurar explicitar mais o "currículo oculto" na tentativa de contribuir para o desenvolvimento das habilidades e competências dos alunos, bem como mudanças comportamentais, visando a inserção e influência na sociedade.


 Portanto, urge que os profissionais de Educação Física atentem para a possibilidade de abordarem mais os conteúdos de naturezas conceituais e atitudinais, em complemento aos procedimentais, contribuindo, assim, para a construção da cidadania do educando e para a melhoria qualitativa do processo ensino-aprendizagem.


 Obs.
O autor é Mestrando em Ciência da Motricidade Humana (UCB), Professor de Educação Física da rede municipal de Itaboraí e São Gonçalo e da rede particular de Niterói.


 Referências bibliográficas


 Carmo Júnior, Wilson. A cultura e a Educação Física. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. v. 19, n.3. Florianópolis - SC: maio 1998, p. 106-111.
Coletivo de Autores. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.
Daolio, Jocimar. Educação Física Escolar: uma abordagem cultural. In: PICCOLO, Vilma L. N. Educação Física Escolar: ser... ou não ter?
Forquin, Jean Claude. Escola e Cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
Freire, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Moraes, 1980.
Grupo de Trabalho Pedagógico, UFPe - UFSM. Visão didática da Educação Física: análises críticas e exemplos, práticas de aulas. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1991.
Mendes, Durmeval T. Existe uma filosofia da educação brasileira? In: SAVIANI, Dermeval et. al. Filosofia da educação brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994, 239 p., cap. 2, p. 49-133.
Resende, Helder G., SOARES, Antonio J. G. Elementos constitutivos de uma proposta curricular para o ensino-aprendizagem da Educação Física na escola: um estudo de caso. Perspectivas em Educação Física escolar. Niterói: EDUFF, v. 1, p. 29-40, mar, 1997.
Secretária de Educação Fundamental. PCN’s - 3º e 4º ciclos: Introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998.
SOARES, Carmem L., et al. A Educação Física escolar na perspectiva do século XXI. In: GERBARA, A. et al. MOREIRA, Wagner W. (org.). Educação Física & Esportes: perspectivas para o século XXI. Campinas: Papirus, 1992. 260 p., p. 211-224.

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